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Uma camuflagem única

gettyimages-504775092-0A camuflagem é o conjunto de técnicas e métodos que permitem a um dado organismo ou objeto permanecer indistinto do ambiente que o rodeia. É um recurso resultante da ação da seleção natural sobre uma certa espécie, usado por varias espécies para se protegerem dos seus predadores. Ora, no futebol há um jogador que tem feito uma carreira ao mais alto nível usando como arma competitiva, justamente, a camuflagem, a ilusão, a surpresa, a propensão para levar os outros ao equívoco. Esse jogador dá pelo nome de Marcelo Vieira da Silva Júnior.

Marcelo alinha como defesa-lateral, e a camuflagem começa logo aí. Ainda que a evolução do futebol tenha levado a ser mais recorrente vermos jogadores dotados tecnicamente em todas as posições (sendo que no caso dos laterais a mudança tem sido particularmente brusca, havendo cada vez mais elementos da posição a apresentarem mais aptidão para as funções ofensivas), a verdade é que se supõe que os ocupantes das posições mais atrasadas no terreno possuem menor capacidade para ser uma mais-valia no ataque. Mas Marcelo, partindo da sua posição no sector recuado, assume-se como um dos maiores argumentos ofensivos de um dos conjuntos com maior poder de fogo do mundo, deslumbrando pelo brutal conjunto de atributos técnicos e criativos que tem ao seu dispor. Por vocação, o canhoto poderia ser um jogador de futsal – tal é a forma como adormece a bola no seu pé, como se sente à vontade para jogar em espaços curtos ou como procura ir constantemente desenvolvendo o jogo ofensivo baseando-se na tabela e finta curta – ou de futebol de praia – devido ao descaramento para tentar o impossível ou até a forma com que faz prodígios com a bola com a normalidade de quem bebe uma caipirinha em Copacabana. Por outro lado, Marcelo distingue-se dos demais também pela forma como ataca de uma maneira única e não padronizada. Enquanto que a maior parte dos laterais – mesmo os ofensivamente mais capazes – atacam sobretudo junto à linha lateral, “dobrando” o extremo “por fora”, o brasileiro dá-se a si mesmo uma total liberdade de movimentos, incorporando-se por dentro (e fazendo coisas como esta), traçando diagonais com e sem bola, juntando-se aos médios para dar mais uma solução de passe por dentro e assumindo-se muitas vezes mais como médio interior que como lateral (não deixando de conseguir ganhar a linha final). Esta segunda camuflagem torna-o único em todo o panorama futebolístico mundial, já que mais nenhum jogador que alinhe em posições recuadas é capaz de ter um raio de acção e de influência tão alargado. E isto faz com que ele seja potencialmente “impossível” de defender (camufla-se no sector mais recuada para, como um predador que ataca de surpresa, surgir inesperadamente em zonas que na teoria não seriam as suas).

Marcelo goza da personalidade dos talentosos, dos craques, dos que se sabem muito bons e não hesitam em mostrá-lo seja onde for. Daí que não receie sair a jogar de mil e uma maneiras em zonas de perigo e que o seu contributo aumente em jogos importantes. Tome-se por exemplo os desafios contra o Barcelona. Em duelos muitas vezes com pouco espaço, o brasileiro irrompe desde trás mostrando que está entre os melhores dos melhores, fazendo maravilhas como esta, numa constante exibição de grandeza futebolística. 

Mas até agora falámos somente de questões relacionadas com o jogo ofensivo, o que é natural. Salta à vista que, como referimos acima, um lateral apresente esta panóplia de recursos. Mas Marcelo ainda é dotado de outra camuflagem. Aquele ar relaxado, aquele cabelo afro, aqueles toques de magia com a bola poderiam levar a pensar num jogador sem a competitividade de outros. Num tipo que julgaria que só com o talento basta, e que portanto não é preciso esforço ou aplicação. Em alguém que, ao ter sido bafejado com tanto talento, não tenha estimulado outras capacidades para além da mera capacidade técnica individual. Num lateral relaxado defensivamente. Mas, apesar de por vezes se tentar passar a ideia oposta (no fim de contas, a camuflagem a todos confunde), Marcelo é um jogador ultra-competitivo. Só um jogador ultra-competivio saca esta falta. Estamos perante um jogador altamente abnegado, um líder de balneário de um colosso, uma voz respeitada dentro do maior clube da história do jogo. Raras vezes vemos Marcelo virar a cara à luta ou baixar os braços, encarnando o jogador assim os valores de luta e persistência do Real Madrid. No futebol de elite dos últimos anos, nenhum defesa esteve tão exposto a situações de inferioridade numérica como ele (e muitas vezes frente a atacantes do melhor que há no mundo). A falta de organização dos merengues (e o facto de durante longos anos ter tido à sua frente um Cristiano Ronaldo defensivamente inexistente) levou a que o que para muitos defesas é a excepção – apanhar com adversários embalados sem ter qualquer ajuda – fosse o habitual em Marcelo. Isto levou a que muitas vezes fosse o brasileiro a sair na fotografia de descompensações defensivas, mas a verdade é que foi ele a, muitas vezes, protagonizar verdadeiros milagres enfrentando esses adversários.

