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A (difícil) luta dos Românticos do Futebol

Durante a Segunda Guerra Mundial houve, independentemente da nacionalidade, figuras militares que se destacaram. No caso dos aliados, os dois nomes mais fortes foram Bernard Montgomery e George Patton que, apesar de estarem do mesmo lado da barricada, nem sempre estavam em acordo. O primeiro, um homem da velha escola britânica, foi eficiente em algumas das mais importantes operações do conflito mas o modo como, por vezes, receava em demasia o inimigo, atacando apenas pela certa (quanto estivesse em vantagem numa razão de 5-1), não contribuiui muito para a sua imagem, tendo, hoje, um fraco reconhecimento. Em contrapartida Patton, americano de sangue quente, intrépido e sem “papas na língua” era exatamente o oposto – não obstante as dificuldades, atacava, se assim fosse necessário. O comportamento deste, não raras vezes despropositado, valeu-lhe várias repreensões e suspensões – problema que Montgomery nunca teve. Contudo, a sua fama, de indivíduo corajoso e insubmisso sobreviveu ao passar dos anos, originou um filme oscarizado e garante-lhe, nos dias que correm, uma posição quase imortal.

A nível futebolístico, também há líderes (leia-se treinadores) para todos os gostos, podendo-se agrupar em dois grupos fundamentais: os “Montgomerys”, resultadistas, técnicos pragmáticos, que veem o jogo como um desafio pura e simplesmente a vencer, não dando muita importância a tudo o resto, e os “Pattons”, os “românticos”, comandantes que concebem este desporto como algo mais que dois números num placard, que acreditam na magia do futebol – e não há nada mais mágico que os golos. São vários os representantes desta segunda classe que eu poderia invocar neste texto, como Jürgen Klopp, Pep Guardiola ou Mauricio Pochettino. Porém, há três timoneiros, muito jovens ainda que, apesar do futebol entusiasmante que conseguem colocar os seus jogadores a praticar, continuam a não merecer o devido destaque internacional: Paco Jémez, Slaven Bilić e Roberto Martínez.
Rock e Futebol
Com uma carreira razoável enquanto jogador (30 internacionalizações ao serviço da Croácia, incluindo a presença no memorável Mundial de 1998), Slaven Bilić tem duas paixões: a música – é membro dos Rawbau, uma banda de rock croata – e o futebol. Enquanto treinador principal, ganhou destaque aquando do Euro 2008. Após eliminar a Inglaterra, na qualificação, conseguiu, na fase de grupos do certame, somar 3 vitórias em outros tantos jogos, com relevãncia para o triunfo sobre a Alemanha. Com um futebol aprazível, foi com alguma desilusão que os adeptos balcânicos viram a Croácia cair, nos “quartos”, ante a Turquia, depois de desempate por penaltys. Quatro anos volvidos (após falhar a presença no Campeonato do Mundo), tornou a estar presente no Europeu, mantendo a premissa de jogar bem, sem medo do adversário. E assim foi, com a sua seleção a empatar com a Itália e a quase causar um choque generalizado quando, no derradeiro jogo, esteve próximo de eliminar a Espanha, campeã europeia e mundial. Montando uma tática de futebol ofensivo, de “olhos nos olhos”, Bilić esteve perto de lograr um feito incrível, mas a sorte, e o árbitro, não estiveram do lado do país dos Balcãs. Após o sucesso enquanto selecionador, seguiram-se duas passagens milionárias, primeiro pelo Lokomotiv e depois pelo Besiktas, ficando na memória um quase afastamento do Arsenal, no play-off da Liga dos Campeões (0-0 na Turquia, 1-0 no Emirates). Para a nova temporada, o técnico de 47 anos recebeu uma proposta do West Ham, que aceitou. Para a mais recente aventura, Slaven movimentou-se bem no mercado (a contratação de Payet, que chegou a custo zero e já podia ter saído por 50 Milhões de Euros, revelou-se estrondosa), formou um grupo coeso e com uma mentalidade muito simples: marcar, contra quem seja, onde quer que seja, em qualquer situação. Não arredando pé, nem mesmo perante conjuntos mais poderosos, os “hammers” estão neste momento apenas a 6 pontos do 2.º lugar. Além do mais, triunfaram nos terrenos de Arsenal, Liverpool e Manchester City e no Upton Park não perdem desde agosto. E a verdade é que o treinador croata consegue tudo isto com muitos golos à mistura: com os 42 atuais, são a sexta equipa mais concretizadora da Premier League, tendo, até, já batido o número de golos marcados no total pelo West Ham em 2013/14 (40, na altura) e quase superando o pecúlio em 2012/13 e 2014/15 (45 e 44, respetivamente). Havendo ainda a possibilidade de erguer a Taça de Inglaterra (quartos de final, onde defrontará os “red devils”), há motivos para exclamar: é obra!
Um Espanhol em Inglaterra
