Bruno Lage, no seu discurso de campeão nacional de futebol, em pleno Marquês de Pombal e até interrompendo um pouco a euforia vivida pelos milhares de adeptos presentes, disse que esperava que aquele título tivesse sido “a reconquista do bom futebol e das boas maneiras”. Foi um campeonato de onde partiu com sete pontos de desvantagem, onde teve um calendário que o obrigou a jogar em casa de todos os rivais diretos e terrenos mais complicados da liga, onde teve de reinventar uma equipa em meia época e onde carregou nos ombros a responsabilidade de não perder o título duas vezes no mesmo ano, pelo que é justo dizer que foi um campeonato conquistado essencialmente pela sua mestria como treinador. E se depois de tudo isto alguém foi capaz de mostrar calma, serenidade, sensatez e humildade em vez de se deixar apoderar pela euforia dos festejos, foi Bruno Lage.
Ninguém podia esperar um discurso como o que foi feito, sobre respeito, reconhecimento do mérito dos adversários, carácter, civismo e sobre valorizar o que de facto é importante. Certamente ninguém esperava uma aula de formação cívica num momento daqueles, incluindo o próprio Luís Filipe Vieira. E o porquê de isto merecer esta reflexão? Porque o Bruno Lage não entrou no jogo das picardias, dos comentários mesquinhos ou de se vangloriar, tendo sempre optado por utilizar o espaço e atenção que a sua posição lhe dá para passar os valores que acredita serem importantes e que parecem estar em desuso.
Não há dúvidas de que cada vez mais precisamos deste tipo de mentalidades que vêem o futebol como apenas futebol, que vêem o fair-play como princípio básico e fundamental do desporto e que o reconhecimento do mérito dos adversários só fortalece e dignifica o nosso mérito. A visão do “contra tudo e contra todos” e do “vale tudo” têm de desaparecer! Para bem do desporto, para boa educação das gerações mais jovens, para erradiação da violência que se gera por confrontos de adeptos rivais, do vandalismo e ameaças que vitimizam os atletas e outros profissionais. O futebol não é uma guerra e os jogadores têm tanta obrigação de mostrar entrega, compromisso, empenho, dedicação e garra em todos os treinos e jogos, tal como nós temos de o fazer todos os dias para sermos melhores no nosso trabalho, na nossa família, com os nossos amigos e na nossa sociedade.
Será preciso uma alteração de comportamentos muito grande por parte de todos os envolvidos no mundo futebol para voltar a reinar o respeito e civismo. Os clubes têm de abandonar a estratégia de atacar os adversários fora das quatro linhas como forma de destabilização e, muitas vezes, distração dos seus próprios problemas e focarem-se em se tornar mais fortes enquanto equipa até ganharem por mérito e não demérito do adversário. A comunicação social tem de deixar de aproveitar qualquer migalha que sirva para um título atraente, que venda e seja polémico e que já todos sabemos que nunca será verdade. Os programas desportivos de televisão têm de começar a fazer exatamente o oposto do que é feito atualmente e apostar em comentadores com conhecimento do jogo, com cultura tática, capazes de fazer uma leitura crítica dos jogos, sem fanatismos e acima de tudo, com educação. Os jogadores são os principais protagonistas e devemos deixá-los ser, sendo que também devem ter consciência do impacto que as suas ações em campo podem ter. Por fim, os adeptos. Todos sentimos que nos transformamos durante aqueles apaixonantes 90 minutos e podemos mesmo perder parte da nossa racionalidade quando a nossa equipa está em campo. Não obstante, temos que ter presente o facto de que continuamos a ser cidadãos numa sociedade da qual os adeptos da equipa adversária também fazem parte e, como tal, merecem o nosso respeito neste contexto como em qualquer outro.
Infelizmente, não acredito que o Bruno Lage nem os poucos como ele consigam mudar o panorama atual, pelo menos não sozinhos nem num espaço de tempo tão curto. Porém, se todos seguirmos o seu exemplo e, no nosso espaço, procurarmos ser embaixadores do bom e do que há de bom no futebol será muito mais fácil reconquistá-lo!
Visão do leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): João Costa


8 Comentários
golias
excelente texto! parabéns.
Estigarribia
Excelente texto, João Costa. Estás de parabéns.
