Na primavera de 1980, meses após a Revolução Iraniana, fui a Liège cobrir uma Taça dos Campeões Europeus de Corta-Mato, do Sporting de Moniz Pereira, com Lopes, Mamede e Aldegalega, e numa das noites saí com Luís Norton de Matos, um dos primeiros emigrantes do nosso futebol, que então jogava no Standard, e com o meu camarada de muitas reportagens João Alves da Costa, de “A Bola”.
Num dos melhores momentos da carreira, num trajecto que pode elevá-lo a melhor futebolista asiático deste ano, assim o Mundial lhe corra de feição, Taremi justifica toda a solidariedade ao seu protesto passivo, a par de outros destacados elementos da seleção iraniana, como Azmoun, contra a repressão sanguinária em curso no país – uma atitude que lhe pode custar muito caro.
O sacrifício de heróis populares em nome da “estabilidade” e da “segurança”, como quem ceifa as flores selvagens que teimam em nascer no deserto, é um clássico dos regimes totalitários. É precisa uma coragem fora do comum para afrontar o Estado Islâmico, cujos tentáculos não se confinam ao Irão e lançam “fatwas”, as maldições que podem perseguir alguém para o resto da vida, apenas por ousar pensar diferente. Por isso, aguardo com apreensão as próximas semanas da seleção dirigida por Carlos Queiroz e a clarificação da posição dos jogadores, porque a pressão internacional vai ser tremenda.
Entretanto, o melhor da semana da Liga dos Campeões marca golos, joga e faz jogar, lidera em campo e fora e já enfileira na galeria azul e branca de honra, com todos os predicados e defeitos, tendo projectado o FC Porto para um nível de popularidade como nenhum outro clube nacional alcançou antes, num dos maiores países do Mundo, quer na dimensão, quer no curtíssimo período. Tudo o que ele faz por cá produz efeito em 90 milhões de compatriotas.
Quando o mundo foi amedrontado por uma organização terrorista apoiada e protegida pelo Irão, deduzi que a palavra “al-qaeda” terá inspirado, muitos séculos antes, o nome de uma das simpáticas aldeias mouriscas das minhas origens (Alqueidão da Serra), porque apenas significa “A Base” (ou sopé da serra de Aire) e porque a honra de um povo (ou de um clube) não deve ser confundida com a degenerescência de alguns dos seus membros.
“Al-qaeda” pode inspirar-nos terror, mas não passa de uma palavra inofensiva e que merece ser libertada da maldição satânica. Mal comparado, também Mehdi Taremi se assume como ponta-de-lança de um “alqueidão” do Bem, cavando os alicerces para o triunfo da paz e da liberdade, as bases de uma harmonia social duradoura, sem perseguições nem repressões, digna de uma cultura que foi o berço da Humanidade.
João Querido Manha


17 Comentários
Rosso
Bom texto, mas com um erro de palmatória: o Irão não apoia a Al-Qaeda, que é sunita. São mesmo ferozes adversários, embora ambos sejam radicais (mais a Al Qaeda e ainda mais o Daesh), na grande luta entre sunitas e xiitas.
Kacal
Taremi é um craque! Um avançado completo e com golo. Fosse mais novo uns aninhos e sem a “faceta” polémica das “piscinas” e estaria a ser cobiçado por meio Mundo e sairia por um valor altíssimo. Não tenho duvidas. Não sendo assim a realidade, espero que continue cá mais uns anos que agradeço!
Antonio Clismo
Taremi pouco ou nada fez em prol dos protestantes do regime.
Limita-se a assobiar para o ar e esperar que passe.
Engraçado, também não ouvi o Carlos Queiroz dizer o que quer que fosse a quem lhe paga o salário.. cambada de mercenários
Fireball
Não fosse a faceta que todos sabemos e seria muito mais fácil apreciar as suas qualidades futebolísticas. Ninguém é perfeito. Que continue a lutar pelo que acha correto e pelo seu país.
balhelhe
Este texto é muito bonito, mas sinto obrigação de informar que está totalmente errado.
Lido pessoalmente e diariamente com iranianos e posso garantir que entre eles o Taremi não é príncipe nem mártir de qualquer estilo. Pelo contrário, tem sido um dos jogadores da seleção mais criticados pelo povo iraniano exatamente pelo seu silêncio, por não juntar-se às outras vozes em protesto pelo regime. Seja as vozes do povo, que tão corajosamente se tem batalhado, mas também as vozes dos seus colegas da seleção, vários dos quais se têm expressado publicamente contra o regime mesmo sabendo que isso lhes pode custar o lugar no mundial.