Uma última virtude de Marcelo é a progressão constante. A cada ano que passa aprimora o seu jogo. Melhorou o seu posicionamento defensivo, a abordagem aos lances, é mais constante ao longo da época (desde o “apagão” competitivo de Fábio Coentrão que é o único verdadeiro lateral-esquerdo do plantel e tem sabido corresponder ao facto de ter de jogar “sempre”), em suma, comete cada vez menos erros. Tem refinado o seu jogo. Solta a bola no tempo certo, alterna as conduções para zonas interiores com as incorporações junto à linha, aguenta melhor o choque e as cargas…Uma vez mais, não se acomodou à sua condição de jogador talentoso.

O carioca que chegou a Madrid aos 18 anos como um menino fez-se um homem. Ganhou o respeito de companheiros, adversários e do exigente Bernabéu e é já uma referência na história do clube (3.º estrangeiro com mais jogos disputados pelos merengues). Tudo isto partindo de um enorme talento que vem sendo aprimorado e que utiliza singulares camuflagens (o desequilibrador que se esconde como defesa, o jogador que “agride” por dentro disfarçado de lateral, o animal competitivo que parece um “brinca na areia”) para singrar ao mais alto nível. Uma camuflagem que nunca o fez perder a sua essência mas que lhe permitiu chegar ao topo do jogo.

Pedro Barata

VM
Author: VM

20 Comentários

  • JoseRibeiro
    Posted Dezembro 7, 2016 at 1:18 pm

    Impressionante como Marcelo é titular do Real há quase 10 anos, e apesar de ser um jogador que é vistoso no seu futebol raramente é falado.

    Os meus parabéns por este texto que reflete muito bem quem é Marcelo.

  • Kafka
    Posted Dezembro 7, 2016 at 1:27 pm

    O Brasil tem 3 dos 5 melhores laterais esquerdos do Mundo (Alecsandro, Marcelo e Filipe), para azar do Brasil é uma posição onde só da mesmo para por um deles a jogar…dos 3 o melhor para mim é o Alecsandro

  • Bola parada
    Posted Dezembro 7, 2016 at 1:30 pm

    Lindo, adorei o texto! Marcelo é para mim o melhor na sua posição já há algum tempo.

  • José S.
    Posted Dezembro 7, 2016 at 1:33 pm

    Excelente texto, com uma analogia perfeita.
    Cumps

  • Kacal
    Posted Dezembro 7, 2016 at 1:39 pm

    Excelente artigo, Pedro Barata! Mais um e tudo dito. Subscrevo.

    Gosto bastante do Marcelo, prefiro Alaba e Alex Sandro mas também aprecio.

  • Francisco A
    Posted Dezembro 7, 2016 at 1:48 pm

    Reconheço que tem algumas dificuldades no processo defensivo, mas, o trabalho e a raça que coloca nos lances que disputa coloca-o num dos activos mais importantes do Real Madrid, já para não falar, dos desequilíbrios que cria ,a técnica e a eficácia dos seus cruzamentos.

    Quantas vezes Marcelo não comeu os jogadores do Barça no Clássico? A seguir a Bale o jogador que mais desequilíbrios cria, sim, mais que ESTE Benzema.
    Na minha o 2º melhor DE do planeta, atrás de Alex Sandro xD

  • atsprims
    Posted Dezembro 7, 2016 at 1:55 pm

    para mim não é nem nunca será um lateral, atenção, lateral top. pode ser um ala ou médio interior mas nunca um defesa lateral.
    a defender não é um portento mas cumpre bem ao contrário do que se diz , a atacar um lateral que raramente ganha a linha e mais raro ainda saca um bom cruzamento para mim não pode ser um lateral topo.

  • Mike-UK
    Posted Dezembro 7, 2016 at 2:17 pm

    Um lateral fantastico que tem estado ao mais alto nivel desde que chegou a Madrid com apenas 19 anos, tendo em conta que tinha a monstruosa sombra de substituir Roberto Carlos e’ verdadeiramente incrivel como nao so’ o conseguiu fazer, como tem melhorado o seu nivel ao longo dos anos, e como arrasou a concorrencia que lhe foi chegando.
    Supreendentemente nao tem tido o carinho que merece por parte dos brasileiros que lhe cobram muito e que muito lhe exigem e isso tem sido uma “injustica” ao longo da sua carreira.
    Nao conto muitos extremos que dele tenham feito gato sapato, como Figo fez de Roberto Carlos….

  • Flavio Trindade
    Posted Dezembro 7, 2016 at 2:19 pm

    Pedro o texto é de facto muito bom, mas não podiamos estar mais em desacordo.

