As novas gerações serão o futuro do futebol, mas é preciso repensar as actuais concepções que marcam o futebol de formação.
Os vários problemas:
1 – Uma tendência galopante de inflação salarial nos escalões jovens, que além de tornar a médio prazo a formação insustentável economicamente, gera dois graves problemas: O primeiro é uma geração acomodada que antes de sequer chegar aos 20 anos e ter dado provas, está já rica e sem motivação. O segundo, é um fosso cada vez maior entre os clubes grandes e pequenos. Apesar de todos os clubes saírem lesados com a inflação salarial na formação, essa tendência tornou praticamente inviável ver jovens valores a subirem nas equipas pequenas, porque aos 15 anos qualquer jovem promissor já está num tubarão. Antigamente era habitual vermos os clubes pequenos terem boa parte de mérito no surgimento de craques de enorme talento. Maradona ou Fenómeno são apenas alguns exemplos de jogadores que despontaram em pequenos clubes e que hoje aos 13 estariam já num tubarão. A inflacção salarial tornou impossível aos clubes pequenos valorizarem os seus activos em milhões, porque eles saem ainda antes de poderem explodir e assim valerem milhões.
2 – A incapacidade dos clubes com menor poder económico de sequer desfrutar futebolisticamente dos melhores talentos jovens, que saem ainda antes de poderem jogar pelos clubes que os projectaram. Isto constituiu uma perversão do objectivo do futebol que é o jogo e não o negócio.
3 – Há uma falta de justiça no reconhecimento do mérito e nos ganhos económicos da formação entre todos os clubes que formaram os jogadores. Se o clube que lançou o jovem na equipa principal tem o mérito indiscutível de promover a carreira do jogador, o primeiro clube (quase sempre um clube de bairro ou um clube pequeno) tem também mérito, porque é ele que a maior parte das vezes dá uma primeira oportunidade a um jovem. Contudo, os clubes de bairro e mais pequenos pouco ou nada têm recebido do que esses jogadores valem no futuro.
4 – A proliferação de figuras opacas como os empresários em escalões de formação criou e acentuou estes fenómenos, prejudicando também os jogadores jovens, que bastas vezes tiveram carreiras prejudicadas pela gestão gananciosa de empresários. Um exemplo e pouco falado diga-se, é a acumulação excessiva de jovens talentosos em equipas de formação de top na mesma posição. Conquanto o talento nunca seja demais, a concentração de demasiados egos em algumas equipas, sobrelotando algumas posições, pode prejudicar a evolução de alguns jovens, que têm demasiada concorrência, numa idade em que deviam estar a jogar e não no banco. Com excepção de verdadeiros prodígios, a maioria dos jovens não tem nível para superar uma grande concorrência nas formações de maior nível e seria melhor uma maior dispersão desses jovens.
Sugestões:
– Devem haver restrições nas compras de jovens por cada equipa em cada escalão. Só deviam ser permitidos a inscrição anual de dois novos jogadores em cada escalão de formação. Também a delimitação etária máxima de 21 anos para a inscrição na formação, proibindo compra de jogadores já fora do escalão de promessa. Isto evitaria a lógica de comprar tudo o que mexe e usar a formação como local para colocar flops. Um outro efeito desta medida é que obrigaria a ter-se um verdadeiro scouting apurado, porque é fácil comprar centenas de jogadores e esperar que daí saiam sempre um ou outro craque. Isso qualquer scouting faz. Um verdadeiro scouting orientaria os esforços para a compra apenas dos melhores jovens, garantindo a compra de jovens de valor e não por razões mais dúbias, como os carroceis de comissões ou então que se dessem saltos maiores que a perna.
– Deve existir uma restrição salarial na formação. É preciso parar com salários exorbitantes na formação. Além de estes salários estarem a matar a motivação em jogadores, está a tornar insustentável a formação, colocando a causa a sua rentabilidade futura. deverá existir um sistema em cada liga onde os menores até aos 15 anos apenas terão contratos amadores . A partir dos 15 anos os contratos podem ser profissionais, mas apenas poderão quantidades de três salários mínimos mensais no máximo, isto até os jovens chegarem aos 21. A única excepção neste regime devem ser os jovens que subindo à equipa principal, passem a integrar de forma irreversível o plantel principal, sendo que aí passam a poder receber contratos de profissional e sem restrições salariais, não podendo mais ser baixados à equipa B. Estas medidas permitiriam que os clubes mais pequenos pudessem competir pelos jogadores jovens, porque até há bem pouco tempo um clube pequeno tinha bons valores na formação porque até então os salários neste escalão pouco mais eram que o salário mínimo. E isto impediria o deslumbramento de tantos jovens, cujo problema é ganharem balúrdios precocemente sem provas dadas.
