Nas últimas duas edições da Bundesliga, o campeão foi o Borussia Dortmund. Esta temporada, que ainda decorre, o Bayern já se consagrou como “rei e senhor” de uma das ligas mais espectaculares que há. A liga alemã tem tido uma evolução quase estratosférica, embora ainda não tenha a visibilidade merecida (a chegada de Guardiola poderá alterar isso, assim como a actual campanha dos seus representantes na “Champions”). Para quem não sabe, estamos perante o campeonato onde os estádios registam a maior taxa de ocupação (ronda os 92%). E nada é ao acaso. Para que isto seja possível, e sabendo antemão da capacidade financeira dos alemães, há um aspecto a destacar. É verdade que a qualidade do jogo jogado, o equilíbrio entre as equipas (há resultados surpreendentes todas as jornadas) e o próprio conforto/segurança dos estádios são factores a ter em conta, mas existe um acima de todos: o horário dos jogos. Enquanto em Portugal os jogos se realizam consoante a disponibilidade das transmissões televisivas, na Alemanha os horários promovem que o “adepto” se dirija ao estádio e leve consigo a família, por exemplo. Em suma, não será descabido afirmar que a Bundesliga é um torneio cada vez mais desejável e o mediatismo em seu redor tem aumentando todos os anos. Por sua vez, a liga espanhola tem vindo a assistir a uma liga dentro da própria liga, isto é, há Barcelona e Real Madrid e depois existem os outros. Este fosso foi criado, sobretudo devido à capacidade financeira de “culés” e “merengues”. O mediatismo em torno dos clássicos colocou La Liga em destaque, embora haja pouca emoção à sua volta. Afinal de contas, estamos perante uma luta que se resume a dois conjuntos, que tem lutado entre si tanto nas competições internas como nas competições internacionais. Ainda assim, existe uma qualidade técnica e táctica da grande maioria dos jogadores e equipas que fazem parte e participam no campeonato espanhol. Todo este “cocktail” também permitiu que a Espanha se tenha tornado no alvo a abater em competições de selecções. Campeã mundial e da Europa em título, sem que haja um verdadeiro adversário capaz de fazer frente a “La Roja”.
Comparando os 4 semifinalistas, o Real Madrid é a equipa que sai um pouco da linha. José Mourinho tem ao seu dispor um plantel recheado de estrelas, onde pontifica Cristiano Ronaldo, que foi construído à sua imagem e com muitos milhões investidos. Bayern, Borussia e Barcelona também os gastaram (e gastam), mas apresentam algo diferente dos “merengues”: a aposta em jovens e muitos deles oriundos da formação. Em Munique, há uma mescla de jogadores de renome internacional, com Robben e Ribéry à cabeça, de conhecedores da realidade alemã (Neuer e Gómez, que nunca jogaram noutro campeonato) e de jovens jogadores “criados em casa”, como são os casos de Alaba, Kroos ou Müller (Lahm e Schweinsteiger são da geração anterior). O Borussia, depois de uma travessia pelo deserto, encontrou um autêntico filão sem procurar muito. O jovem e irreverente Jürgen Klopp comanda uma equipa que a nível europeu apresenta, muito provavelmente o maior número de jogadores com uma margem de progressão assinável. Schmelzer, Hummels, Gundogan, Reus, Götze e Lewandowski são os principais nomes e têm tudo para singrar ao mais alto nível no futebol europeu durante muitos e bons anos. Neste aspecto, o Barcelona dispensa apresentações. De La Masía, por norma, saem craques quase todos os anos, e o Barça conta com eles no hoje, mas também no amanhã. O actual plantel catalão é formado maioritariamente por jogadores com ADN “culé”, onde Puyol, Xavi e Iniesta são liderados por um pequeno argentino que muitos ousam designar como o melhor de sempre: Lionel Messi.
As diferenças entre alemães e espanhóis existem. Não obstante, o trabalho desenvolvido em ambas as nações tem sido extraordinário. Estamos perante um modelo consciente e estruturado, que se foi desenvolvendo com a paciência necessária para que agora haja sucesso. Em ambos os casos, há um notório equilíbrio de e entre todos, ou seja, desde os clubes aos jogadores, passando pelos adeptos e funcionários o objectivo é o mesmo: vencer e cultivar o espirito de vitória, mas sem entrar em loucuras e desespero. Ainda assim, o maior trunfo está na mentalidade adoptada e empregue nos dois modelos que, devido ao seu sucesso, deviam ser um exemplo a ser seguido e adoptado pelos restantes membros do futebol europeu. No inicio de Maio saberemos quem serão os finalistas de Wembley e qual a nação que vai receber o novo campeão europeu. Certo é que o troféu ficará bem entregue, pois estamos perante quatro equipas do melhor que há no futebol europeu.



