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Castro em exclusivo ao Visão de Mercado: «É muito difícil que um jogador saia da Turquia porque as condições financeiras são incomparáveis (…) Há jogadores de grandes em Portugal que já me perguntaram quando é que os trazia para cá»

A cada janela de mercado de transferências sucedem-se as notícias de jogadores portugueses que rumam à Turquia, vários deles até com presença regular na selecção, como são os casos de Beto, Pepe e Quaresma no presente ou no passado Hugo Almeida ou Raul Meireles. Ora, um dos atletas lusos que melhor conhece a realidade do país é André Castro, jogador do Goztepe que há 5 temporadas trocou o FC Porto pelo Kasimpasa e soma mais de 150 encontros na Superliga. Na 3.ª parte de uma entrevista exclusiva ao Visão de Mercado, o médio de 30 anos desvenda-nos as razões que levam tantos jogadores a fazer as malas para a Turquia, não escondendo a importância do factor financeiro mas associando-o à qualidade de vida e a um futebol emocionante, apaixonante e competitivo, numa conversa em que também se fala sobre a situação na Síria.

Tem contrato até 2020. As suas perspectivas de futuro são ficar no Goztepe?

Sim, sim. Se o clube continuar assim, com a mesma ambição em melhorar, quero ficar já que me sinto muito bem aqui. Na época passada, como era um jogador livre, tive muitas propostas, não só da Turquia mas também de Espanha e de outros países. Mas um jogador, entrando na Turquia, é muito difícil que saía porque as condições financeiras aqui são incomparáveis a outros campeonatos. Com 29 anos, julgo que foi uma boa decisão. Houve alguns clubes grandes da Turquia que fizeram sondagens mas senti que poderia ser para não jogar, e como eu não gostei de não jogar no FC Porto não quis arriscar. Eles queriam que eu aguardasse até ao fim do mercado de transferências para ver se conseguiam contratar outros jogadores, e portanto senti que a vontade em contar comigo não era muito forte e a ideia era mais para que eu fosse um jogador de banco.

De Portugal, houve algum convite?

Não, Portugal, sem ser um dos 3 grandes – e se fosse claro que ouviria -, é impossível. Não houve nada.

Está na Turquia desde 2013. Ultimamente muitos jogadores português têm rumado à Turquia. Como é viver aí?

No passado, os jogadores tinham algum receio em vir para a Turquia por aquilo que se vê nas notícias, mas essa é uma ideia muito errada do que é a vida aqui. Eu vou trazendo cá amigos e família e eles ficam admirados pela qualidade de vida e segurança que há neste país. Já vivi em Istambul, uma cidade espectacular e das mais importantes do mundo, e agora vivo em Izmir, a 3.ª maior cidade turca, com 3 milhões de pessoas, e é uma cidade espectacular. Às vezes deixo a porta de casa aberta, há uma segurança enorme, sinto-me mais seguro aqui que em Portugal. As pessoas são boas, há aquela ideia de que as mulheres andam tapadas mas isso aqui não acontece, há muitas ideias erradas sobre o que é a Turquia.  E os jogadores quando estão cá adoram e cada vez mais querem vir para cá. Há jogadores de equipa grandes em Portugal que já me perguntaram quando é que eu os levava para a Turquia, para que se tenha noção.

Portanto, sente-se completamente realizado estando na Turquia?

Sinto, sinto-me muito bem, tenho a minha família cá, estou mesmo muito bem.

O que é que custou mais na adaptação de Portugal para a Turquia?

Uma grande diferença está na religião, visto que eles são quase todos muçulmanos, mas há outras coisas. Por exemplo, a tomar banho temos de ir com roupa interior ou com uma toalha mas são coisas a que nos vamos habituando. Muitos deles rezam 5 vezes por dia mas nem todos, é como em Portugal que não vai toda a gente à missa ao Domingo. Ainda assim, pode-se dizer que cá eles cumprem mais com a religião que nós. À sexta-feira à tarde quase toda a gente vai rezar, mas são alguns costumes aos quais nos vamos habituando mas nada de outro mundo

A Turquia faz fronteira com a Síria. A situação que se vive está muito presente no dia-a-dia ou passa ao lado?

