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Uma década de ouro

O Mundial de futebol de 2002 retalhou a dignidade do futebol português – mais do que a eliminação num dos grupos mais fáceis de sempre (EUA, Polónia, Coreia do Sul), desde as agressões a árbitros, demissões da equipa técnica e renúncias à selecção, à recepção hostil que a comitiva enfrentou na chegada ao aeroporto, tudo foi mau demais. A dura confirmação que a “geração de ouro” chegara ao fim sem trazer à nação título nenhum no futebol sénior, aliada à cada vez menor expressão dos clubes portugueses a nível internacional, parecia ter encaminhado definitivamente a História do nosso futebol para períodos de seca com poucos motivos de orgulho. Puro engano. Talvez movida pela responsabilidade e entusiasmo de organizar pela primeira vez uma competição com visibilidade global, talvez porque os astros conjugaram Mourinho e Ronaldo no mesmo país, na mesma era, a verdade é que a partir de 2002, a nação futebolística portuguesa ergueu-se do ridículo para o reconhecimento mundial.

Este não foi propriamente um crescimento progressivo: a 1ª fase desta época dourada foi talvez a mais brilhante. Entre 2003 e 2005, Portugal esteve presente em 4 finais europeias (!), trazendo para o país “via FC Porto” uma Taça Uefa (2003) e uma Champions League (2004), perdendo curiosamente as duas finais que se realizaram em solo nacional; o Euro 2004 e a Taça Uefa de 2005, onde o Sporting foi derrotado em… Alvalade. Os clubes viviam agora uma realidade quase utópica em termos de infraestruturas, com estádios de topo, assim como o aparecimento dos primeiros centros de estágio. A academia leonina em Alcochete começou a distribuir talentos em catadupa e a qualidade no nosso futebol aumentava a olhos vistos. Estavam lançadas as bases e desde aí não mais o futebol português passou despercebido. O sucesso conjunto dos clubes e da Selecção levou a uma primeira vaga de exportação de jogadores nacionais, pelo que a Figo, Rui Costa e Ronaldo juntam-se por exemplo Postiga, Meira, Deco Paulo Ferreira, Carvalho, Tiago, Ricardo Rocha numa fase mais prematura, seguidos mais tarde por Quaresma, Pepe, Bosingwa, Nani, Simão, até aos mais recentes Meireles, Bruno Alves, Eduardo, Veloso ou Sílvio. A própria selecção parecia estar para durar, resistindo ao “fim” de Rui Costa (2004) e Pauleta (2006), conseguindo unir o país em seu torno e confirmando-se como presença assídua e respeitada nas fases finais das competições internacionais. Goste-se ou não do estilo, a verdade é que Scolari trouxe a Portugal um estatuto de grandeza que aos poucos se vinha perdendo. Mesmo quando as nossas equipas pareceram adormecer, Mourinho e Ronaldo eram aclamados um pouco por todo o mundo como os “melhores”, estatuto que ambos já conseguiram oficializar por via da FIFA.

Parece que todos estes anos foram um alinhar de factores para a época 2010/2011. A era Paulo Bento repôs a selecção no topo, com uma percentagem assustadora de vitórias até aos dias de hoje. Benfica, Braga e Porto atingiram as meias-finais da Europa League, cabendo a festa em Dublin a estes dois últimos, com os dragões a sagrarem-se vencedores. A juntar a Mourinho, são 3 os treinadores portugueses nas meias finais das competições europeias. Ronaldo tornou-se numa máquina de quebrar recordes. Enfim, uma época quase perfeita.

Uma análise fria faz crer que o futuro não se avizinha tão brilhante: a Academia de Alcochete tem perdido preponderância, o fluxo de exportação de grandes jogadores tem-se virado aos poucos para os estrangeiros (Anderson, Lucho, Lisandro, Ramires, Di Maria), e Portugal parece incapaz de produzir um guarda-redes (Patrício está no bom caminho) e um ponta de lança de topo. Poderão o aparente renascimento do Benfica – que teve um papel demasiado discreto nesta década – e a afirmação do Braga como 4º grande empurrar o nosso futebol para um novo fôlego? E com o super Barça em acção e para durar, haverá espaço para os portugueses no estrangeiro chegarem ao topo?


A.Pinho

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