A seleção voltou ontem. Num ambiente de festa pela homenagem a Pepe, aquilo que se viu em campo foi claramente insuficiente. Disfarçado pelo resultado e pela pouca importância que é dada à Liga das Nações, as dinâmicas da equipa voltaram a ser erráticas. Viu-se a seleção a sofrer constantes calafrios na transição defensiva, a ser pouco efetiva em ataque posicional e com baixa capacidade para gerir o jogo em posse. A grande sorte de Roberto Martínez é que a qualidade é tanta que vai dando para camuflar todas as deficiências do jogo português. Podemos discutir convocatórias, podemos discutir Ronaldo, podemos discutir a gestão do grupo, mas neste sistema e nestas dinâmicas podemos mudar tudo o resto que muito possivelmente o resultado será o mesmo. Uma análise algum dos equívocos do selecionador:
Ronaldo:
Quem acompanha o Al-Nassr, sabe que o capitão português está longe de ser o típico PL. Ronaldo ocupa a posição de forma declarada no momento defensivo, pois permite uma gestão de esforço diferente. Contudo, em ataque posicional Ronaldo sai de forma constante de posição, sendo o corredor central ocupado por Mané, Talisca, ou Otávio, dependendo da situação e da zona do campo onde se desenrola o ataque. Ontem e ao contrário do que se viu no europeu, vimos Ronaldo com essa liberdade para sair do corredor central e poder vaguear pelo ataque. Porém, para que a equipa flua é necessário uma série de compensações que muitas vezes não funcionaram. Para além disso, quando Ronaldo descaía para o corredor esquerdo, Leão mantinha-se lá e Nuno Mendes com funções ofensivas também surgia nessa zona do campo, criando uma sobrelotação de atletas num curto espaço de terreno e inevitavelmente um deserto em outras zonas.
Bruno Fernandes:
O capitão dos Red Devils era o responsável (aparentemente) por compensar a posição de PL, quando Ronaldo saía do corredor central. Obrigando o Bruno a colocar-se entre os centrais, fez com que em situações de perda da posse e de transição, que o meio campo português tivesse constantemente em inferioridade numérica. Pasalic, Kovacic, Baturina e Modric ficavam invariavelmente em superioridade para Vitinha e Bernardo, o que dificultava de sobremaneira o estancar da transição. Havendo a saída da zona central de Ronaldo, implica que o espaço aberto seja aproveitado por movimentos de rotura dos médios que raramente aconteceram, sendo que era ocupado posicionalmente pelo Bruno. A superioridade era criada pelo corredor do lado esquerdo sendo que invariavelmente a solução passava por cruzamentos. A probabilidade de sucesso de Bruno, ou Bernardo (aparecendo ao 2º poste) ganharem um duelo aéreo é naturalmente diminuta. Colocando Ronaldo, Leão e Nuno Mendes no corredor e pedindo a Bruno para ficar na área, com a possibilidade de Bernardo atacar o 2º poste, ou manter-se mais aberto sobrava Vitinha para uma possível 2ª bola, manifestamente insuficiente. Para além de tudo isto, o facto de esta compensação ser feita pelo Bruno, mantendo Leão aberto, acaba por fazer com que se perca a melhor capacidade do maiato no passe longo e/ou profundidade.
Bernardo Silva:
Em primeiro lugar, considero que em Portugal se espera algo do Bernardo totalmente diferente daquilo que faz no City todo o ano. Bernardo é um jogador de equilíbrios e não um jogador de desequilíbrios. Em muitos momentos sinto que a nação pede e espera de Bernardo coisas totalmente diferentes daquilo que pode oferecer. Feito o à parte, Bernardo também não sai beneficiado das dinâmicas da seleção. Sobretudo, porque joga muitas vezes demasiado isolado para conseguir o jogo associativo que o beneficia. Para além disso, Bernardo é um jogador que aproveita como poucos os movimentos de rotura dos companheiros, ora na seleção existem muito poucos jogadores da seleção no 11 base que prefira receber no espaço do que no pé e com isso anula-se a principal capacidade de desequilíbrio que Bernardo oferece.
Em suma, Roberto Martínez tem de tomar decisões. Portugal dispõe de uma das melhores gerações da sua história, mas neste momento parece ser mais vítima dessa qualidade do que a colher os seus benefícios. Não é possível conjugar 4|5 atletas que rendem tendo liberdade total no campo. Não é possível conjugar atletas que apenas privilegiam a bola no pé. Não é possível jogar sem 9 se as dinâmicas sem bola não são ajustadas a essa realidade. Neste momento, Portugal é um mar de equívocos táticos. A boa notícia é que se vai bem a tempo de corrigir e há qualidade suficiente para isso mesmo. Agora tem a palavra Martínez.
Visão do Leitor: Santander


8 Comentários
Jasomp
Excelente post. Muitas das insuficiências que verificamos na seleção já vêm do Fernando Santos e Roberto Martinez, infelizmente, não se tem mostrado capaz de as debelar. Aliás, e aliado ao Europeu pobre de Portugal, parece-me óbvio que com o espanhol não vamos passar disto. Por muita qualidade que tenhamos.
disturbed17
Incrível como é que em todos os jogos a seleção aparece com uma disposição táctica diferente.