A situação no Irão está tão avançada que, neste momento, quem não se pronuncia abertamente contra o regime, ou está do lado deles ou tem medo. Todos os dias o povo demonstra que desta vez é a sério e que as represálias do costume não têm efeito, seja tiros, mortes, cacetadas ou prisão. Desta vez não há volta a dar, a revolução vai acontecer, mais cedo ou mais tarde, já não ninguém tem duvida nem medo. Por isso, se o Taremi quer mostrar-se triste quando marca um golo, usar uma braçadeira preta, tudo bem, mas ele sabe que a esta altura isso já não é suficiente – agora, ou estás contra ou está com eles.
Taremi podia ser um herói da liberdade, mas escolhe não ser. E é uma pena, mas não é uma tragédia porque felizmente há muitos outros heróis iranianos a lutar pela liberdade: a Elnaz Rekabi a competir sem hijab, o Hamed Esmaeilion a mobilizar multidões, e todos os outros milhares de mulheres, homens, jovens e crianças iranianas que têm saído todos os dias há 40 dias para gritar morte ao ditador na cara dos porcos com turbante e espingardas.
Francisco Ramos
Taremi, Prince of Persia.
Além de um ser humano incrível, que pode ter posto a sua vida em perigo por se rebelar contra o governo do Irão, pela a morte da jovem no Irão por não usar correctamente o hijab, por exemplo, é também um jogador fenomenal.
Já uma fez falei aqui das suas características mas nunca é demais repeti-las. É dos avançados com mais sprints, é dos que tem mais recuperações de bola no meio campo ofensivo, consegue ser médio ofensivo em termos de placa giratória para a equipa subir e consegue aliar tudo isto com muitos golos e assistências. A forma inteligente como joga descaído pelo lado esquerdo tem permitido que o ala deste lado tenha também ele espaço para desequilibrar, arrastando a defesa e abrindo buracos para Diaz no passado e Galeno na actualidade acrescentem também números ao seu jogo. Num só jogo ele é número 10, segundo avançado e ponta de lança.
Em 111 jogos no Porto, Taremi tem 60 golos e 42 assistências. É incrível a importância do Iraniano no clube e no jogo de Sérgio Conceição. O último jogador que vi assim em Portugal com esta importância foi Jonas no Benfica, pelo que nestes casos e tendo em conta a qualidade e a idade, é daqueles que apenas me importo (e aos Benfiquistas no passado) com o seu rendimento desportivo, sabendo que o retorno financeiro que trazem é muito superior ao valor de qualquer transferência.
Sobre os penaltis assinalados acho que é um jogador inteligente na área. Não é uma pessoa que, normalmente, se deixa cair mas alguém que tem movimentos que procuram o contacto e que ele acaba por acontecer, estando lá depois o árbitro e o VAR para decidirem se é suficiente para ser penalti ou não. Não é o primeiro que passa por cá com esta inteligência de contactos (todos nos lembramos de João Vieira Pinto, amado por Benfiquistas e Sportinguistas, onde Jardel teve 18 penaltis numa época) e não vai de certeza ser o último pelo que não serei eu a criticar, como não fui no passado a criticar outros. Como gostava que Pinto da Costa tivesse convencido JVP a jogar de azul e branco, ídolo da altura da maioria dos jovens.
Neville Longbottom
A importância não é em termos de números certo?
Porque depois de Jonas ainda jogava em Portugal o Bas Dost que precisa de menos de 90 minutos para marcar um golo. 84 jogos, 76 golos e 7 assistências.
Se não for, então as ideias não estavam relacionadas.
Francisco Ramos
Neville,
Acho que ambos falamos em importância em termos de qualidade individual ao serviço do colectivo.
Dost era um matador mas não se associava muito ao jogo. Mas era um PL letal dentro de área e com números brutais enquanto cá esteve.
Mantorras
Curioso que ainda ha uns dias falava com um amigo sobre o Taremi e comparava a sua importancia a do Jonas. Enquanto jogadores, do ponto de vista individual ha algumas diferencas, diria que Jonas tinha mais golo e capacidade de finalizar, mas Taremi tem uma rotacao muito maior e consegue ser muito mais versatil em campo que Jonas, que tambem chegou numa fase diferente da carreira.