Infelizmente desde que Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira iniciaram uma rivalidade quase a roçar o ódio, com as intervenções nojentas de Bruno de Carvalho pelo meio, que o futebol português bateu com estrondo no fundo do poço. E em vez de todos remarem para o mesmo lado e reerguerem o futebol português para patamares mais próximos de uma Premier League, Bundesliga, La Liga ou Serie A, ainda aparecem mais personagens, como Francisco J. Marques, a envergonhar o futebol português lá fora.
E, como é referido no texto, e muito bem, a comunicação social também não está isenta de culpas. Para as televisões é muito mais fácil ganhar audiências colocando um Pedro Guerra, um André Ventura, um Manuel Serrão, um Aníbal Pinto ou um José Pina a debitar baboseiras, dia sim, dia sim, em vez de darem palco a comentadores desportivos, sejam eles antigos jogadores ou antigos treinadores. Penso que o Canal 11 vem finalmente trazer mais programas desportivos interessantes, que possam, de certa forma, acabar de vez com os fanatismos que se vêem em Portugal. Que apareçam também mais programas como o Mais Futebol (sou um fã incondicional desse programa) ou como o Titulares, por exemplo, ou sites de desporto, como o Visão de Mercado, onde seja possível ter uma boa e saudável discussão sobre futebol (ou outro desporto qualquer).
Mas não são só os clubes e a comunicação social que devem pôr a mão na consciência e deixar de palco a certos e determinados energúmenos. Os adeptos têm de fazer também a sua parte e deixarem, de uma vez por todas, ‘incendiarem’ os ânimos com picardias nojentas que em nada representam as rivalidades, especialmente, entre Benfiquistas, Sportinguistas, Portistas (ou de outros clubes como é óbvio). Sou Sportinguista, como já disse várias vezes e com grande orgulho no meu Clube, aconteça sempre o que acontecer, e tenho muitos amigos Benfiquistas e alguns Portistas, mas nunca faltamos ao respeito e quando nos espicaçamos é sempre naquela onda da picardia saudável, que é aquele tipo de picardia que todos os adeptos deveriam seguir. Chega de falar de toupeiras, e-mails, vouchers, Apito Dourado, Cashball, etc, etc, já que isso são assuntos que em nada interessam para as conversas sobre FUTEBOL. Isso não passa de temas para a comunicação social aumentar as audiências e deixar o VERDADEIRO FUTEBOL cair nas ruas da amargura.
O nosso futebol português teve dos melhores jogadores de todos os tempos (Eusébio, Peyroteo, Vítor Damas, Manuel Bento, Manuel Fernandes, Meszaros, Fernando Gomes, Paulo Futre, Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Fernando Chalana ou Humberto Coelho) e é triste ver que o futebol português está a caminhar para um abismo e não há ninguém que faça nada para evitar isto. Qualquer dia em vez de estarmos ao nível dos grandes campeonatos (Inglaterra, Espanha, França, Itália e Alemanha) vamos estar ao nível dos campeonatos da Turquia, Rússia, Chipre, Ucrânia ou Bielorrússia, por exemplo.
Em suma que mais treinadores, jogadores, dirigentes desportivos e comunicação social tenham esta maneira de pensar e que vivamos o futebol sem ódio e violência e que vivamos com fair-play, reconhecendo o mérito nas conquistas dos nossos adversários, de maneira que possamos contribuir para um clima mais respirável no desporto nacional. Da minha parte, enquanto adepto de futebol e Sportinguista, continuarei a fazer a minha parte para contribuir para um melhor clima no futebol português e conto com a ajuda de todos os adeptos de todos os clubes.
Saudações Leoninas
Joaomi
De facto os clubes terão que mudar a postura e não dar espaço à pessoas como o Francisco J. Marques. Pelo menos não como têm sido nós últimos tempos…
Mas há boas pessoas no futebol e esperemos que contagiem com as boas ideias que têm
a-seabra
Esse Francisco Marques é dos maiores cancros que vejo a habitar no clube que eu gosto. Que nojo de pessoa e postura.
Tiago Silva
Excelente texto, identifico-me a 100% com esta ideia. Que venham o bom futebol e as boas ideias!
auba14
Que texto! ?
Muito bom
Felix0312
Acima de tudo, viva o futebol! E neste campo, todos podemos marcar a diferença!
Excelente texto e reflexão :)
Joaomi
Concordo com este espírito!
Às vezes parece que se complicam as coisas por problemas extra futebol e nem nos apercebemos…