Soaram os alarmes em Espanha. No meio de toda a polémica de Rubiales, surge de forma inesperada uma outra notícia que deixou o país em polvorosa. Gabri Veiga muda-se para o Al-Ahli. Uma jovem promessa, apontada aos maiores clubes do velho continente, abandona o futebol europeu tão somente com 21 anos. Pede-se pela intervenção da FIFA, apela-se que trave esta loucura saudita. Contudo, não é possível não notar numa pitadinha bem grande de hipocrisia vinda um pouco de toda a Europa. Esta postura é algo que já não surpreende, bem pelo contrário. Todos queremos campeonatos fortes, mas quando a nossa equipa não vence gritamos com tudo e todos, está tudo mal, desde de treinador a jogadores, passando claro pela arbitragem. Ora se queremos um campeonato forte, teremos obrigatoriamente de saber conviver com o insucesso de uma forma bastante mais regular.
Passado o à parte, voltemos ao tema inicial deste artigo. Desde de sempre, os colossos europeus foram vistos como os melhores a nível mundial e era neste continente que os melhores intérpretes do jogo pisavam o retângulo verde. Fossem europeus de gema, sul americanos, africanos, ou oriundos de outras zonas menos convencionais, todo e qualquer atleta sempre almejou jogar a Champions e pelo menos envergar a malha de um dos históricos clubes. Com toda a história, todo o mediatismo e com todo o consumo que gerava, assistiu-se então a um crescimento exponencial do futebol europeu que ia distanciando o seu poderio. A UEFA foi ganhando cada vez mais peso, por comparação com aquilo que eram as restantes confederações integrantes da FIFA. Todo este “circo” foi gerando cada vez mais receita e com isso atraiu-se o interesse de investidores, que sempre foram vistos de uma forma bastante positiva pela maioria dos consumidores. A clubes históricos, muitas vezes grandes por funcionarem como forma de lavagem de imagem de regimes autoritários (apenas mais um ponto comum com o que acontece na Arábia), juntaram-se muitos outros que conseguiram atrair investidores que traziam dinheiro de origens muito duvidosas. Mas até aqui sempre se assobiou para o lado e o surgimento de clubes como o Chelsea, o City, o PSG, ou mais recentemente do Newcastle eram vistos como excelentes, para dotarem mais clubes de ferramentas capazes de competir com os melhores, quebrando assim alguma monotonia que pudesse pôr em causa a rentabilidade da modalidade.
O futebol, como via de poder e dinheiro, sempre esteve emaranhado em situações obscuras, em jogos políticos e de interesses muitas das vezes bem distantes daquilo que são os interesses dos clubes e dos seus adeptos. Mas no final do dia, desde que a bola entre, cria-se uma embriaguez de felicidade e tudo o resto passa a segundo plano, fazendo com que os paladinos da justiça e moral percam todas as suas capacidades críticas.
Criticava-se, ainda, o ambiente sentido em muitos dos maiores estádios da Europa, pois tinham deixado de ser o ninho de mística e tinham passado a ser uma atração meramente turística com adeptos da pipoca, que pouco contribuíam para o espetáculo. Contudo, agora que esses mesmo adeptos da pipoca podem frequentar atrações bem mais perto da sua zona de residência, existe um incómodo generalizado. Para além disso, estes paladinos da justiça, tão preocupados com o não cumprimento dos direitos humanos, parecem colocar-se num pedestal, criando desta forma uma ideia de existirem adeptos de 1º mundo e os outros, pois apenas na Europa é que existe legitimidade para atuarem os melhores jogadores, o resto como são clubes que “ninguém” quer saber, ignora-se a existência de 4,5 mil milhões de pessoas e os seus interesses são bem menores do que os interesses de 750 milhões de adeptos de 1ª.
O mundo está em mudança, os BRICS ameaçam seriamente aquilo que é o poder instalado no Ocidente há décadas. E a Europa, outrora vista como um dos principais focos de desenvolvimento político, financeiro e tecnológico, corre sérios riscos de ficar para segundo plano. Se por um lado, é válida esta preocupação (ainda que possa ter ocorrido tarde demais), por outro não deixa de ser verdade que relativamente ao futebol esta preocupação vem carregadinha da típica hipocrisia europeia.