– Outra medida seria a partilha automática dos direitos económicos entre o primeiro clube formador e o segundo (o comprador), ou seja o passe dos jovens deveria pertencer 50% a cada clube. Isto permitiria que os clubes pequenos pudessem obter uma melhor fatia dos ganhos futuros com os jogadores, dividindo o mérito da formação entre todos os que contribuíram para a carreira do jogador. Assim garantir-se-ia que os futuros clubes compradores do jogador se quisessem a totalidade dos direitos económicos do jogador teriam de comprar esses direitos aos clubes que formaram o jogador até aos 21 anos.
– Deve-se regulamentar o poder dos empresários na formação. Uma primeira medida seria a proibição de empresários representarem menores de idade. A partir dos 18 anos os jogadores poderiam ter empresários, mas eles apenas devem ser pagos por uma comissão fixa de 10% das verbas a negociar num contrato profissional. Deve-se também determinar que os passes dos jogadores sejam 100% pertença dos clubes e não de fundos ou de empresários, porque isso desvirtuaria o princípio de partilha de direitos económicos entre clubes. Também deve-se proibir que os empresários tenham mais de 5 jogadores num plantel de formação, quer para evitar conflitos de interesses, quer para não permitir qualquer pressão sobre o poder de decisão dos clubes.
Visão do Leitor: Joga_Bonito


32 Comentários
Judge_Dredd
Os problemas que enumeras agora na formação é o reflexo com o mundo que vivemos(globalização) e a autentica desregulação que o futebol vive(quer financeiro quer desportivo).
Sobre as sugestões vou dar a minha opinião:
De todas elas bastava o futebol na pessoa colectiva reguladora (FIFA) acabar com as percentagens de passe, reduzir os empresarios a representantes de jogadores(uteis na negociação salarial mas altamente prejudiciais como intermediarios entre clubes), regular quem pode possuir passes dos jogadores(apenas clubes ou o proprio jogador).
Bastava apenas 5 ou 6 regulações da FIFA par 90% dos problemas desapareceriam
Sobre a compensação a clubes formadores parece me adequada.
Um dos problemas que assola a formação e que ninguem parece querer saber ou perceber é o custo para os pais de colocar um filho a jogar futebol (30/40 eur mes).
É um absurdo e alem de desvirtuar o processo de recrutamento, miudos oriundos de familias carenciadas tem vedada a possibilidade de praticar e competir.
Este problema já abordei num artigo meu de opinião sobre resturuturação do futebol portugues em que avanço com medidas concretas para acabar com esse facto.
Joga_Bonito
Sim, essa questão de os pais terem de pagar seria resolvida com a ideia da partilha de passes. Em vez de o clube pensar em lucrar com miúdos a pagarem ao mês, percebe que os que tiverem talento (nem que seja 1 em cada 10) podem pagar vários anos de uma formação. Basta que um miúdo dê 10 milhões de euros que paga vários anos de investimento. Sou contra os miúdos pagarem para jogar, o que impede uma captação maior de talentos. Os clubes devem apostar no talento como um investimento que dará muito lucro no futuro. Qualquer clube pequeno que trabalhe bem, em 10 anos poderá produzir que seja um bom jogador que saia por vários milhões, isso bastará para pagar a formação por alguns anos.
As ideias que dei são apenas sugestões, outras serão preciso.
Judge_Dredd
Claro! Todas as sugestões são bem vindas e o futebol só ganha com uma discussão séria.
A minha ideia era colocar os clubes profissionais a pagar a formação a nivel distrital.
Fazia se uma recolha de quanto é que as associações arrecadam com as equipas até aos juvenis, diminuia se em grande parte o valor das inscrições para os clubes até esse escalão(60 a 80% seria interessante) e o dinheiro que se deixava de arrecadar era financiado pelos clubes profissionais.
Afinal os clubes profissionais serão sempre os principais benificiados com mais e melhor formação, é do interesse deles financiar formação em larga escala.
