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Um Sábado de continuidade e de mudança

Durante o fim de semana passado assistimos a dois atos eleitorais em duas equipas bastante importantes no futebol português. Na capital, Frederico Varandas procurava a sua reeleição na presidência do Sporting Clube de Portugal, consciente de que a probabilidade de esta ocorrer era elevadíssima. Mais a norte, na Cidade Berço, Miguel Pinto Lisboa tentava manter-se no cargo de presidente do Vitória Sport Clube por mais três anos, com uma tarefa bem mais dificultada que o seu par em Alvalade.

A manutenção de Varandas no cargo concretizou-se, como esperado. Esta é justificada pelo excelente mandato que realizou, com o regresso do troféu de Campeão Nacional de Futebol e pelas conquistas da Champions League de Futsal e a Liga Europeia de Hóquei, além de uma série de outros troféus de caráter nacional, nas mais diversas modalidades. No entanto o antigo médico do clube não arrancou com o pé direito, tomando uma série de decisões erradas, no que ao futebol diz respeito. Na verdade, a 3 de Março de 2020 a sua situação era mais tremida do que nunca. Tinha errado na contratação de treinadores (Marcel Keizer e Jorge Silas foram tiros bem ao lado) e os jogadores que tinham sido adquiridos no seu mandato revelaram-se flops, à cabeça Jesé Rodríguez ou Bolasie, acompanhados por Cristián Borja, Eduardo Henrique ou Valentin Rosier.

Com a corda ao pescoço, Varandas atirou no escuro. Contratou Rúben Amorim pela sua cláusula ao SC Braga. Se a vitória de sábado foi com números tão elevados, bem pode agradecer a essa decisão. A partir desse dia foi sempre a subir. Com o ex-médio na liderança da equipa técnica e com influência total em todas as decisões no que ao futebol diz respeito, as vitórias surgiram, a aposta na formação tornou-se uma fonte primordial e as contratações praticamente todas acertadas, oriundas essencialmente do mercado português e do espanhol, montando igualmente um plantel com praticamente uma só base linguística. Varandas passou de besta a bestial (para muitos) e Hugo Viana tornou-se um diretor desportivo competente. Como é obvio, têm a sua quota parte no sucesso (nem que seja pela aquisição de Amorim), mas se o elegido para o cargo de treinador tivesse sido o outro, a possibilidade de ter existido eleições antecipadas nos “leões” seria bastante elevada, mesmo com o sucesso obtido nas outras modalidades. Frederico Varandas com a compra das VMOCs no dia anterior ao ato eleitoral conseguiu mais uma série de votos, ainda que tenha sido considerado por algumas pessoas uma atitude pouco correta, devido ao seu “timing” (ainda assim torna a participação de Álvaro Sobrinho na SAD bem curta).

Um outro pecado que acompanha Varandas é o da fraca comunicação. Por isso preferiu remeter-se ao silêncio a certa altura, com aparições raras, porém marcantes, chamando inclusive de “bandido” a Pinto da Costa. Provocar o rival (ainda que com um fundo de verdade) despoletou numa série de troca de farpas que continua até hoje, mas cativou mais adeptos a ficarem do seu lado, mesmo não sendo estes do Sporting. Acredito que quase todos os que defendem a transparência no futebol português compreenderam as palavras de Frederico Varandas, independentemente do clube que defenderem, no entanto existem muito mais erros a serem corrigidos para tornar o nosso futebol um dos melhores da Europa.

A vitória foi esmagadora, não só pelos pontos apresentados anteriormente, mas também pela fraqueza dos adversários. Para suceder a Bruno de Carvalho, nomes fortes se impuseram como João Benedito ou o próprio Frederico Varandas. Numa eleição de continuidade, os nomes que surgiram foram insuficientes (e os votantes bastante menos que os de 2018), um pouco como o que acontece na política. Ricardo Oliveira e Nuno Sousa eram pouco conhecidos e nunca representaram uma verdadeira oposição. Ainda que o segundo tenha sido associado a Bruno de Carvalho, defendendo a sua reintegração (assim como a de Luís Filipe Godinho Lopes), não conseguiu sequer cativar a ala “brunista”.

Com a manutenção no cargo resta saber se Varandas consegue terminar o segundo mandato, o último a conseguir tal proeza em Alvalade foi João Rocha. A grande questão que fica para o futebol é: o que acontecerá depois de Amorim? Terá Varandas unhas para tocar esta guitarra a solo?

A norte, Miguel Pinto Lisboa não conseguiu a vitória. A diferença para Varandas, é que o empresário não se conseguiu reinventar. O Vitória Sport Clube é uma instituição importantíssima para o futebol português, com uma massa adepta bastante acima da média, mas os resultados foram frustrantes. Em 2019/2020 e em 2020/2021 só conseguiu dois sétimos lugares, o que para o investimento realizado são classificações fraquíssimas. A aposta em Carlos Freitas revelou-se um autêntico fracasso, com contratações com somas elevadas e com um retorno curto (somente Marcus Edwards se revelou um craque). As constantes trocas de timoneiro levaram a que o cargo parecesse uma corda bamba e as escolhas efetuadas foram erradas, com a exceção de Pepa, que merece mais crédito e estabilidade. A machadada final nas hipóteses de vitória de Pinto Lisboa foi o caso das assinaturas falsas. Com centenas delas na sua recandidatura, tornou-se num homem impossível de confiar, já que infringiu a lei, abrindo a porta para que passem a existir outro tipo de desconfianças sobre os ocorridos durante o seu mandato. Poderia até questionar-se se a sua manutenção na corrida eleitoral seria justa, depois de ter feito “batota” logo no seu período inicial. Se tivesse vencido, ainda correria muita tinta sobre o assunto.

