Nos últimos 20 anos, a selecção portuguesa deu um claro salto competitivo. Antes de 2000, a equipa das Quinas só tinha participado em duas fases finais de Mundiais (em 16 edições) e em duas de Europeus (em 10 edições), ao passo que a partir de 2000 esteve em todas as grandes competições de selecções, num crescimento que, apesar de estar relacionado com o aumento das equipas participantes nas fases finais deste tipo de torneios, reflete uma evidente subida de nível. Ainda assim, e quando Portugal se prepara para iniciar a sua 7.ª participação num Campeonato do Mundo, vale a pena lembrar que os lusos têm nesta competição registos bem inferiores aos que ostentam em Campeonatos da Europa, sendo que, nos 23 eleitos de Fernando Santos, há diversos jogadores com “contas a ajustar” com a principal competição do desporto-rei. Uma equipa e um conjunto de atletas que têm excelentes memórias de Europeus (a começar pelo de 2016, claro) mas que guardam recordações algo traumáticas de Mundiais.
Começando pela selecção, a nível global, a diferença de rendimento recente de Europeus para Mundiais é clara. Assim, desde 1996, Portugal passou sempre a fase de grupos do Campeonato da Europa, tendo como piores resultados os quartos-de-final atingidos em 1996 e em 2008 (caiu nas meias-finais em 2000 e 2012, foi finalista vencido em 2004 e campeão em 2016). Já em Campeonatos do Mundo, e no mesmo período, a equipa portuguesa só passou a fase de grupos em 2006 (quando terminou em 4.º) e em 2010 (quando caiu nos oitavos). Assim, enquanto em Europeus o pior resultado dos últimos 22 anos é ficar pelos primeiro jogo a eliminar (então os quartos-de-final), em Mundiais essa mesma prestação, em 2010, representa a segunda melhor marca portuguesa dos derradeiros 50 anos, só superada pelo 4.º posto do Alemanha’2006. Nos últimos 9 jogos que Portugal fez em Mundiais só venceu dois, um contra a Coreia do Norte e outro contra o Gana, somando 4 derrotas nesses mesmos 9 desafios. Para se ter uma noção, Portugal tem 4 derrotas nos derradeiros…17 jogos de Europeus. A nível histórico, a selecção portuguesa é a 3.ª na história dos Europeus com mais presenças no top-4 final (leva 5, só superada pela Rússia/URSS e pela Alemanha/RFA), enquanto em Mundiais há 8 selecções com mais presenças no top-4 final que as duas que Portugal tem, sendo que alguns países que estão “empatados” com os lusos no que toca a ficar entre os 4 primeiros já foram campeões, como Espanha ou Inglaterra. Nos Europeus, Portugal é uma equipa de elite, sendo que nos últimos 20 anos é mesmo uma das 4 equipas com melhor registo, mas nos Mundiais nem no top-8 está. A disparidade de rendimento é evidente e será algo que o campeão da Europa Fernando Santos terá como missão contrariar.
Mas não só a nível colectivo as recordações recentes do grande evento futebolístico planetário são bem díspares das que subsistem dos Europeus. No plano individual, diversos jogadores não têm tido a melhor das relações com os Mundiais. Desde logo o capitão Cristiano Ronaldo. Recordista de jogos efectuados, de minutos realizados e de golos marcados em fases finais de Europeus (neste último parâmetro empatado com Platini), o capitão não tem tido a mesma pujança nos Mundiais. O Alemanha’2006, quando tinha somente 21 anos, foi o seu melhor, tendo um papel importante na equipa que ficou em 4.º lugar. No entanto, quer em 2010 quer em 2014, quando já era a grande referência do futebol português, o avançado deixou a competição com um amargo sabor de boca. Na África do Sul só marcou um golo, na goleada contra a Coreia do Norte, e esteve “ausente” do embate contra a Espanha que ditou a eliminação; No Brasil chegou em más condições físicas e também só fez um golo, desta feita frente ao Gana numa partida que ficou marcada pelas ocasiões desperdiças por CR7. No total, são 13 jogos em Mundiais e apenas 3 golos marcados (contra o Irão – de penálti -, a Coreia do Norte e o Gana), tendo as duas últimas edições da prova visto um Ronaldo muito longe do nível desejado. A grandeza futebolística do capitão português é inquestionável mas a verdade é que o avançado, no maior dos palcos, ainda não atingiu o brilho que já alcançou em praticamente todas as outras competições em que participou. Aos 33 anos, a Rússia pode ser a chance de quebrar esta malapata e de ficar, também, na história dos Mundiais.
