“Esta vai ser mais uma época desportiva com longas batalhas, vai ser uma época desportiva difícil, muito aguerrida, este ano a II Liga está muito competitiva, as equipas estão a reforçar-se muito bem, convém não esquecer que este ano descem diretamente quatro equipas”. “Fazer melhor do que no ano passado, conseguir a manutenção o mais rápido possível e fazer crescer o clube” – Rui Cordeiro (Presidente do Santa Clara)
Após estas palavras na apresentação de Daniel Ramos como treinador do Santa Clara, era evidente que os objetivos do conjunto açoriano passavam claramente pela manutenção com o melhor equilíbrio financeiro possível. Para alguns é estranho Daniel Ramos ter assumido este projeto, no entanto o próprio admitiu que a sua saída de Famalicão para os Açores não foi o que tinha planeado. “A minha intenção quando saí do Famalicão foi treinar a primeira Liga, esteve perto, não se proporcionou, não interessa os porquês agora, mas continua a ser uma ambição minha. Sei aquilo que quero, sei o que preciso, estou preparado e acredito que esta possibilidade de trabalho poderá levar-me o mais rápido possível a esse patamar”, – Daniel Ramos.
Sem se saber ao certo quais foram os “porquês” do namoro de Daniel com o escalão principal terem ficado apenas pela zona da amizade. O certo é que este ao contrário de Nandinho, Miguel Leal e Quim Machado, que após bons trabalhos nos respetivos clubes esperaram pelo “salto” e ficaram nas “vagas” do mercado das chicotadas, assumiu o Santa Clara.
Claramente que este desafio não foi um passo para a frente na sua carreira, no entanto o trabalho foi sendo realizado com a ambição da Primeira Liga sempre no seu horizonte. Este projeto levou a que nos campeonatos profissionais não exista nenhuma equipa em Portugal com um registo melhor ou equivalente ao de Daniel Ramos (Santa Clara/Marítimo).
9 Vitórias e um empate em 10 Jogos até podiam ser os números de algum clube em Portugal nesta fase, no entanto este é o percurso que Daniel Ramos protagonizou nestes primeiros 2 meses de competição. As divisões são bastante distintas e é praticamente impossível equiparar a dificuldade de um jogo de 1ª Liga com um de 2ªLiga. O certo é que o segundo escalão é conhecido por ser um campeonato extremamente competitivo, onde “todos podem ganhar a todos”, e nesse capítulo, os 7 jogos para o campeonato juntando a eliminatória da Taça da Liga no Terreno do Portimonense resultaram em 7 vitórias e apenas um empate no terreno do imbatível Cova da Piedade. Os restantes resultados foram de se tirar o chapéu sendo a única equipa a ganhar ao Gil Vicente esta época, uma vitória por 2 golos de diferença sobre o bicampeão Porto B, terrenos complicados como Fafe e Académica onde a turma dos Açores passou com distinção.
Daniel parecia ter encontrado o verdadeiro “underdog” para brilhar, que lhe serviria de bilhete como treinador para a próxima época na Primeira Liga. Não foi preciso esperar até ao final da época, após a terrível campanha do Marítimo, Paulo César Gusmão foi demitido dando lugar ao treinador que outrora tinha sido segunda opção do presidente.
A verdade é que ninguém em 2 dias de treinos constrói e organiza uma equipa conforme as suas ideias, mas por outro lado a primeira impressão e a forma de transmitir a mensagem aos jogadores são aspetos que são fundamentais no início da construção de um grupo de trabalho. A equipa ainda em mudança de ideias de jogo e de método de liderança foi a jogo com o Tondela, numa partida atabalhoada em que o coração e a vontade de dizer presente foi o principal combustível para o regresso às vitórias ganhando por 2 bolas a 0. (11 remates – Marítimo vs 3 remates – Tondela). Uma semana de trabalho e parece que a defesa e as bolas paradas são o foco principal de Daniel Ramos. Após a vitória sobre o Tondela com um golo de canto e a baliza inviolável, os madeirenses repetiram o feito pelas águas do Sado. Ganhando por 0-1 ao conjunto sadino que até agora vinha a fazer um campeonato interessante. Novamente as bolas paradas foram um perigo constante, resultando no golo de Dyego Sousa, que parece ter encontrado o caminho para os golos (2golos-2J). Novamente a liberdade para rematar foi um dos aspetos que se repetiram do confronto com o Tondela tendo rematado por 12 vezes. O aproveitamento nas bolas paradas foi notável com 2 golos em 2 jogos levando bastante perigo nas outras tentativas.