Visão do Leitor: Santander


13 Comentários
Wayne Rooney
Sem sombra de dúvidas que considero dos melhores artigos de opinião que alguma vez vi neste blog. Parabéns pelo texto e coerência mostrada!
Antonio Clismo
É preciso olhar para isto como uma oportunidade.
A Europa pode perfeitamente aproveitar esta onda de forte interesse Saudita para exportar profissionais do futebol por 2, 5 ou 10 anos, nao há problema.
Uma coisa é certa, pouco a pouco vão-se apercebendo que o futebol na Arábia Saudita não tem pernas para andar. Só dá para jogar e treinar de noite, as mulheres não entram nos estádios, não dá para viver de uma forma normal, sem ser para as câmaras, e em termos de formação a Arábia Saudita nunca na vida terá o output de criação e desenvolvimento de talento que a Europa tem, mas enquanto eles estiverem iludidos que vão conseguir criar um produto que o mundo vai comprar (Liga Saudita) vão despejar na Europa BILIÕES de euros de investimento.
Os talentos na Europa vão sempre continuar a surgir, não há problema. Sai um? Aparece outro logo a seguir, não há problema.
É importante é investir todos esses euros em coisas que possam trazer dividendos no futuro para os países europeus em geral, sob pena de também eles ficarem obsoletos e o dinheiro ”desaparecer” miraculosamente. Nos próximos tempos vai chover dinheiro na Europa e não vejo os clubes a estarem minimamente posicionados para aproveitarem isso.. Vejo apenas os agentes e empresários fantasticamente posicionados e são eles que estão a aproveitar tudo isto para já.
Só nos últimos meses as trocas comerciais entre a Arábia Saudita e Portugal (ou profissionais portugueses) fizeram com que a balança comercial beneficiasse Portugal em mais de 300 milhões de euros. Ora, onde está esse dinheiro? Aposto que mais de 80% está em contas de paraísos fiscais e mesmo o dinheiro que entrou diretamente nos clubes não está a ser usado para investir em infraestruturas ou na formação, nem sequer está a ser usado para abater dívida… Assim não vamos lá…
Nos anos 70 os EUA investiram centenas de milhares em craques da altura. Não surtiu efeito.
Nos anos 90 foi o Japão a investir milhões em craques da altura. Não surtiu efeito.
Nos anos 2000 foi a Rússia a investir dezenas de milhões em craques da altura. Não surtiu efeito.
Nos anos 2010 foi a China a investir centenas de milhões em craques da altura. Não surtiu efeito.
Agora nos anos 2020 é a Arábia Saudita a investir milhares de milhões em craques da altura….
Kafka
Há uma diferença dos exemplos passados que não resultaram para o actual, é que os exemplos passados não foram os estados a pagar a factura, logo precisavam de ser sustentáveis para continuar a existir e como não eram sustentáveis acabaram por cair
Na Arábia é diferente, porque pela 1ª vez é um Estado Soberano que está a fazer o processo, logo apesar de nada disto ser sustentável (o Neymar nunca na vida vai dar retorno 300 milhões ao Al Hilal que vai chegar ao fim do ano com um prejuízo brutal, mas não há problema pq o governo Saudita cobre o prejuízo)
Ora sendo a factura no fim do dia paga pelo Estado da Arábia Saudita, torna-se “fictíciamente” sustentável, logo basta o governo Arábia Saudita continuar a querer que o processo vai ser sustentável
Ora nada disto aconteceu no passado nos países que mencionaste, pois foram privados a injectar dinheiro, e assim q perceberam que não dava lucro aquele investimento sem sentido, fecharam a torneira…
Até podes dizer “ah mas a China foi via empresas estatais”, ya foi, mas a China tem mais que fazer que andar a brincar ao futebol e assim q perceberam que aquilo não era rentável, fecharam a torneira, até pq a China não precisa do futebol para nada, para se concretizar o objectivo de se tornarem a maior potência Mundial, logo foi uma “brincadeira” que fizeram, viram que não dava e rapidamente fecharam a torneira