As restrições seriam a escolas de futebol ficariam de fora do programa por não serem instituições de utilidade publica(são de utilidade privada)
Joga_Bonito
Sim, também seria uma boa ideia.
Antonio Clismo
Eu sinceramente acho que as associações de futebol deveriam ter mais poder do que têm actualmente.
O torneio Lopes da Silva é das coisas mais fantásticas que existe na Europa a nível de formação. Não há muitos países com torneios do género a nível nacional, e é nesses torneios que muitos craques acabam por se revelar e aguçar o interesse dos clubes grandes.
Judge_Dredd
Eu não diria mais poder mas mais meios para captar mais clubes e mais praticantes.
Eu sempre defendi que a qualidade do topo dependerá sempre da força da base.
Sobre o Lopes da Silva é de facto um torneio de excelente organização e uma montra de jogadores.
O proximo objectivo da FPF será chegar aos 300 mil atletas federados
RomeuPaulo
Parabéns pelo texto, identificas alguns problemas pertinentes.
Analisando a tua primeira sugestão, a inscrição anual de 2 novos jogadores em cada escalão de formação, seria mais prejudicial para os jogadores que seriam impedidos de jogar do que para os clubes.
Existem 7 escalões de formação (Juniores, Juvenis, Iniciados, Infantis, Benjamins, Traquinas e Petizes), excluindo os 2 últimos que não costumam participar em torneios, mas sim em encontros (ou pelo menos é assim na minha associação distrital), isso implicaria, principalmente nos benjamins e infantis, impedir muitos atletas da prática do futebol.
Só para teres um exemplo, eu esta época treinei uma equipa de Infantis Sub12, não temos por hábito convidar atletas nestas idades para o nosso clube, mas apareceram 6 atletas que não estavam no clube na época anterior, os motivos foram vários, mudança de residência dos pais, primeira vez a praticar futebol, não se sentiam confortáveis no clube anterior, etc…, tivemos até um atleta que saiu porque o horário dele era incompatível com o horário dos treinos; com essa regra só poderíamos inscrever 2 novos jogadores, havia 4 que não poderiam jogar e os Infantis Sub13 não poderiam inscrever ninguém novo.
Atualmente já existe uma regra nas transferências da FPF, bastante polémica até, que define um aumento exponencial do valor da transferência após a 2ª contratação ao mesmo clube, sendo esse excedente entregue ao clube de origem.
A 3ª sugestão penso que já exista algo desse género, com o clube no qual o jogador esteve inscrito a receber uma percentagem que difere segundo o escalão de formação; a transferência de um jogador chega a envolver vários clubes, por exemplo, o clube A recebe x pela formação do jogador até aos Sub13, o clube B recebe y pela formação do jogador dos Sub14 aos Sub17 e clube C recebe z pelos restantes anos de formação.
As restantes duas sugestões não sei até que ponto também seriam benéficas, mas preciso analisar mais a fundo.
Joga_Bonito
Sim, eu sei que a questão da restrição das inscrições é a parte mais polémica, mas eu quis apontar o perigo para os jovens que é o carrossel de entra e sai de equipas de formação. Muitos jovens perdem espaço com as constantes entradas e saídas. Se até no plantel principal é prejudicial não dar aos jogadores o mínimo de de tempo para se poderem mostrar, faz algum sentido permitir entradas sistemáticas de jogadores todos os anos? Assim, coloquei o limite de 2 para casos como esses que enumerou, ainda que eu saiba que todo o sistema terá as suas falhas. Eu nem acho que devemos ter um sistema inteiramente desregulado, nem um sistema demasiado fechado. Mas acho que na formação, planteis estáveis são bons para os jovens. A restrição de 2 jogadores poderia pôr fim a compras sem nexo, onde se aplica a lógica de comprar tudo o que mexe na formação (algo prejudicial) além de fazer sobressair um princípio que existia nos anos 90 e que eu acho que poderíamos tentar em parte recriar: só se contratam os grandes jogadores. Se é para contratar na formação, o que faz sentido é comprar os miúdos muito promissores, que serão sempre poucos. Não faz sentido é substituir planteis inteiros e colocar com isso uma pressão constante nos miúdos, que têm uma constante ameaça de dispensa.