Passa muito ao lado, pelo menos onde tenho residido. Eu vivi em Istambul e agora vivo em Izmir, e ambas as cidades são do lado mais “europeu”, na ponta oposta à Síria [de Izmir a Alepo são mais de 1100 quilómetros] e ainda por cima este país é muito grande. Claro que se fala nisso e a segurança é apertada. Por exemplo, se formos a um centro comercial há controlo de metais como nos aeroportos e os militares andam mais armados do que se vê em Portugal mas isto até nos faz sentir mais seguros.

Izmir

Já viveu em Istambul (quando actuava no Kasimpasa) e agora vive em Izmir (a 3.ª maior cidade turca – após Istambul e Ankara – e a 2.ª maior do Mar Egeu – apenas superada por Atenas -). São cidades muito diferentes?

Eu prefiro Izmir. Istambul é uma cidade espectacular, tem tudo, mas é caótica. São cerca de 15 milhões de pessoas e é um trânsito infernal. A partir das 17 horas se sair de casa de carro é para ficar horas no trânsito. Aqui em Izmir é uma vida mais relaxada. A temperatura é melhor, há muito sol, muita praia, muito mar e eu prefiro aqui. A minha casa é perto do mar, tenho uma vida muito pacata. Gosto muito de viver aqui.

Há diversos jogadores portugueses na Turquia, e muitos deles com sucesso (para além do Castro e do Beto, temos Pepe, Quaresma, João Pereira, Tiago Pinto, Josué, Neto, Miguel Lopes ou Hélder Barbosa). O que leva tantos jogadores portugueses a optar por esse país?

A principal razão é a financeira. Quando eu cheguei havia cá alguns portugueses como o Raul Meireles e eu perguntei como é que era o país e todas as indicações foram maravilhosas. Aqui não há impostos, os clubes pagam bem, para se ter noção o prémio que eu recebo por cada jogo que ganho na Superliga turca é maior do que o FC Porto ganhar um jogo na Liga dos Campeões, ou seja, é incomparável. Há prémios por jogar, há prémios por vitória, é muito diferente. Claro que os jogadores querem vir para aqui, a nossa profissão é curta e temos de aproveitar ao máximo.

Os jogadores estrangeiros recebem em Lira Turca ou noutra moeda?

Eu recebo em Euros, mas isso depende do contrato de cada um. Depois os prémios de equipa são pagos em Lira Turca. Mas, em geral, um jogador europeu não pode vir para aqui receber em Lira Turca, porque para se ter uma noção, quando eu vim para cá um Euro eram 2,7 Liras e agora um Euro já são 5 Liras, portanto estaria a perder um valor muito grande se recebesse em Liras. Aconselho a todos os jogadores que vieram a fazerem o contrato em Euros.

Por cada época que passa, vai sentindo, então, que a curiosidade e interesse dos jogadores portugueses em relação à Turquia vai aumentando?

Sim, isso sente-se e vê-se pela quantidade e qualidade de jogadores portugueses que têm vindo para cá. Note-se o caso do Pepe, que é um jogador de topo e poderia ter ido para o PSG e acabou por ir para o Besiktas, mas também há nomes como Van Persie há uns anos, por exemplo. Se formos ver um Galatasaray-Besiktas conhecemos os jogadores todos.

Para além de optarem por ir, muitos jogadores portugueses dão-se bem, são acarinhados e transformam-se em figuras…

O Quaresma aqui é um deus e não sai daqui, não há hipótese. Mesmo não sendo português, há também o caso do Talisca que prefere estar no Besiktas a estar no Benfica. E há outros jogadores, como o Miguel Lopes que estava no Sporting e está na Turquia [no Akhisar Belediye] e quer continuar. Todos os jogadores que vêm não querem ir embora, querem é ficar mais anos.

Há uns tempos também o Josué, ex-FC Porto ou SC Braga que alinha no Osmanlispor, fez finca-pé para regressar à Turquia.

Não são só as condições financeiras. Não podemos negar que o factor financeiro é a principal razão, mas se as condições financeira fossem muito boas e as condições de vida não fossem assim tão boas os jogadores até poderiam vir mas depois queriam ir embora, mas não é isso que sucede. A vida aqui é mesmo boa, as pessoas são boas e em geral todos os jogadores que vêm adoram. O próprio Raul Meireles, que jogou no Chelsea ou no Liverpool, adorou jogar no Fenerbahçe.

E para além das condições financeiras e de vida, o futebol é competitivo, tem gente nos estádios, o factor desportivo também é apelativo.

Por exemplo, eu na última jornada joguei com o Akhisar, e num encontro entre Akhisar e Goztepe, duas equipas desconhecidas em Portugal, o estádio tem muita gente.

