Está situada no extremo noroeste do país, e por isso, é conhecida como a esquina do México. A sua localização é considerada privilegiada por muitos imigrantes ilegais e narcotraficantes, uma vez que a escassos quilómetros a norte, fica a fronteira com os Estados Unidos. Durante muito tempo, a cidade de Tijuana foi considerada um abrigo para a criminalidade. Ainda hoje, são frequentes as lutas que envolvem os cartéis de droga locais. Contudo, em 2007, nasceu algo com o qual toda a população se passou a poder orgulhar: uma nova equipa de futebol. A iniciativa partiu de Jorge Hank Rhon, um dos homens mais ricos do México, e as razões que o levaram a isso são, no mínimo, muito especiais.
Um líder controverso
Presidente do município de Tijuana entre 2004 e 2007, Jorge Hank Rhon é uma personalidade excêntrica e bastante controversa. É dono do grupo Caliente, a maior cadeia de casinos do México – só em Tijuana existem 26 – e no seu passado sombrio, surgem acusações de violência, lavagem de dinheiro, posse de armas de alto calibre, supostas ligações ao crime organizado, tráfico de drogas, e até, imagine-se, venda de peles de animais. Todavia, nenhuma destas acusações foi até hoje comprovada.
Natural de Toluca, Hank Rhon tem 19 filhos, de cinco mulheres diferentes, e uma grande paixão por animais, nomeadamente, xoloitzcuintles, uma raça de cães oriunda do México, que se caracteriza por não ter pelo. Geralmente castanhos, eram considerados sagrados pelo povo asteca. Ora, acontece que no zoológico que este milionário mexicano possui em sua casa, com mais de 20 mil animais, existia um cão da raça referida chamado Hermoso, cuja cor era vermelha. Quando este morreu, Hank Rhon decidiu criar um clube de futebol em sua homenagem.
Ascensão meteórica
Fundado a 10 de Janeiro de 2007, como Club Tijuana Xoloitzcuintles de Caliente, os Xolos de Tijuana, como são vulgarmente conhecidos, chegaram rapidamente ao topo do futebol mexicano. A subida à primeira divisão aconteceu em 2011, pela mão de Joaquín del Olmo, e o primeiro título de relevo apenas um ano e meio mais tarde. Antonio Mohamed, actualmente no Monterrey, conduziu os Xolos à conquista do Apertura 2012, e nessa mesma época, aos quartos-de-final da Taça dos Libertadores.
Seria, de resto, após o duelo da 2ª mão, diante do Atlético Mineiro, que ‘El Turco’ se iria despedir da equipa, e de uma forma dramática. Ao minuto 93, o colombiano Duvier Riascos desperdiçou uma grande penalidade que teria colocado o conjunto mexicano nas meias-finais. Desde então, vários treinadores passaram pelo clube, mas nenhum deles logrou grande sucesso. Após o título conquistado em 2012, só por uma vez os Xolos repetiram a presença nos playoffs da Liga MX.
Uma nova Herr-era
Depois de ter sido demitido do cargo de seleccionador nacional em Julho de 2015, na sequência de uma agressão a um jornalista no aeroporto de Filadélfia, um dia após a conquista da Gold Cup, Miguel Herrera chegou a acordo com os Xolos em Novembro. No entanto, ‘Piojo’ só assumiria o comando da equipa após o Apertura 2015, que o Tijuana terminou na penúltima posição.
Logo no dia da sua apresentação, Herrera subiu a fasquia ao revelar o desejo de ser campeão. Porém, apesar da sua inegável competência e carisma, o seu impacto não foi imediato. No Clausura 2016, que se disputou na primeira metade deste ano civil, os Xolos somaram apenas três vitórias e terminaram na 14ª posição. Para piorar este cenário, o Tijuana não somou qualquer triunfo em sua casa. Foi o 4º torneio consecutivo em que a equipa ficou arredada dos playoffs.
Para inverter esta situação, Herrera mexeu-se de forma cirúrgica no mercado, vendo chegar ao clube nomes como Guido Rodríguez, Milton Caraglio, Avilés Hurtado, entre outros. No entanto, a mudança mais radical diria respeito ao sistema táctico utilizado. Há muito conotado com o 5-3-2, com que se apresentou no Mundial 2014, ao serviço da ‘El Tri’, Herrera surpreendeu os rivais com um 4-2-3-1, que se desdobrava num 4-4-2 clássico.
Quando os Xolos receberam o Morelia Monarcas na 1ª jornada do Apertura, a equipa fronteiriça já não vencia há 4 meses. O último triunfo tinha tido lugar a 12 de março, quando o Tijuana bateu os Jaguares de Chiapas por 2-1. A vitória por 2-0 sobre o Morelia significou também a primeira de Herrera na condição de visitado. Uma série vitoriosa que apenas seria interrompida no passado fim-de-semana, quando os Tigres infligiram a primeira derrota aos Xolos em 8 encontros disputados em sua casa. Para este recorde, muito tem contribuído o apoio de uma indefectível massa adepta que já por 4 ocasiões lotou os 27333 lugares do Estádio Caliente, que regista uma ocupação superior a 98%.
