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A arte da posição certa

A polivalência é uma das características mais apreciadas no futebol moderno. Jogadores com a capacidade de fazerem mais do que uma posição, mantendo a performance. Na verdade, a velocidade e as diferenças tácticas que ocorrem dentro de um só jogo, obrigam a um reajuste rápido por parte dos atletas. Contudo, parece-me evidente que colocar um jogador na posição certa e sobretudo com as tarefas certas, permitirá sempre que este esteja mais próximo da sua melhor versão. Olhemos de forma mais particular para dois casos concretos.

João Félix

Quando olhamos para Félix, esperamos vê-lo concretizar todo o potencial que lhe é reconhecido. Com um toque de bola invulgar, basta uma simples recepção para se compreender que estamos perante um jogador altamente diferenciado. Porém, Félix tem apresentado dificuldades em replicar o futebol dos seus primeiros seis meses de carreira no Benfica. Passagens cinzentas por Madrid, Londres e Barcelona, com laivos de genialidade aqui e ali. Muito se debate sobre os fatores que contribuem para este rendimento. Desde da falta de mentalidade competitiva às distrações fora do campo, passando pela postura defensiva e ideias dos seus treinadores, muito se tem dito sobre o jovem prodígio.  Falamos muito do que não vemos e apenas supomos, mas pouco daquilo que vemos. Gostaria então de falar daquilo que é possível ver em jogo. E naquilo que é possível ver em jogo, acabo a ter uma opinião bem simplista: Félix joga muitas vezes em sub-rendimento, porque não joga onde devia jogar.

Desde que saiu do Benfica, Félix dividiu a grande maioria do tempo, ou encostado à ala esquerda, ou como referência na frente. Ora nisto perde-se a sua principal característica. Capacidade para jogar em espaços curtos e aproveitar o espaço entre linhas. Félix é um jogador de roturas e de definição, sendo que tem uma capacidade de finalização bastante interessante. Contudo, quando se lhe retira a imprevisibilidade do corredor central e se puxa para uma faixa, torna-se presa fácil, pois a tendência será sempre a de vir para o meio e porque dificilmente ganhará na velocidade e/ou físico.

Cristiano Ronaldo

É praticamente unânime que Ronaldo tem conseguido adaptar-se ao longo dos anos para potenciar a sua longevidade. Desde dos seus primórdios como extremo puro até a uma espécie de segundo avançado que vinha da esquerda, Cristiano soube camuflar as suas dificuldades e potenciar as suas virtudes como poucos. Sobretudo desde do surgimento, em 2014, da sua lesão crónica no joelho que tem sido um jogador bastante diferente. Menos exuberante e evitando o contacto físico ao máximo, como forma de evitar lesões, vemos uma menor predisposição para o drible e um maior foco naquilo que é a movimentação sem bola. Ora com a perda de explosividade Cristiano tem migrado progressivamente para o corredor central. Nos últimos anos, em diversos contextos tem jogado como referência ofensiva. Precisamos de recuar à época de 2017/2018, a última de Real Madrid, para encontrar alguém que tenha potenciado Ronaldo ao máximo nesta sua nova fase. Jogando no papel como avançado em dupla com Benzema, a verdade é que Ronaldo na prática era um vagabundo com liberdade para atacar os espaços abertos pelos colegas, assim vivia quase de último toque. Tome-se como exemplo, os dois golos que fez na final da Champions de 17/18. Ora para jogar como referência, é necessário alguém que empurre a linha defensiva e que consiga jogar de costas, aguentando os contactos, sendo CR7 um aproveitador de espaços e um jogador que procura evitar o choque, parece-me totalmente contraproducente atribuir-lhe tal papel. Neste cenário, não só Ronaldo fica prejudicado pois não tem o parceiro que lhe permita ter espaços para explorar, como a própria equipa fica prejudicada, pois em muitas situações vemos Ronaldo fora de posição, o que resulta frequentemente em sobreposições sem sentido e numa ausência de referência onde a equipa possa esticar jogo.

Muitas vezes debatemos se Félix tem desperdiçado o seu talento, se Ronaldo já está a mais e com tantos outros fazemos leituras rápidas e injustas. Obviamente que muitas vezes os atletas têm a sua quota parte de responsabilidade, contudo não me parece justa uma avaliação tão definitiva, quando um atleta não demonstrar no papel que melhor lhe cabe. Obviamente que o teste contra a Irlanda é insuficiente para tirar ilações, mas quando vemos um Félix com liberdade, ao invés de estar “preso” à faixa e um Ronaldo que pode sair da zona do PL, sem que a equipa não fique sem referência, vimos que o jogo foi fluído e que estes dois mal-amados conseguiram ter performances bastante satisfatórias. Entristece-me, sobretudo por saber que provavelmente esta foi a exceção e não a regra. Estes são apenas dois dos exemplos que me parecem em subaproveitamento, mas quantos craques não haverão aí, escondidos por detrás de um papel/função que simplesmente não lhes assenta.

