Reza a lenda que Héracles, depois de concretizar os doze trabalhos sugeridos pelo oráculo, como forma de honrar o seu pai Zeus, construiu o Estádio Olímpico e estabeleceu que de 4 em 4 anos se iria homenagear o seu progenitor. A lenda diz também que durante este período se estabeleceu a “trégua olímpica”, que ainda hoje se realiza, onde era proibido qualquer acto de violência para com todos os seres do Olimpo e da Terra.
Actualmente, os Jogos Olímpicos transcendem a génese da multiculturalidade são também uma forma de demonstração do poder económico e político de um país ou região. Basta ter em conta o histograma dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, para nos apercebermos que são raras as excepções de países com pouco poder diplomático na conjuntura internacional que conseguiram realizar o maior evento do calendário desportivo, Bélgica 1920 e Holanda 1928.
Aproveitando a euforia que se gerou à volta do maior evento planetário realizado em 2012, nada como ignorar questões bilaterais como a diplomacia e o poder económico e deixar levitar no pensamento a realização dos Jogos Olímpicos em Portugal. Poderíamos desde já levantarmos inúmeras objecções, contudo, talvez ainda possuído pelo lado lunar de organizar um evento desta natureza, vou ignorá-las e centrar-me no ponto essencial, impulso económico e social dos Jogos Olímpicos. A realização de um evento desta magnitude envolve um investimento muitíssimo avultado em estruturas e recursos humanos. Portugal é um dos países mais deficitários em infra-estruturas, seja para a prática de ginástica, natação, hóquei em campo, ciclismo de pista, saltos ornamentais, vela ou inclusivamente atletismo. Uma eventual candidatura olímpica levaria obrigatoriamente a um investimento mais do que justificado em infra-estruturas que dariam o impulso necessário tanto ao nível económico (traduz-se em investimento público que é contabilizado no PIB) como social (mudança do paradigma do desporto como criador de oportunidades). A remodelação do Estádio do Jamor poderia torná-lo no “Estádio Olímpico” que tanto os atletas desejam, aglutinado ao Centro de Alto Rendimento. A construção de um Centro Aquático poderia dotar o país de uma estrutura que actualmente não existe, tornando-se num pólo de atracção para futuras competições internacionais das diversas modalidades aquáticas. Um Centro Náutico para além de continuar a impulsar a canoagem e a vela, poderia levar ao ressurgimento da indústria da construção naval em Portugal. Não nos podemos também esquecer de um pavilhão polidesportivo que tanto poderia impulsionar os desportos “internos” como a ginástica, o badminton, a esgrima, ténis de mesa e o tiro. Importante seria também que as mais variadas estruturas estivessem distribuídas pelo território nacional, como forma de combater o despovoamento e centralização. O impulso económico não se resume a investimento público. Os Jogos Olímpicos trazem milhares de visitantes de todo o Mundo que deixam cá uma parte dos seus rendimentos. A restauração, hotelaria e o artesanato seriam os sectores mais beneficiados com este evento. No entanto, haveria também uma valorização das marcas nacionais a nível internacional. Se do lado das infra-estruturas ocorreria uma revolução, do panorama social também não seria de esperar outra coisa. Uma Olimpíada em Portugal poderia finalmente percepcionar os jovens portugueses que o Desporto exige muito sacrifício mas poderá ser também ele uma fonte de rendimento, tal como o futebol. Exemplos flagrantes desta visão são a Jamaica, a Trinidade e Tobago, o Quénia, a Etiópia, ou a Grenada, países assolados pela pobreza generalizada onde os jovens investem as suas vidas nas mais diversas modalidades como forma de fugir à criminalidade e à pobreza. Em Portugal, onde milhares de jovens se iludem com o futebol, modalidades como o atletismo, o remo e a ginástica podiam dar um novo rumo à juventude. Não nos podemos esquecer do caso do melhor velocista português da actualidade, Carlos Nascimento, 18 anos, que antes de ingressar no atletismo era jogador de futebol, mas longe do brilhantismo que atingiu/atinge no atletismo.
Citando António Gedeão “o sonho é uma constante da Vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer”, como tal, o sonho de se realizar uns Jogos Olímpicos em Portugal tem tanto de irrisório como plausível, dependendo tudo da orientação que os sucessivos executivos irão dar ao Desporto, se como forma de criar valor acrescentado para o país ou como forma de aproveitar ocasional o sol com que Zeus nos abençoou.
Yashin S.


