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Antologia De Uma Restrição Muito Pouco Conveniente

11:30h Liberta-se mais um grito bem audível à Maria questionando o lavor do almoço.

12:00h Latejam os talheres impacientes sem nunca esconder o nervoso miudinho.
13:00h O transístor já viaja no bolso para acompanhar o relato do rival.
Hoje é domingo. Muito mais do que ir à missa logo de manhãzinha e invocar a Nossa Senhora de Fátima para uma intercessão divina, a febre do futebol contagiou as gentes da terra. À mesma hora de sempre, no local de sempre, joga o maior da distrital.
A equipa é composta por jogadores da terra. Homens de barba rija a quem um dia lhe prometeram 50 contos por mês para dar uns chutos no pelado do campo desportivo. A cerca à volta do recinto está repleta pela multidão. Os populares vieram mais uma vez em força apoiar o clube – numa mão seguram o cigarro, na outra o transístor sintonizado na rádio regional. A qualidade do camarote VIP é diretamente proporcional à altura dos membros inferiores. O mecenas do clube, o Sr. Joaquim Venâncio, é o patrão da terra. O homem dos sete ofícios que ergueu o seu império local tendo apenas a quarta classe e cuja sua maior paixão é a bola. A alegria do povo e dos seus trabalhadores. O dia seguinte na fábrica é uma autêntica folia a elogiar a prestação da equipa de casa ou a caluniar, só mais uma vez, o senhor de apito com bigode.
E assim neste simples compasso, pintámos esta gravura popular do futebol português nos anos 80 e 90. Mas a 15 de Dezembro 1995, o Acórdão Bosman viria a revolucionar o futebol europeu, deixando para trás os mecenas cá do burgo e a rapaziada que aprendeu a jogar nas ruas do bairro. A machadada final foi dada a 30 de Junho 2006, quando chegou ao fim o limite de jogadores extracomunitários na Liga Portuguesa de Futebol.
Nos últimos 19 anos, a globalização tomou conta do clube da terra. 
Os mecenas esvaziaram os seus bolsos à espera que os fundos de Bruxelas evitassem a sangria da concorrência no oriente. O Zé Manel, filho da Albina e do Júlio Diospiro, perdeu o lugar de artilheiro-mor para o Kelvin Metralha, natural do Rio Grande do Sul.
E assim, o clube foi esvaziando a alma e os cofres.
Por essa Europa fora, a história repetiu-se inúmeras vezes.
Mas a fatura veio e continua a chegar com um significativo atraso, sob a forma de paupérrimas fornadas de jogadores da formação incapazes de suceder em forma e conteúdos aos veteranos consagrados. Nessa mesma Europa, os esforços redobram-se para emendar os sucessivos erros do passado sob a forma de instrumentos como a limitação do número de extracomunitários ou as quotas no 11 inicial ocupadas por jogadores estrangeiros.
Contudo, num dos países mais afetados por este fenómeno, a impavidade reina como se fazendo jus ao povo de brandos costumes que o habita. Portugal. Por mais que a conjuntura económico-social esmiúce o orçamento dos clubes, a sede de vitória a todo o custo corrompe a sustentabilidade das próprias instituições. E é aqui, exatamente neste ponto, que reside uma restrição muito pouco conveniente.
Continuar compulsivamente a ignorar os sinais de alarme que ecoam no ar, é esperar que por criação espontânea como alegava Aristóteles surjam talentos como o Guedes, o Silva, o Fernandes ou o Lopes capazes de trilhar eles próprios um caminho na formação, mas sobretudo, é esperar que toda esta liberdade de escolha subjacente à não-limitação de extracomunitários constitua ela própria um incentivo à criação de plataformas de exposição e exportação de talentos desportivos via Portugal. É sob este pretexto, que as elites da Liga e da Federação argumentam entre si para a manutenção do status quo.
Porque exatamente neste quadro, os brasileiros da Traffic compraram o Estoril-Praia em 2010 catapultando o clube para a Europa. A holding iraniana 32group adquiriu a maioria da SAD do Beira-mar prometendo mundos e fundos, contudo só semeou a desgraça. A SAD da Olhanense foi adquirida em 2013 por investidores italianos sedentos de convidar a sua vasta carteira de veteranos para experimentar o sol algarvio. E em breve, os tigres da Costa Verde, preparam-se para serem vendidos a um grupo de investidores argentinos que juram que o próximo Messi envergará a camisola 10 do SC Espinho.
Esta é apenas a ponta do icebergue, que promete colocar Portugal no epicentro das atenções de vários investidores de todo o mundo. Não interessa a sua heterogeneidade cultural ou a legitimidade da sua riqueza, o importante é que os mecenas do mundo moderno deixem cá as suas fortunas, construindo estádios, derrubando fronteiras e enviesando sonhos.

