O equatoriano já tinha sido 4.º no ano passado e desde que a montanha começou foi claramente o mais forte (somou duas etapas e não mostrou qualquer fraqueza), mas obtém aqui um triunfo surpreendente (não estava no top-6 de favoritos e não era sequer o líder da Movistar) e intromete-se numa lista de vencedores que conta com nomes de peso da modalidade como Froome, o vencedor do ano passado, Contador, Nibali (o italiano faz 2.º, mas nunca conseguiu deixar Carapaz para trás), Quintana, Dumoulin, Basso ou Menchov. Nesse sentido fica a curiosidade para o futuro (Carapaz tem apenas 26 anos), sendo que a Movistar, que deverá atacar o Tour com Quintana e Valverde, “salva” desde já a temporada (a formação espanhola não vencia uma Grande Volta desde 2016). Por outro lado, num Giro cheio de incidências e azares (Bernal nem chegou a partir, Dumoulin e Gaviria abandonaram cedo), destaque também para Roglic (pódio e duas etapas), para a divisão no sprint (Ewan e Ackermann bisaram, mas Gaviria e Démare também venceram, enquanto Viviani não conseguiu nenhum triunfo) e para a UAE, que venceu uma etapa e andou de Rosa com dois elementos (Conti e Polanc). Já Miguel Ángel López desiludiu (7.º), mas a Astana leva três etapas conquistadas, enquanto a Scott (Chaves somou uma vitória, mas Simon Yates não discutiu a geral, acabando em 8.º), a INEOS e a Quick Step (ambas com zero triunfos, ainda que Sivakov tenha feito 9.º) foram as grandes derrotadas da competição.
Richard Carapaz venceu o Giro 2019, sucedendo a Chris Froome e conquistando a sua primeira Grande Volta da carreira, a primeira também do Equador. Na 21.ª e última etapa do Giro, um contrarrelógio individual (CRI) de 15,6 quilómetros, em Verona, o equatoriano da Movistar, que tinha sido 4.º na edição passada, fez 36.º, a 1 minuto e 12 segundos de Chad Haga (Sunweb), o vencedor da etapa, mas perdendo apenas 45 segundos para Roglic e 49′ para o 2.º da geral, Vincenzo Nibali (Bahrain), que fez 9.º no contra-relógio, não sendo suficiente para ultrapassar Carapaz. Já Roglic (Jumbo) ultrapassou Mikel Landa (Movistar) no 3.º lugar, relegando o espanhol para 4.º. Nota ainda para Majka (Bora), que no último dia subiu a 6.º, atrás de Mollema (Trek), por troca com Miguel Ángel López (Astana), bem como para o português Amaro Antunes (CCC), que terminou em 54.º da geral individual.



5 Comentários
Rodrigo Ferreira
Achei um Giro mais fraco do que o habitual, também por via dos azares de Bernal e Dumoulin, mas sobretudo pelo percurso em si (separar o Giro em 2 partes, só com sprints no início, e depois só com etapas mais montanhosas, ainda que sem muitos dias de grande dificuldade).
No entanto, o Carapaz não tem culpa disso e fez uma super prova. No ano passado prometeu, este ano confirmou. Não o metia no top-5 inicialmente, mas foi de longe o mais forte quando chegaram as etapas a sério e contou com um bom apoio da equipa. Roglic também esteve bem, mas não é um puro trepador. Já a minha Sky, actual INEOS, acabou por acusar muito a ausência do Bernal e fez uma prova fraca, ainda que o Sivakov tenha sido 9.º, mas terá agora que dar uma resposta positiva no Tour com Froome. A Movistar salva desde já a época e Carapaz tira um peso de cima de uma equipa sempre candidata mas que não vencia GV’s desde 2016, na Vuelta.
Por fim, nota para a Quick Step, que estranhamente não venceu, para a UAE, que fez um Giro melhor do que eu esperava, e para a Scott e Astana, as grandes derrotadas em termos de geral, ainda que a Astana continue a sua boa época ao somar três etapas. Já a Bahrain não acho desilusão não vencer. Eu metia o Nibali no pódio ao início, mas poucos o incluiam no top-3, pelo que estar na luta e terminar a 1 minuto e 5′ do super Carapaz acaba por não ser desilusão.
DNowitzki
Concordo absolutamente com o teu primeiro parágrafo. Nos últimos largos anos, sempre preferi o Giro e a Vuelta ao Tour, precisamente por causa de traçados que traziam emoção constante às provas. Este ano soube-me a pouco.
DNowitzki
Absolutamente inesperado este triunfo!
Lopez foi o mais azarado, só lhe faltando levar um tiro, pois tudo o mais lhe aconteceu.
