Em 2018 escrevi um texto acerca do papel dos laterais de Guardiola nos seus primeiros anos de Manchester City e – embora o seu sistema e dinâmicas táticas estejam constantemente a mutar – essa importância não se alterou.
Mas qual é a posição mais importante no sistema tático atual de Guardiola?
No futebol, tão importante como a tática, é a capacidade de não estagnar ou cair no conformismo tático, pois as rotinas das equipas são estudadas e tudo o que não evolui destina-se a ficar obsoleto.
Com dados atualizados até 20 de Agosto de 2023 podemos correlacionar os gastos líquidos dos clubes “Big 6” da Premier League, liderando este top o United com maior despesa, mas salientando-se o Tottenham como maior gastador vs títulos conquistados, devido à ausência de troféus nos últimos 10 anos, seguido pelo Manchester United com um gasto de 331,6 milhões de euros por título conquistado. E porque é que estes dados podem ajudar a validar de alguma forma a análise e o sucesso tático aliado à abordagem de mercado de Guardiola? Pois bem, o Manchester City, que não deixa de ser um clube à luz dos restantes do “Big 6”, embora clube gastador, tem vindo a revelar mais critério na compra e adaptação dos seus alvos ao sistema tático e desenvolvimento do plantel de Guardiola, sendo o clube com menor gastos líquidos por título (71,03 milhões de euros) mesmo que colocado no segundo lugar dos mais gastadores em geral, sendo 8 destes 10 anos com Guardiola à frente do leme. A ilação importante a tirar, gastar muito conquista títulos quanto mais cirúrgicas as contratações forem.

De momento, não devem restar muitas dúvidas de que a equipa do Manchester City de 2022-2023 é uma das melhores personificações da doutrina do futebol de Guardiola que já vimos, e como coroação dessa afirmação acabamos de testemunhar uma das melhores campanhas de uma equipa da Premier League. Mas a realidade é que, durante grande parte da temporada, a caminhada dos cityzens não foi ausente de tumultos e de problemas de afinação tática. Nos tempos do Barcelona e até no Bayern, a fórmula parecia simples e baseada no mesmo esqueleto desde o guarda-redes libero até ao falso 9, mas esses sistemas evoluíram diversas vezes e, durante a temporada, Guardiola encontrou-se frequentemente num ciclo constante de procura soluções para algumas arestas por limar.
Aquando da chegada de Erling Haaland, muito se especulava sobre a adequabilidade do ponta-de-lança norueguês ao sistema de Guardiola, ou se fazia sentido um avançado fora do perfil habitual das equipas do treinador espanhol neste “tiki-taka”. Haaland chega ao City já com estatísticas demolidoras e um estatuto consolidado, faltando apenas a afirmação numa equipa candidata crónica ao título na melhor liga do mundo. Contudo, o impacto da nova estrela mundial foi imediato, não apenas em termos de golos, mas também no início da nova adaptação tática da equipa de Manchester. Desde Aguero e Gabriel Jesus que o City começou a explorar a posição mais adiantada com diversas opções, muitas vezes adaptando jogadores fora da sua posição no decorrer da temporada. Bernardo Silva, Sterling e Kevin De Bruyne chegaram a pisar terrenos mais adiantados no centro do terreno, e até Gundogan foi falado para o papel de “Aguero”. Isto era um claro sinal de que faltava uma referência ofensiva ao Manchester City, algo que se notou bastante na final da Liga dos Campeões perdida frente ao Chelsea. Haaland seria o escolhido.
Neste novo esquema tático de Guardiola é difícil delinear uma formação inicial na nomenclatura tradicional. Em certos momentos conseguimos observar uma espécie de 3-2-4-1, noutros momentos do jogo o caudal ofensivo leva-nos a crer que estamos a reviver jogos de outras eras em que quase todos os jogadores pisam o último terço numa espécie de 2-3-5. Esta vaga noção permite-nos ver uma pequena amostra do jogo posicional de Guardiola, e o papel híbrido que cada jogador pode vir a ter em determinado momento do jogo.