No entanto, em termos de impacto no jogo e importancia na equipa sao semelhantes, e Taremi tambem e um jogador com muita classe, quer a finalizar, quer a assistir.
E inteligente, tanto na forma como ocupa os espacos e se move, como na forma como entende o jogo, que lhe permite fazer tantas posicoes com qualidade. Ele nao so troca de posicoes durante o jogo, quando e preciso, mas e mesmo uma especie de “hibrido especializado”, ja que e muito bom a fazer varias coisas, e partindo da sua posicao alterna entre elas apenas em funcao da equipa e do adversario, durante o jogo, de forma natural.
O esquema do Porto do SC tem varios jogadores fundamentais e acaba por ser curioso como normalmente sao jogadores capazes de ser hibridos em campo e cobrir varias posicoes/funcoes diferentes dependendo dos momentos, e SC utiliza isso muito bem.
Quanto aos contactos ele ainda e pior que o James Harden e esse talvez seja mesmo o atleta que alguma vez vestiu uma camisola do Benfica que mais perto dele esta nesse sentido, ja que mesmo JVP ou Jonas, Jardel ou outro qualquer, estao bem longe do nivel do Taremi, nesse aspecto, para mim. Procurar deliberadamente o contacto como “premium solution” para os problemas assim que entra na area e falecer e muito mau.
Francisco Ramos
Relativamente ao Jonas e Taremi, existem algumas diferenças em termos de qualidade técnica/posição. Em termos de qualidade individual, acho que o Jonas tinha um instinto matador superior ao Taremi, principalmente ao primeiro toque. Mas o Jonas era alguém que não saía muito da zona de finalização, excepto em movimentos retilíneos para vir dar apoio ao médio, ao contrário do Taremi que anda muito mais fugido da área para efectuar outras coisas que Sérgio lhe pede e com isso tem menos golo mas permite que os seus colegas tenham melhores números. E isso reflete-se no número de assistências que é idêntico mas Jonas tem mais 70 jogos para o atingir. Agora em termos de importância acho que estão muito semelhantes para as suas épocas no clube em questão.
Sobre o contacto não estou a dizer que estão ao mesmo nível, estou a dizer que não é o primeiro “piscineiro” nem será o último. E em termos globais, puxei a época do Jardel com 18 penaltis porque são números que se assemelham aos dos últimos anos do Porto, considerando todas as competições. E quem ganhava a maioria destes penaltis eram JVP mas agora com o recurso ao VAR eles podem ser revertidos pelo que cada um terá que desempenhar o seu papel e é para isso que lá está o árbitro.
Pior ainda, os jogadores sabem disso e agora levam mais amarelos por simulação pelo que devem mesurar quando caem sem contacto que os pode levar a ser expulsos, tanto é que Taremi já tem 4 expulsões no Porto, mais do que no resto da sua carreira (1/3 dos minutos são no Porto) e ele sempre foi inteligente nestes movimentos.
Boris
Excelente texto.
lipe
Tendo em conta a proximidade entre o Irão e o Qatar, não esperaria grandes demonstrações durante o Mundial.
Claudio V.
Hmmmmm, o Irão é de quem mais combate a Al-Qaeda na verdade. Não que isso desculpe a teocracia interna
Rosso
Escrevi agora isso mesmo. Mas é verdade que há alguma proximidade entre o Irão e o Qatar, o que levou ao bloqueio económico deste pela Arábia Saudita e outros países do Golfo. Diz-se aliás que a compra de Neymar pelo PSG foi ma prova de força económica dos qataris.
BAFANA BAFANA
Excelente texto!
Ainda que não seja o estilo de pessoa/jogador que eu aprecie, super conflituoso, sempre a mandar-se para o chão, etc. é um dos grandes jogadores da nossa liga e que joga muito e faz jogar…
Só se pode louvar a sua posição, especialmente agora na altura de imensos protestes que estão a existir no Irão, e não é fácil, porque lá está “Quem se mete com o Irão leva”
Tiago Cardoso
Se há jogador que não é conflituoso, e muito menos super conflituoso, é o Taremi!
Neville Longbottom
Nao e? Basta perder (como se viu).