Com apenas uma jornada por disputar na fase regular, o conjunto de Miguel Herrera lidera o torneio Apertura com 33 pontos, um novo máximo histórico do clube, com 3 pontos de vantagem sobre o Pachuca e o Tigres. Um dos aspectos em que a equipa mais melhorou respeita ao registo defensivo, o melhor da competição com 11 golos sofridos. O apuramento para os playoffs ficou logo confirmado à 14ª jornada – quando ainda estavam três em disputa – bem como para a Libertadores, onde não será fácil melhorar o desempenho da sua estreia.
A baliza é defendida pelo veterano Federico Vilar, de 39 anos, que manteve as suas redes invioláveis em 8 das 16 jornadas. A defesa, formada por Michael Orozco, Juan Carlos Valenzuela, Emanuel Aguilera e Damián Pérez, é uma das mais consistentes do campeonato. Guido Rodríguez e Kevin Gutiérrez equilibram o meio-campo. Os corredores são ocupados por Avilés Hurtado e Gabriel Hauche, que atravessa um dos melhores períodos da sua carreira. Para além dos 4 golos que cada um deles já soma, Hauche é também o melhor assistente da Liga MX, juntamente com Milton Caraglio, o avançado mais posicional desta equipa. O seu parceiro de ataque é o colombiano Dayro Moreno, que reparte a liderança na lista dos melhores marcadores com outros dois jogadores.
O facto de os Xolos liderarem o campeonato a uma jornada do arranque da liguilha, não os torna no principal favorito, mas apenas num de muitos candidatos. Aliás, desde o primeiro título do Tijuana em 2012, e já se disputaram sete torneios entre Apertura e Clausura, só por uma vez o líder da fase regular foi o campeão. Aconteceu no Apertura 2014, com o América, que era orientado por Antonio Mohamed, o mesmo que já havia guiado os Xolos ao único título no seu historial.
Uma ponte entre dois países vizinhos
Fruto da sua localização, a influência americana na cidade de Tijuana é significativa, e muitos são os futebolistas norte-americanos que passaram ou ainda fazem parte do clube, sendo disso exemplo Joe Corona ou Edgar Castillo. Os Xolos, de resto, têm sabido explorar esta proximidade ao seu país vizinho como ninguém. Juntamente com o Santos Laguna, o Tijuana é o único clube que partilha as suas actualizações no Twitter em inglês. Isto porque o clube acredita que do outro lado da fronteira, existem muitos adeptos não latinos, não apenas do clube, como do futebol em geral. Só em dia de jogo, estimam-se que sejam mais de 8 mil os que atravessam a fronteira entre San Diego e Tijuana, para estarem presentes no Estádio Caliente. Um mercado que o clube não pode definitivamente desprezar. Por isso, os Xolos também já instalaram várias academias no sul da Califórnia.
Ingredientes secretos
Como qualquer boa receita, os Xolos de Tijuana também têm alguns ingredientes que os diferenciam de todos os outros clubes. A sua mascote é um cão e foi-lhe atribuído o nome do falecido Hermoso. Dentro do balneário, há inclusive uma capela em sua honra. Nos contratos dos jogadores, está escrita uma cláusula que os obriga a utilizarem apenas chuteiras vermelhas (a cor do cão) nos jogos. O vermelho, o branco e o preto são as cores favoritas da família Hank, e como tal, dominam o 1º, 2º e 3º equipamento, respectivamente. O número 1 não é permitido e nunca um guarda-redes o utilizou. Por fim, o estádio Caliente, inaugurado em 2007, será alvo de novas obras de expansão. No final do próximo verão, a casa dos Xolos poderá acolher 33333 pessoas, ou não fosse o número 3, o favorito da família Hank.
João Lains


5 Comentários
Tiago Silva
O Fidel Martinez ainda joga no Tijuana? Que máquina e fiquei realmente assustado quando ele foi apontado ao Sporting…
Stalley
Não agora joga no Pumas á época e meia, já depois do Tijuana mudou para os Leones Negros, na época 2014/2015, antes de ingressar no Pumas.
Knox_oTal
Parabéns João Lains! Excelente texto!
Realmente o campeonato mexicano é algo à parte, e este Club Tijuana ainda mais fora da caixa é. Não fazia ideia da história de origem do clube, muito interessante!
Quanto ao plantel, os jogadores do meio-campo parecem promissores, o Kévin Gutierrez e o argentino Guido Rodriguez! O Gabriel Hauche passou ao lado de uma grande carreira, mas é bom que tenha encontrado em Tijuana um sítio para expressar o seu melhor futebol. Do plantel também faz parte o Hector Villalba, avançado que apareceu em força e prometeu muito, mas entretanto perdeu-se.
Destaque igualmente para a interacção com o público americano! Bem, da excentricidade de um homem, nasceu um projecto interessante de futebol! Caso para dizer: Bem hajas Hermoso… RIP
João-Pedro Cordeiro
O meu amor pelo futebol mexicano só é suplantado pelo britânico, mas tenho uma pena enorme de já não poder acompanhar a liga como o fazia. Para quem tiver essa possibilidade, aconselho profundamente. É um futebol apaixonante. Curiosamente comecei a acompanhar a liga mais ou menos na altura em que o Xolos explodiu e venceu a liga com Mohamed, que para mim é um dos segredos mais bem guardados da América latina.
cards
Melhor camponato das américas dá 15 a 0 à MLS que nao entendo como é muito apreciada aqui no VM.