Entre os vários jogadores portugueses a alinhar na Turquia, André Castro é um nome que se destaca. O médio, de 30 anos, chegou ao país em 2013 e tem cimentado o seu nome na Superliga à base de um bom rendimento e muita regularidade. Chegado esta temporada ao Goztepe, o ex-FC Porto não demorou a tornar-se num dos indiscutíveis de um emblema ambicioso que deseja voltar a ter um lugar de destaque no futebol turco. Na 1.ª parte de uma entrevista exclusiva ao Visão de Mercado, Castro revela o que o levou a sair do Kasimpasa, aborda o projecto e a temporada do Goztepe e mostra-se feliz com o que tem feito, não deixando de falar do seu colega Beto que, provavelmente, estará dentro de pouco tempo a defender as cores de Portugal no Mundial.
Está na 5.ª temporada na Turquia, e depois de nas primeiras 4 ter alinhado no Kasimpasa rumou no começo da presente campanha para o Goztepe. Que razões levaram a essa mudança?
Eu estava bem no Kasimpasa, era um bom clube, mas quando eu fui para lá tinha um projecto que era ir à Europa e foram contratados muitos jogadores bastante bons (como o Babel, o Isakson ou o Donk, entre outros), mas no final de cada época foram vendendo ou deixando sair como jogador livre um dos melhores jogadores. Isso foi-me deixando triste porque todos os anos ficávamos um pouco mais fracos. Outra razão que me levou a mudar prende-se com o facto do Kasimpasa ser de Istambul, cidade onde os adeptos estão concentrados nas equipas grandes e portanto o clube não tinha muita massa de apoio. Éramos das únicas equipas da Superliga que jogávamos com o estádio sempre com pouco gente. E estas foram as duas principais razões que me levaram a querer mudar, embora seja um clube onde terei sempre as portas abertas. Eles fizeram propostas de renovação e sempre me quiseram, mas eu decidi seguir outro caminho.
Saiu em final de contrato, certo?
Sim, certo. Nos últimos seis meses eles tentaram constantemente a renovação mas eu fui esperando para ver o que poderia aparecer.
O Goztepe (que foi campeão turco em 1950 e foi o primeiro clube turco a jogar umas meias-finais de uma competição europeia – Taça das Cidades com Feira em 1968-1969-) começou, em 2002, a sofrer gravíssimos problemas financeiros que relegaram o clube para divisões amadoras, mas nos últimos anos conseguiu reerguer-se e regressou esta temporada à Superliga Turca pela primeira vez desde 2002-2003. Como é o projecto actual do clube?
É um projecto muito bom. O presidente Mehmet Sepil chegou em 2014, com o Goztepe no 3.º escalão, e em 3 temporadas levou o clube a subir por duas vezes até à Superliga. E agora o objectivo passa por construir uma boa equipa e tentar chegar à Europa. Esta temporada estamos a 2 pontos do 5.º lugar [que garantirá entrada na Liga Europa caso o Akhisar Belediye não vença a final da Taça], que nem era a meta já para esta época, visto que essa passava pela permanência (que já foi garantida). As coisas têm corrido bastante bem. Os adeptos são incríveis, é como se fosse um clube grande em Portugal, com o estádio sempre cheio. O Goztepe é da cidade de Izmir, que tem 3 milhões de habitantes, e está muito ligado a um bairro da cidade. As pessoas podem ter simpatia por um dos 3 grandes da Turquia (Besiktas, Galatasaray e Fenerbahçe) mas o clube delas é mesmo o Goztepe, são fanáticos.
Sente aí o calor humano que não sentia no Kasimpasa?
Exactamente, sem dúvida. É um dos clubes com melhor ambiente no estádio na Turquia. Está a ser construído um estádio novo, que à partida estará pronto para 2019-2020, o centro de treinos é bom, a cidade é espectacular, com um clima muito bom, rodeada de mar…
Sente, então, que a nível desportivo o clube pode crescer no futuro próximo?
Sim, e isso vê-se pelas contratações que têm feito, trazendo jogadores como o Demba Ba ou o próprio Beto. E para o ano certamente que tentarão trazer mais, é um clube que tem investido bem.