Neste esquema, o City começa geralmente a construção com uma linha de três atrás, atuando Kyle Walker como um falso lateral que baixa e flete para o meio e agindo como central de construção. O lateral esquerdo, outrora Cancelo ou Zinchenko, oferece um movimento interior mais adiantado, juntando-se ao lote de 4 médios que apoiam o avançado recuado, o que significa que quase sempre existe superioridade numérica para sobrecarregar o meio-campo e defesa do adversário. Mesmo este esquema de início da construção é constantemente adaptado ou ligeiramente alterado face aos jogadores que começam. Muitas vezes Guardiola abdica dos clássicos laterais de raiz (Kyle Walker e Cancelo por exemplo) e observamos um XI inicial na linha da defesa composto por 4 centrais, pelo menos aparentemente. Muitas vezes é Aké que desempenha o papel de Kyle Walker no flanco oposto, sendo Stones – um central transformado praticamente num médio de toque refinado – a avançar no terreno para oferecer mais presença ofensiva, reação à perda de bola e recuperação alta no momento defensivo. Akanji e Rúben Dias também possuem capacidade para estas progressões, sendo a versatilidade dos defesas da equipa de Guardiola, uma das mais valias para colmatar a necessidade de ter jogadores capazes de fazer todas as funções exigidas. Mais uma vez, os papéis aqui descritos e atribuídos não são função e tarefa de apenas um jogador, mas exigências das quais cada um dos elementos em campo deve conseguir cumprir se assim for chamado a jogar.
Volta-se a destacar que a presença de Haaland foi indutora de mudança, especialmente na fase de construção adiantada. Embora um avançado tradicional de transições rápidas e de movimentos exploratórios do limite do fora-de-jogo, Haaland não era apenas um protótipo de ponta de lança alto e arrastador de defesas. Embora não fosse o portento técnico que Aguero e Jesus eram, Guardiola começou gradualmente a pedir ao norueguês que baixasse no terreno durante a progressão com bola, não abdicando nunca de aumentar o número de jogadores na mesma zona do campo e oferecer mais linhas de passe aos jogadores portadores da bola. Este recuo do avançado para perto dos médios atacantes no mesmo momento da subida dos defesas produz o que Guardiola quer independentemente da tática e jogadores utilizados: a sobrepopulação do meio-campo ofensivo com linhas de passe e possibilidade de trocas de bola constantes e curtas. Claro que existem pequenas nuances em relação à função clássica de um “falso 9” fruto da capacidade de jogar de costas para a baliza com bola de Haaland vs outro jogador tipicamente habituado a pisar terrenos mais recuados.
Contra as teorias que surgiam, o impacto de Haaland causou estragos. O avançado aprendeu a recuar para fazer jogo, mas nem por isso Guardiola abdicou da sua capacidade de abrir espaços entre linhas para que os jogadores interiores como Bernardo, Mahrez, Foden, Gundogan e De Bruyne entrassem na orquestra para fazer a sua música. O jogo posicional da equipa sobrecarregava os adversários, e os que optassem pela marcação apertada ao ponta-de-lança, teriam de lidar com as rápidas transições e sprints do nórdico. Não foi Haaland que se teve de adaptar à Premier League, mas a liga inglesa que já não estava habituada a um avançado tão forte e com esta gravidade capaz de arrastar tudo à sua volta. Guardiola finalmente teria encontrado a fórmula ideal e a peça que faltava para engrenar um novo sistema de jogo em posse, ou seja, quando Haaland não estava ocupado a desmarcar-se em profundidade, estava a desmarcar os colegas vindos das alas ou do meio-campo para fazerem o trabalho do ponta-de-lança nesse momento.