    Lógico que gostos não se discutem, e que até devo ser dos poucos que não gosto do jogador aqui pelo blog, mas Marcelo é daqueles jogadores que sempre considerei um tremendo equívoco.

    Se pegar numa das frases fortes do teu texto e considerarmos que Marcelo é um lateral camuflado, talvez até te possa dar razão…
    Porque de facto se há coisa que não é, é um lateral!

    Marcelo é horrível no capítulo defensivo, sempre o foi, mas persiste em não evoluir neste aspecto.
    Lógico que não se nota muito, uma vez que jogar no Real Madrid torna tudo um pouco mais fácil, já que é uma equipa que passa 80% do tempo de jogo e do jogos da sua Liga em processo ofensivo.

    Em jogos de maior dificuldade. qualquer treinador que se preze de ter alguma sagacidade táctica é por ali que vai explorar (Só dando o exemplo, Gélson fez o que quis de Marcelo aquando do confronto para a Champions).

    Qualquer bom avançado ou extremo coloca ao brasileiro imensas dificuldades, já que defensivamente a única arma que lhe vai valendo é a garra, já que tem dificuldades em controlar a profundidade, não sabe defender por dentro, sofre imenso com extremos que façam movimentos interiores e tacticamente é uma desgraça (imagino o que Marco Reus que lhe possa fazer hoje…).

    Ofensivamente é de facto um jogador de excelente técnica, marca golos, é veloz e tem movimentações distintas do lateral habitual, mas também não são raras as vezes que essa anarquia táctica leva a que a equipa se descompense e não consiga padronizar movimentos ofensivos.

    Pessoalmente prefiro Alaba, Ricardo Rodriguez, esta versão multitasking de Alex Sandro na Juventus, ou até o “nosso” Raphael Guerreiro, até mesmo no Brasil há um miúdo que me enche as medidas e que me parece o futuro dono da posição que é o Jorge do Flamengo.

  • RodolfoTrindade
    Posted Dezembro 7, 2016 at 2:30 pm

    Eu continuo a achar que no momento defensivo tem muitas desconcentrações, mas concordo em absoluto que vem melhorando de ano para ano.

  • Fefe Varanda
    Posted Dezembro 7, 2016 at 2:41 pm

    O Marcelo na altura “do Fábio Coentrão” não era jogador me enche-se as medidas apesar de já na altura achar que era um bom jogador, mas nos últimos anos tem vindo a provar-me o contrário.

  • Maradona
    Posted Dezembro 7, 2016 at 2:46 pm

    Tecnicamente é incrível, tendo uma propensão ofensiva maior que muitos 10 que para aí andam.
    As influências do futsal notam-se imenso nos jogadores que aliam eficacia(de drible, de recepção, de passe) ao futebol espectáculo, casos de Marcelo, Neymar, Ronaldo Fenomeno ou Ronaldinho. Um encanto para os olhos.

  • Knox_oTal
    Posted Dezembro 7, 2016 at 2:53 pm

    Bem escrito e uma escolha acertada de palavra chave, camuflagem! Mas ainda mais acertados seria se fosse utilizada num outro sentido, ou seja, que Marcelo usa as suas extraordinárias capacidades técnicas e de desequilíbrios ofensivos como camuflagem para as suas insuficiências defensivas! É determinado e ultra-competitivo… a atacar! Não são raras as vezes que recupera a passo na transição defensiva durante os jogos do Real e Brasil, e isso não é culpa do extremo do seu lado. Aliás enaltece é a capacidade do central que joga do seu lado!
    Quanto ao resto, embora Marcelo seja um lateral ofensivo muito acima da média, se não for bem compensada a sua presença no onze e na manobra colectiva haverá descompensações graves. Mas lá está quando se joga numa equipa com o poder de fogo do Real, a segurança defensiva é camuflada! Depois, embora excelente Marcelo não é um caso assim tão especial no que toca a “escola de laterais” brasileira. Laterais ofensivos, rotativos, com técnica, com desequilíbrio e golo é uma imagem de marca, ou foi, dessa escola brasileira. Penso em Cafú, Dani Alves, Maicon por exemplo, e para mim, Marcelo não superiores a nenhum deles e é menos fiável defensivamente do que todos os mencionados.
    Pessoalmente, prefiro um perfil diferente de lateral, aquele perfil que Lahm personifica na perfeição! Partindo de um sólido equilíbrio defensivo, para depois ser influente na manobra ofensiva da equipa, e nunca o contrário!

    É a minha opinião! Oh oh oh

  • Tiago Silva
    Posted Dezembro 7, 2016 at 4:50 pm

    O Marcelo é um dos melhores laterais do Mundo. Um dos jogadores com maior poder de desequilíbrio e com maior capacidade técnica. Muito bom ofensivamente e o melhor a atacar e cumpre defensivamente.

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