Hoje, os Zés Manéis estão descrentes do futuro da formação. Na sua inocência, procuram ser os próximos CR’s da aldeia, desconhecendo que o seu lugar está tapado pelos dólares do senhor de colarinho. Já os Joaquins levaram consigo o dinheiro e a paixão do povo deixando os recintos vazios e ao arbítrio de um domingo onde não se faz coisa nenhuma.


Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): Francisco Silva

0 Comentários

  • Abel Alves
    Posted Dezembro 2, 2014 at 4:55 pm

    No fundo, quase todos gostavam que os seus clubes tivessem uma politica a Sporting. Podem sempre mudar de clube.

  • Ruben F.
    Posted Dezembro 2, 2014 at 1:18 pm

    Isto faz-me sempre relembrar quando a minha terra tinha um clube, o Estrela da Amadora. Infelizmente o Presidente e restantes directores não eram pessoas muito sérias, digamos assim, e agora temos o estádio a apodrecer. Agora surgiu o Clube de Futebol Estrela mas ainda não tem séniores, está em fase de crescimento. O estádio assim ao menos serve para os jogos dos miúdos e pode ser que daqui por uns tempos esteja de volta às primeiras ligas de Portugal

  • Rodolfo Trindade
    Posted Dezembro 2, 2014 at 12:42 pm

    Só tenho a dizer: Excelente!!!! Parabéns!!!

  • João Dias
    Posted Dezembro 2, 2014 at 12:16 pm

    Quando dizem o "Silva" referem-se ao Bernardo Silva ou ao André Silva?

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:03 pm

      João Dias, referia-me ao André Silva de forma a ser o mais equitativo possível.
      Pois já tinha um "petiz" da formação encarnada nos apelidos – Guedes.

    • Rúben Cardoso
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:45 pm

      Elpídio Silva, como é óbvio.

  • Flávio Trindade
    Posted Dezembro 2, 2014 at 11:09 am

    Parabéns Francisco pelo fantástico texto.
    Relembrar esses tempos em que o futebol era mais "puro" é sempre agradável e já há muito tempo não lia nenhuma referência aos enormes rádios de pilhas que punham as bancadas aos saltos sem motivo aparente no jogo que se estava a ver, mas pura e simplesmente porque gritavam golo do adversário no outro jogo.
    Agora olhamos para o telemóvel…
    Quanto ao assunto também não poderia ser mais pertinente.
    O acordão Bosman teve o condão de alterar por completo o mundo do futebol. Acabava-se as posições dominantes dos clubes, e o jogador passava a ter um papel central e decisivo. Mas como a maioria dos jogadores só sabe mesmo dar uns chutos na bola, eis que entram em cena os agentes, os fundos, os sheiks, os petrodolares e os offshores, e como disseste e bem, o Zé Manel, outrora figura da formação no seu clube, passou a ser o Zé Manel do talho que dá uns toques numa equipa do CNS (se tiver sorte).
    Deliciosos também foram os nomes…Júlio Diospiro é do melhor! E Kelvin Metralha…não pode ser coincidência!

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:13 pm

      Flávio Trindade, obviamente que os nomes não são coincidência ahahah
      A sua origem fica no segredo dos deuses.

      Ainda bem que gostou da leitura!

  • Frank Rijkaard
    Posted Dezembro 2, 2014 at 10:30 am

    Um texto que aborda um tema que esta em todas as notícias do blog, que e muitissimo discutido nas caixas de comentarios. Muito bem escrito, os meus parabéns Francisco! Enquanto assistimos as "Charles" a ir por dez milhões de euros (!) do Scunthorpe para o Leeds United, vemos o "Antonio Rodrigues" sair do Ribeirão para o Trofense a troco de 100 euros e uma sandes mista, sendo que vão ser tapado pelo "Anderson" que chegou ontem das escolas do Cruzeiro… Sei que e um exagero o que estou a dizer, mas e para abordar o tema por alto. Mais uma vez os meus parabéns!