Visão do Leitor: Santander

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

6 Comentários

  • CABONG
    Posted Junho 12, 2024 at 5:12 pm

    Parte do problema de Félix é a posição onde o querem colocar( faixa) mas também o seu pouco compromisso com a equipa.
    Félix apesar do seu talento é um jogador pouco competitivo, que por vezes se desliga do jogo.
    Ainda ontem durante grande parte do jogo teve decisões questionáveis e até falhou alguns passes sem oposição em superioridade numérica fruto de um aparente desligamento do que o rodeia.
    Parece claramente um jogador conformado com a situação que tem até porque tem um contrato longuíssimo garantido.
    Neste Portugal será sempre suplente de Bruno Fernandes( que pode jogar na transição como jogou ontem mas é mais forte a jogar na posição de Félix).
    Sobre Ronaldo é a questão do costume: o sistema para ter o melhor Ronaldo é diferente do sistema para ter o melhor dos outros todos.
    Resta decidir de quem se abdica.
    Mas presumo que se vai fazer aquilo que se fez no passado tentar encaixar 2 peças de tetris com estruturas que não encaixam

  • Tiago Silva
    Posted Junho 12, 2024 at 5:41 pm

    Excelente texto na qual concordo a 100%. E é por isso que o papel do treinador é tão importante e é por isso que o papel de quem constroi uma equipa é tão importante. Há jogadores mais completos que outros, mas na teoria os jogadores têm características únicas e cabe aos treinadores retirarem-lhe o máximo de potencial dos jogadores que têm. Os casos do Ronaldo e principalmente do Felix são na mouche, têm características específicas que não encaixam nos papéis que têm feito nos últimos tempos. O mesmo para o Morato no Benfica por exemplo, não quer dizer que seja mau jogador mas pareceu ser porque o Schmidt lhe pediu para jogar como um lateral ofensivo e a precisar de atacar, pediu-lhe para pisar terrenos desconhecidos e ele não se adaptou. Já um Aursnes como é um jogador muito completo mesmo taticamente cabe em muitos papéis e funções e isso é também uma característica única dele.
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    Por isso é que os jogadores têm que pensar bem onde querem jogar, onde poderão encaixar na equipa e os treinadores têm que fazer esse trabalho com os jogadores depois de chegarem e com os funcionários da equipa técnica antes destes chegarem. Não se pode só contratar craques aos montes, é necessário saber montar uma equipa onde todos caibam bem nos seus papéis.
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    E também é por isso que sou contra chamar os melhores à seleção só por si, o selecionador tem que saber quais são os melhores para os papeis que ele quer ter na equipa. Ora os melhores selecionadores são os que conseguem conciliar o talento que têm em mãos e colocar o que tem nas suas melhores funções de forma a retirar o melhor dos seus executantes.

  • iniesta27
    Posted Junho 12, 2024 at 6:51 pm

    Concordo muito com o texto. Há muitas críticas e até um ódio estranho ao João Félix. A verdade é que, desde que saiu do benfica, praticamente nunca mais jogou a 9,5. Ontem jogou a 10/9,5 e, pasmem-se, já agradou mais à malta.
    Outra questão que por vezes me incomoda ler é que o Félix não defende e não pressiona. Epa, eu aceito as opiniões claro, mas puxem atrás para o jogo de ontem. Pressionou tanto ou mais que todos os outros da frente. Recuou e ajudou a tapar buracos a defender.
    Não estou a defender a falta de desempenho dele ao longo dos anos. Com a qualidade que tem, no mínimo adaptava-se à posição de extremo esquerdo e rendia lá. Mas que dá gosto vê-lo a jogar no meio e entrelinhas, sem dúvida. Espero que jogue nesta posição no Barcelona e acredito que o Flick o coloque a 10 pois essa posição costuma existir nas equipas dele.
    Quanto ao Euro, espero que o Roberto Martinez utilize este sistema mais vezes, até porque um sistema que beneficia Ronaldo, Félix, Bruno, eventualmente Bernardo e Diogo Jota, é sempre uma boa opção.

