Jorge Jesus é um personagem, que ninguém se iluda. No entanto, vários personagens demonstram competências interessantes nas respectivas actividades: há um monstro na Rua Sésamo que é forte a comer bolachas; o Road Runner corre muitíssimo bem; o Rocky é óptimo em termos de porrada. Não é caso único um “cromo” ser bom no que faz.
As características do treinador do Benfica que o tornam numa figura cómica são semelhantes àquelas que distinguem um bom personagem do Herman José. Temos as variações lexicais incorrectas; a força de um sotaque sem região definida mas que foge a uma origem nobre; a postura histérica frequentemente injustificada; o uso de roupa ou acessórios que destoam daquilo que seria de esperar (J, não há um cachecolzinho vermelho e branco liso?). Até o cabelo tem graça. Quer esteja cinzento, branco ou muito branco.
Jesus vai somando uma enorme colecção de calinadas que são hilariantes para qualquer adepto. Inclusivamente, e talvez principalmente, para os do Benfica. Na verdade, enquanto alguns adeptos confundem a partir da sua própria ignorância a incapacidade de falar bem com incompetência, outros percebem que é apenas uma peculiaridade do treinador. A sua competência é, como deve ser, avaliada por outros parâmetros.
E, pegando carinhosamente nesses parâmetros, vemos que Jorge Jesus tem muitas qualidades e sucessos. Mantendo cuidadosamente os parâmetros ao colo, vemos que Jesus tem também muitos defeitos e falhanços. Está na altura de pousar os parâmetros que eles não param de chorar.
No Benfica há antes de Jesus e depois de Jesus. E há coisas que ele trouxe que não havia. Haver uma filosofia é fundamental num clube. A filosofia pode ser dada pela estrutura ou pelo treinador. Ora, o Benfica foi destruindo a sua estrutura durante os anos 90 até ao ponto em que se tornou um farrapo de um clube. Se pensarmos que a era Vieira se iniciou em Vilarinho, e que foi a partir daí que o Benfica foi reconstruindo o seu esqueleto, podemos ver facilmente a dificuldade em definir uma filosofia. Porque um clube sem estrutura precisa de um treinador forte. E, se nos lembrarmos que pouco tempo depois de chegar ao poder, Vilarinho despediu Mourinho para ir buscar Toni, percebemos porque é que ainda hoje o Benfica ainda não se encontrou totalmente. Isto é uma decisão da direcção de um clube à deriva. Mourinho mostrava qualidades e mostrava ter uma filosofia. Mas a falta de esqueleto implica que a primeira coisa que falha são as decisões directivas. E lá se voltou à estaca zero.
De todos os que passaram pelo glorioso, só Camacho na sua 1ª vez e Trapattoni mostraram ter o que o Benfica precisava. Camacho apanhou o Porto de Mourinho; Trapattoni foi campeão. Koeman, o outro cujo trabalho se safa, mostrou ser um treinador muito incompleto e pouco motivado.
Com efeito, Jesus trouxe uma visão para o clube. E, com isso, o clube ganhou força. Ganhou esqueleto. Com sorte, dentro em pouco terá estrutura. JJ tem um estilo de jogo definido, trabalha tecnicamente muito bem com os jogadores e sabe de futebol. Com ele o Benfica passou a jogar regularmente bem, a ter jogadores valorizados e com mercado e a disputar frequentemente títulos nacionais e internacionais (Quartos e Meias-Finais).
Por outro lado, o Benfica tem um título importante nos 3 anos do treinador português. Perdeu miseravelmente o campeonato no ano passado e na meia-final da Liga Europa com o Braga há 2 anos. Não deu luta ao Porto de Villas-Boas nem na Liga Europa no ano em que foi campeão. E foi campeão somente na última jornada naquela que é a sua grande temporada. As suas falhas, como os seus momentos cómicos, são notáveis. JJ tem muitas dificuldades em gerir um plantel ao longo da época, física, mental e tecnicamente; tem dificuldade em adaptar tacticamente a equipa, principalmente contra clubes de topo (os jogos contra o Porto de AVB e a Champions do Benfica há 2 anos e a Liga Europa há 3 são desastrosas); o seu feitio torna por vezes insustentáveis relações pessoais com jogadores e a gestão do balneário.
Esta época Jesus tem feito, como sempre, um trabalho assim-assim. Atenção, o assim-assim não é resultado do razoável. É, sim, da soma do bom com o mau.
O Benfica está empatado em 1º lugar com um Porto forte. Começou a época sem meio-campo mas Jesus trabalhou Enzo, Matic e foi buscar os talentos André’s. Não havia lateral-esquerdo e Jesus inventou Melgarejo.
Apesar disto tudo, e tendo em conta que a importância dos encontros é subjectiva, para nós o Benfica teve 4 jogos verdadeiramente importantes nesta época (frente ao Sporting será o 5º). Os dois jogos fora de casa na Champions, Barcelona em casa e Braga. Jesus não ganhou nenhum deles. Aliás o seu registo, desde que está no clube da Luz, nos jogos “grandes” é miserável.
Jesus tem sido aquilo que é sempre. Bom, com algumas falhas. Deixem-nos corrigir. Muito bom, com muitas falhas. Ou só bom? Ou só algumas? O problema de decidir o que se acha está relacionado com o futuro do Benfica. É que o conjunto de qualidades e de defeitos não vai mudar. Jesus será sempre aquilo que é.
Qual será a justificação para Jesus não evoluir?
Jorge Jesus é um burro velho. E nesta caracterização a palavra fundamental é velho. Podemos dizer que ele é outro tipo de animal de idade avançada. Mas o importante é a sua senioridade. Claro que não são todos bons, mas este futebol está para os bichos novos.
É que agora os treinadores são todos doutores. Se dantes se aprendia na faculdade da vida, agora aprende-se na faculdade de desporto, na faculdade de ciências, na faculdade de psicologia e na faculdade de ciências psicológico-desportivas. Ou é na de psicologia científico-desportiva? Enfim. Os treinadores eram Zé-ninguéns e agora são Zé Mourinhos. Os tempos são outros. Estamos na era da técnica e Jesus ainda recorre a um terço com a Nossa Senhora.
Nada do que se disse diminui as qualidades do treinador do Benfica. Já as definimos e achamos que é um excelente treinador. Vivêssemos nós há 15 ou 20 anos e ele seria certamente treinador de um clube ainda mais de topo que o Benfica. Diga-se que com a sua qualidade ainda hoje teria lugar num clube grande num campeonato de topo (Jesus no City faria melhor que Mancini).
Mas os tempos são, de facto, outros, e a verdade é que as limitações de Jesus já não cabem numa gabardina de categoria.
Luís Figueiredo