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:15 pm

      Frank Rijkaard, senti-me tentado a incluir no texto "uma sandes de presunto" aquando do pagamento aos "homens de barba rija". E o panorama que referes é totalmente verdade!
      Conheço casos próximos de mim em que acontece isso.
      Obrigado pelo apreço!

  • Pedritxo
    Posted Dezembro 2, 2014 at 10:26 am

    texto que sobe para o topo do blog, , parabens francisco, conseguiste por um assunto ja um pouco debatido num texto agradavel que deu gosto ler e explicaste de uma forma diferente o que se passa.

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:12 pm

      Foi exatamente por essa "forma diferente" que tentei explicar a falta de aposta na formação e o excesso de estrangeiros, sem nunca esquecer o lado financeiro das instituições. Ainda bem que se reviu no artigo! Obrigado

  • JOAO.p
    Posted Dezembro 2, 2014 at 10:25 am

    Grande texto. Mas digo sinceramente no que toca a ir ver o clube ao estádio, numa altura de apertar o cinto e em que não sou eu o dono das finanças da casinha, é impossível pagar 15 ou 20 euros para ir ver o meu clube jogar ao estádio ou 20 ou 30 para ver os jogos pela televisão… Pudera ter dinheiro para isso!

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:10 pm

      Joao.p, ainda sou do tempo onde pagava apenas 200 escudos para ver "o maior da distrital".
      Estava o recinto completamente lotado. Agora pedem 5€.
      Infelizmente, a maioria das entidades não se soube adaptar ao Euro e fez o chamado "ajuste direto".
      Se antes o bilhete custava 200 escudos, passou a custar 2 € pela sua familiaridade numérica.

  • Rúben Cardoso
    Posted Dezembro 2, 2014 at 10:24 am

    Não há mais adjectivos para descrever o texto, do que aqueles que já aqui foram ditos. Os meus parabéns, Francisco. Gostei muito de ler.

  • Anónimo
    Posted Dezembro 2, 2014 at 10:12 am

    Parece-me tudo demasiado redutor nesse texto. Reduz-se o fenómeno do "estrangeirismo excessivo" e a perda de identidade dos clubes à lei Bosman e ao cancelamento de limitações de extra comunitarios.
    Quem decide é o Estoril, Beira Mar ou Olhanense, não são as leis. Se os clubes escolhem jogadores estrangeiros isso não pode ser consequencia legislativa, pois é uma lei que faculta não obriga. Essa mentalidade é só sacudir água do capote. Realidade? O nosso futebol está abismavelmente superior ao que era nos anos 90, aonde até já havia muitos estrangeiros, o que não é mau, desde que tenham qualidade. De quem é a culpa que o Olhanense e o Beira Mar tenham sido vendidos, sabe-se lá para que fins, a uns investidores que já se sabia à partida que iriam procurar trazer jogadores de qualidade dúbia e da sua carteira pessoal? Ainda mais no caso do Olhanense, que só teve o que merecia. Um desfecho lógico e consequente dessa mesma politica.

    Querem por mais jogadores tugas no FCP e no SLB? Quem iriam buscar e por quanto? Qual o seu potencial? Quais as possiveis mais valias? Isto não é só falar, há que pensar também. A realidade é que o jogador portugues quando se evidencia, sai de Portugal e nunca mais lhe tocas. Não vais buscar um Nani (salvo exceções muito particulares), Ronaldo, Moutinho, Pepe, Coentrao e etc. Mesmo os mais jovens, um Ilori, Marcos Lopes, Bruma, B. Fernandes e etc. são utópicos logo desde muito jovens, já para nao referir no facto de que qualquer jogador das camadas jovens ou equipas B's estão automaticamente excluidos de negócios entre esses clubes. Nem assim se aproveitam os jogadores, excluindo-se permutas e vendas logo à partida, até por imposição dos sócios que não aceitam esse tipo de negócios sem crucificar os dirigentes, chamando-os de traidores para cima. Afinal, aonde começa a culpa?

    Sp

    • Guilherme Loureiro
      Posted Dezembro 2, 2014 at 11:13 pm

      Se a lei não permitir, já não há tanta hipótese portanto a culpa também é de quem fez a lei. E nunca mais tocamos nesses jogadores porque não somos propriamente um país abastado. Portanto temos que continuar a dar atenção às camadas jovens, para fazer mais Ronaldos e Nanis e Moutinhos e Figos… Fica mais barato que ir buscar fora acredite. É só fazer contas.

