Durante a época desportiva é geral a existência de despedimentos de treinadores ao longo da temporada. Esta saída por parte dos técnicos urge pela necessidade de uma mudança, normalmente justificada pela falta de resultados. Assim, a direção dos clubes toma esta decisão, castigando o líder da equipa técnica, que normalmente é a pessoa mais fácil de culpar e despedir, já que não se pode demitir um plantel inteiro. Naturalmente, podem existir outros fatores para a não produção dos jogadores, porém a solução encontrada usualmente é esta. Por vezes acontece um certo arrependimento pelas saídas dos treinadores, voltando a repescá-los, como nos casos de Leonardo Jardim no AS Monaco ou Javi Calleja no Villarreal CF. Ainda assim, são fenómenos raros, pelo menos no espaço de uma temporada.
Não é uma surpresa ver equipas com dois ou três timoneiros distintos durante a época, descontando os interinos, que por vezes garantem o lugar, devido aos bons resultados. Se viajarmos ao futebol brasileiro, o costume de despedir treinadores é um clássico, pese a lei implementada esta época (só se podem demitir dois por época), ainda que facilmente contornável.
No nosso campeonato, muito poucas instituições acabam com o mesmo nome no banco com o qual estavam na pré-temporada. Na temporada de 2020/2021, foram quinze as “chicotadas psicológicas” ocorrentes durante a época, algumas delas no mesmo clube. O Moreirense FC chegou a ser orientado por quatro homens distintos: Ricardo Soares, César Peixoto, Leandro Mendes (interino) e Vasco Seabra. Ainda assim todas estas mudanças resultaram num oitavo lugar, positivo para a realidade do clube. Todavia na ocasião da primeira saída, os naturais de Moreira de Cónegos estavam em nono lugar. Vítor Magalhães já é um veterano em despedimentos, por isso o caso não surpreende o adepto que acompanha o futebol português.
Bons momentos para dispensar os técnicos são as pausas para seleções, já que os novos treinadores vão ter tempo para que a equipa se adeque às suas ideias e táticas. Atualmente estamos no momento da segunda paragem (a primeira foi em Setembro) e até agora houve zero despedimentos na Primeira Liga. Na Segunda Liga já aconteceram cinco:
- Carlos Pinto, UD Vilafranquense;
- Jorge Costa, SC Farense;
- Rui Santos, CF Estrela da Amadora;
- Rui Borges, Associação Académica de Coimbra;
- Costinha, CD Nacional.
No segundo escalão a situação é semelhante à temporada transata. Estamos na sétima jornada e há um ano tinham saído cinco técnicos até este ponto do campeonato, ainda que nenhum dos sucessores tenham justificado a mudança. Em relação às trocas realizadas esta época, terão de ser alvo de análise futuramente, no tempo adequado.
Já na Primeira Liga encontramo-nos na oitava jornada, onde já se podem retirar algumas conclusões sobre planteis, treinadores, formas de jogar, especialmente se a situação do clube for semelhante à da temporada anterior. Como já foi referido, nenhum treinador até agora foi despedido, porém na época passada, nesta mesma ronda, já quatro treinadores tinham saído:
- Tiago Mendes, Vitória SC;
- Ricardo Soares, Moreirense FC;
- Rui Almeida, Gil Vicente FC;
- Lito Vidigal, CS Marítimo.
Com 2021/2022 ainda a sofrer as consequências do Covid-19, os treinadores têm conseguido suportar bem os seus lugares. Na minha visão, os poucos despedimentos (em Portugal e nos principais campeonatos) são três: confiança, consciência da falta de qualidade do plantel e pouco capital em caixa. Vejamos agora um exemplo para cada razão.
O FC Famalicão justifica o primeiro motivo. O treinador é Ivo Vieira, reconhecido por muitos aficionados como um dos melhores da Liga, por vezes até recomendado a clubes de maior expressão. Porém, o último lugar que ocupa faz parecer que o treinador é incompetente ou a equipa é fraca. Quem averigua os jogadores do clube minhoto, rapidamente se apercebe que há qualidade no elenco. O que também é facilmente verificável é que aconteceram muitas mudanças no plantel da temporada anterior para esta, assim como acontecera de 2019/2020 para 2020/2021. A equipa sofreu uma série de baixas de jogadores que eram fundamentais como Manuel Ugarte, Gil Dias, Rúben Vinagre ou Gustavo Assunção. O onze base foi mudado a grande escala, ainda que alguns ativos se tivessem mantido. A direção após tantas mudanças tem que oferecer tempo a Ivo Vieira para colocar a equipa nos eixos, dando um sinal de confiança. Caso o despedisse, viria um técnico novo, com novas ideias, num plantel que ainda não está totalmente entrosado. Não querem seguramente cometer o erro do ano passado, ao despedir João Pedro Sousa e contratarem Silas, que foi um fiasco total. Assim, dar a batuta a Ivo Vieira por mais umas semanas parece a melhor opção.