O futebol jogado é muito diferente do praticado em Portugal?

Sim, sente-se diferença. É um jogo mais desorganizado, mais de coração. As equipas aqui não trabalham tanto o aspecto táctico como em Portugal, mas nessa vertente acredito que os treinadores portugueses são dos melhores do mundo, são realmente muito bons e trabalham-se aspectos que aqui não são trabalhados. Aqui o jogo desenvolve-se muito através do público, se um jogo aqui está 1-0, dificilmente terminará assim porque a equipa que está a perder, mesmo se estiver a jogar contra um dos grandes, não se vai acomodar com aquele 1-0 e vai haver sempre mais golos. Eu vi uma estatística que dizia que a Turquia era o campeonato com mais golos na Europa e isso sucede porque aqui as equipas vão sempre à procura da baliza do adversário. Às vezes está-se a ganhar por 2-0 e perde-se o jogo por querer continuar a atacar.

Vão também muito pelo coração, pelo lado emocional de ir sempre para a frente, não é?

É, arriscam tudo. Aqui nos últimos 10 minutos há sempre golos porque o jogo parte-se muito e há muitos contra-ataques para um lado e para outro. É um jogo diferente de Portugal ou Espanha em que é mais organizado e mais táctico, mas aqui há partidas muito boas mesmo, não só entre grandes mas entre as outras equipas.

Em relação ao jogador turco, normalmente temos a imagem de um jogador bastante técnico mas algo conflituoso. Essa imagem é certa?

O jogador turco, em geral, tem técnica, tem qualidade mas é pouco trabalhador e algo preguiçoso. Como é fácil para eles chegar à 1.ª divisão, depois não querem mais, não são muito ambiciosos, e nesse aspecto têm de melhorar. Por exemplo, um jogador jovem do Goztepe chega aos seniores, não fez nenhum jogo mas já se sente realizado, e eu recordo-me de ter chegado aos seniores do FC Porto e não me sentir realizado porque não era titular. Eles aqui satisfazem-se com pouco.

Falta um pouco de ambição?

Falta, sem dúvida, e é por isso que eles precisam de estrangeiros para elevar a qualidade da Superliga.

Entrevista realizada por Pedro Barata

1.ª parte da entrevista a Castro
2.ª parte da entrevista a Castro

VM
Author: VM

6 Comentários

  • Rivelino
    Posted Abril 26, 2018 at 3:39 pm

    Só a diferença de tributação em termos de impostos já faz uma enorme diferença.

  • Prontauro
    Posted Abril 26, 2018 at 4:14 pm

    Belíssima entrevista. Tal como outras realizadas pelo VM.
    Interessante essa visão acerca do jogador turco. Também tinha uma ideia de ser um jogador tecnicamente evoluído mas pouco exigente e normalmente conflituoso. Mas ‘preguiçoso’ já ultrapassa o ‘pouco exigente’, o que até pode, de certa forma, explicar o facto de haver poucos jogadores turcos que sejam de topo, apesar da Turquia ter mais de 80.000.000 de habitantes.
    Também achei curiosas as questões da adaptação que o Castro sentiu aquando da troca de Portugal pela Turquia e tenho a certeza que notou outras diferenças para além das que mencionou :)

  • CarlosFCP
    Posted Abril 26, 2018 at 4:44 pm

    Já estava na altura de os assinantes sportv terem a possibilidade de assistir aos jogos da liga turca, o contingente de portugueses começa a fazer-se sentir e sempre que saem entrevistas aos jogadores portugueses que lá residem a curiosidade em relação ao campeonato aumenta mais.

    Sempre seria melhor do que ter a liga holandesa que ainda é mais fraca do que a nossa, mas o mais provável é este meu desejo não se concretizar.

    • JoaoMiguel96
      Posted Abril 26, 2018 at 5:57 pm

      Já tivemos uma vez por outra uns derbis de Istambul, mas foi só isso.

    • João Lains
      Posted Abril 26, 2018 at 6:03 pm

      Sem dúvida, transmitiram apenas final da Taça e a supertaça há uns 3 ou 4 anos. Pelo menos, é os que recordo.

      • CarlosFCP
        Posted Abril 26, 2018 at 6:24 pm

        Recordo-me de ver um ou outro jogo da taça e acho que da supertaça, tirando isso, nunca deu mais nada.

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