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:06 pm

      Sp, confesso que não tentei ser redutor.
      Se reparar bem, a perda de identidade está alicercada em 2 factos: estrangeirismo excessivo como diz, mas também, na sangria que ocorreu com os "mecenas" tradicionais do futebol português.

      Por fim, por mais ironia que possa ter usado no caso da Olhanense ou do Beira-Mar, não critiquei as suas aquisições – quem as deve fazer são os associados, não eu.

  • Bruso
    Posted Dezembro 2, 2014 at 10:10 am

    Parabéns pela prosa!!! Muito bom mesmo!! Daqueles textos que merecem estar numa página de jornal.

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:07 pm

      Bruso, ainda bem que apreciou!
      Não está num jornal, mas está num local melhor "visitado" como o VM. It's enough.

  • Kafka I
    Posted Dezembro 2, 2014 at 9:53 am

    Francisco Silva

    Parabéns, só tenho a dizer que assim de repente do que me lembro acho que é o melhor texto que já li aqui no blogue…mais uma vez parabéns..

  • Zé Maria
    Posted Dezembro 2, 2014 at 8:32 am

    Na minha opinião, o futebol é um exemplo perfeito da realidade global do país. Joguinhos debaixo da mesa, favores a amigos, gestão danosa e incompetência reinam no cenário político-social. Este problema é crónico em Portugal. Nunca tivemos uma época dourada desde os Descobrimentos. É uma questão de mentalidade! E o futebol português é um espelho perfeito!

  • Guilherme Loureiro
    Posted Dezembro 2, 2014 at 8:23 am

    Enorme a qualidade deste texto com o qual concordo plenamente.

    De resto, e porque não há muito mais a acrescentar, para além das gestões corruptas levadas a cabo em muitos clubes, é horrível ver a desconfiança com que os dirigentes olham para as suas camadas de formação! Não estão contentes, melhorem-nas com infraestruturas e treinadores de qualidade. Isso sim é um investimento com retorno mais que certo.

  • Diogo Matias
    Posted Dezembro 2, 2014 at 1:28 am

    Até dá gosto ler este texto. "Hoje, os "Zés Manéis" estão descrentes do futuro da formação. Na sua inocência, procuram ser os próximos CR's da aldeia, desconhecendo que o seu lugar está tapado pelos dólares do senhor de colarinho." Tal e qual o que se passava à uns anos atrás. Quem não tivesse um "padrinho" para colocar o "Zé Manel" num bom clube já sabia qual era o seu destino. Ele até podia ser um grande jogador mas não tinha o tal "padrinho". Tantas e tantas carreiras desfeitas.

    P.S: Parabéns Francisco, simplesmente brilhante !

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:00 pm

      Obrigado, Diogo! Quem é que não conhece um dos tais CR's da aldeia?
      Eu tenho alguns bons exemplos bem perto.

  • Guilherme Silva
    Posted Dezembro 2, 2014 at 1:13 am

    Excelente texto, que infelizmente retrata bem o que é o nosso futebol actualmente. O melhor que já li por aqui.

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:59 pm

      Obrigado, Guilherme, pela apreciação do artigo.
      Infelizmente nos dias de hoje é exatamente isto que acontece, perdendo o nosso futebol a habitual magia de domingo à tarde.

  • Alexandre Costa
    Posted Dezembro 2, 2014 at 1:02 am

    Parabéns Francisco, o melhor artigo que li aqui no VM pois trata de um assunto que não pode ser ignorado como é.
    Como já disseram em cima enquanto houver adeptos de vitórias e não de clubes, o futebol português não será competitivo. É uma pena que os clubes da terra sejam ignorados e ao invés se valorizem apenas os ditos "grandes", sejam os adeptos, seja a comunicação social.
    Já só pedia que pusessem o clube da terra a frente dos ditos "grandes". Ontem no Rio Ave tive mais um exemplo disso, adeptos que todas as semanas estão no estádio, tornaram-se camaleões e mudaram para o azul, como o fazem outros para vermelho e outros para um verde que não o do Rio Ave FC.
    Dizem que o futebol está caro, concordo mas por exemplo no Rio Ave é possível por apenas 6 euros por mês (sem bilhete adicional para cada jogo, apenas cartão de sócio) assistir a todos os jogos do campeonato, Liga Europa e Taça da Liga, apenas Taça de Portugal é bilhete a parte e com desconto, mesmo assim o número de sócios é de 4 mil e pouco, isto chama-se falta de cultura futebolística, nada mais.
    Pois bem eu sou orgulhosamente vilacondense, orgulhosamente rioavista e sempre assim serei.
    Cumprimentos

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:57 pm

      Sendo eu também vilacondense, partilho profundamente das tuas palavras.
      Foi exatamente esse "espírito" perdido que tentei partilhar aqui.

