Portugal entrou com o pé direito no Euro-2024. Apenas a 4ª estreia vitoriosa em 9 participações no Campeonato da Europa. Havia uma grande expectativa para a estreia da Seleção. Depois de se ter visto um pouco de tudo, desde de favoritos a cilindrar até vitórias sofridas, gerou-se uma enorme curiosidade de como é que os apaixonados iriam apresentar a sua candidatura à conquista da Europa. O jogo acabou por sorrir perto do fim, contudo os 90 minutos foram bastante cinzentos. Com certeza existem pontos positivos a serem retirados deste jogo. Comecemos por aí. A reação à perda foi bastante eficaz, a pressão alta foi bem feita e em bloco, as segundas bolas foram ganhas invariavelmente pelos lusos e a gestão em posse foi avassaladora.
Vamos então aos pontos negativos. O jogo sem bola da grande parte dos intervenientes foi praticamente nulo, a equipa praticamente toda a passo. Foi ainda notório o desgaste físico de alguns jogadores, com Bernardo à cabeça. Não seria melhor poupá-los nesta fase de grupos para estarem fisicamente mais frescos para jogos de maior exigência? Pouca utilização da meia distância. Sofremos um golo da Chéquia num remate de meia distância, mas nós praticamente não utilizamos esse recurso. Por fim, a dificuldade enorme de desmontar blocos baixos e criar situações de perigo, seja no desequilíbrio individual, seja na rotura. É sobre este último ponto que gostaria de me debruçar.
Há dias, e tendo por base o jogo com a Irlanda, escrevi um artigo onde expus a minha visão sobre o papel e a posição de Félix e Ronaldo. Escrevi nesse artigo que o que me entristecia mais era ter a ideia de que aquilo que tinha acontecido com a Irlanda iria ser a exceção e não a regra. Chegada a 1ª jornada da fase de grupos do Euro, era que essa expectativa estava correta.
A seleção denotou uma dificuldade enorme em criar jogo, apesar do controlo da posse. Em muitos momentos faltava uma referência na frente. Leão, que tinha atuado mais por dentro com a Irlanda, estava a dar toda a largura sempre encostado à linha, o que fazia com que sempre que tentava vir para dentro tinha de ultrapassar pelo menos 3 adversários. Nuno Mendes jogando como central tinha liberdade para subir, mas sendo um lateral que dá mais largura do que jogo interior, muitas das vezes acabava a “chocar” com Leão na linha. Ronaldo que tem características para ser um aproveitador de espaços e não um criador, esteve sempre órfão na frente de ataque, frente a três centrais, e quando descaía para a direita (tal como aconteceu com a Irlanda), não havia qualquer compensação no corredor central (pois Leão estava demasiado aberto para compensar), o que deixava os três centrais checos totalmente à vontade. A liberdade de Cancelo para progredir com bola por dentro implicou que Bruno Fernandes (que apesar disso fez um jogo muito abaixo tecnicamente) ficasse demasiado recuado e do lado direito faltou sempre clarividência a Bernardo, pois não dando largura pede-se bastante mais jogo interior, mas em diversas circunstâncias o mesmo coincidia com um Ronaldo descaído para a direita, o que dificultava a associação no corredor central. Martínez pretendia uma equipa maleável que não se desse à marcação, mas com tanta plasticidade acabou por ter demasiados jogadores fora de posição e empenhados em tarefas que não beneficiavam a equipa.
O jogo valeu pelos três pontos, mas a estrela pode não durar sempre. As dinâmicas serão o mais essencial para o sucesso e sem ocasiões fica difícil ganhar jogos. Infelizmente volto a pensar que este tipo de situações se irão repetir no futuro. Tem a palavra o selecionador nacional.
Visão do Leitor: Santander


7 Comentários
Mantorras
Bernardo devia sair e descansar, de facto parece algo “morto”, mas essencialmente a equipa precisa de outras dinamicas ali. Para gerir um jogo entende-se, mas quando ainda nao se esta a gerir nada acaba por ser demasiado controlo e pouco rasgo. Nao tiraria Bruno, nem Vitinha, e os 3 ao mesmo tempo acho demasiado, pelo que sairia ele.