7 Comentários
Jorge
Desculpem lá…mas que "exemplos"? Se eu tiver por trás Países de dimensão considerável que me injectam dinheiro proveniente de direitos televisivos, merchandising por terem uma massa crítica inacreditável e milhões de seguidores por todo o Mundo é fácil chegar a esta dimensão.
Prefiro dar mérito a um FC Porto que num País de dimensão reduzida o que motiva pouco dinheiro a entrar tem conquistado sucessos a nível internacional motivado por um excepcional trabalho de scouting, onde trazem Falcao, Hulk, Lisandro, Lucro, James, etc, etc, etc antes destes explodirem….isto sim é competência, não é só dinheiro a atrair dinheiro
hugo pinto
João Lains, só quem está muito afastado da realidade do futebol, ou cores futebolísticas não deixem enxergar com nitidez a realidade, é que poderá dizer que o porto não fez scouting aos referidos jogadores. Concordo se me disserem que o facto de outro clube Portugues estar interessado, tenha acelerado a compra dos mesmos.
Quanto ao post em si. É dificil imitar os modelos vingentes nestes países, nomeadamente a Alemanha, porque para criar as condições que eles possuem é sempre necessário bastante dinheiro. Agora, é possível melhorar, e muito. OS "jovens" que são contratados em países sul-americanos principalmente, apresentam muitas das vezes qualidade e maturidade, que só é possivel porque são apostas nos clubes desde muito cedo. Em portugal parece-me que há um pouco de reticências em apostar nos jovens e dar minutos, para uma evolução mais rápida. Quanto aos exemplos de Sporting e Guimarâes, é verdade que tem apostado, mas a meu ver tal só aconteceu, exclusivamente por um factor: falta de dinheiro. Não existe no nosso país uma aposta séria e declarada na formação, existindo bastantes estrangeiros nas camadas jovens, e em que quase exclusivamente os clubes grandes tem jogadores nas saleções jovens, havendo poucos clubes que consigam colocar atletas nas mesmas.
João Lains
Jorge, muito pertinente falar de Falcao e James, curiosamente o Porto nem precisou do scouting para os contratar, assim como muitos outros, Alvaro Pereira, Alex Sandro, Danilo (ainda bem que não veio)…
FÁBIO COSTA
Portugal deveria seguir o modelo das Bundesliga através de uma aposta forte na formação e nas academias como eles fizeram. Eles beneficiaram muito a nível de campeonato como seleção. Infelizmente os únicos que vejo a apostar seriamente na formação cá em Portugal é o Sporting e o V. Guimarães.
Vasco
Muito bom artigo.
Ainda há muitos que não perceberam que o domínio inglês já acabou há alguns anos, apesar dos investimentos lunáticos na premier. De facto, a PL continua a ser um campeonato fantástico ao nível da emoção dos jogos, da atmosfera em torno deles, etc…mas a qualidade das equipas baixou (não tanto como em Itália, aí sofreram uma perda de qualidade assutadora). Na altura de Mourinho, tínhamos Chelsea, Man Utd, Liverpool e Arsenal quase todos os anos fortes da Europa. Muitas vezes 3 equipas inglesas nas 1/2 finais da Champions. Hoje em dia mal chegam aos quartos, em 2 anos seguidos tivemos Man Utd, Chelsea e Man City (2 vezes) a ficarem-se pela fase de grupos, algo que demonstra o decréscimo de qualidade nas grandes equipas. Creio que é um pouco devido à falta de qualidade dos treinadores da PL que isto tem vindo a acontecer, mas não só, pois muitos deles são os mesmos de há uns anos para cá.
Enfim, há que ver os bons exemplos e perceber as razões do seu sucesso. Efectivamente, estamos no ciclo espanho-germânico e a coisa tenderá a continuar assim.
Nuno
E os alemães têm de se reger por regras financeiras apertadas.
Mas claro que o sucesso tem 2 segredos: formação e exigência. Há um nível de profissionalismo que simplesmente não se vêm em Portugal. Na evolução do atleta, e do indivíduo. Tenho a ideia (errada?) de que há mais blindagem em relação ao poder dos empresários, o que beneficia os jovens. Depois há todo um trabalho em volta dos atletas, a nível físico, técnico, táctico e mental.
João Lains
O verdadeiro modelo a seguir e não me canso de o referir é o do futebol alemão, porque foi fruto de um trabalho de "equipa" entre a federação e todos os clubes da primeira e da segunda liga, que tiveram de se comprometer com todas as medidas impostas pela DFB.
O futebol espanhol também merece claro destaque, principalmente por todo o domínio da selecção espanhola, mas aqui grande parte dos méritos vão para a escola de formação do Barcelona e para o próprio modelo de jogo que agora também é a imagem de marca da Roja.