  • Anónimo
    Posted Dezembro 2, 2014 at 12:29 am

    Quase perfeito…
    Só faltou dizer que os zés que pagavam um conto e oitocentos pa ir ver o clube da terra a jogar, agora pagam cinco contos pa ver o clube da terra dos outros na televisão.

    Enquanto o adepto português for adepto das vitorias (slb,fcp,scp) podem reformular o que quiserem que isto não anda pa frente…
    Kanjy6

    • Guilherme Loureiro
      Posted Dezembro 2, 2014 at 11:06 pm

      Temos livre arbitrio com certeza Rúben. Eu próprio sou de Coimbra, adoro a Briosa (aliás, sou treinador de formação na Académica, mas não a OAF, a secção de futebol), mas também simpatizo com o Sporting. No entanto, e pode parecer contradição mas a verdade é que sou da opinião que, sendo simpatizantes de um dos grandes, devíamos preocupar-nos com o clube da nossa terra, procurar participar na vida do clube e darmos mais importância a esse mesmo. Parecendo que não ajudava a equilibrar um bocado as coisas, leia-se quotas, receita de bilhetes, etc, etc… Tudo isso mexe porque não é ao acaso que as equipas que levam mais gente ao estádio depois dos grandes são também aquelas que exibem mais qualidade.
      É um ciclo e nós devemos vê-lo como tal, porque a muitos de nós são impigidos os clubes, não somos nós que escolhemos. O Zé Maria disse-o claramente. Ainda não falava e já era do Sporting. É bonito falar em livre arbitrio mas todos sabemos que na maioria dos casos não é assim tão linear.

    • Bruno Fonseca
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:45 pm

      Rúben Cardoso, concordo inteiramente. Também acho que é complicado apoiares um clube da tua cidade, visto que não tem nenhum na 1ª e na 2ª liga. No meu caso, a minha cidade ( Barcelos ) tem um clube na 1ª liga e embora eu goste do clube sinto mais paixão pelo Porto, como dizes e bem são escolhas.

    • Rúben Cardoso
      Posted Dezembro 2, 2014 at 11:10 am

      A questão dos adeptos é que já acho que está mal concebida na cabeça das pessoas. Cada indíviduo é livre de gostar daquilo que quiser. Dei o exemplo no outro dia: eu sou de Vila Franca de Xira, e o peixe da terra é o sável. Sou obrigado, por princípio e por moralidade, a comer sável, em vez de bacalhau, que vem da Noruega?

      Temos o livre arbítrio de fazer as nossas escolhas, sejam elas influenciadas ou não.

    • Zé Maria
      Posted Dezembro 2, 2014 at 9:05 am

      Ainda antes de saber falar já eu era adepto do Sporting e não foi por ser um clube vencedor de certeza. O Sporting não precisa de ganhar para juntar os seus adeptos. Ganhar títulos não influencia nada a minha decisão até porque, tirando o Sporting, os clubes pelos quais nutro alguma simpatia não vencem nada há anos [Liverpool, Athletic Bilbao, Dortmund (a exceção mas até estão em último agora) e Fiorentina].

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 2:38 am

      Nem mais Kajy6, confesso que pensei em incluir uma paisagem dessas, mas depois poderia "exagerar" no conteúdo! Aliás, os mecenas do antigamente, deixaram a paixão presa ao televisor, trocaram o banco frio de cimento, pelo conforto do sofá.

  • Anónimo
    Posted Dezembro 2, 2014 at 12:23 am

    Excelente texto, pinta a paisagem do futebol português claramente. Muitos parabens Francisco.

    Silva 3000

  • Pedro Fernandes
    Posted Dezembro 2, 2014 at 12:11 am

    Dos melhores textos que li e uma forma bem potente de abordar um assunto tão delicado e esmiuçado!
    Parabéns Francisco, brilhante.

  • João Dias
    Posted Dezembro 2, 2014 at 12:10 am

    Enorme post, Fábio Teixeira! Enorme!

    Tal como o Olhanense, o meu clube também foi adquirido por investidores mas o nosso caso é bem mais complexo.