Embora o jovem ponta-de-lança seja o mais mencionado neste texto, nem por isso é insinuado que os outros jogadores foram menos importantes, tendo até alguns já sido destacados. Stones começou como central de origem, jogou a lateral-direito e até a médio defensivo, e isto é simplificar em demasia. No entanto, o central inglês teve uma fase de lesões, e Guardiola teve mais uma vez um dos estímulos que levou a reedição da tática ou da função de alguns jogadores. Até Bernardo Silva – um dos melhores esta época – chegou a jogar na ala esquerda para ver como se adaptava ao papel antes assumido por Zinchenko e Cancelo. Neste caso, foi uma solução de recurso competente, mas não para o futuro. Guardiola esteve constantemente em modo de resolução de problemas, experimentando Akanji a central e lateral direito em alguns jogos, aproveitando a sua comprovada capacidade de construção e progressão no campo, e mantendo uma linha de quatro na retaguarda em determinados momentos do jogo.
Outra das experiências bem-sucedidas de Pep, foi a introdução de Nathan Aké como lateral esquerdo. O facto de ser canhoto, a capacidade de defender fora dos blocos estreitos e jogar solto deram ao City mais controlo na subida em posse e recuperação. Entretanto, o regresso de Rúben Dias e as opções à disposição na defesa elevaram o jogo do City, assim como a afirmação progressiva de Rico Lewis na defesa.
Não seria justo também não mencionar Rodri, não só o abono da equipa em muitos jogos importantes com golos e ações determinantes, mas também ele mais do que um médio defensivo, rótulo com que chegou ao Manchester City. Rodri foi um jogador que tanto ocupou terrenos recuados para a construção e gradual subida de Stones no terreno, como desempenhava a função de box-to-box com a sua capacidade de chegada a área e meia distância. Mais uma vez, a versatilidade e complementaridade dos jogadores do City foi chave para a afirmação destes jogadores como uma equipa formidável.
Também vale a pena mencionar – para além de um palmarés invejável para um “miúdo” de 23 anos – a aposta gradual em Julián Álvarez, um avançado em nada semelhante a Haaland e mais à imagem do que Guardiola nos habituou, que provou ter capacidade para ser referência ofensiva ou jogar com os colegas, inclusive pisar o campo em simultâneo com o norueguês.
Apesar nascida de um começo tremido, esta temporada foi a pintura perfeita de Pep Guardiola: a identificação das lacunas táticas existentes e as contratações, treino e experimentação necessários para reconhecer os problemas e reinventar-se sem mesmo assim perder a sua identidade. Quem vê os jogos do City não vê o lendário Barcelona de 2008/09, mas sabe que está a ver uma equipa de Guardiola a jogar. Numa equipa de tantas estrelas é impressionante como acabamos imersos num futebol avassalador, e como há dificuldade em salientar o melhor destes jogadores, o que diz bastante sobre a sólida equipa composta por tantas estrelas.

O triplete foi provavelmente o coroar de uma das melhores equipas de sempre, não pelo domínio ou distanciamento de pontos que não foram tão expressivos como em outros anos, mas pela assustadora capacidade de reinvenção e adaptabilidade deste treinador e jogadores, que nunca poderão deixar confortáveis quaisquer adversários e espetadores, por saberem que a qualquer momento adverso irá acontecer alguma coisa nova e o Manchester City de Pep Guardiola voltará a vencer. Pegando naquelas famosas palavras e adaptando ao tema: “O futebol são 11 contra 11 e no final vence o City.”. Não há dúvidas que Guardiola cimentou o seu legado, e não pode haver apenas a desculpa de que, num mercado cada vez mais inflacionado, o Manchester City o fez na Premier League e Europa apenas porque tem dinheiro. Numa liga onde quase todos clubes têm donos e capital injetado, o City deu uma lição de trabalho bem feito, contrastando por exemplo com o último ano do Chelsea.
Respondendo à questão inicial, qual é a posição mais importante no sistema tático de Guardiola? Todas.
Visão do Leitor: Francisco Torgal


10 Comentários
Kafka
Parabéns, excelente texto
Francisco Torgal
Obrigado, Kafka.
LMMarado
Isto é falar de futebol! Grande texto, Francisco! Traz-nos mais ;)
Gato das Bolas
Muito bom. Parabéns Torgal
nazare oliveira
Mais um excelente artigo do Francisco Torgal!