A concorrência que enfrentou era bastante superior à de Frederico Varandas. António Miguel Cardoso queria um “revenge” de 2019, apresentando Diogo Boa Alma como trunfo e a promessa de estabilidade e organização. Alex Costa foi um histórico jogador do Vitória SC e tinha ao seu lado Flávio Meireles. A vitória coube ao primeiro. O que se pode esperar? Em Guimarães é necessário um projeto a longo prazo e as promessas de António Miguel Cardoso vão ao encontro disso, no que ao futebol diz respeito. Reduzir o plantel e gastos é essencial para a sobrevivência do clube. A equipa B tem que ser uma das grandes fontes de jogadores e a procura de ativos tem que ser executada de maneira distinta da efetuada pela anterior direção. Baixo custo no mercado nacional é a promessa do agora presidente, tendo elegido o diretor desportivo ideal para o projeto (o trabalho realizado no Santa Clara foi fenomenal e se colocar mais “Moritas” por aí só será benéfico para o futebol português). O discurso baseia-se na estabilidade, algo que não se vive nem se sente no lado “conquistador” do Minho. Para se chegar à luta pelo top-4 são necessárias mudanças, pensar num “ano zero” e arrancar sem altas pressões. Com a promessa da inexistência do fantasma de Pinto Lisboa, o projeto tem tudo para evoluir de modo a que se possam recolher os seus frutos.

A partir desta semana os dois presidentes têm como principal objetivo cumprir o seu mandato até ao fim. Se isso acontecer é sinal que realizaram uma missão positiva. Frederico Varandas tem de continuar a ganhar troféus, a apostar na formação e tentar manter Rúben Amorim no cargo, com a plena noção que a partir do Verão o técnico será bastante assediado. António Miguel Cardoso terá de estabilizar um dos maiores “barcos” do futebol português e orientá-lo no caminho correto, um pouco como aconteceu no Sporting, tentando evitar os erros cometidos nos primeiros anos pelo seu colega de verde e branco. A missão final dos dois é a mesma: deixar os adeptos felizes e evitar que o passado os venha a assombrar.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

5 Comentários

  • Antonio Clismo
    Posted Março 7, 2022 at 7:16 pm

    O Varandas devia era averiguar a situação do Zabarnyi do Dínamo de Kiev.

    Cairia que nem uma luva na defesa a 3 do Sporting.

    No ano passado investiu em promessas (Marsá e Catena) mas sinceramente não lhes reconheço assim tanta mais qualidade do que aqueles que já lá estavam e que não acho que tenham qualidade para chegar á equipa principal (talvez apenas o Rafael Fernandes, mas ainda está muito verdinho e com muitas faltas de concentração).

    • Ricardo Lopes
      Posted Março 7, 2022 at 8:26 pm

      Zabarnyi no campeonato português seria espetacular. Vai ser dos melhores do mundo. Existem muitos jogadores interessantíssimos que podem ser aproveitados pelas equipas portuguesas, que jogam na Ucrânia e Rússia. É uma pena a situação que estão a viver, mas se a FIFA abriu esta oportunidade, é de aproveitar.

      • BrunoAlves16
        Posted Março 7, 2022 at 9:46 pm

        A FIFA abriu esta oportunidade para os jogadores estrangeiros que jogam na Ucrânia e na Rússia, até porque os ucranianos não podem sair do país devido à lei marcial.
        Acho que Zabarnyi está no domínio do sonho, mesmo em circunstâncias que se venham a revelar favoráveis para voltar a jogar futebol. É um craque, um dos melhores centrais do mundo sub-21 e deverá ter clubes muito endinheirados no seu encalce.

        • Ricardo Lopes
          Posted Março 7, 2022 at 10:06 pm

          Quando escrevi foi mesmo a pensar nos estrangeiros. Wendel, Pedrinho, David Neres, Botheim entre muitos outros poderiam encaixar bem na nossa liga, mesmo que seja para acabar a época (Wendel seria ótimo no Sporting, com as lesões que têm existido). Em relação ao Zabarnyi penso o mesmo que tu, mas acredito que vai sair por uma verba bem mais pequena do que aquela que se imaginava há uns meses.

  • Neville Longbottom
    Posted Março 7, 2022 at 8:11 pm

    Varandas venceu e muito bem (teve o meu voto). Queria destacar duas coisas que para mim me fizeram claramente votar nele:

    1 – A guerra com as claques. É fundamental o Sporting demarcar-se de gente que se serve do nome do clube, a começar nos típicos bilhetes que lhes são oferecidos e que depois vendem a preços absurdos para fora. Não são nem mais nem menos que todos os outros sócios e adeptos. Isto para além de serem os principais responsáveis pelos meus filhos só verem um estádio de futebol quando forem maiores de idade;

    2 – O fim da amizade com o Porto (isto não é nada pessoal). Finalmente um Sporting só, distante de ambos os clubes que lutam pelos mesmos objetivos (quando calha). Na parte que me toca, não há qualquer diferença e sempre assim foi (talvez por ter portuense). Não que antes fossemos todos amigos, mas não havia uma clara cisão como há agora. E é assim que tem de ser.

    Considero que fez all-in e correu bem e por isso o mérito que lhe dou é relativo (mas indiscutível). Agora é aproveitar as bases e preparar o pós-Amorim, embora não acredite que saia este verão até porque apanhámos 5 do City e muito provavelmente não vamos ganhar uma liga que ninguém vê. No entanto, é fundamental manter a aposta.

    Quanto ao Vitória, bom sempre respeitei muito o clube e o afeto da sua cidade. Faz tanta falta o Vitória como faz o Moreirense (vizinho do lado com 1/100 do impacto), mas é sempre com expectativa que antevejo as épocas deles e acabo por me defraudar. Vamos ver se entram finalmente nos eixos.

    SL

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