    • Mantorras
      Posted Junho 13, 2024 at 3:37 pm

      Vale o que vale, e so a minha opiniao, mas tambem vi jogos onde o Di Maria esteve mais comprometido. Isso nao invalida que, no geral, nao o seja. O problema nao e “um jogo”, mas sim isso nao ser um dado adquirido “todos os jogos”. Na elite do futebol o compromisso tem que ser instantaneo, a 100%, em todos os minutos do jogo. Tem que estar constantemente pronto e atento, a ler o jogo, e reagir de acordo.
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      Voltando ao paralelo com Di Maria, vi muitas vezes ele demorar 30s apos perderem a bola para esbocar um sprint, ficando fora da posicao, deixando o adversario entrar pelo lado dele e chegarem a frente, obrigando a equipa a recuar, porque o “homem livre” era facil de encontrar, mas depois de o adversario estar instalado na frente e a sua equipa recuada, la vinha ele fazer um carrinho. Nao e eficaz. Ser intenso naqueles 6/7 segundos pos perda e obrigar a jogar mal, ou para tras pausando a saida, porque saltou em cima, ou cobriu bem a linha de passe ou recuperou a posicao a tempo de impedir a bola entrar do lado dele, e muito mais eficaz do que nao fazer nada disso, mesmo que depois corte a bola na defesa 1min mais tarde. O Felix tem muito disto.

  • Pedro_Almeida
    Posted Junho 13, 2024 at 5:16 am

    Podem existir e ter existido várias razões pelas quais o Félix ainda não ter rendido ao alto nível de uma forma consistente e uma dessas é de facto a posição dele. Contudo e da minha visão do português é que simplesmente lhe pedem para ser um jogador robotico dentro de um sistema quer de Simeone ou do Xavi( não conto o Chelsea porque neste momento é um clube sem rumo) quando ele é o último verdadeiro 10 tuga que tivemos.
    Na realidade do campeonato português é claro que se iria destacar porque qualidade está lá toda o problema é que quando o nível sobe, as equipas em que jogou não têm um estilo de jogo fléxivel( neste momento só o Real tem também) que lhe permite ser o vagabundo que referes.
    Para mim o todos os jogadores de topo têm uma coisa ou duas que os distinguem, o Félix tem vários primeiro uma coisa que poucos têm é faro para o golo, depois finalização, em terceiro a definição em espaços curtos na criação e por último a qualidade técnica( também é criativo como um médio ofensivo mas não é na maioria das vezes utilizado para esses fins porque o futebol atual é demasiado sistematizado). Por isso mesmo que quando surgiu acho que todos os benfiquistas acharam que estavamos perante um jogador capaz de um dia chegar à luta pela Bola de Ouro( parece exagerado falando agora mas se analizarem o que ele fez no curto espaço de tempo que esteve no Benfica tudo indicava esse destino).
    Tenho pena que cheguemos a 2024 e Félix ainda não tenha tido a sua afirmação no topo do Futebol e mais triste fico com o facto de que estejamos a perder um talento geracional por este ter nascido na geração errada.

  • Mantorras
    Posted Junho 13, 2024 at 10:22 am

    Concordo com o que referes, mas ele tem um problema de atitude.
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    A maioria dos jogadores adapta-se a outras posicoes. O Felix podia ser um medio ofensivo com muita capacidade para aparecer na frente e cabia em muito mais equipas. Bastaria uma dupla de medios que lhe permitisse nao defender “por ai alem”, mas seria necessaria muito mais capacidade sem bola, melhor reaccao a perda, com intensidade.
    Tambem podia jogar na linha, tal como Xavi entendeu, dar a linha ao lateral e vir Felix dentro a atacar. Resultou muito bem no inicio, mas o problema principal manteve-se: pouca intensidade sem bola e uma reaccao a perda digna dos anos 90.
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    Adaptar-se a outras posicoes e ser produtivo/capaz e algo que quase todos os jogadores acabam por fazer em algum momento. Lidar com isso faz parte. Para na elite ha sempre 2 ou 3 coisas que “tens que dar” ao treinador/equipa para “caberes la dentro”. Ninguem lhe esta a pedir para amputar 2 dedos da mao, apenas um ou outro movimento tatico, pressionar quando a bola entrar neste ou naquele e compensar aquele colega que joga perto, quando ele for atraido a outro sitio. Algo deste genero. Estar consciente do jogo colectivo e pronto para ajudar nao pode ser um bicho de sete cabecas para o jogador.
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    E nos jogos contra as equipas com as quais ele ja entra picado? Ou quando sente que tem algo a provar, como foi no inicio da epoca? Mais vontade, mais focado, mais envolvido, a querer competir, a querer mostrar e a querer ganhar… resulta quase sempre em bons jogos e impacto nos mesmos. E ai sim, ve-se que tem (tinha?) potencial para chegar ao nivel acima, mas a regularidade no nivel seguinte so chega com muito trabalho.

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