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CARTA ABERTA AO NOVO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Caro António José Seguro,

Nesta sua nova “aventura”, parece-me que, para além de muitas outras questões necessárias, deverá tomar uma posição em relação ao momento que o futebol português atravessa. Mais do que um momento, de facto: um estado que dura há demasiado tempo.

Porquê o futebol? Que diabo tem um PR a ver com isso? Muito. Porque o futebol é, goste-se ou não, um factor de grande impacto social e, como qualquer outro com essas características, influencia a forma como a sociedade se movimenta, como as pessoas se relacionam e, fundamentalmente, os exemplos que proporciona.

O futebol português é basto em maus exemplos. Podemos orgulhar-nos dos feitos dos nossos atletas e staffs técnicos, e isso é muito bom. Mas o resto, como decerto concorda, é absolutamente tóxico e extremamente nocivo a uma sociedade que se pretende coesa, solidária e capaz de enfrentar os desafios do futuro.

Ofensas, mentiras, acusações intermináveis, comunicados incendiários, suspeições contínuas, agressões a jornalistas; dirigentes que aparecem demais (ficando a pensar quanta razão tinham os velhos gregos ao criarem a política de ostracismo); outros dirigentes que deveriam ter uma presença maior e uma voz firme e pura e simplesmente não aparecem — como o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, uma instituição de “utilidade” pública — e o presidente da Liga Portuguesa de Futebol, de quem nem sequer percebemos ainda se cá mora ou não.

Para além deste autêntico estado de guerra permanente, deste Líbano infinito, existe outro lado não menos importante: a total ausência de equivalência na forma como uns clubes são alvo de maior cobertura do que outros. Os média defendem-se com argumentos de audiência, mas a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), nos seus estatutos aprovados pela Lei n.º 53/2005, define como objetivos da regulação promover o pluralismo cultural e a diversidade de expressão das várias correntes de pensamento através dos media (Artigo 7.º, alínea a). E a Lei da Televisão (Lei n.º 27/2007) reforça obrigações para operadores generalistas nacionais.

Ou seja — e cito — os operadores gerais de televisão devem “assegurar a difusão de uma informação que respeite o pluralismo, o rigor e a isenção” (Artigo 34.º, alínea c). Embora o desporto não seja explicitamente mencionado, a intenção parece clara. Naturalmente, nenhum dos artigos citados obriga de forma inequívoca os media a serem equilibrados na forma como reportam o futebol, mas definem um quadro que está, naturalmente, a ser corrompido. Não valoriza a modalidade, não promove a diversidade e prejudica até o objectivo do Estado na centralização dos direitos de televisão, secando por completo os clubes que não fazem parte do grupo dos preferidos nas sondagens.

Tensão social, violência, maus exemplos de diversa ordem, distorção da ideia de pluralismo na cobertura mediática. Um quadro negro, de grave impacto social, que merece claramente a intervenção do mais alto Magistrado do Estado português.

O futebol orgulha-se dos seus contributos para a paz (?), da sua capacidade de gerar laços entre culturas e cidadãos, de uma série de efeitos benfazejos. O que assistimos em Portugal é o inverso de tudo isto. O futebol gosta de viver num mundo à parte dos Estados, mas não se pode querer influência social — que a tem — e viver à margem do escrutínio público.

Caro Presidente António José Seguro, é neste âmbito que lhe rogo, em nome do bem-estar social e de uma sociedade moderna e solidária em Portugal, que tome esta como uma das suas lutas e assuma uma posição que contribua decisivamente para desarmar este barril de pólvora social.

Não é para si, mas para a classe política em geral: o futebol não serve apenas para photo ops e acesso aos camarotes. É preciso tomar posições quando este contamina a sociedade.

Visão do Leitor: Fernando Eloy

4 Comentários

  • ruisantos_bfc
    Posted Fevereiro 25, 2026 at 11:06 am

    A prova de que Seguro não está à altura do cargo de PR é que ainda não se pronunciou sobre o caso Prestianni

  • Schmeichel
    Posted Fevereiro 25, 2026 at 11:56 am

    Eu se fosse político também me metia o mínimo no desporto. A excepção seria a selecção.
    Basta ver as reacções ao caso Prestianni (mas também aos outros que vão surgindo no nosso futebol) para percebermos que uma paixão clubística pode tornar qualquer pessoa inteligente num imbecil. E aí não há argumentação ou diálogo possíveis. Seria uma bomba relógio que lhe ia rebentar inevitavelmente nas mãos.

  • filipe19
    Posted Fevereiro 26, 2026 at 12:01 am

    Dá ainda para acrescentar que eu não quero o Mourinho como próximo selecionador?

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