Outro das principais referências recentes da selecção nacional tem “contas a ajustar” com Mundiais. Pepe fez 3 Europeus de altíssimo nível, nos quais somou 15 partidas e foi incluído na equipa ideal desses 3 torneios. Já em Mundiais, o defesa do Besiktas tem somente 4 partidas: em 2010 chegou à África do Sul após longos meses de lesão e foi opção contra o Brasil e contra a Espanha, em ambas as partidas como médio-defensivo e nos dois casos acabando substituído; em 2014 levou um vermelho no primeiro jogo contra a Alemanha e voltou para a terceira partida, diante o Gana. Portanto, Pepe, um defesa na história dos Europeus (em 2008, 2012 e 2016 colecionou exibições memoráveis), está a milhas de ter um registo, sequer, semelhante em Mundiais. Tal como Ronaldo, a sua idade (35 anos) leva a pensar que poderá ter aqui a última grande oportunidade para brilhar num palco onde nunca o fez.
Continuando na senda de titulares de longa data da selecção, chegamos a Rui Patrício. O n.º1 de Portugal foi titular nos europeus de 2012 e 2016 (em 2008 também foi chamado mas ficou no banco) e, quer na Polónia e na Ucrânia quer em França, teve um bom rendimento médio, com 12 jogos disputados. Já em Mundiais, Patrício, há 7 anos dono das redes das quinas, disputou somente um encontro, e logo a derrota sofrida por 4-0 contra a Alemanha em 2014, na qual ficou mal na fotografia. Assim, temos aqui mais um titular com um registo muitíssimo diferente em Europeus e Mundiais. Também João Moutinho é há muito pedra basilar para Portugal. 110 vezes internacional AA, o médio fez 15 partidas em 3 europeus, 11 delas como titular, e é outro dos nomes deste elenco sem grandes memórias de Mundiais. Em 2010 a sua ausência dos 23 de Queiroz causou surpresa, e em 2014 realizou os únicos 3 desafios que tem em Campeonatos do Mundo, tendo apresentado um nível fraco e levando Paulo Bento a ser muito criticado por não prescindir do médio do Mónaco.
Caso um pouco diferente é o de Quaresma. Se Ronaldo é fundamental para a selecção desde 2004, Pepe desde 2007 e Rui Patrício e Moutinho desde 2010/2011, o extremo do Besiktas só com Fernando Santos ganhou um papel de relevo por Portugal. Ainda assim, Quaresma foi tendo a confiança de Scolari ou Paulo Bento, o que o levou a estar presente nos Europeus de 2008 e 2012, para além, claro, do de 2016. No entanto, apesar de ter feito parte do plantel luso em 3 europeus, Quaresma está em estreia em Mundiais: não obstante ter brilhado na I Liga em 2005-2006 Scolari não o levou à Alemanha; o seu “apagão” no Inter levou-o a ser preterido por Queiroz para a África do Sul; e o seu regresso ao FC Porto para a segunda metade de 2013-2014 não chegou para convencer Bento a levá-lo ao Brasil. Assim, um jogador de 34 anos, com presença em 3 europeus e com 79 internacionalizações vai estrear-se na grande montra do desporto-rei universal. Finalmente, outros dois campeões da Europa estão em estreia em Mundiais e não guardam boas lembranças de edições passadas: Cédric Soares e Adrien Silva foram dois dos jogadores que, durante a temporada 2013-2014, os adeptos mais pediram que fossem levados ao Brasil. A afirmação da dupla no Sporting de Leonardo Jardim a juntar à quebra de rendimento de opções de Paulo Bento como João Pereira, Raúl Meireles ou João Moutinho fez com que o duo ganhasse legítimas expectativas em estar no grande certame, acabando estas por tornarem-se em desilusão.