    Em 2011, Majid Pyshiar, poderoso empresário brasileiro investe no Beira-Mar.
    Paga 500 000 € a pronto e promete o clube a lutar pela Champions.
    Cedo percebemos que tudo não passava de uma fantochada.
    Uma SAD gerida pelo senhor Ulisses Santos ( o empresário do Nolito, entre outros ) e afins subsistia com muitas dificuldades. Gestão danoso e corrupta, salários por pagar, desorganização total…

    Em 2013 esses mesmos gestores acabariam por capitular e entregar a SAD a um senhor italiano que usou o dinheiro indevidamente da empresa " Pieralisi " para adquirir a mesma.

    Podia-vos falar do que é a gestão atual do clube mas vocês não iam acreditar…

    Enquanto isto, deixamos para trás os jovens da nossa magnifíca cantera.

    O Sporting, o Benfica e o Porto padecen deste mal. Como estão dependentes de dinheiro externo, deixam para trás os Martins, os Rodrigues, os Teixeiras, os Figueiredos, os Medeiros, os Costas…. que em qualquer país do mundo seriam potenciados para serem dos melhores.

    Mas lá fora ninguem dorme e o Rony Lopes e o Bruno Fernandes provam que vale a pena apostar no jovem português.

    • João Dias
      Posted Dezembro 2, 2014 at 5:51 pm

      Chegar ao mesmo patamar já chegou e por diversas vezes até ultrapassou o Vitória em termos de competitividade.

      5000? Bem mais que isso. Na 2° divisão iam 10 000 no mínimo. Lembro-me até que numa tarde de chuva e fria, a uma segunda-feira enchemos o estádio num jogo " normal " na II Liga.
      Na I Liga iam 15 000, com facilidade. Num estádio com 20 000 lugares.
      Nas deslocações a Coimbra, Porto, Figueira chegávamos aos 1000!!

      Sim, estávamos ao nível do Vitória.
      Mas toda essa ligação perdeu-se…

      Sim, a região do Ave é desenvolvida. Mas Aveiro tem o que Guimarães não tem: uma grande universidade e um grande porto que emprega milhares e milhares de pessoas.
      E um dos clubes com mais simpatia dentro do meio marítimo é o Beira-Mar.

    • druyda
      Posted Dezembro 2, 2014 at 5:11 pm

      João Dias, tudo bem que gostes do Beira Mar (tomara que em Portugal fossem todos como tu) mas dizeres que o Beira-Mar tem mais potencial de adeptos que o Vitória SC acho manifestamente exagerado.

      O Beira – Mar perdeu toda a sua força na década de 2000 e era verdade que tinha um núcleo forte de adeptos, tipo Académica alguns anos atrás (o que está a passar em Coimbra também é muito triste) com médias de 5000/6000 adeptos. Aveiro é uma zona bastante industrializada e consequentemente, mais rica que algumas zonas do país.

      Mas para chegar ao patamar dos adeptos do VSC ainda têm de cavalgar muito, mas mesmo muito! Guimarães é uma cidade 80% vitoriana e o seu concelho talvez seja 50% (160.000). Se o VSC tivesse a lutar o pelo o titulo durante vários anos não tenhas dúvidas que "conquistava" o Vale do Ave num ápice (estamos a falar de 500.000 habitantes).

      A zona de Guimarães e o Vale do Ave também é uma zona bastante industrializada, aliás, a força que o Vitória construiu nos anos 80 foi apoiada pela as grandes unidades fabris (Famalicão, Tirsense, Riopele todos eles também viveram o ar da sua graça no fervor insdustrial anos 70/80/90).

      Além do mais, o VSC tem uma força do emblema que poucos clubes do MUNDO podem orgulhar-se! O Vitória hoje ganha, amanhã perde mas tem sempre uma base fiel de apoio importantíssima que não deixa o clube cair. Já passou por uma descida de divisão, por quase falência e pior de tudo: uma ascensão de um arqui-rival. Mas a cada ano que passa podem sempre contar com a massa associativa vitoriana que está sempre em renovação num concelhos mais jovens do país!

      Por isso não podes dizer que o Beira-Mar tem mais potencial que o Vitória se nunca nem sequer chegou ao mesmo patamar!

    • Bruno Fonseca
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:39 pm

      Kafka, concordo com a referência que fazes ao Braga, falo com pessoas mais velhas e elas dizem que o Benfica quando vinha jogar a Braga era quase como jogar em casa tal os adeptos benfiquistas que existem na cidade e penso que mesmo hoje apesar do crescimento do clube bracarense ainda existem muitos adeptos do Benfica.

