André Castro faz parte de uma geração que não encontrou equipas B no futebol português quando efectuou a transição de júnior para sénior. Esse cenário levou-o, juntamente com outros jovens do FC Porto, a rumar a Olhão para duas épocas de enorme sucesso que projectaram o médio para uma carreira de qualidade, que também já passou por Espanha e se tem desenvolvido na Turquia. Na 4.ª e última parte de uma entrevista exclusiva ao Visão de Mercado, Castro recorda os tempos sob o comando de Jorge Costa, no Olhanense, reflete sobre as equipas B e os empréstimos nos primeiros tempos de sénior e revela-nos algumas das suas preferências e gostos mais pessoais.
Indo um pouco ao passado, foi emprestado pelo FC Porto ao Olhanense duas temporadas, nas quais não só teve sucesso individualmente como colectivamente, já que conseguiram, primeiro, a subida à I Liga e depois a manutenção. Em Olhão, e sobretudo na época na I Liga, criou-se quase um “FC Porto B”, com vários emprestados como o Castro, Ventura, Tengarrinha, Ukra ou Rabiola. Como foi essa experiência de haver tantos jovens ligados a um mesmo clube a representar outro no escalão principal?
Foi espectacular, foi lindo. No Olhanense as condições não eram grande coisa, basicamente tínhamos o estádio para treinar, mas o ambiente que se vivia no clube era fantástico, não só por esses jogadores do FC Porto – que já nos conhecíamos desde os 12 anos – mas mesmo pelos jogadores que estavam lá como o Rui Duarte ou o Djalmir. O Jorge Costa fez ali uma verdadeira equipa. O clube não estava na I Liga há imenso tempo [há 35 anos ] e conseguimos recolocá-lo lá em cima. Foram dois anos espectaculares que eu adorei. Não é fácil construir uma equipa com tantos jovens mas a verdade é que, ao mesmo tempo, tínhamos jogadores na equipa que nos ensinaram muito como o Rui Duarte, que é agora treinador do Farense e está a correr muito bem [venceu a Série E do Campeonato de Portugal com 18 pontos de vantagem e enfrentará o Felgueiras nos quartos-de-final do playoff de subida à II Liga]. Ele já na altura era um treinador dentro de campo e claro que se aprende muito com gente assim.
Sentiu-se prejudicado por não haver equipas B quando fez a transição para sénior?
Eu acredito que a equipa B tem o factor positivo dos jogadores competirem na II Liga, mas eu acho que é melhor um jogador ser emprestado a uma equipa de I Liga, onde sai daquele contexto dos juniores – porque a equipa B é como se fosse a continuação dos juniores – e se ambienta a outro futebol, à ratice de um jogador mais velho, a tanto coisa que muda quando se vai, por exemplo, para um Olhanense. Estava habituado a todas as condições no FC Porto e num Olhanense tens de mudar de casa, tens “de te fazer homem”, e em muitos aspectos ajudou-me muito. A equipa B é boa mas durante um/dois anos, não mais.
Da sua geração, de 1998, julgo que só Rui Patrício e Fábio Coentrão foram presença regular na selecção principal. A que acha que isso se deveu?
Eu acho que a nossa geração até deu muitos jogadores, como o Rui Patrício, Fábio Coentrão, Daniel Carriço Ukra, Rui Pedro, eu, Tiago Pinto, mas claro que ser assídua na selecção principal é sempre muito difícil. São pouco mais de 20 jogadores em que, faz de conta, temos de dividir por 12 gerações, e se temos dois regularmente lá até nem foi uma má geração.
Ainda guarda boas lembranças do Europeu sub-19 de 2007?
Claro que guardo. Poderíamos ter feito mais, porque tínhamos uma equipa de muito bons jogadores.

Esteve também cedido ao Sporting Gijón. Até pelo que vai partilhando nas redes sociais, vê-se que se sentiu bastante bem lá, como foi essa experiência em Espanha?