LES
A estratégia da Movistar finalmente deu resultado – ao invés do aconteceu noutros anos, no Tour com Valverde e Quintana -, mas, acima de tudo, enorme mérito de Carapaz, que eleva o ciclismo da América do Sul e do Equador para a história das GV’s. Além disso, tinham 2-3 ciclistas muito juntos para ajudar a limpar a classificação das equipas. Este Giro, que nos últimos era a corrida mais interessante, quer pelas novidades nos trajectos, quer pela convulsão de mudanças na classificação nas últimas semanas, acabou por ter algum sabor de desilusão. Dir-me-ão que sem Bernal e sem Dumoulin o argumento desta prova italiana se tornou mais fraco, o que não é mentira de todo, mas não esperava um Roglic a vacilar como vacilou, nem esperava um Carapaz tão forte para segurar uma rosa. Esperava um Nibali mais acutilante – era para mim o grande favorito, após a saída de Dumoulin e apesar do Roglic seguir em competição, pois o Giro estava à sua medida e à sua experiência, admirando-me não ser colocado como favorito -, muito receio em atacar mais cedo (então Tubarão?), o Miguel Angel Lopez com o azar dos costumes, ainda tentou animar numa ou outra etapa Por outro lado, para quê tanto contra-relógio? O inicial acho que não faz sentido absolutamente nenhum. Poucas etapas de verdadeira montanha – 5 – é muito pouco para um Giro! Demasiado sprint nas primeiras semanas e a chuva estragou algumas etapas, levando a adaptações – a organização zelou pela segurança e bem.
Noutra vertente, acho que ninguém falará do Mikel Landa, por não ter segurado o pódio, mas teve uma boa performance e teve o azar da sorte ter sobejado a Carapaz, que acabou por ser assumir, pelas circunstâncias, como líder final da Movistar. INEOS desiludiu – sentiu-se a falta de um líder, apesar da prestação de Sakarov. Quick Step não conseguiu uma única vitória – saudades de Gaviria, que ainda venceu 1? -, ao passo que Ackermann e Démare patrocinaram uma boa luta pela classificação dos pontos. Ciccone vestiu a azul dos pontos em quase todas as etapas do Giro, já MAL contenta-se com a branca, mas merecia mais. Por fim, dar aqui o destaque ao português Amaro Antunes, que conseguiu fazer 3º lugar na chegada a San Martino di Castrozza, vencida pelo Esteban Chaves, e fez top 10 na etapa que terminou em San Giovanni Rotondo.
porra33
Um Giro claramente em duas fases. A primeira enfadonha e aborrecida e com pouco interesse para a geral e a segunda que poderia ter sido um festival mas as diferenças que resultaram da tal primeira fase condicionaram de certo modo a postura dos atletas na fase da montanha. O vencedor é justo, sempre gostei de Carapaz e este ano proporcionaram-se a condições para a sua vitória: adversários sem equipa (Roglic) adversários que sofreram com má forma e azares (Angel Lopéz, Yates e Dumolin) e adversários que já não estão no seu auge (Nibali). Carapaz ganhou por demérito dos adversários? Obviamente que não. Carapaz foi consistente, competente, ofensivo e bem apoiado (muito bem Carretero que foi uma bela revelação em 3 semanas e Landa a ser um colega de equipa (WOW)).
Na geral ainda a nota para a presença de Landa no quarto lugar, não teve quebras além dos contrarrelógios mesmo tendo trabalhado arduamente, para Sivakov que faz um top 10 satisfatório mostra que tem potencial mas ainda não está ao nível de Bernal por exemplo e neste momento será um bom gregários para os lideres da Ineos, e finalmente destaque para Mollema de quem já não esperava que pudesse fazer um top 10.
Quanto às equipas destaque óbvio para a Movistar que esteve suberba, para a Astana que surpreendentemente descolou da Quickstep no número de vitórias, muito bem também a Bora e a Androni e a Lotto Soudal. Do pólo oposto muito mal a Quickstep, a Jumbo Visma e a Katusha.
Nas outras classificativas destaque para Ackermann que se superiorizou de forma categórica à concorrência que era forte (Gaviria, Viviani e Demare têm muita qualidade). A camisola da montanha ficou com um top 3 muito bom Ciccone e Masnada fartaram-se de lutar e dar espectáculo. Por fim juventude ficou bem entregue a Angel López e esta seria uma das classificações mais facilmente resolvidas se não fossem os sucessivos azares do colombiano.
Quanto às grandes decepções claramente Yates, Roglic (faz pódio mas a falta de equipa foi fatal, mesmo com de Plus acho que não chegaria), Zakarin (que começo a pensar que não dá para mais) Gaviria e Viviani (uma desgraça depois do que tinha andado a fazer no resto da temporada) e Geogughan Hart que perde uma boa oportunidade de mostrar que pode fazer coisas em três semanas.
Uma nota também para o nosso Amaro Antunes que se portou bem na sua primeira volta de três semanas e esteve em fugas, no top 10 e na luta por etapas, muito positivo!
No geral considero que foi um Giro mal desenhado na medida em que descartou quase metade do percurso decaindo a emoção e depois todas estas condicionantes reflectiram-se em que algumas etapas finais ficaram a desejar. Segue-se o tedioso Tour com outros protagonistas mas acho que a Vuelta ganha aqui mais alguma pica em virtude das decepções que alguns homens de três semanas protagonizaram.