É muito fácil cair na tentação de, precipitadamente, atribuir a debandada a que se assistiu no A.C. Milan, ao facto do campeonato italiano estar a perder fulgor para os seus pares europeus. Será também erróneo fazer essa conclusão nesta altura, pois há muito que Itália deixou de ser o grande centro futebolístico que era até aos anos 90. E já nem se podem aturar aqueles que, imbuídos da falsa ideia propagada por muitos meios de comunicação social, a Série A apenas tem para oferecer espectáculos de cariz defensivo: a Série A tem das melhores médias de golos marcados dos grandes campeonatos do Velho Continente.
No geral, os estádios de futebol em Itália começam a assemelhar-se a construções que, embora distantes dessa época, se aproximam no estado de degradação de qualquer edifício renascentista. O que atrai turistas, não atrai espectadores de futebol, cientes de que o conforto deveria ser uma palavra de ordem em clubes de elite. Este facto tem influência directa nas pobres assistências jornada após jornada (olhar para o Giuzzeppe Meazza descolorido com o cimento, resultante das enormes clareiras, é desolador) e, subsequentemente, entrando assim menos dinheiro nos cofres dos clubes, diminuindo a sua capacidade financeira na hora de negociar os melhores executantes. Mas atenção, Juventus, Milan, Inter e Lázio vem fazendo planos para a construção dos seus novos ‘templos de adoração desportiva’. Outro motivo directamente relacionado com as fracas assistências é a violência, que grassa em muitos recintos. Antes do escândalo das apostas desportivas, esta era a cara do futebol em Itália fora dos relvados: paixão na bancada com zero possibilidades de entretenimento para toda a família.
Menos dinheiro resultante da compra dos direitos desportivos, menos jogadores-estrela na galáxia do Calcio. Comparativamente, a Premier League é muito mais apelativa, estando melhor representada no plano internacional, fruto de uma política de marketing agressiva e convincente. Os investidores interessam-se por clubes que nem militam no escalão máximo inglês…logo, o valor dos direitos de transmissão tele-visionada sobem em flecha.
Estas razões são intrínsecas e problematicamente de resolução interna. O cenário enegrece quando entram no panorama conjuntos absurdamente poderosos financeiramente. Novos ricos ou não, movem influências, mexem no cordelinho da vontade dos jogadores, acenando e apresentando cheques em branco aos quais, acredita-se, será complicado fazer vista grossa. Mesmo para jogadores como Ibrahimovic e Thiago Silva, anteriormente num emblema que, historicamente, é tão mais rico que o P.S.G. Mas então, e passe a metáfora, foi o próprio país que deixou de saber maquilhar a sua liga e torná-la atraente, ou a responsabilidade desta debandada ocorrida em Itália tem como singular culpado o P.S.G e sua horda de investidores árabes?
Porque confiamos na opinião inteligente e fundamentada do leitor, entregamos-vos a resposta da pergunta por nós próprios formulada.
A. Borges