Nos 6 primeiros meses da época 2010-2011 eu estava no FC Porto, com André Villas-Boas e apareceu a proposta do Sporting Gijón por empréstimo. O Gijón estava mal, encontrava-se nos lugares de descida ao 2.º escalão, e eu falei com o Villas-Boas – um treinador de quem gostei muito, até em termos pessoais – e se olhássemos para o meio-campo do FC Porto havia imensas soluções, falando só de suplentes havia Rúben Micael ou Belluschi, isto fora os titulares. Achei por bem ir e foi excelente. Foi para um campeonato, a La Liga, espectacular, todos os jogos são lindos, os jovens que vêm treinar da formação são muito bons, o clube levava sempre 20 mil pessoas ao estádio e começámos a ganhar e a entrar numa boa dinâmica. Vencemos no Santiago Bernabéu, batemos o recorde do Mourinho de 9 anos sem perder em casa para o campeonato e conseguimos a manutenção. Correu tudo bem, consegui ser eleito para a equipa jovem do ano com craques como o Thiago Alcântara, joguei os jogos todos, fiz golos e gostei muito. As pessoas estão sempre a pedir para eu voltar para lá e agora que o Sporting Gijón está bem posicionado para subir à La Liga eu fico muito feliz porque é um clube de primeira, um clube espectacular.
Flash VM:
Ídolo: Houve uma fase da minha vida, quando o FC Porto ganhou a Champions, em que gostava muito do Maniche. Quando era mais novo gostava do Roberto Baggio.
Maior sonho enquanto jogador: Agora já vejo as coisas de maneira diferente, mas seria um sonho ir à Liga Europa com o Goztepe.
Momento mais marcante da carreira: Tive alguns, mas o golo que marquei pelo FC Porto vai-me ficar sempre na cabeça. E claro que o golo do Kelvin também não me sairá da memória, bem como a subida do Olhanense, um feito único com uma equipa única.
Melhor jogador do mundo: Cristiano Ronaldo.
Melhor médio do mundo: Iniesta.
Melhor jogador da Superliga Turca: Ryan Babel.
Melhor jogador português da sua geração (1988): Rui Patrício, foi o jogador que fez melhor carreira.
Treinador mais marcante da carreira: Jorge Costa, como treinador e como pessoa marcou-me para sempre.
Se tivesse de praticar outro desporto, qual seria? Não podendo ser fute-vólei, ténis.
Filme preferido: Batman.
Hobby: Antigamente adorava jogar Playsation, mas desde que tenho o meu filho ele tornou-se o meu “hobby”.
Entrevista realizada por Pedro Barata
1.ª parte da entrevista
2.ª parte da entrevista
3.ª parte da entrevista


6 Comentários
Mantorras
Parabens Pedro, gostei de ler.
josemiguelcarvalho22
Em toda a entrevista notei muita paixao pelo jogo. Nao sendo um fenomeno tem muita cabeça, e isso falta a alguns. Parabens!
ACT7
Muito boa a entrevista ao Castro.
Sinceramente esperava um pouco mais da sua carreira, quando passou por Espanha pensei que ia dar o salto.
Gostei da parte do “viver na Turquia”, por vezes somos um pouco iludidos por aquilo que se passa na casa dos seus vizinhos.
Parabéns ao VM e ao Pedro Barata por estas iniciativas, estão a elevar ainda mais o nível do vosso trabalho.
Il Codino Divino
Parabéns pela entrevista, Pedro. É sempre bom dar a palavra ao jogador, principalmente aos que vivem outra realidade que não apenas as dos grandes.
Parabéns também ao Castro pelo seu ídolo. Tem bom gosto. hehe
Rodrigo Ferreira
Uma excelente entrevista do Castro em termos globais. Parece-me um jogador muito lúcido e com conhecimento da modalidade em termos gerais. Não teve a carreira que esperava, mas acaba por não ser má que já foi sempre utilizado por onde passou e financeiramente parece estar com a vida salvaguardada.
JoaoMiguel96
Primeiro que tudo, parabéns ao Pedro por mais uma excelente entrevista.
São este tipo de iniciativas que levam o VM a lugares maiores. Isto, para além da qualidade óbvia do blog.
Quanto ao Castro, de notar duas ou três coisas. Muita cabeça, muita inteligência no que toca à sua vida profissional e muita dedicação.