Ok, podemos alargar um pouco essa restrição, permitindo novas inscrições caso um jovem tenha saído por motivo de força maior. Agora a ideia de só contratar para injectar qualidade e não comprar aos magotes sem nexo é um dos bons princípios do futebol dos 80-90 que creio deve ser recriado.
RomeuPaulo
Continuo a não achar essa sugestão benéfica para o futebol de formação, a definição de motivo de força maior pode ser bastante subjetiva, por exemplo miúdos que querem mudar de clube para jogar com os amigos da escola, seria este um motivo de força maior? E se sim, como é que se provaria tal coisa no processo de inscrição?
Na minha opinião é uma medida que não está adequada à realidade, já é bastante duro para um atleta sub15 ou sub17 quando é dispensado/não aceite por um clube, com atletas mais novos seria ainda mais prejudicial.
Mais uma vez falando na realidade do clube onde colaboro, um clube que está presente nos campeonatos nacionais em todos os escalões, nós não compramos jogadores, quanto muito convidamos e a decisão fica sempre a cargo dos encarregados de educação. Neste momento, cada “contrato” de um atleta só tem a duração de uma época, nós, por respeito aos outros clubes, a meio da época não permitimos que atletas externos treinem no clube sem autorização do clube de origem.
Provavelmente com os processos de certificação que a FPF introduziu, muita coisa irá mudar no futuro, mas a maior parte dessas medidas serão positivas e contribuirão para uma formação cada vez mais profissional e com maior qualidade.
Quanto às outras medidas, fui pesquisar como funciona o mecanismo de solidariedade da FIFA e fazia algumas alterações:
– dos Sub6 aos Sub11 , o clube recebia uma compensação de 0,33% do valor total por cada ano;
– do Sub12 aos Sub15, o clube recebia uma compensação de 0,50% do valor total por cada ano;
– dos Sub16 aos Sub23, o clube recebia uma compensação de 0,75% do valor total por cada ano.
Sou também da opinião que os únicos intervenientes que devem ser detentores do passe de um jogador são os próprios jogadores ou um clube.
Também não acho que faça muito sentido miúdos com menos de 15 anos terem empresário, mas aí já é uma decisão que cabe aos encarregados de educação; mas fixar um valor máximo para comissões pode ser uma ideia bastante interessantes, sejam as comissões destinadas aos jogadores, aos empresários ou a qualquer outro interveniente, por exemplo o total dos valores das comissões não poderia ultrapassar os 5% do valor total da transferência e do valor anual do contrato.
Criar uma restrição salarial seria também retirar competitividade aos clubes, uma vez que essa restrição não existiria no estrangeiro, pelo que cabe ao clube ser inteligente e transparente na sua gestão, quer financeira quer a nível de balneário.
Joga_Bonito
A restrição salarial era para ser aplicada a nível internacional. Mesmo que os salários por cá sejam mais baixos, haveriam menos “roubos” de talento nacional por clubes estrangeiros, porque precisamente as restrições de inscrições impediriam tantas compras. Só os muito craques é que iriam para fora e mesmo assim, com pouca diferença salarial poderiam pensar duas vezes em arriscar ir para o estrangeiro numa idade precoce. Agora, se um miudo de 15 anos que tem 5 irmãos e vem de uma família pobre e lhe é oferecido ganhar 15 mil euros mês lá fora vai conseguir dizer que não?A restrição salarial impediria a concentração dos talentos nas mãos dos mais ricos, as medidas que sugeri claro só fariam sentido num esquema internacional, afirmou isso quando falei em todas as ligas nacionais dos vários países.
A restrição de compras pode ser algo atenuada mas creio que deve existir. É a lógica de comprar tudo o que mexe o que mais desestabiliza os jovens. Porque assim evitavam-se tantos saltos maiores que as pernas e tantas carreiras cortadas. Talvez se pudesse pensar em alargar um pouco as restrições mas para mim não fará sentido permitirem planteis enormes em cada escalão de formação nem que todos os anos entrem 15 jogadores em cada escalão de cada equipa. Isso é uma lógica que até é má no futebol principal, quanto mais em miúdos. Teremos de pensar em permitir excepções para evitar injustiças mas creio que se devem impedir compras excessivas na formação.