Estes dois jogos foram sem dúvida um balão de oxigénio para a equipa madeirense que juntamente com a ambição de Daniel Ramos, certamente darão bastante motivação para esta paragem de campeonato, que servirá para preparar a equipa à sua imagem tática, quer a atacar quer a defender. A pré-época já se iniciou com duas importantes vitórias que certamente darão credibilidade nos treinos para o técnico, que terá o teste de apresentação para a Taça de Portugal (Naval) dentro de 13 dias e o exame final no dia 21 de Setembro na receção ao Boavista.
Este é o momento do técnico vila-condense mostrar que está ao nível do desafio, confirmando as suas últimas excelentes épocas, ao serviço dos escalões inferiores do futebol português.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): André Mendes


4 Comentários
Tiago Silva
O Daniel Ramos é um excelente treinador e um exemplo para outros treinadores que treinam na segunda liga. Penso que vai chegar a um dos grandes mais tarde ou mais cedo.
Jorge Santos
Treinador forte da metodologia de jogo mas com lacunas a nível de treino e planificação de plantéis. Dos melhores da II Liga mas não me parece que tenha muito para trazer de novo para a Primeira Liga. Ainda assim, é muito melhor do que o Paulo César Gusmão que só esteve 3 meses no comando do Marítimo.
Luis ES
Boa análise! Como maritimista devo dizer que sinto maior segurança e confiança no Daniel Ramos do que no PC Gusmão. Em primeiro lugar sabe o que é lidar com a pressão de competir contra equipas com maior favoritismo a atingir certos objectivos, dado que no Famalicão partiu como candidato à manutenção e acabou por não ficar assim tão longe da luta pela promoção (a 6 pontos do Feirense). Em segundo lugar, parece-me que é um timoneiro que sabe disciplinar os seus jogadores, capítulo que os últimos técnicos do Marítimo não têm tido sucesso – nem mesmo Nelo Vingada, que valoriza muito este aspecto.
A verdade é que Daniel Ramos tem muito para rectificar e o grupo não possui opções seguras na defesa e o ataque parece curto, excepto no meio-campo. A título de exemplo, Dyego Sousa é o melhor avançado em forma, depois do mês que esteve suspenso, já marcou 2 golos importantes. Baldé deverá ser o jogador que segue na hierarquia ao ponta-de-lança brasileiro dos verde-rubro, visto que Baba Diawara parece longes dos seus bons momentos. Na linha defensiva, Maurício António está à procura da sua melhor forma, enquanto Deyvison e Dirceu são muito limitados e lentos, Pela positiva, Raul Silva está a surpreender-me e esta poderá ser a sua temporada de afirmação. China poderá evoluir na lateral esquerda, sendo curiosamente uma das poucas coisas boas que PC Gusmão conseguiu fazer neste início de época.
Em termos da componente táctica, o texto frisa claramente as melhorias no plano ofensivo da equipa, graças à aposta numa circulação de bola rápida, entre todos os sectores e da maior pressão dos futebolistas mais avançados, o que não se observava com PC Gusmão (pontapé para a frente, para as costas da defesa e fé em Deus eram as máximas do timoneiro brasileiro). Ainda há muito a melhorar, mas como é sublinhado estes dias de paragem para as selecções podem ajudar à implementação das ideias de Daniel Ramos.
Por fim, penso que os próximos dois meses serão determinantes para perceber se o Marítimo, embora com um plantel com lacunas, estará preparado para entrar na luta europeia. Por vezes, os treinadores são elementos chaves nestas situações e vejo Daniel Ramos como alguém que pode potencializar o melhor que estes futebolistas verde-rubros têm e motivá-los para uma boa campanha. Veremos o que acontecerá.
Francisco Magalhães
Sem querer estar a tirar valor ao treinador pois não conheço, vou falar do que vi apenas, que foi um jogo. Impossível para o avaliar atenção, até porque foi um jogo sai generis!!
Académica x Sta Clara, em Agosto aqui no Calhabé. Cheguei atrasado ao jogo e não vi o golo dos Açorianos, mas do que vi foram 85′ de massacre! Falhanços de baliza aberta e tudo, o Sta Clara não saiu com critério uma vez! Dos maiores domínios que já vi. Ridículo como não ganhámos esse jogo.
Isto para dizer que não gostei da maneira como o treinador abordou o jogo (sou o primeiro a atacar quando a aBriosa mete o autocarro), mas isso pode não querer dizer nada e ser um treinador com um modelo de jogo maravilhoso e ao ataque.