Portugal encara este Mundial com naturais expectativas. A conquista do Euro’2016, feito maior da história do futebol português, leva a que os pupilos de Fernando Santos tenham um estatuto a defender por terras russas, não querendo deixar os créditos conquistados em França por mãos alheias. Mas, além disso, esta competição é a oportunidade para dar um pontapé numa tendência de disparidade de rendimento entre Europeus e Mundiais, a qual não só vem-se sentido ao longo deste Século de crescimento e consolidação da selecção nacional mas que afeta, de maneira particular, várias das peças-chave da equipa das Quinas ao longo dos últimos anos, cujo rendimento e recordações em Mundiais nada têm que ver com o que sucedeu em Europeus. Hoje, a partir das 19 horas, o enguiço começará a tentar ser quebrado. Ficam os desejos de que o Mundial, torneio de grandeza inigualável, veja, pela primeira vez em todo o seu esplendor, Rui Patrício a encolher a baliza, Pepe a dominar a área, Quaresma a fazer magia ou Ronaldo a colocar bolas no fundo das redes umas atrás das outras.
Pedro Barata


25 Comentários
Guiny
Mais do que enguiço somos uma selecção provinciana.
Se reparar-mos, as duas melhores prestações de Portugal, Inglaterra 1966 e Alemanha 2006, têm em comum o facto de terem sido mundiais na Europa.
Ao invés os mundiais realizados fora da Europa costumam ser catastróficos dentro e fora do campo: a Tragédia de Saltilho em 86, o Desastre da Coreia em 2002 e o Patético Brasil 2014.
Curiosamente a melhor prestação fora da Europa foi conseguida pelo tão odiado Carlos Queirós na África do Sul e num grupo difícil com o Brasil e com uma das melhores selecções africanas a Costa do Marfim, num mundial realizado em África. Ao segundo jogo já estávamos apurados, não perdemos nenhum jogo e não sofremos nenhum golo. Embora também só ganhámos contra a equipa mais fraca a Coreia do Norte e só marcámos golos contra eles. Fomos eliminados pela campeã da Europa Espanha com um golo em fora de jogo, Espanha que acabaria por ganhar esse mundial sempre pelo mesmo resultado 1 – 0. Mas para o Madaíl e quase todos os portugueses essa participação foi vergonhosa.
Como este é um mundial que se realiza na Europa há alguns motivos para se estar um pouco optimista.
Fallen Angels
O Ronaldo nem devia ter jogado em 2014 devido a lesão, não acho muito justo dizer que tem tido mais mundiais. 2010 foi ok depois de passar parte da época lesionado e 2006 foi bastante positivo. 2014 tendo em conta as circunstancias também não foi mau.
Têm razão que um jogador como ele tem de aparecer a um nivel ainda mais alto agora que não tem lesões mas também é verdade que foi muito vitima das circunstâncias.
Bfas
Meu XI para hoje
R.Patricio
Cedric, Pepe, Fonte, R.Guerreiro
William, Moutinho, B.Fernandes
B.Silva
Guedes e Ronaldo
TheHunter
Estou confiante num resultado que nos seja favorável. A Espanha é uma boa equipa com excelentes jogadores mas nós também temos as nossas armas e a entrar em campo que seja para ganhar.
Joaquim O
Cuidado com o excesso de confiança. Não vamos repetir os erros de 2014. Força!
JoaoMiguel96
Hoje a vitória é nossa, não tenho dúvidas! A sorte monstruosa de FS vai levar nos à glória!
ACT7
Acredito que podemos fazer uma boa campanha este ano.
O texto mostra bem as nossas limitações a nível de mundial, mas para mim há dois fatores determinantes:
-as nossas melhores prestações foram em solo Europeu (ninguém esquece a preparação ridícula para o Brasil).
-temos um estrutura e base que nem se compara aos outros anos, a FPF têm estado a trabalhar muito bem e apresentar excelentes resultados para a nossa realidade, arrisco a dizer que no meio do lamaçal que é o nosso futebol a FPF a nível da seleção está a dar cartas.
Ansioso pelo jogo de logo, espero grandes defesas do Patrício, Pepe a limpar tudo, William a rasgar passes para o Guedes, Ronaldo a marcar, magia do Bernardo e estrelinha do Fernando.