    • Bruno Fonseca
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:31 pm

      João Dias, atenção que em Guimarães tem um campus da Universidade do Minho, que é uma das mais importantes do país. Quanto ao resto, concordo.

    • Pedro Fernandes
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:46 pm

      Como estudante, benfiquista e residente na cidade de Coimbra, digo-vos que a vontade de ir ver a AAC ao estádio é cada vez menor. Para além de contratações sem sentido só para encher os bolsos do senhor presidente dos preços elevados, é cada vez mais deprimente ver a equipa a jogar. Mas para piorar isto tudo, a ligação entre clube e estudantes da universidade é nula porque o presidente é do mais nojento que existe.
      Tenho amigos que jogam nos escalões de formação do clube e que, caso fossem aposta, acredito que dariam jogadores de primeira liga, no entanto, apesar da qualidade, são dispensados para clubes do CNS ou até mesmo para a divisão de hora de distrital de Coimbra.

    • João Dias
      Posted Dezembro 2, 2014 at 11:13 am

      Lopes,

      Para os sócios é de graça.
      Para os não-sócios é 8 €

    • João Dias
      Posted Dezembro 2, 2014 at 11:12 am

      Kafka,

      O Beira Mar tem mais potencial que o Guimarães porque:

      – tem uma Universidade importante ao contrário deles
      – tem um porto importante ao contrário deles
      – não tem nenhum clube importanto por perto ao contrário deles
      – tem uma cidade com mais poder de compra que eles

    • Kafka I
      Posted Dezembro 2, 2014 at 10:58 am

      O Beira Mar nunca devia ter saído da caixa de fósforos que era o Mário Duarte, um dos problemas do Beira Mar começou aí, e hoje se ainda lá jogasse talvez até fosse clube de 1ª divisão…

      Quanto ao clube com mais potencial a seguir aos 3 grandes, para mim é sem dúvida nenhuma o Guimarães, que é de muito longe (independentemente da classificação) sempre o 4º clube com melhores assistências médias em Portugal, e digamos que o ÚNICO clube em Portugal onde os seus adeptos são realmente e APENAS do Guimarães, não sendo adepto de nenhum dos 3 grandes, como acontece nos outros clubes todos, onde todos são desse clube e de um dos grandes

      E não venham com o exemplo do Braga, porque os mais velhos aqui do blogue sabem perfeitamente que o Braga até há uns 10 anos atrás não tinha adeptos que eram SÓ do Braga, pois a maioria era do Braga e de um dos grandes (grande parte até era do Benfica)…

    • Anónimo
      Posted Dezembro 2, 2014 at 10:52 am

      Já agora o preço dos bilhetes, sabem dizer?
      Por exemplo eu lembro-me de ir ver um Beira Mar-Leiria (na altura ambos na 2ª divisão) e nessa altura pediam o equivalente a 20€…isto à uns bons anos atrás.
      Só voltei lá este ano ver a supertaça porque estava acampado em VOA..paguei 10€

      E convém não esquecer que o "super elefante" (estádio) está a uns 10Km do centro da cidade…

      Lopes

    • João Dias
      Posted Dezembro 2, 2014 at 10:28 am

      Joao p,

      Aveiro é do Centro, João ;)
      É um dos motivos, sim.
      Nós temos uma desvantagem em relação a Coimbra ou Braga. O nosso estádio está a 10 km da baixa da cidade.
      Mas mesmo assim conseguíamos ter mais assistência que a Académica quanto estávamos na 1° divisão :/…
      Mesmo no ano em que descemos.

    • João Dias
      Posted Dezembro 2, 2014 at 10:22 am

      E não nos podemos esquecer que Aveiro tem un poder de compra acima da média europeia.
      Outra razão para dizer que o Beira Mar tem um potencial superior a esses, Rui Miguel.

    • JOAO.p
      Posted Dezembro 2, 2014 at 10:21 am

      Penso que um dos grandes problemas do Beira-Mar surgiu em 2004 com o investimento desenfreado do Estado em novas casas para os clubes e, consequentemente, a construção da maior tenda de circo cá do Norte, quem sabe do Mundo… Afastou-se da cidade e afastou as pessoas, o clube nunca soube sustentar a banheira (porque não tem poderio financeiro para isso) e foi uma das maiores pedras no percurso do Beira-Mar. Desde então, sempre que passo na auto-estrada para Aveiro, não só tenho de tapar o nariz como pôr uma venda à frente dos olhos.

