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A geringonça de Martinez

Os treinadores temerosos inventaram um sistema com mais um defesa, mas mascaram-no como se tivesse menos um. É a geringonça da bola, em que a “defesa a 3”, como dizem os teóricos, é realmente uma “defesa a 5”, que apenas liberta ligeiramente os laterais para o apoio ofensivo. Equipas com três centrais, perante adversários notoriamente mais frágeis como são a maioria dos adversários de Portugal, entram em campo com um peso morto, retirando um elemento ao ataque e perdendo claramente para a dinâmica do médio defensivo que compensa o adiantamento dos laterais.

O 3x4x3 é, na realidade, um 5x2x3 ou um 5x4x1. É uma táctica de equipas pequenas e foi desenvolvida por treinadores peritos em gerir aflições em campeonatos desiguais, como foi Manuel de Oliveira, o inovador Manuelic de Olivic, nos anos 80, para se bater com os Pedrotos e Eriksons de arsenais pesados. Estou, por isso, atónito há meses com a adopção deste sistema na seleção nacional, servida pelo melhor plantel de atacantes de sempre, mas insistindo em entrar em campo a coxear, com menos uma unidade ofensiva, para enfrentar adversários da terceira divisão europeia no mais fácil grupo de qualificação de que há memória. Ao enorme handicap de actuar 90 minutos com um Cristiano Ronaldo voluntarioso mas anacrónico, o espanhol Roberto Martinez ainda subtrai força ofensiva e capacidade de manobra nos últimos 30 metros – o que resultou em exibições “abaixo de Fernando Santos” nos primeiros quatro jogos. A hipervalorização dos resultados, pela máquina propagandística da Federação, mascarando o valor básico dos adversários, apenas pinta o quadro com tons ainda mais patéticos do que as exibições.

Apesar de as seleções jovens, nomeadamente a de sub-21, continuarem a apresentar-se com dois laterais e dois centrais, como é de tradição, gosto e eficiência, tudo indica que Roberto Martinez foi escolhido, para surpresa geral, por ser um dos raros treinadores europeus capaz de acomodar Cristiano Ronaldo enquanto este e o presidente da FPF quiserem, e também pela sua genialidade táctica e estratégica. Martinez acredita no que mais nenhum dos principais selecionadores europeus defende. Portugal é a única seleção europeia do top-10 do ranking FIFA que actua com cinco defesas. A equipa de Rúben Dias e Pepe, herdeiros de Bruno Alves, Ricardo Carvalho, Fernando Couto, Humberto Coelho, Eurico Gomes e tantos outros, emparceira tacticamente com Estónia, Chipre, Cazaquistão, Malta, Moldávia, Liechtenstein, Andorra e São Marino, que também se apresentam garbosamente nestes jogos de brincadeira com a retaguarda estofada. França, Bélgica, Inglaterra, Países Baixos, Croácia, Espanha e Itália, que seguem à frente de Portugal no ranking mundial, insistem em alinhar com apenas quatro defesas, vamos lá entender porquê! Na grande parada da alta competição, Portugal desfila orgulhosamente diferente, com os basbaques enlevados a comentar: só nós com o passo certo, os únicos que não sofrem golos… Já dizia Cândido de Oliveira, a propósito da adopção do WM, há uns 80 anos, que um sistema desenvolve-se com “maior rigidez“ ou “maior elasticidade” em função da interpretação dos jogadores e do modo como se movimentam dentro desse esquema. Ora, o que se viu nestes primeiros jogos foi uma enorme inflexibilidade e falta de permuta e entreajuda entre defesas e médios nas zonas centrais, pois os mais recuados teimam em não sair a jogar e a não criar superioridade numérica nas zonas adiantadas do terreno.

Os jogos resolveram-se pela enorme diferença de gabarito individual e em lances de bola parada. Mas, na Islândia, foi preciso recorrer ao especialista Gonçalo Inácio, inexplicavelmente preterido de um esquema em que era o único com rotinas, para se perceber, em poucos minutos como aquilo pode funcionar, precisamente à boa maneira das geringonças da política: fazer de conta que se entendem e salve-se quem puder.

João Querido Manha

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

15 Comentários

  • CABONG
    Posted Junho 23, 2023 at 10:13 am

    O comentário é altamente falacioso visto que o sistema táctico por si nada tem a ver com o sucesso ou insucesso, mas sim as decisões de quem comanda.
    O Chile foi bi campeão da Copa América em 3-4-3, a Itália( que foi campeã da Europa mas até falhou a presença no Mundial no Catar) ao contrário do que foi dito joga em 3-5-2
    Curiosamente o 3-4-3 até se adequa as características dos jogadores( apenas tem Leão como extremo) o que tem faltado é colocar as peças nos lugares certos e entrosamento.
    Na minha ótica falta encontrar o parceiro certo para jogar com o Palhinha no meio e jogar com Bruno Fernandes mais perto da baliza ( como um 2o avançado).
    E hoje em.dia salvo raras exceções nomeadamente em clubes não se joga futebol filigrana, joga se para ganhar.
    Até porque ganhamos o Euro 2016 com uma qualidade jogo das piores dos últimos 30 anos( pior só no Mundial 2014)

    • Fireball
      Posted Junho 26, 2023 at 2:15 pm

      A Itália jogava em 3-5-2 mas não jogava com 5 defesas, joga com 4, que foi o que foi dito no texto. O que a Itália fazia e muito bem era, defender em 4-3-3 com uma linha de 4, e atacar com uma saída a 3 que libertava Spinazzola para a ala, colocava Insigne para dentro a apoiar Immobile, e encostava Berardi/Chiesa à direita a fazer a outra ala, tornando o tal 3-5-2 na fase atacante. A diferença é que nesse 3-5-2, o “lateral” direito não era um defesa direito, era um extremo. Chiesa não é um Cancelo ou um Dalot.