Estigarribia
A estrelinha do Engenheiro Nando é fundamental para sermos Campeões do Mundo.
ahahaha
cards
Bom texto.
mais uma prova de que um mundial é 10x mais dificil do que um europeu.
se fosse igual ou mais fraco Grécia Dinamarca e Rep. checa/ Eslováquia já teriam tido boas prestações em mundiais.
Joao D
Não sei se é. Olha que Arábias Sauditas, Panamás, Australias, Honduras, Coreias do Norte, etc nunca se apurariam para um Europeu…
Mister Cimba
Acho que o mundial a única coisa mais fácil poderia ser passar a fase de grupos, porque de facto podes apanhar equipas que não se apurariam para um europeu, mas agora no europeu com este formato fica mais fácil passar a fase de grupos (Portugal que o diga).
Mas a partir da fase de grupos a fase a eliminar é muito mais dura, podendo apanhar não só as melhores europeias como as da américa do sul principalmente que são sempre dificeis.
Nodlehs
Este seria o meu XI para hoje
Patrício
Ricardo
Pepe
Fonte
Guerreiro
William
Moutinho
B. Fernandes
B. Silva
Guedes
Ronaldo
Mas deve jogar Cedric e João Mário no lugar de Ricardo e B. Fernandes
Ramon Caetano
Vai ser um jogo taco a taco. Não acho que Espanha seja assim tão melhor que nós, até porque para mim nem está nas três favoritas para vencer a prova.
Gostava que jogassem Guedes e Bruno Fernandes a titulares, mas destes dois penso que apenas o jogador do Valência terá essa hipótese.
Vamos com tudo.
RL15
Em termos de Mundiais, conseguimos os melhores resultados quando os mesmos se realizaram em solo europeu (Inglaterra 66 e Alemanha 06). Tendo em conta que este Mundial é em solo Europeu, quem sabe se não é desta que trazemos o caneco.
Xyeh
Eu acho que o Manuel Fernandes vai partir tudo, habituado ao clima.
Luis 1 2 3
A ver se é desta que o cr7 faz um mundial decente, para alguém que quer ficar entre os melhores da história as exibições nos 3 mundiais que participou são miseraveis
Joao D
Por acaso, uma das grandes recordações futebolísticas que tenho é o Mundial2006. Foi incrível, mesmo.
O jogo lusófono contra Angola, aquela batalha campal contra a Holanda onde me ia dando o traque com tanto nervoso, aquela prestação gigante do Ricardo nos pênaltis contra a Inglaterra, aquela eliminação tremendamente injusta às mãos da França.
E isto ao som da mítica música da Galp “Quero ainda mais”.
Hoje estamos aqui para marcar uma posição no futebol mundial. Merecemos respeito das outras seleções.
Vamos com tudo, Portugal! 11 canhões apontados a ti mas 11 milhões a marchar contigo!
Estigarribia
Tenho um feeling que Portugal vai vencer a Espanha por 2-0. Golos de Cristiano Ronaldo e de Gonçalo Guedes.
#VamosParaCimaDeles
Roy_KK
Hoje o meu pessimismo natural em relação à nossa selecção não está a aparecer. Estou muito confiante para hoje e acredito que não vamos sofrer nenhum golo na fase de grupos.
Tiago Silva
Patrício, Cédric, Pepe, Fonte, Guerreiro, William, Moutinho, Bernardo, João Mário, Guedes e Ronaldo.
Vamos para cima deles!
Tiago Silva
Vamos ter que jogar como jogámos contra a Bélgica! Deixá-los ter a bola, num bloco mais baixo e sair rápido e com critério no contra-ataque. Só que desta vez temos o Ronaldo para finalizar!
Manuel V.
Trocava só o Cedric pelo Nelson Semedo, o Fonte pelo Rúben Dias e o William pelo Danilo e era equipa para vencer o Mundial
Rodrigo Ferreira
De facto, dados muito curiosos e que espelham a nossa prestação pobre em Mundiais. É hora de quebrar o enguiço como referiu Fernando Santos ontem.
Manchester Is Red
Vamos ganhar hoje e sem espinhas.
2-0 para Portugal.
josediogo
É momento de desligar de tudo aquilo que se tem falado, extra futebol, e finalmente ligar o chip para o espectáculo.
Venha e falemos de futebol.
Para cima deles!