E o que temos
Isso é absurdo, nem todos os miudos começam a jogar futebol com a mesma idade. Eu só comecei nos infantis e quando eu entrei entraram comigo 5 ou 6 miudos novos, por esse prisma não iamos poder entrar todos porquê?
Joga_Bonito
Eu falo de acabar com os carroceis de entradas e saidas que ninguém percebe. Sei que é um ponto polémico e que precisa de ser aprimorado para evitar injustiças, agora faz algum sentido comprar todos os anos n de miúdos, acabando por a maioria nem jogar? Há que evitar isso e isto é apenas uma sugestão, um princípio de debate.
RomeuPaulo
Se não existir contrato de formação (que só pode ser assinado por atletas entre os 14 e os 18 anos), cada inscrição por um clube é válida apenas pela duração da época desportiva, no fim desta o atleta é livre de ir para onde quiser.
Além disso, para tentar impedir esses “carroceis” e proteger os clubes mais pequenos já foram criadas há pelo menos 2 anos medidas pela FPF.
Recomendo-te a leitura do Comunicado Oficial N.º 1 da FPF referente à época 2019/2020, com especial atenção à tabela 5 alínea (a).
Antonio Clismo
Excelente post, é necessário que haja uma discussão profunda nesta área em Portugal.
Compete ao governo dinamizar o desporto escolar que em Portugal é uma vergonha. Cada vez mais índices de obesidade na população mais jovem.
Por definição não sou muito apoiante de uma regulação forçada porque a magia do futebol advém da sua histórica falta de regulação. A regulação em termos de idade que existe noutros desportos como na NBA não existe no futebol. Não é preciso ter mais de 18 anos e passar por um draft para jogar como sénior no futebol. Até com 15 anos se pode jogar se tiver qualidade, seja pobre ou rico, alto ou baixo, o futebol é o desporto mais universal que pode existir, nada a ver com o ténis, desportos motorizados, onde basicamente só os ricos podem entrar… Então a elitização que existe no rugby é de outro mundo.. Podem haver miúdos muito bons mas geralmente só aqueles com nomes esquisitos de grandes famílias é que são sempre convocados.. O futebol não é nada assim.. felizmente.
Ainda assim, é preciso pensar o que leva aos pais colocarem os seus filhos no futebol? Quantos não vão forçados aos 8 anos porque os pais já não aguentam que passem tanto tempo em frente ao pc a jogar fortnite?
O que fazem os clubes ao receber todos estes miúdos nos treinos de captação? Como os misturam com os outros miúdos que vão para lá porque amam realmente o jogo e são bons? Aqui é fundamental ter excelentes treinadores/formadores para reprogramar a mentalidade dos miúdos e fazer com que o futebol lhes dê prazer.
Depois é preciso que esse prazer perdure. Geralmente assim que um miúdo começa a receber um salário o prazer vai-se perdendo, porque começa a pensar o futebol como trabalho. Aos 21 anos ajá não têm motivação nenhuma.
Depois claro, impossível não falar acerca do modelo da Dragon Force que é talvez o principal captador de talento da cidade do Porto em que os miúdos têm que pagar e pagar bem para lá treinar. Obviamente que muitos acabam por ficar de fora.
Porque razão a FPF não usa a cidade do futebol para criar uma escola de futebol permanente, de elite à imagem do centro de formação de clairefontaine em França onde dezenas e dezenas de jovens jogadores evoluem normalmente sem a influência de clubes nas suas carreiras. Basicamente só saem de Clairefontaine na hora de assinar por algum clube.
Os direitos de formação continuam caríssimos. Por muito bom que um clube pequeno seja no scouting e no desenvolvimento de talento (como por exemplo clubes pequenos como o Feirense ou Anadia que fazem maravilhas com o pouco que têm) nunca na vida poderão pagar dezenas de milhares de euros por um miúdo que detectaram a jogar num clube qualquer no distrito de Viseu (exemplo) porque os seus direitos de formação são caríssimos para a realidade desses clubes. E possivelmente o clube no distrito de Viseu onde esse miúdo está tem condições péssimas de desenvolvimento e o mais normal é ele deixar de jogar futebol com o tempo e assim se perde uma oportunidade.
Na formação os departamentos de psicologia são mais importantes do que parecem. É importantíssimo que os contratos sejam feitos por objectivos graduais. Assim os jogadores não perdem a motivação e vão querer dar sempre mais.