Se Bilić teve um percurso razoavelmente interessante com as “chuteiras nos pés”, o mesmo não se pode dizer de Roberto Martínez, que, entre as divisões secundárias de Espanha e de Inglaterra, passou totalmente despercebido ao adepto comum. Porém, enquanto técnico, os resultados do espanhol têm vindo a ser claramente satisfatórios. Com apenas 34 anos, iniciou a carreira de treinador ao serviço do Swansea (penúltimo clube como jogador), sendo capaz, logo no primeiro ano, de vencer a terceira divisão inglesa e, na temporada seguinte, ficando perto de um apuramento impensável para a Premier League. Pois bem, não foi com os “swans”, foi com o Wigam que, após alguma insistência, convenceu o ibérico a assumir o controlo da equipa. Somente com 4 anos de experiência na Liga Inglesa, a esperança dos “latics” em permanecer no escalão principal era curta. Contudo, Martínez transformou o clube de Manchester num “osso duro de roer”, mantendo o emblema na Premier durante 4 épocas (quase uma proeza, tendo em conta a incapacidade do plantel que tinha à disposição). Ao mesmo tempo, como típico em “terras de sua majestade”, praticava um futebol bonito e de ataque. Para se ter noção, no ano em que foi despromovido (em 2012/13), o Wigam foi o 11º mais concretizador da Liga. Ainda nessa temporada, a última no DW Stadium, Martínez ofereceu um título único: a FA Cup, após vitória na final frente ao hiperfavorito Manchester City. Apesar da descida, Roberto ganhara muito mercado em Inglaterra e foi sem grande surpresa que o Everton, órfão de David Moyes, oficializou a sua contratação. A passagem pelos “toffees”, por seu turno, tem sido marcada por uma enorme irregularidade a nível de resultados. Depois de um fantástico 5º lugar na época de estreia (fazendo desde logo esquecer Moyes), no último ano a equipa não foi além do 11º posto, posição que imita em 2015/16. No entanto, a veia goleadora é uma caraterística regular. Considerado um dos conjuntos que melhor pratica a arte do “bem jogar” na Grã-Bretanha, o emblema de Goodison Park tem habituado os seus apoiantes a belos espetáculos, como o 6-2 antes o Sunderland e o 3-4 na receção ao Stoke. Aliás, com 51 tentos na Premier, o Everton é, a par dos “Spurs”, o terceiro clube com melhores registos ofensivos na Liga. Conhecendo bem os “toffees” de Martínez, é impossível garantir em que lugar finalizarão a competição, mas há uma coisa certa: vão dar espetáculo até ao soar do último apito.
O Próximo Selecionador?
Porque o “show” não é só em Inglaterra, em Espanha há um timoneiro que, mais que qualquer outro, merece uma palavra de apreço: Paco Jémez. Orientando um dos plantéis mais frágeis da La Liga (os portugueses Zé Castro e Bebé são opções habituais), o ex-defesa central tem dado muito boa conta do recado, colocando o Rayo Vallecano sistematicamente fora da zona de perigo. Após um sublime 8º lugar no ano de estreia, seguiram-se um 12º e 11º posto – sempre com elencos bem mais “low-cost” que os principais concorrentes. Acontece – e isto é muito relevante – que Jémez, ao invés de outros compatriotas, não quer apenas ganhar – quer ganhar bem. Prova disso é a disposição tática que escolhe para todas as partidas, seja contra o Levante, seja contra o Real Madrid, apostando fortemente no jogo atacante. É óbvio que se tal estratégia resulta eficazmente em determinadas partidas (por exemplo no triunfo 3-0 ante o excelente Celta de Vigo), também pode ter o sentido oposto, como se viu no Santiago Bernabéu, onde os da casa impuseram um 10-2 aos visitantes (ainda assim, e com menos uma unidade desde muito cedo, o Rayo continuou a lutar de igual para igual – só um apaixonado faz isto). Por esta altura, o 16º lugar acaba por ser injusto (com 2 pontos de vantagem sobre o primeiro posto de despromoção) para um conjunto que dá tanto espetáculo numa prova cujo vencedor está praticamente decidido nesta fase. Olhando para a classificação, constata-se que o pequeno emblema de Vallecas soma 37 golos, sendo o 8º mais goleador da competição (o Atlético de Madrid tem somente mais dois e o Villarreal, 4º classificado, averba menos quatro), o que atesta exemplarmente o trabalho brutal que o espanhol tem vindo a desempenhar na capital. Fala-se que poderá ser o próximo selecionador da Espanha e, se pensarmos nessa possibilidade, considerando a incrível panóplia de atletas ofensivos de classe mundial de que os espanhóis dispõem, não poderemos evitar um sorriso.
Três técnicos muito diferentes, habitantes de estádios distintos mas todos “românticos” do futebol. Com mentalidade preconfigurada para procurar a vitória em qualquer desafio e em qualquer campo, os jogadores comandados por Bilić, Martínez e Jémez esforçam-se, todas as semanas, por dar forma à paixão sonhada por estes. Com isso, por estes dias Goodison Park, Upton Park e Vallecas são mini-capitais do futebol, exemplos palpáveis de que este desporto nem sempre tem de ser cinzento. Como Patton certo dia disse, “as guerras podem ser combatidas pelas armas, mas apenas são ganhas pelos homens. É o espírio do homem liderado e o espírito do líder que levam a vitória”. Pois bem, estes três até podem perder alguns jogos – batalhas, mas a forma como lutam constantemente pelo melhor futebol garantir-lhe-à eventualmente a vitória na guerra e um lugar na eternidade.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess

0 Comentários

  • André Dias
    Posted Março 6, 2016 at 2:49 pm

    Obrigado por mais um excelente texto, António Hess.

    De facto, é muito difícil não simpatizar com estes três treinadores. Gostava de ver o Paco Jémez no Valência ou num clube de dimensão semelhante.
    É incrível o que ele faz com tão poucos recursos. Muitos podem criticá-lo pela quantidade de golos sofridos, eu prefiro elogiá-lo pela quantidade de golos marcados com um elenco tão modesto.

    Bilic tem feito um excelente trabalho na Croácia. 21 vitórias e apenas 4 derrotas em 30 jogos. Lembro-me de ficar maravilhado com a selecção croata no último europeu e foi com imensa pena que vi a Espanha vencer a Croácia.

    Quanto a Roberto Martínez, vencer uma FA Cup com o Wigan contra o Man City fala por si. Desceu de divisão e qualificou o Wigan para a Liga Europa, algo surreal e cómico.
    No Everton tem sido, de facto, irregular, mas a qualidade está lá. Creio que conseguir um lugar no Big 6 ou perto disso com mais frequência, pode criar-lhe uma oportunidade num clube com outras aspirações.

    Desejo o melhor aos três, é uma pena não haver mais românticos. A modalidade e os adeptos agradeceriam.

  • Anónimo
    Posted Março 6, 2016 at 2:10 pm

    Algumas notas a complementar o artigo:

    -Payet não chegou a custo zero mas sim por 18/19 milhões. Até foi uma situação algo insólita pois a direcção do Marselha aceitou a proposta mas disse que não queria que o jogador saísse, tentando transformar o jogador no mau da fita;
    -um dado interessante: nos ultimos 6 anos o Rayo gastou 900 000€ em reforços. Algo completamente surreal no futebol de hoje

    Quanto aos treinadores, todos jovens e com ideias interessantes. Contudo, não poria todos no mesmo saco; os números não dizem tudo e falo do que vejo. Bilic na selecção da Croácia muito interessante, sim, mas no west ham apesar de uma ideia de jogo interessante (os resultados falam por si) demonstra um maior pragmatismo, com um processo defensivo forte e a apostar muitas vezes em transições rápidas, entregando muitas vezes o controlo do jogo ao adversário. Martinez sim, com uma filosofia vincada e presente em todas as equipas que treinou. Vendo o Everton jogar verificamos que é uma equipa que quer mandar no jogo, sempre com posse. Diria que a par de Pellegrini foi dos poucos treinadores que conseguiu impor um jogo de posse na PL, com menos matéria-prima (apesar de o Everton ter um óptimo plantel e a obrigação de estar melhor classificado). Falta alguma estabilidade de resultados para fortalecer o processo. Paco Jemez sim, o verdadeiro romântico do futebol. Mais do que verificar que o Rayo tem a 2a/3a melhor percentagem de posse e número de golos nada condizente com a sua posição é ver os jogos e verificar a quantidade de oportunidades que criam e que desperdiçam. Podiam ser mesmo um dos melhores ataques da liga. A capacidade de lutar por um resultado tmb merece o destaque, como provam os recentes empates com Sevilha e Betis. Bloco sempre alto, equipa pressionante, posse de bola (positiva), combinações constantes… Incrível ver uma equipa que luta para não descer a jogar como uma que luta para ganhar o título. E isto muitas vezes a potenciar jogadores que ninguém dava nada por eles. O Rayo tem sido uma lufada de ar fresco e um prazer acompanhar os seus resultados.