Parabéns, Torgal!
Parabéns, Visão de Mercado!
Pipinho
Muito bom de ler, obrigado!
Borsalino
Excelente texto e pesquisa bastante interessante.
rmatos24
Excelente texto e análise. Este é de guardar e naquelas discussões de amigos em que se fala que o City só é o que é pelos “petrodolares”, usar este texto para argumentar que sim, pode haver dinheiro, mas se não for bem aplicado e gerido, dificilmente leva ao sucesso.
Mantorras
Muito bom texto, acho que concordo com tudo e deixo algumas notas que não vi no texto.
– Haaland veio melhorar a eficácia naquelas bolas que passeavam na área sem que ninguém as metesse lá dentro. Tem uma presença brutal. Isto porque, apesar de tudo, o City marcava pouco para o que criava.
– O City sofria quando o adversário esticava o jogo, explorando muitas vezes os laterais e as dobras dos centrais aos mesmos, e a inclusão dos 4 centrais permitiu outra contundência defensiva, mais capacidade no jogo aéro, tanto nas bolas paradas como nos duelos para as primeiras bolas, anulando muito jogo directo adversário e permitindo outro sucesso defensivo nas laterais, mesmo permitindo o 1v1 aí.
– Por último, quando o City, quando se encolhia, sofria demasiado, porque jogava pouco na profundidade. Para exemplo, veja-se o jogo entre Atlético e City para a champions em 21-22. Haaland melhorou muito esse ataque à profundidade, e basta criar a dúvida no adversário para criar benefício. Algo que durante a primeira metade da época quase nunca saía (quem vir o jogo em Leipzig percebe bem isso dada a quantidade de movimentos que colocavam Haaland isolado com passes “fáceis”, pelo espaço que havia nas costas da defesa, que não foram tentados), mas na segunda metade da época saía as vezes necessárias para deixar os adversários em sentido, permitia ao PL abrir espaço entre linhas, ou assustar na profundidade.
– Antes, os alas tinham muito golo, Sterling e Mahrez, e com Grealish e Bernardo passaram para “um porto seguro para entregar a bola”. Haaland também compensou isso marcando ele mais que todos os outros antes (Grealish melhorou nesse aspecto) e a equipa inverteu um pouco a lógica de falso 9 e extremos goleadores.
PS: Spurs gastos por troféu: arithmetic exception / by zero
Neville Longbottom
Eu nao sei se os laterais sao a posicao mais importante no modelo do Guardiola, mas sao sem dúvida os mais difíceis de estudar.
Pelas caraterísticas, houve por um lado o Dani Alves que todos conhecemos bem, mas do outro lado houve 3, Abidal, Maxwell e Adriano, todos muito diferentes. No Bayern transformou Lahm em médio, algo que foi repetido com Kimmich mais tarde (nao por ele, mas o legado ficou). Transformou o Walker no melhor defesa direito do mundo (um jogador muito diferente dos já mencionados) e agora torna um central feito (Ake com 28 anos) num lateral ainda mais diferente. Stones foi talvez a mais flagrante mudanca tática do Guardiola em 2022/2023 (às vezes fico a pensar o que faria Pep com o Xabi que apanhou no Bayern), mas diria que o sistema é mais dependente do jogo nas faixas que, quando neutralizado, coloca dificuldades ao City.
Infelizmente nao tenho esse tempo, mas gostava de “perder” bastante dele a estudar como jogam os laterais do Guardiola ao longo da história. Atualmente, tenho bastante dificuldade em classifica-los como interiores ou jogadores de linha, vejo-os como um plus na construcao, um elemento capaz de partir linhas com passe, algo que quase nao vejo em mais lado nenhum, normalmente equipas com 3 centrais usam os centrais exteriores para o fazer ou entao utilizam um central do centro com essa capacidade (exemplo o Danilo). Equipas com 2 centrais utilizam um 6 construtivo, mas uma equipa com a variabilidade tactica do City? Do (nao muito) que tenho visto, parece-me ser esse o seu papel.
SL