      O 3-4-3 é uma tática ofensiva quando se usam de facto 4 médios, o que não é o caso. Portugal joga em 5-4-1, porque leva 5 defesas, 4 médios e um avançado. Ou 5-3-2, se quisermos considerar Félix como apoio ao Ronaldo, mas não é isso que se tem visto.

    • Borsalino
      Posted Junho 23, 2023 at 1:17 pm

      A Itália foi campeã da Europa a jogar em 4x3x3.

  • Kafka
    Posted Junho 22, 2023 at 8:00 pm

    Geringonça de Martinez? Ou geringonça de Aveiro?

  • jimmyvicente
    Posted Junho 22, 2023 at 7:53 pm

    Handicap Ronaldo ? Pois é, com ele entramos sempre em vantagem

  • Velho do Restelo
    Posted Junho 22, 2023 at 5:01 pm

    “O 3x4x3 é, na realidade, um 5x2x3 ou um 5x4x1. É uma táctica de equipas pequenas e foi desenvolvida por treinadores peritos em gerir aflições em campeonatos desiguais”
    Guardiola, Ruben Amorim, Conte mandam um abraço.

    • Miguel Magalhaes
      Posted Junho 23, 2023 at 10:24 am

      o Manha explica isso “apenas liberta ligeiramente os laterais”. O problema está aqui – se fosse um 3x4x3 puro os alas teriam liberdade total com o trinco a compensar – o problema é que jogamos com 3 centrais estáticos e o Palhinha ou o Neves. Era preciso ter médios mais rotativos mas (por muito que o deteste) o Tavinho senta no banco…

      • Velho do Restelo
        Posted Junho 23, 2023 at 11:06 am

        O que eu acho é que uma defesa a 3 não é necessariamente uma táctica defensiva, este ano viu-se muito o Sporting a atacar com muitas unidades.
        Coates fixo no meio, Juste e Inácio bem abertos (pareciam laterais), os alas eram autênticos extremos a explorar o espaço e os extremos à procura do jogo interior, um dos médios a fazer quase de 2o avançado e o outro no equilíbrio.
        Não percebo como é que um julgamento ao desenho táctico da equipa pode partir logo para “táctica de equipa pequena”.
        No caso de Guardiola ainda mais gritante é aquele 3-4-3 que passa a 3-6-1 (ou 3-2-4-1) que é super ofensivo e cheio de nuances.
        Não gostei do tom do artigo pelo desprezo que reflecte apenas com base num desenho táctico apenas para criticar aquilo que é facilmente criticável, a falta de ideias e organização do actual seleccionador (até agora).

        • Fireball
          Posted Junho 26, 2023 at 2:24 pm

          Defesa a 3 não é necessariamente uma tática defensiva, facto. O problema é a malta não sabe distinguir 3 defesas de 5. E Portugal joga com 5 defesas, 3 centrais + 2 laterais. Não é defesa a 3, é defesa a 5.

        • Miguel Magalhaes
          Posted Junho 23, 2023 at 1:08 pm

          Confesso que não tenho a mesma interpretação – mas admito que esteja errado. O que achei que o Manha está a querer dizer é que até agora mudou-se para 3 centrais para dar equilíbrio defensivo à equipa. Do ponto de vista do adepto, preferia que se começasse a dar show no ataque antes disso, mas entendo que ele não esteja disposto a correr riscos.

          Até agora não tive interesse em nenhum jogo tal era a baixa qualidade dos adversários mas estou curioso para ver o jogo contra a Eslováquia fora de casa. Se aí entrarmos para jogar para o empate então acho que estamos perante o FS 2.0

          Até lá ainda estou a dar o benefício da dúvida ao Berto…Vamos ver se isto melhora!

          • Velho do Restelo
            Posted Junho 23, 2023 at 1:35 pm

            Percebo o que dizes, e com base na dinâmica (ou falta dela) destes últimos jogos subscrevo as críticas e entendo o agoiro de um FS 2.0.
            Só não acho que o desenho táctico em causa seja a origem desse problema, porque, de facto, existem muitos contra-exemplos.

            É esperar para ver… Ter um treinador mais ‘resultadista’ também pode ser algo que estejamos a precisar, não podemos esquecer a importância da estabilidade e da confiança que são geradas por sequências de bons resultados.

    • GabCel
      Posted Junho 22, 2023 at 7:38 pm

      Acontece que o Guardiola (verdadeira geringonça em 2023), Amorim e Conte sabem o que fazer com uma táctica com 3 defesas, ao contrário do Martinez.

      • Velho do Restelo
        Posted Junho 23, 2023 at 8:27 am

        Pois então o problema não é da táctica, e se leres o trecho que citei falar explicitamente da táctica.

    • offtopicguy93
      Posted Junho 22, 2023 at 7:36 pm

      Guardiola não joga em 343, guardiola usa uma variação tática na organização ofensiva com 3 centrais…

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