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O nosso meio campo precisa sempre de Palhinha ou Neves, continuo a achar que Palhinha com 3 centrais atras pode ser “redundante”, em algumas coisas, mas tampao precisa-se na mesma, ou seja, alguem para pressionar e recuperar bolas. Comigo, com 3 centrais jogava o Neves, com 4 defesas jogava o Palhinha, mas estamos sempre bem servidos desde que jogue um deles.
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Bruno tem que jogar mais a frente. Sim, da outro pendor ofensivo a equipa ter o Bruno ali, mas jogar o Palhinha o Vitinha consegue encontrar os passes e as ropturas que o Bruno ali faz, porque ali ainda nao e o sitio mais dificil para o fazer. Nos precisamos do Bruno mais a frente e com mais liberdade, porque ai fica muito mais dificil e ai o Bruno destaca-se, quer no passe como no remate. Mais que Bernardo ou Felix ou outro qualquer.
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O Mendes tem dificuldades a sair a jogar. Nao entendo porque nao jogou o Inacio. O miudo, para jogar contra equipas sentadas atras, e top. Mete passes que alguns medios nao conseguem, tem boa visao de jogo e muito conforto com bola.
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A Turquia e uma equipa que tem muita capacidade tecnica, muitos bons rematadores, e acaba por ser muito forte a jogar por dentro. Parece-me que Portugal deve investir em jogar muito pelas alas e atacar o lado contrario, como fez a Georgia e muitas dificuldades criou. Eles sao algo anarquicos taticamente, e sofrem na transicao defensiva e a ir de um lado ao outro, nas mudancas de flanco. Temos que os fazer correr, tirar a bola do meio e abrir o campo, e depois atacar o lado contrario sem que sejam necessarios 45 passes curtos para la chegar, ou seja, mudar rapido. Se o fizermos vai haver espaco para desiquilibrar.
Aboubakar93
Gostei muita da análise vai muito de encontro ao que penso. Parabéns Santander!
CABONG
Eu tenho uma visão diferente sobre o facto dos 2 melhores jogadores portugueses da actualidade estarem em sub rendimento.
Terá mais a ver com a dinâmica que uma questão física.
Portugal está numa encruzilhada como Itália estava à 25 anos em que tinha Totti, Del Piero e Baggio e que por obra e graça teriam de jogar juntos.
Bruno Fernandes e Bernardo( e até a bem pouco tempo Félix) teriam de jogar todos juntos por decreto.
Obviamente que as coisas não corriam bem( ainda que corra para Bernardo no City, Portugal não tem as mesmas dinâmicas).
E nem sempre os melhores jogadores são compatíveis porque a dinâmica colectiva não o permite!
Vamos ver o que Martinez decide daqui para a frente
whatyouth
Acho que a ideia de meter o Cancelo estilo joker saiu completamente ao lado. Os três da frente têm de jogar mais por dentro, apertar mais e deixar de meter as bolas todas na linha. Neste jogo os jogadores nunca conseguiram passar para o espaço porque a Chéquia defendeu sempre com 11 jogadores, por isso é que era essencial ter jogadores de rutura e capazes de se movimentar em espaços curtos (Jota, Conceição, G. Ramos ou mesmo o Matheus Nunes). O ponta de lança tem de jogar com um apoio atrás que não seja o Bruno Fernandes, porque esse não sabe, por muito que queiram, jogar a falso 9, no máximo consegue fazer a posição 10 mas não ocupa os espaços que o João Félix ocupa entre linhas, por exemplo.
Jasomp
O caso do Bernardo Silva é flagrante. É certo que foi bastante utilizado no City (embora nem top-3 de utilização tenha sido), mas nos últimos 20/25 dias, só fez 1 jogo. Não vejo que o desgaste justifique o facto do rapaz ter parecido um jogador dos infantis a bater bolas, todas sem força nenhuma…
Ele diz que não gosta de ir ao ginásio. Mas talvez lhe fizesse bem para ganhar a resistência que os colegas têm e que ele não parece ter.
Mantorras
Ganhar resistencia? O Bernardo e o jogador que mais corre na Premier, ou dos que mais corre, ano apos ano.
CABONG
Um jogador bater a bola com força ou não é uma questão técnica e não de força ou de peso.
Aliás tecnicamente, o remate sempre foi a grande pecha de Portugal.