Por exemplo, o Benfica fez um super contrato com o Zé Gomes quando ele tinha 17 anos e fez alguns jogos pela equipa principal. Contrato de 5 anos e 150 mil euros por ano mais prémios. Obviamente que o miúdo com 17 anos deixou de se esforçar quando se apercebeu que podia estar até aos 23 anos a receber 15 mil euros por mês sem ter de mostrar resultados… Porque é que o Benfica fez isso? Teve medo do miúdo explodir e estar desprotegido contractualmente? Fez isso para ganhar mais umas capas de jornais? Marketing? Os agentes do miúdo ajudaram nesta situação ou ainda ”fizeram” mais a cabeça do Zé Gomes que ainda estava claramente despreparado para lidar com situações deste tipo.
Quem falhou aqui? Se formos a ver, todos tiveram uma quota de culpa..
A formação não é uma coisa estanque, a fórmula que resulta hoje pode não resultar amanhã (Olá Academia de Alcochete) e não é algo em que se erra ou se acerte, é algo que requer evolução contínua, sempre. Os treinadores da formação têm muita responsabilidade porque são eles que fazem as decisões (há os mourinhos que metem equipas sub12 a jogar com o autocarro em frente à baliza… há os crossfiteiros que já fazem cargas físicas absurdas em miúdos… etc e depois não nos podemos esquecer de toda a pressão que vem das bancadas com os pais a não respeitarem os miúdos e os treinadores… Toda uma falta de respeito e desportivismo..
Tiro o chapéu aquilo que o Benfica tem feito nos últimos anos com o Seixal porque além de terem escolhido um grande sportinguista para chefiar a Academia (não há melhor pessoa para estar à frente de um projecto do género em Portugal)- refiro-me ao Mil Homens, estão sempre a melhorar aqui e ali. Todas as visitas fora na Youth League levam sempre pessoal para se inteirarem daquilo que os outros clubes estão a fazer lá fora e replicar depois aqui, só assim se consegue evoluir.
RomeuPaulo
Uma pequena correção, existe um limite mínimo de idade para jogar pelos seniores, só jogadores sub16 e acima é que podem competir numa equipa sénior e nesses casos (sub16 e sub17) é necessário um exame médico especial para comprovar a aptidão do atleta.
Acredito que muitos dos problemas que referes virão a ser resolvidos com os processos de certificação da FPF, mas concordo contigo que seria importante uma maior dinamização do desporto escolar.
E o que temos
O desporto escolar é muito importante mas não é por aí que os miudos vao querer ir jogar futebol ou outros desportos
Simplesmente no mundo actual existem outras coisas mais apelativas para outros miudos (esports vão-se fartar de roubar gente aos desportos mais tradicionais) e cabe ao futebol adaptar-se a isso
RomeuPaulo
Para mim, o desporto escolar seria mais numa perspetiva de criação de hábitos mais saudáveis e de combate aos elevados índices de obesidade.
Mas os clubes seriam pouco inteligentes senão aproveitassem a oportunidade para tentar detetar talento.
Antonio Clismo
De qualquer das formas, reformas no sistema de formação português só se traduziria em rendimentos visíveis daqui a uns anos. Daí ser importante agir o mais rapidamente possível.
Fantantonio
Depende. Por exemplo, o Japão e a Coreia do Sul, não sendo de topo, são as seleções mais fortes de Ásia e grande parte dos jogadores que vão às seleções jovens são de escolas secundárias e alguns até de faculdade, muitos talentos só mais tarde chegam à J-League e à K-League, porque esses campeonatos operam num sistema mais parecido com os EUA fazem em desportos como o basket e o futebol americano, onde mesmo sendo a nível dito escolar, a competitividade é bastante alta e a um nível bastante razoável para a faixa etária. Os torneios inter-escolas têm cobertura televisiva e muitos seguidores, por exemplo. Por isso é que a maior parte dos jogadores com qualidade desses países só chegam à Europa depois dos 21. Isto em países onde o desporto escolar é importante, pois a nível de interação social os jovens são cada vez mais reservados e fechados na sua bolha e foram das primeiras nações com ciber-cafés onde basicamente se passa o dia todo em frente a um computador.
