Ver Carlos Queiroz atirado ao ar pelos jogadores do Irão, glorificado como herói “globetrotter” de uma causa que mobiliza todo o mundo, é mais um marco no processo de afirmação dos treinadores portugueses. E consegui-lo como resgate de um regime menor no futebol, pária da ordem internacional e repressor dos direitos humanos, é ainda mais admirável, exaltando o seu inconformismo de guerreiro quixotesco.
Ao vê-lo enfrentar olhos nos olhos a hipocrisia da BBC, que elegeu por estes dias como “inimigo” catalisador nas salas de imprensa do Catar, lembrei-me da relação tempestuosa que tentou manter comigo, por causa de uma crónica de um jogo do Sporting, na qual terei apontado algum defeito ou descuido.
Numa conferência de imprensa em Doha humilhou a repórter da televisão inglesa, Shaimaa Khalil, perante dezenas de câmaras móveis para iraniano ver – caprichado em “mind games”, dez anos antes de Mourinho, como frisaram velhos “compagnons de route” tão diferentes como o alemão Jurgen Klinsmann ou o colombiano Alexis Garcia: “encaixa bem na cultura do Irão” ou “a capacidade de convencer os jogadores a serem protagonistas foi a chave do triunfo sobre Gales”.
Carlos Queiroz foi um revolucionário, o primeiro professor a desbravar uma profissão exclusiva de ex-jogadores, pioneiro de uma mudança científica e estrutural que lançou as bases para tornar Portugal no pequeno país mais influente do futebol mundial. Cozeu o seu temperamento intransigente com o estudo laboratorial e o primado do treino e do espírito de equipa, num caldo de cultura de desafio destemido, sempre impulsionado por causas fracturantes, contra todos os fautores de influência negativa, fossem políticos burocratas, dirigentes incompetentes, jornalistas críticos, até, claro, adeptos fartos de polémicas estéreis, por vezes histéricas.
Um espírito inquieto, incompreendido, às vezes incompreensível, obcecado com o controlo da equipa e de tudo o que a rodeia, comandante supremo, ditador de costumes, juiz em causa própria, máquina de lavar os cérebros dos jogadores, capaz de varrer numa simples palestra as marcas de uma derrota copiosa como os 2-6 da estreia no Catar.
Conduziu Portugal a campeão do mundo de juniores por duas vezes. Realizou trabalhos marcantes no Japão e nos Estados Unidos. Foi um humilde Sancho Pança na melhor fase de Alex Ferguson no Manchester United. Ergueu a seleção da África do Sul. Levantou e voltou a levantar a seleção do Irão, incorporando o espírito do “Team Melli” (Equipa do Povo) e tornando-se num caso raro de treinador a qualificar três países diferentes para o Mundial.
Mas quando chamado a exigências de primeira linha (Portugal duas vezes, Sporting, Real Madrid ou, recentemente, Colômbia e Egipto), com o desconforto de ter de olhar as competições e os adversários de cima para baixo, faltou-lhe a frieza do matador.
Passar da facilidade da contestação à pressão de trabalhar sem margem de erro é-lhe fatal, ao deixar-se emaranhar pela compulsão egocêntrica, quase fundamentalista, e pela vanidade do reconhecimento que o fizeram perder as estribeiras e o foco – as “porcarias” da Federação, os mexericos de Santana Lopes, os caprichos dos Galácticos de Madrid, o assédio madrugador dos médicos anti-doping, os chistes do meu amigo Jorge Baptista, a prepotência dos colombianos, enfim, invariavelmente envolvido em querelas menores para acabar derrotado pelos desafios maiores.
Não passou ao lado de uma boa carreira, porque atingiu e mantém uma dimensão mundial, mas podia ter sido o maior treinador português de sempre. E não será.
João Querido Manha


4 Comentários
Dario Nunes
É uma personagem interessante sem dúvida. Acho que é daqueles treinadores que só consegue ter bons resultados em equipas pequenas, em que não tem de assumir jogo.
Apesar de o Irão ter uma boa equipa para a sua realidade continental, não me parece que vá alguma vez ganhar a taça asiática por esse mesmo motivo. Mais depressa ganha o Paulo Bento.
Christian "Chucho" Benítez
Texto muito interessante como já vem sendo hábito no João Querido Manha aqui no Visão de Mercado.
Ainda sobre a sua passagem pelo Real Madrid, Carlos Queiroz ainda teve o incomparável José Peseiro como treinador-adjunto. Mas acho que não devemos julgar o trabalho de Queiroz no Real Madrid, pois era uma equipa cheia de egos galáticos e um autêntico “ninho de vespas”. Até o Vanderlei Luxemburgo fracassou em Madrid, se a memória não me falha.
Vermelhudo
No espaço de uma semana passámos de “Irão leva tareira da Inglaterra porque o Queirós é uma nódoa” para “ui ui ui calma-calminha que este Irão até é bom e o treinador é inteligente”.
Ai ca bom! Mais uma voltinha no mundo-mundinho da bolinha.
Pois a galera tem de ter calminha com os juízos precipitados.
Olhem para o Benfica e para o João Mário, “de zero a herói sem hesitar”. As musas bem cantam no estádio grandes odes ao novo herói. Todas giras e aprumadas, pois claro.
E agora também vamos começando a ver os pirilampos mágicos. São simpáticos tolinhas, com aqueles olhinhos meiguinhos e com a antena. Sempre que o Aursnes toca na bola eles fazem “plim-plim-plim”. É a luzinha deles a acender e a apagar na antena. Intermitente luzinha. “Plim-plim-plim”. Amorosos!
O Huguinho tem pedido ao Tio Vermelhudo para ir ao Estádio da Luz. Ele é o patinho que usa o boné vermelho. É do Benfica. Pergunta-me se pode fazer uma festinha na tola dos pirilampos e eu disse que sim. Os pirilampos estão calminhos, depois de andarem meses a dizer que não era necessário mais box to box no plantel, levaram com 13 milhões de euros em cima e o mundo deles mudou. São meigos.
Pois muitos parabéns ao Irão. É giro ver estas equipas a surpreender a galera. E parabéns ao treinador, um homem que percebe de bola “comó-caneco”.
Red Scorpius
Um bom treinador, mas a quem faltou sempre algo, talvez a tão reclamada estrelinha e não só.
Os seus maiores feitos continuarão a ser os 2 mundiais conquistados pelos sub20.
Talvez lhe falte algo para liderar planteis de estrelas, por não ter sido uma estrela como Zidane ou não ter o carisma de Mourinho.
Ainda assim, uma carreira digna que tem contribuído para o prestígio do treinador português.