No já referido regresso à elite 14 épocas depois o Goztepe está em 6.º, a 2 pontos do 5.º lugar. No começo da temporada o objectivo era só a manutenção?
Sim, esse era o objectivo inicial. Mas agora se estamos perto do 5.º lugar vamos tentar chegar lá. Temos um calendário que se pode considerar bom, dado que jogamos a maior parte dos jogos em casa e só na última jornada é que enfrentamos o Galatasaray. Mas esta liga é muito complicada, se olhar para o fim da tabela vê que uma equipa já desceu [o Karabukspor, que só venceu 3 partidas em 30 rondas] mas o resto das equipas estão com pontuação muito semelhante [6 pontos separam o 17.º do 11.º]. E no topo da tabela acho que é a única liga do mundo que ainda tem 4 equipas com hipóteses de vencer o título faltando tão pouco tempo para o final e isso mostra muito bem a competitividade que há aqui.
Num plano mais pessoal, tem sido titular indiscutível (alinhou de início em 29 das 30 jornadas da Superliga). Como é que classifica a sua época?
Muito boa mesmo. Desde que estou na Turquia, tanto no Kasimpasa como no Goztepe, nunca falhei nenhum jogo sem ser por acumulação de amarelos e já lá vão 5 anos [Castro participou em 160 das 166 jornadas da Superliga que foram disputadas desde que chegou ao país]. E isso para mim é muito bom porque não é fácil não ter lesões e conseguir que os treinadores – e têm sido vários – confiem sempre em mim, pelo que me sinto orgulhoso do trabalho que tenho feito e este ano ainda mais. Tenho 4 golos, 8 assistências, ganhei 2 penáltis, sinto que os meus colegas gostam muito de mim e fico muito feliz por estar a ajudar. Eu gosto de me sentir bem onde estou e sinto-me bastante bem aqui.
Tem jogado, sobretudo, como 2.º médio, certo?
Sim, como n.º8. Já fiz alguns jogos a n.º10 mas a maior parte das vezes é como n.º8 e é onde eu sempre gostei de alinhar. Gosto de chegar à área adversária e também à nossa e é onde me sinto mais confortável. Há encontros em que jogo mais à frente mas onde me sinto melhor é a n.º8.
A luta pela Superliga está ao rubro, com Galatasaray, Besiktas, Basaksehir e Fenerbahçe separados por 3 pontos à falta de 4 jornadas. Que prognóstico tem acerca do vencedor final?
Se me perguntar qual é a melhor equipa, para mim é o Besiktas. Se olharmos para a equipa deles vemos que em qualquer liga do mundo poderia lutar para ser campeã, tem jogadores mesmo muito bons. Este ano a prestação no campeonato viu-se afectada pela campanha na Liga dos Campeões, até porque o plantel não tem muitas soluções, o que levou a que caíssem um pouco na Superliga. Mas desde que saíram da Champions ganharam os jogos todos para o campeonato e para mim é a melhor equipa. Mas não sei quem ganhará. O Basaksehir tem um calendário mais acessível [não enfrenta nenhuma formação do top-6] e também tem grandes jogadores como o Adebayor, Emre, Clichy, Arda Turan, ou seja, uma equipa que mal se conhece em Portugal e tem jogadores de alto gabarito.

O Beto joga consigo. Já o conhecia dos tempos do FC Porto, como tem sido tê-lo consigo aí?
Tem corrido muito bem. Os adeptos adoram-no e tem feito exibições espectaculares, até nos jogos contra equipas grandes. Está a fazer uma grande época, já defendeu 4 penáltis [em 6 possíveis, tendo a última defesa do guardião a um castigo máximo ocorrido na última jornada perante o internacional ucraniano Seleznyov] e tem sido um dos elementos mais importantes da equipa. Consegue transmitir toda a sua experiência e dá muita confiança. Acredito e espero que vá ao Mundial, e sinto-me muito feliz por ter um colega de equipa a ajudar Portugal. Ele merece.
Ele próprio reconheceu que rumou ao Goztepe, sobretudo, com o intuito de ir ao Mundial. Agora que a competição se aproxima, sente-o com um nervosinho especial? Costumam falar sobre o Mundial?
Falamos bastantes vezes. Ao que tudo indica (não só pelo que tem feito aqui mas também pelas exibições que realizou quando recentemente foi titular na selecção) acredito que irá ao Mundial. Há outros guarda-redes muito bons em Portugal mas, para mim, o Beto tem de estar nos 3 que irão ao Mundial. Como já disse, ele merece ir.
Entrevista realizada por Pedro Barata


5 Comentários
NunoM
“Acho que é a unica liga do mundo que ainda tem 4 equipes com possibilidades de vencer o titulo”
Bem, tecnicamente em Portugal também
Miguel Mendes
O Besiktas poderia lutar para ser campeão em qualquer liga?
Tiago Silva
É um grande jogador que saiu mal de Portugal. Comecei a admirá-lo nos tempos do Olhanense em que fazia uma grande dupla com o Ukra, mas não se conseguiu impor no Porto.
Espero que ainda volte a Portugal seria titular em quase todas as equipas da nossa Liga exceto nos 3 grandes e no Braga talvez.
Gus Ledes
Ele ganha mais do que qualquer jogador do plantel do Braga e mais que 50% dos planteis dos 3 grandes…
Tiago Silva
Sim é verdade, mas vejo mais como um final de carreira. Ele ainda deve ficar uns quantos anos na Turquia.