Na última segunda-feira, Ruth Jebet conquistou a prova dos 3000m obstáculos no Rio de Janeiro, oferecendo ao Bahrain o primeiro ouro olímpico na sua história. Jebet nasceu e cresceu no Quénia, onde aliás ainda reside e treina, contudo, é pelo Bahrain que esta atleta de 19 anos compete desde 2013. No Domingo, Eunice Kirwa, também ela proveniente do Quénia, já tinha oferecido a este pequeno país do Golfo Pérsico uma primeira medalha. No seu caso, a de prata na maratona feminina.
Isto é, até hoje, todas as quatro medalhas olímpicas do Bahrain foram conquistadas por atletas nascidos em África. Às duas acima referidas, somam-se o ouro de Rashid Ramzi (natural de Marrocos) em 2008 nos 1500m masculinos – que lhe seria retirada após confirmado o recurso ao doping –, e o bronze de Maryam Yusuf Jamal (Etiópia) em 2012, na mesma prova no sector feminino. Jebet e Kirwa são, portanto, mais duas atletas que renunciaram à sua nacionalidade, em troca de uma presença garantida numa competição tão mediática como os Jogos Olímpicos, de melhores condições de treino, mas sobretudo, de dinheiro.
A naturalização de atletas não é novidade, nem o Bahrain o primeiro país a recorrer a este meio. Nos últimos anos, também o Catar e a Turquia se destacaram pelas mesmas razões. O Bahrain, porventura, é o caso mais flagrante. Com uma população estimada em 1,3 milhões de habitantes, este país do Médio Oriente partiu para o Rio com uma comitiva de 35 atletas. Entres os 29 inscritos no atletismo, NENHUM deles nasceu no Bahrain. Quénia, Etiópia, Nigéria ou Jamaica. As origens multiplicam-se. Países onde o talento abunda de tal forma, que fazer parte da equipa olímpica já é, por si só, uma tarefa muito complicada para qualquer atleta.
Uns dos casos mais mediáticos ocorreu em 2000, nas vésperas dos Jogos de Sidney, quando o Catar comprou uma equipa inteira de halterofilistas búlgaros. No entanto, apenas Angel Popov, que competiu com o nome Said Saif Asaad, regressou a casa com uma medalha (bronze). Em 2014, durante os Jogos Asiáticos, Su Bingtian, o principal velocista chinês da actualidade, criticou os seus rivais “africanos”, alegando serem mais poderosos e atléticos, o que o deixava a ele e a todos os outros atletas em desvantagem. Das 22 disciplinas individuais aí disputadas, 14 foram ganhas por atletas de origem africana.
Dos 14 jogadores que constituíam a equipa de andebol do Catar no Rio – entretanto eliminada pela Alemanha nos quartos de final –, 11 nasceram fora do país. Ao todo, 9 nacionalidades diferentes de 4 continentes distintos. Outro dado bem esclarecedor, assenta no facto de os recordes europeu, asiático e africano nos 100m, estarem todos na posse de atletas nigerianos: Francis Obikwelu por Portugal (9,86s), Femi Ogunode pelo Catar (9,91s) e Olusoji Fasuba pela Nigéria (9,85s).
Esta migração de atletas nigerianos para o Bahrain tem gerado alguma preocupação no seio da federação nigeriana quanto ao futuro do atletismo no país, e já foi apelidada de Bahrain Drain, ou B(ah)rain Drain.
João Lains


4 Comentários
RuiMagas
Enquanto isso no Bahrain todos os dias violam-se os Direitos Humanos e ninguém liga à isso. Aliás neste momento estão todos curiosos para saber que ciclistas vai ter a equipa do Bahrain, equipa essa que é mais um fetiche do “príncipe” do Bahrain que de príncipe tem pouco!
Nuno R
A compra de atletas é uma realidade.
O futuro é eles serem importados em idade mais tenra, esses países têm estruturas e treinadores para fazer escola.
Pedro o Polvo
Aplaudo o esforço por um texto não relacionado com futebol. Informação interessante. Eu próprio admito que pesco pouco de outras modalidades, muitas delas só ouço falar de 4 em 4 anos mas acho interessante conhecer mais.
Os jogos olímpicos são um fenómeno desportivo, social e político muito interessantes de se seguir. Desde a organização e público brasileiros, às suspensões, à questão russa, à questão Caster Semenya, aos métodos de treino, ao estímulos de treinos (bolsas no caso dos EUA, formação de “robots” no caso da China e Rússia), à “compra” de atletas como foi retratado neste texto…muito se pode discutir, às vezes mais interessante do que a discussão do próximo clube do Rafa.
Pedro
Estas “compras” de atletas desvirtuam o espírito olímpico mas em países que querem ganhar a todo o custo o mais preocupante são os esquemas de dopagem. Isso é inadmissível em qualquer desporto.