Se o investimento no deporto escolar for feito de forma a suprir a falta de atividade física e de prática desportiva, nomeadamente do futebol, na rua, pode tornar-se num factor importante para incorporar bons talentos nas camadas jovens dos clubes, mas para isso, o desporto escolar teria que ser relevante o suficiente porque no nosso paradigma, a maior parte dos jovens que querem jogar futebol inscrevem-se em clubes amadores ou fazem captações para clubes federados, por isso, não sei até que ponto seja viável o foco no desporto escolar a esse ponto.
Kafka
Sem dúvida “É o que temos”, o futebol daqui a 20 anos vai ter uma surpresa porque se aburguesou e acha que não precisa de fazer nada para cativar as novas gerações, o futebol está tão mas tão enganado, os esports e desportos radicais cada vez estão a tirar mais crianças ao futebol e portanto nas próximas gerações o futebol já não terá o impacto que tem hoje em dia
A não ser que o futebol se adapte aos tempos modernos
Joga_Bonito
Isso dava um enorme debate. Se as crianças jovens estão a gostar de outros desportos, então não é somente o comodismo e a obesidade o que impedem o amor pelo futebol. Há uma magia, uma atracção qualquer que o futebol está a perder nos mais novos que tem de repensar. E a resposta pode ser complexa.Eu apontava que a formatação excessiva desde tenra idade, matando o futebol de rua, aliado à ganância que os pais incutem nos miúdos desde cedo pode ter algo que ver com essa perda de magia. A maioria encara o futebol como uma profissão, até como algo chato e não mais com paixão. A isto alia-se a que muitos jogam empurrados pelos pais, que só pensam no dinheiro. Muitos podem gostar de outros desportos mas os pais só querem o futebol porque só vêem dinheiro, sem se importar com os interesses dos filhos. Contudo, haverão outros factores, mais complexos que não seriam fáceis de escalpelizar. A sociedade ocidental está muito aburguesada, passa-se todo o dia em frente ou do pc ou a da tv. Além disso, o futebol já não tem a magia de antes. Goste-se ou não, o romantismo deve ser a primeira experiência a se ter no futebol, gostar de se jogar pelo gosto em si. A sociedade ocidental está demasiada consumista, demasiado individualista e pouca paixão ou propósito tem. Veja-se o Maradona, diga-se o que disser do homem, ele ama o futebol, porque além do gosto que lhe dá jogar, o futebol fá-lo exprimir a pessoa que é, com todos os defeitos e virtudes. Hoje quantos jogadores se vêem assim?Quantos vêem o futebol como uma arte e quiçá até um modo de vida? Hoje foram formatados para serem parolos do Instagram a debitar frases feitas e a preocupar-se consigo mesmo.
Os desportos radicais preservam a procura pela paixão, pela genuinidade, pela expressão pura da pessoa. O futebol está muito aburguesado e a contar com o ovo no c* da galinha e concordo contigo, vai ter uma queda nas próximas gerações. Curiosamente na América é o oposto, o futebol é visto muito como uma cultura alternativa. Quem gosta de ver futebol em si na América destoa de um país onde os principais desportos são outros. Apesar de também aí o futebol ter problemas não é por acaso que cresce em popularidade. Mas enfim, é uma questão complexa.
Joao Duarte
O problema está na formação e em quem acha que tem de ser o Mourinho ou o Guardiola é que tem de ganhar sempre sem se preocupar com o resto. Até certas idades os miúdos têm que ter liberdade para crescer e para criar. Hoje em dia vejo a maior parte dos treinadores de formação a exibirem-se e a fazerem tudo para ganhar, mas depois olhamos e vemos que os miúdos não têm prazer no que estão a fazer ou que claramente estão só a pensar no presente.
De uma vez por todas tem de se perceber que se tem de formar a tentar ganhar, e não formar a ganhar custe o que custar.
Nazgul
Kafka isso não è verdade, todos os miúdos sonham ser jogadores de futebol, mas é o desporto mais competitivo que tem mais miúdos a tentar … todos nós tentamos, mas chega a um ponto que uns veem logo que não tem jeito e não vai dar e então mudam se para outros desportos alternativos …
Do futebol podes viver, podes ser rico e podes ser milionário já outros desportos …
Eu acho que o futebol è mesmo o que vai sofrer menos alterações porque cada vez mais è o “desporto rei” no mundo e o mais rico enquanto que os outros è que vão continuar a tentar sobreviver …
E o que temos
Estás bem à nora se achas que com os desportos emergentes não se ganha milhões também. Existem esports com 5-10 anitos de existência que já pagam salarios de milhões por ano aos seus jogadores
Nazgul
Quais desportos emergentes? E já agora quantos atletas desses desportos ganham os milhões que tu falas?