O segundo caso tem sua representação fidedigna na B SAD. A equipa é muito fraca ao compararmos com a da temporada passada. Saíram ativos como Tiago Esgaio, Cassierra, Miguel Cardoso, Silvestre Varela, Krytsyuk ou Rúben Lima e muitos destes não foram dignamente substituídos. Chegaram nomes como Rafael Camacho, Carraça, Sandro, Pedro Nuno ou Lukovic, porém o plantel está mal constituído, havendo a necessidade de ir aos sub-23 pescar jogadores que podem ser revelações. Conseguiram até à data quatro empates e quatro derrotas, sofrendo doze golos e marcando apenas cinco, sendo o pior ataque da liga. A manutenção de jogadores como Tomás Ribeiro, fazem com que ainda haja esperança para a equipa do Jamor. Rui Pedro Soares deverá ter a consciência plena de que a equipa é o parente pobre e a favorita à descida na Primeira Liga. Petit é notoriamente o homem para o cargo. Durante toda a sua carreira de treinador fez milagres, impedindo descidas sentenciadas em praça pública e este ano terá de fazer o mesmo, conhecendo já a estrutura do clube, visto que ocupa o cargo desde o decurso da temporada 2019/2020. O reconhecimento de que as armas são poucas é a grande razão para que o ex-SL Benfica se mantenha como treinador principal. O crédito que a direção dá ao treinador pelo bom trabalho no passado é um ponto importante.
Por fim, em relação á questão financeira, vejamos o caso FC Barcelona (já que em Portugal não parece haver um clube que justifique esta perspetiva). Ronald Koeman é provavelmente dos treinadores mais odiados do momento. É acusado por muitos de destruir um clube. A verdade é que ajudou a isso, embora não sendo o grande culpado, visto que esse é unanimemente Bartomeu. Não há uma ideia de jogo, nenhum jogador se destaca, tornando os “culés” um barco à deriva. O que falta ao FC Barcelona é o capital, razão pela qual Koeman se mantém no cargo. São necessários doze milhões de euros para despedir o neerlandês. Se a ex-equipa de Messi não tem esse valor em caixa, é fácil de perceber a debilidade das finanças do clube. O plantel não está com o treinador e não há solução à vista, embora sejam apontados nomes diariamente, segundo os jornais desportivos.
A verdade é que se percorrermos a galeria de treinadores despedidos nas “big-5” reparamos que são poucos. Alguns injustos, como Xisco outros plenamente justificados- caso de Míchel. Ainda assim, ocorrem situações onde o líder do balneário não acompanha a qualidade da instituição representada, porém mantêm-se no cargo, como Steve Bruce ou o já citado Koeman.
A manutenção de treinadores por mais tempo por parte das direções é uma boa noticia, já que significa geralmente a solidez do projeto, especialmente em Portugal. A corda não pode quebrar sempre do lado mais fraco, pois o técnico é cada vez mais fundamental no funcionamento de toda a instituição, sendo muitas vezes o rosto da mesma.
Visão do Leitor: Ricardo Lopes


2 Comentários
Day
Steve Bruce, até quando meu deus? todas as épocas o Newcastle luta para não descer.
Tiago Silva
Belo texto muito representativo da realidade atual do que se passa nos bancos. E concordo com o ponto final referido, é uma boa notícia. Com cada vez menos tempo para os treinadores trabalharem com os jogadores devido ao elevado número de jogos, fica difícil os treinadores criarem rotinas de forma a implementar as suas ideias entre jogos. Claro que há casos em que não há volta a dar como os de Koeman e Steve Bruce como referido é aí sim tem que haver despedimento, porque só estão a enrolar. Mas em geral os treinadores são contratados ou deveriam ser contratados por seguirem certos fatores impostos pelo presidente para o que querem ver na equipa e isso demora tempo a ser atingido. Os clubes com maior sucesso são os que têm essa consciência e projetos que acompanham o treinador contratado, assim de repente vejo o caso do Liverpool de Klopp que até começou mal, mas que conseguiu montar uma equipa campeã.
Belo texto com bons pontos referidos, obrigado pela partilha.