Ora aqui é diferente, se a Arábia quiser msm continuar a esbanjar dinheiro desta forma para lavar a cara do regime, desde que a torneira não seja fechada, vai sempre haver cada vez mais dinheiro para contratar mais e mais fantoches para servirem a limpeza do regime, logo havendo dinheiro vão aglomerar aos poucos os melhores do Mundo
Agora claro que no dia que o Governo Saudita disser “não nos apetece ter mais fantoches para limpar a cara do nosso regime, portanto vamos desligar o editor do CM” claro que tudo isto cai… Mas o dinheiro é ilimitado e eles são uma ditadura, logo não têm oposição interna para contestar isto, portanto duvido que fechem a torneira nos próximos anos…
O objectivo é claro, usar os jogadores como fantoches, para normalizarem o regime e as práticas anti-direitos humanos que têm
Manel Ferreira
Saudades dos tempos em que o Newcastle foi adquirido pelo mesmo regime, e ai de quem neste blog falasse em “direitos humanos” que levava logo com 20 emojis teus e 50 acusações de hipocrisia.
Kafka
Oi?? O que é o Newcastle tem que ver com o que eu disse no meu comentário?
Antonio Clismo
Olho mais para isto do que uma moda do que outra coisa. A Arábia Saudita está a fazer isto com o futebol como podia estar a fazer isto com outro desporto qualquer como basketball, natação ou atletismo. Felizmente decidiu usar o futebol como ópio do povo e marketing do regime e por acaso futebol é uma das poucas indústrias que Portugal tem condições para exportação em grande escala.
Não me importava que a FPF fizesse uma parceria com a Liga Árabe para fornecer know-how, cursos, profissionais, tecnologia, etc e em troca recebesse uns 100 milhões por ano, que usaria para financiar e investir no desporto e infraestruturação de base em Portugal (abdicando dos fundos públicos que recebe todos os anos da Secretaria do Desporto que poderiam ser usados para outras coisas mais importantes como a saúde ou a educação.
Os clubes portugueses continuariam a vender para lá jogadores e assim poderiam usar esse dinheiro (extraordinário) para saldar dívida ou investir na sustentabilidade dos próprios clubes…
Manel Ferreira
Como é que se chamava aquele jogador tunisino que passou pelo Rangers e Lorient?
Ah… Namouchi.
É dia de jogo
Não será isto benéfico para a Europa? À anos que a Europa sofre de um desequilibro enorme em termos de top teams, hoje em dia o Benfica, o Porto e o Sporting são considerados inferiores ao 4.º, 5.º classificado da premier por exemplo, porque estas equipas sugaram tudo, não irá a competitividade da Europa aumentar se estes craques forem para a Arábia e Qatar fazerem um campeonato deles? Será que não teremos um Aston Villa a lutar por um campeonato, um Torino, e os adeptos destas equipas a sentirem finalmente que tem alguma hipótese, não sei, se calhar é mais benefício que prejudicial.
JJayy "Non Believer"
Também não é mal visto, mas não acredito que o nível dos clubes históricos desça a esse ponto.
Dr. Esgaio
Um dos melhores artigos de opinião que já li aqui, muitos parabéns, partilho da mesma ideia, mas a forma como está escrita e a coerência demonstradas são de outro nível. Como costumo dizer, não diria melhor!
DNowitzki
«Desde sempre»? O Santos do Pelé deve ter sido um sonho. O São Paulo do Telé Santana uma personagem saída do Caminho das Estrelas, quem sabe o filho do Spock…
JJayy "Non Believer"
O futebol precisa de uma regulação forte faz tempo, o problema é que se não houvesse investimento saudita, iam continuar a assobiar pro lado. É de facto muito hipócrita. Mas nós fazemos parte do problema, que apesar de tudo, continuamos a assistir e a aplaudir.
Neville Longbottom
Santander on fire!