25 jogadores do Benfica, sporting e Braga recebem mínimo 500 mil € ano só aqui são 75 pessoas num país pequeno num desporto!
E o que temos
Tens graves dificuldades em comparar coisas. Onde é que faz sentido comparar o futebol que tem mais de 100 anos de existencia com desportos recentes e ponho neste saco os esports?
Como é obvio os jogadores de futebol de qualidade média (casos do benfica e etc, o topo é as big 5) ganham bastante bem e melhor que os jogadores medios desses novos desportos mas só comentei para te dizer que há miudos de 19 e 20 anos com salarios de 3-5 milhões ao ano em esports atualmente.
Joga_Bonito
Concordo com a ideia dos contratos a objectivos na formação, mas teria sempre de haver restrições. Vermos miúdos a exigirem mais de 1 milhão de euros para renovarem como aquele miúdo do PSG é de loucos. Veja-se o caso paradigmático do Hachim Mastour, que começou a ganhar balúrdios com 16 anos e hoje está na Série C…Creio que para contrariar o preço excessivo dos direitos de formação dos jovens, criavam-se acordos entre os clubes, onde através da partilha de passes os clubes esperavam ganhar mais no futuro. Dou este exemplo. Imaginem um clube de bairro da área metropolitana de Lisboa. Esse clube tem um jovem de 14 anos muito promissor, que tudo parece apontar dará craque. Deve exigir balúrdios por ele, o que levaria a que lhes cortassem as pernas? Não. Deixava-o sair por um preço acessível, imagine-se para o Vitória de Setúbal (estou aqui a dar um exemplo ao calhas), com a respectiva partilha de passes. Se o VFC o conseguisse vender a um clube maior, ambos lucrariam muito mais. As cláusulas de rescisão em idades muito baixas são perigosas, porque além de inibirem a compra de jovens que são mais valias, só permitem aos grandes comprarem esses jogadores, quando provavelmente ganhavam mais em pensar em lucros futuros e não no imediato. Quiçá determinar que antes dos 15 anos o máximo de uma transferência entre escalões de formação só possa ser no máximo de 100 000 euros. Acho que sendo uma verba cara para os pequenos, seria contudo acessível se vissem que era um super craque em perspectiva e que daria no futuro muitos milhões. Muitos é claro não sairiam por isso, mas penso que esse tecto poderia permitir uma maior acessibilidade dos talentos por parte dos clubes pequenos. Além do que acho obsceno pagarem-se milhões por crianças e torna-se contraproducente para o seu crescimento. Com isto ganhava o jogador que não teria as pernas cortadas, ganhavam os clubes todos, que teriam os seus direitos sobre os jogadores assegurados pela partilha de passes (que deve ser automática) e também porque uma limitação nas verbas de transferências torna a formação sustentável e mais acessível a todos os clubes.
Kafka
Excelente comentário Clismo
Tiago Silva
Disseste tudo, na mouche!
HeberPrincipe
O primeiro ponto é mesmo muito importante. Não faz sentido algum um futebolista em formação já receber um salário acima da média mesmo no futebol!
Nazgul
Tinha de ser a nível mundial fazer um teto salarial nos escalões de formação porque se não os ingleses franceses etc veem buscar os miúdos …
Os miúdos deviam receber por exemplo 1000€ + bonus de jogos ou golos etc e não mais do que isso até serem seniores!
O problema está naqueles contratos dos 18/21 anos podes ganhar tipo 1/2 milhões (ou até mais) em 3 anos E aí sim ficam ricos milionários …
Por exemplo no outro dia vi que o jovem quaresma do sporting recebia 17 mil euros por ano 150 mil euros anuais … ou seja vai ganhar 9 vezes mais sem jogar 1 jogo na equipa principal não podia simplesmente ganhar 50.000 + bónus ? È isto que acho mal começarem logo a receber 9/10 vezes mais …
Joga_Bonito
Eu defendi que isto deve ser a nível mundial, é claro que não o sendo não resultaria. Tem de haver mudanças de fundo no futebol de formação a nível internacional.