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Uma liga do tamanho do seu país: Brasileirão!

É assim na Europa quando chegamos ao culminar de Maio. Chelsea e Manchester United a lutar pelo título doméstico, Madrid e Barcelona a guerrear numa luta a dois como se de uma corrida de cavalos se tratasse. Na Alemanha, o Bayern, apesar dos cambaleantes começos de campanha na Bundesliga ocupa o seu lugar habitual e o Inter, assume-se novamente como o campeão italiano. Qual doença crónica, o desfecho poucas ou nenhumas vezes se torna surpreendente nas maiores ligas europeias.

Os desportos americanos olhariam para este cenário como um problema certamente. Com o seu sistema de draft no início de cada época desportiva, é assegurada a competitividade da respectiva liga, pois o último classificado de cada liga fica com poder de escolha sobre os melhores talentos jovens do país. Este sistema foi transportado para a MLS (Major League Soccer) também. Em qualquer local fora dos Estados Unidos da América, a lei de mercado prevalece: o maior consegue o melhor. O Manchester United, por exemplo, tem uma área de recrutamento muito mais alargada do que por exemplo o Blackburn, assim como sobre alguns clubes de localidades próximas. Na maioria das vezes esta vantagem é transformada em tradição, tradição que se alimenta dela própria, tornando o clube uma marca à escala planetária, sendo assim possível atrair e reter uma equipa de qualidade, lutar por mais títulos, seduzir um maior número de fãs. A perda de competitividade na Premier League Inglesa é o preço que a competição paga pela existência destes super clubes britânicos.

Porém, há uma liga doméstica onde todo o poderio económico na maior parte do tempo não entra em campo, onde a glória final se torna imprevisível, onde a balança nem sempre pende para o mesmo lado. É a realidade do campeonato brasileiro de futebol, mais conhecido como Brasileirão. Existe todo um passado para trás mas, é apenas a partir de 1971 que o Brasil vê nascer o seu campeonato de futebol nos moldes actuais. Apesar de se tratar de uma liga com um período de vida relativamente curto, das 20 equipas presentes nesta edição, 14 delas já foram campeãs. Se o leitor procurar por uma liga onde a dose de imprevisibilidade seja assustadoramente enorme, bem-vindo ao Brasileirão. No entanto, há uma pergunta que se impõe: é este facto saudável, ou não?

O ponto positivo poderá ser relacionado com a dimensão do país. Bem, o Brasil é do tamanho de um continente. Este é um dos motivos pelo qual o campeonato só ganhou a forma dos nossos dias em 1971. Antigamente, viajar por este vasto território semanalmente assumia-se como um problema. A criação do Brasileirão fez parte de uma consciencialização do governo brasileiro para a necessidade de melhorar as infra-estructuras do país e aproximar todo o território brasileiro. A escala geográfica do Brasil, e o tamanho da sua população – perto de 195 milhões e continuamente a crescer – significa que há clubes com um suporte humano muito vasto. O Flamengo no Rio de Janeiro e o Corinthians em São Paulo podem orgulhar-se de possuir cerca de 20 milhões de seguidores cada, número superior ao número total de habitantes de muitos países europeus. Além destes, existem ainda numerosos clubes muito apoiados pelo país inteiro – Vasco da Gama no Rio, São Paulo e Palmeiras em São Paulo, Atlético Mineiro e Cruzeiro em Belo Horizonte, Grémio e o Internacional em Porto Alegre. A juntar a estes, outros três clubes com muita tradição: Fluminese e Botafogo, com base no Rio e o Santos, em São Paulo respectivamente.  Apesar desta realidade, há certos locais no Brasil que o futebol ainda é visto como um visitante um pouco inóspito. Dos 27 estados brasileiros, apenas 9 têm clubes na primeira divisão. O domínio faz-se sentir a Nordeste.

O outro ponto positivo é o extraordinário número de jogadores de qualidade que o Brasil produz e exporta todos os anos. O futebol é o genuíno deporto de massas do país, e o prazer de o praticar, misturado com os sonhos de alcançar a fama e a fortuna, leva à produção de contentores generosos de jogadores cujo talento não têm rivalidade em qualquer parte do globo. Apesar disso, este facto leva a que os melhores intérpretes deste jogo não fiquem por muito tempo no campeonato local. Com as presentes realidades do futebol como negócio, o Brasil assume-se como exportador, perdendo continuamente as suas estrelas para a Europa. O cenário modificou-se um pouco nos últimos anos com o aparecimento de novos investidores no futebol canarinho, já não sendo totalmente estranho que jogadores como Robinho, Adriano, Deco ou Nilmar tenham voltado ao país e ingressado em alguns dos melhores clubes. A exportação contínua a ser no entanto, a forma mais directa e fácil de equilibrar as contas, o que nem sempre é bem aceite pelos seus fervorosos adeptos.

O futebol por toda a América do Sul está colado a este rótulo de vendedor, mas há um pequeno problema que é peculiar ao Brasil – o calendário da competição: a época vai normalmente de 8 de Maio a 5 de Dezembro. Não se encontra em sintonia com o calendário europeu, mas também não o faz com o restante continente. Obviamente, torna-se uma pedra no sapato para qualquer clube brasileiro.O mercado de transferências (europeu) têm o seu início quando a competição vai a meio, e a maior parte dos clubes vê os seus melhores jogadores partir, vê outros regressar da Europa Ocidental e da recôndita Europa de Leste e assim, a face de clube brasileiro é mudada quando seria prudente isso não acontecer. Apesar de todos estes factores a lutarem contra o clube brasileiro, houve uma mudança em 2003 que ajudou a que as coisas se alterassem um pouco. Desde que o formato da competição mudou nesse ano, quando um sistema ligueiro substituiu os anteriores playoffs, tornou-se um pouco mais fácil prever o vencedor final. Apoiado no anterior sistema, o Atlético Paranaense,  foi campeão em 2001. Eles entregaram a si mesmos a missão de se tornarem o maior clube das Américas – mas pouco se ouviu falar deste clube desde que o formato mudou. Pelo contrário, o título viajou quase sempre para os melhores clubes, alojados em grandes cidades, e por isso mesmo capazes de aguentar uma equipa forte.

Tornou-se um facto também que, à medida que a economia brasileira cresce e a administração dos clubes brasileiros se torna mas profissional, as oportunidades aparecem, mas não para todos. Um clube como o Corinthians consegue atrair um jogador como Ronaldo, pagando a sua “estadia” através de patrocinadores que levam uma fatia de todo o encaixe financeiro realizado com o merchandising que advém da presença de um jogador como o Fenómeno. Um clube pequeno sem a base de fãs do Corinthians já não tem a mesma possibilidade.

Os clubes gigantes parecem então ter reunido condições para se afastar do restante lote. Mas o Brasil tem tantos gigantes que a corrida para vencer o Brasileirão dificilmente se tornará uma corrida de cavalos a dois. Ao bom e velho estilo europeu.


P.S: Com o Brasileirão não muito longe do seu término, posteriormente será feita a análise à campanha actual dos clubes brasileiros e referência aos seus melhores jogadores.

A.Borges

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