    Penso que poderíamos acrescentar aqui outro romântico e ainda por cima "produto nacional": Paulo Fonseca. Podia ir para a China treinar e vermos um jogo da sua equipa sem de facto sabermos qual é que ao fim de 5 minutos já saberíamos.

    Faltam mais românticos ao futebol

    Cumps,

    AE

  • Anónimo
    Posted Março 6, 2016 at 1:01 pm

    Três grandes treinadores que praticam um excelente futebol… ainda ontem o everton teve um grande jogo com o west ham, com a equipa de bilic a dar a volta nos últimos minutos.

    Clockwork

  • Sandro
    Posted Março 6, 2016 at 1:00 pm

    Em Portugal temos o Quim Machado, de resto é só treinadores do anti-jogo.

    Jesus, Rui Vitória, Lito Vidigal…

    • Daniel Alves
      Posted Março 6, 2016 at 5:50 pm

      O Quim Machado no início do campeonato até jogava positivamente, mas quando sofreu as goleadas de Benfica e Sporting e perdeu pontos com equipas do campeonato deles, começou a jogar com mais pragmatismo. O futebol espectáculo é bom, mas no fim são os pontos que contam

    • Chemahatma
      Posted Março 6, 2016 at 3:09 pm

      O Rui Vitória viu-se ontem xD e o Jorge Jesus, lembro me uma vez num SL Benfica vs Sporting CP ter corrido meio campo para mandar o Artur deitar-se no chão.

    • Serafim
      Posted Março 6, 2016 at 1:03 pm

      Vidigal concordo, até enerva (quem tem Bracali arrisca-se a isso…) mas Jesus e Rui Vitória, também não exageremos. Mas sim, Quim machado tem muito mérito porque procura sempre o golo.

  • Diogo
    Posted Março 6, 2016 at 12:04 pm

    Já é altura do Jémez ir para um clube melhor até para se ver se é assim tão bom.

    O Rayo é a segunda equipa que tem mais posse de bola em Espanha mas também são goleados várias vezes por serem de ideias fixas.

    • Chemahatma
      Posted Março 6, 2016 at 3:08 pm

      O Jémez está na sua aprendizagem como treinador, daqui a uns anos será melhor e vai perceber que contra equipas claramente superiores tem que "moderar" o seu estilo sob pena de ser goleado.

    • Anónimo
      Posted Março 6, 2016 at 12:21 pm

      Eles já nem sabem é jogar de outra maneira… Seja contra Barcelona, seja contra uma equipa das ligas secundárias tentam sempre jogar da mesma maneira: a atacar; e a verdade é que conseguem marcar quase sempre (ainda agora contra o Barça, já com menos 1, ainda conseguiram um golo). Gabo a coragem ao Jémez, se bem que se fosse mais contido era provável que, em muitos jogos, conseguisse melhores resultados.

      George Raft

  • Edgar
    Posted Março 6, 2016 at 11:40 am

    Gostava de ver o Paco Jémez no Sporting, pode ser que não falhasse nos momentos decisivos como o treinador actual.

    • Chemahatma
      Posted Março 6, 2016 at 3:07 pm

      ACT7, o Mitroglou não seria titular no Sporting CP, não é por lhe ter marcado um golo que isso iria mudar (o Chamorro também marcou um golo e não tinha lugar no plantel verde e branco).

      Não é o pior plantel do Sporting CP dos últimos 7 anos, mas a nível de opções ofensivas deixa um pouco a desejar, mesmo assim acho que dará para ser campeão.

    • ACT7
      Posted Março 6, 2016 at 2:35 pm

      Pior plantel dos últimos 7 anos…
      Para quem disse que não precisavam do Mitroglou é porque tem melhor.

    • Anónimo
      Posted Março 6, 2016 at 1:43 pm

      O Paci Jemez não é melhor que Jesus. O JJ tem o pior plantel dos últimos 7 anos, também não lhe peçam milagres. Eu não gosto dele, mas a realidade é esta. Se ele for campeão, o que eu não acredito, será um milagre.

      Bruno

    • Anónimo
      Posted Março 6, 2016 at 11:54 am

      E duvido que tivesse aquele discurso no fim do jogo…

      Jonas

    • Lucas TB
      Posted Março 6, 2016 at 11:45 am

      e claramente não escalaria Bruno Cesar nos 11 iniciais.

  • Anónimo
    Posted Março 6, 2016 at 11:37 am

    Aquela Croácia do Euro 2012… grande equipa. Num grupo de "morte", empatou com a Itália e só não eliminou escandalosamente a Espanha porque o árbitro não quis. Grande Bilic, claramente justa esta referência a um treinador que, para mim, até está a ser o 2º melhor do ano em Inglaterra (o 1º é o incontornável Ranieri).

    George Raft

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