      Então com uma direcção displicente e negligente como a que têm, além da corrupção que já se sabe existir a torto e a direito, é a deprimência que se sabe e está à vista de todos…

    • João Dias
      Posted Dezembro 2, 2014 at 10:09 am

      Rui Miguel,

      Pelas razões que apontei em cima, sim tem..

      Dizer que concordo com aquilo que vocês dizem. O potencial está lá, a ligação ao clube por parte da cidade está lá.
      Mas ao contrário de outros clubes nunca fomos geridos por gente séria…
      Os clubes do Centro sofrem do mal que o Rodrigo refere quanto aos 3 grandes…. Ainda o último jogo o EFAPEL estava cheio de benfiquista. Em plena cidade de coimbra.

    • Nuno R
      Posted Dezembro 2, 2014 at 10:05 am

      Aveiro é uma cidade com dinheiro, Setubal não.
      Coimbra vive dos estudantes, cada vez menos há liigação entre Clube e Academia.
      Belenenses é um clube envelhecido. E tem concorrência local.

    • Vasco
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:03 am

      curiosamente foi com Majid Pishyar que o Beira-Mar mais apostou em jogadores portugueses. Contrataram Serginho, André Sousa, Joãozinho, Abel Camara, Nuno Lopes, Rúben Ribeiro, Hélder Lopes e outros. Jogadores de divisões inferiores que acabaram por mostrar qualidade.

    • Rui Miguel Ribeiro
      Posted Dezembro 2, 2014 at 1:02 am

      Acha que o Beira-Mar tem mais potencial do que o Vitória de Guimarães, a Académica, o Braga, o Belenenses ou mesmo o Setúbal?

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:45 am

      João Dias, a "queda" do Beira-Mar iniciou-se com a mudança do velhinho Mário Duarte para o Municipal. Perdeu-se o hábito de ir ver a bola e afastou as pessoas do clube.

    • Rodrigo
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:41 am

      E triste sinceramente, mas desde que o Sr Pischyar chegou ao clube que previa que isto pudesse acontecer. O Beira-Mar ha anos que e gerido de forma muito displicente, sem o minimo de estabilidade, com uma serie de contrataçoes que nao dignificam a historia do clube e como tal e dificil fixar o clube na 1ª Liga, algo vital para a boa saude dos aurinegros.
      A somar a isto, apesar do potencial da cidade que referes, algo que concordo, diria que a falta de massa adepta tambem nao ajuda ao crescimento do clube. Era frequente vermos o Mario Duarte vazio na maioria dos jogos ou entao a servir de casa do Benfica, do Sporting ou do FC Porto, algo que enquanto aveirenses nos deveria entristecer (infelizmente clubes como Academica ou antes o Leiria sofrem(iam) deste mal).

    • João Dias
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:31 am

      Rodrigo, tu que tambem és de Aveiro e conheces a realidade aveirense que tens a dizer sobre a situação do clube da nossa cidade?

      Francisco,

      Tal e qual. É pena estarmos a passar por esta situação porque somos o clube com mais potencial no país fora dos grandes.
      Não há um clube profissional por perto, temos uma Universidade importante, um porto importante, uma cidade importante, uma região importante.
      Que mais pode pedir um clube?

    • San Te
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:30 am

      Porque jogar com 6 ou mais portugueses (quase todos da formação) como o Sporting tem jogado não é apoiar o jogador nacional. O João Dias só estará bem quando os plantéis forem 100% lusos.

    • Francisco Silva
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:23 am

      João Dias, quando escrevi o artigo tinha consciência da "confusão diretiva" que se instalou em Aveiro.
      No entanto, os resultados são os mesmos. Bancadas vazias, equipas cheias de estrangeiros e poucos resultados.

    • Rodrigo
      Posted Dezembro 2, 2014 at 12:21 am

      A gestao displicente e danosa do clube e um dos problemas e causas da instabilidade do Beira-Mar entre 1ª e 2ª Liga desde ha muito.

  • João
    Posted Dezembro 2, 2014 at 12:08 am

    Brilhante.

    Grande texto, parabéns ao autor.

  • Rodrigo
    Posted Dezembro 2, 2014 at 12:02 am

    Kelvin Metralha? Fortissimo Fabio. Texto brilhante e que espelha a realidade do futebol portugues nos dias de hoje.

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