Depois a insistência em fazer jogar os “melhores” quando já se viu que não são compatíveis, não se pode jogar com Bernardo no meio sendo os outros 2 médios Bruno e Vitinha.
A verdade é mesmo essa, Portugal tem jogadores tão bons que mesmo andando à deriva pelo campo a capacidade individual é suficiente para ganhar maioria dos jogos.
Agora uma opinião controversa, já que Martinez descobriu que os jogadores do Sporting são convocaveis, já que a sua ideia de jogo será sempre os 3 centrais, já que o Sporting joga com 3 centrais, porque não criar uma base a partir daí? Relembro que Portugal teve grandes sucessos em 2 europeus usando jogadores de um clube como base (Porto no Euro 2004 e Sporting no Euro 2016)
Não estou com isto a dizer que Trincão, Pote, Quaresma, Inácio, Nuno Santos ou até Quenda tenham que ser todos titulares ou sequer convocados mas fica a ideia…
Neville Longbottom
Portugal teve sucesso em 2016 mas não foi pela base do Sporting de certeza absoluta, basta ver como o meio campo (onde estava essa suposta base) foi engolido em muitos momentos. Isso foi um mito que se criou.
Pao com Presunto
Boa análise. É preciso entender que o futebol de selecções não flui da mesma maneira que o futebol de clubes, por razões óbvias. Muito poucas conseguem fazê-lo de forma exímia. Espanha é um exemplo disso, mas os conceitos de jogo são transversais nos escalões de formação e existem certos perfis de jogadores que simplesmente não chegam à La Roja – quando é que se viu um trinco “tampão” estilo Palhinha na La Roja? Que eu me lembre, não.
Ainda assim, com o luxo à disposição que Martinez tem, o plano deveria ser este:
– Definir um estilo de jogo, em vez de tentar conjugar os melhores 11 em campo (exemplo: jogadores como Bruno e Bernardo não coabitam bem, pois devem pisar os mesmos terrenos, apesar de terem perfis de jogo diferentes). Martinez pode querer (acho bem que o faça até) trabalhar um esquema de 3 centrais ou uma defesa a 4 por exemplo, mas os jogadores para cada estilo de jogo devem estar bem definidos. Sistemas híbridos como o que vimos ontem funcionam, mas necessitam de muito trabalho diário, coisa que não existe num calendário de selecções;
– Depois, dentro dos perfis de jogador, escolher os que estão em melhor forma, e não apenas os que são intrinsecamente melhores, ignorando momentos de forma. Novo exemplo: pode definir para si uma pool de 8/10 centrais, mas dentro destes, deve imaginar sub-grupos de 2 ou 3 jogadores, em que, imagine-se, os centrais que gostam de sair com bola lutam entre si pelo lugar no 11, de forma a não cair em erros estruturais como ontem (perfis de médios iguais, alas em que uns preferem ir à linha, e outros procuram jogo interior, etc). Desta forma, poderia mexer os 11’s e durante os jogos, sem comprometer o jogo táctico de Portugal;
-Por fim, aproveitar as dinâmicas que os jogadores trazem dos clubes. Com o nível de observação de hoje em dia, não será difícil acompanhar os jogos praticados pelos clubes de topo a que os nossos jogadores pertencem. É difícil para mim, mero adepto, dar um exemplo prático actual, mas lembro-me do meio campo do Sporting no Euro 2016 ou as dinâmicas dos jogadores do Porto no Euro 2004. Pode-se, deve-se, tentar aproveitar essas rotinas, porque só mesmo selecções de topo como a nossa podem dar-se a este luxo.
Só por estas linhas gerais, o futebol jogado iria melhorar substancialmente, porque os jogadores iriam sentir-se menos condicionados quando jogam entre si, e ao mesmo tempo sentiriam que podem lutar por um lugar na equipa, em cada pausa de selecções.
Neville Longbottom
O Palhinha não é um médio tampão, ou não é só. A Espanha foi campeã da Europa com um médio que até acho parecido na forma de jogar, o Senna.
.
Quanto ao resto, Portugal em 2016 não jogava nada (como não joga há largos anos), não houve qualquer tipo de aproveitamento das rotinas do meio campo do Sporting, porque havia vários corpos estranhos, um deles o Renato Sanches que foi importante depois dos grupos, ou o André Gomes antes disso.
Pao com Presunto
Percebo. Diria que há outliers na equação, até porque não me recordo dessa influência toda de um jogador cujo pico foi o Villareal e que totalizou… 26 internacionalizações.
Quanto ao Euro 2016, verdade que não jogámos um charuto, o exemplo do euro 2004 é mais óbvio. Acho que o ponto é lógico, não posso falar do que não vi, mas faz todo o sentido para mim.
Paulo Roberto Falcao
As ronaldetes são de facto patéticas, quando entre dares liberdade ao Rafael Leão ou ao Ronaldo atual preferes o Ronaldo, e que se lixe o Rafael Leão, está tudo dito. Não há 4-3-3 ou 4-4-2 que torne um camelo num cavalo!
Ricardo10_
Enquanto o Ronaldo tiver obrigatoriamente de ser titular, não há táctica que resulte ou que resulte muito bem. Quem ainda não percebeu isso em setembro de 2024, tem sérios problemas.
Além do espanhol ser irmão do alemão. Possivelmente filhos de uns primos direitos.