“A seleção de Portugal é como a tourada à portuguesa: não mata o touro, apenas o humilha”.
Esta frase tem quase 40 anos, foi escrita no ‘L’Équipe’ por Victor Sinet, o jornalista que eu gostava de ter sido, e manteve-se atual ao longo de décadas de sol e sombras, “pasodobles” e voltas à arena, mas também muitas broncas e lenços brancos à espanhola, a adiar sempre a estocada final para futuras praças e feiras.
No futebol, para ouvir música, também não basta derrotar o adversário, é preciso fazê-lo com nota artística, que o público é exigente e difícil. Recorro à “Tourada” de Ary dos Santos como metáfora do Mundial: “Entram empresários moralistas, entram frustrações, entram antiquários e fadistas e contradições, entra muito dólar muita gente, que dá lucro aos milhões”.
Como ontem, frente ao Uruguai, na monumental “plaza mayor” de Doha: triunfo de poder a poder, dinheiro em caixa, mas ainda sem direito a volta de honra.
Primeiro, uma lição paciente de brega, ao longo dos 45 minutos iniciais, frente a um adversário bravo e desembolado, lidando o manhoso a toda a largura, roubando-lhe a bola, cansando-o, desmoralizando-o, numa jigajoga sem balizas e monótona, que, no entanto, deixou o Uruguai bem picado.
No segundo tércio, finalmente, um ferro comprido de derrote, numa sorte sesgada com a maestria de Dom Bruno Fernandes, o cavaleiro puro-sangue lusitano, cuja arte de colocar a bola na ponta da melena de Cristiano Ronaldo baralhou os “inteligentes” da FIFA, na hora de escolher a música para o matador. Um golpe nos cachaços dos galifões Coates e Godin, derrotando-os no mano a mano e desfraldando a bandeira vitoriosa das cinco quinas.
Depois de alguns derrotes perigosos, livrados pelos forcados de Dom Pepe, com as mãos firmes do pegador Diogo Costa, algumas bandarilhas de esperança e várias tentativas falhadas de burlar o Uruguai, a faena culminou, finalmente, numa cernelha salteada como castigo máximo.
Lá está: Cavani e Darwin, os marialvas mais nobres do Uruguai, sairam com a humilhação da derrota, mas, curiosamente, não eliminados. A raça celeste ainda sobrevive, embora moribunda, em cartaz para uma terceira peleja, essa sim à “muerte” frente ao Gana.
Não foi uma lide grandiosa, mas foi um triunfo. Portugal avança no festival do Catar com as mesmas farpas e o mesmo “bamboleo” de sempre, entre a dança e o tropeço.
O apoderado FEMACOSA já pode treinar as sortes para os oitavos de final, mantendo a briosa determinação em sair pela porta grande de dia 18 de dezembro, a ouvir a banda do Samouco e aos ombros dos que hoje ainda teimam, mais nos camarotes do que nas barreiras, em não lhe aplaudir a “arte” dos bons resultados.
O futebol da seleção não justifica olés, mas é bravo e castiço. Merece que os cépticos e críticos lhe concedam a alternativa da confiança, ainda que temporária, tal como os que não gostam de touradas, como eu, reconhecem a arte e mestria dos cavaleiros portugueses.
Como cantou o poeta, que a seleção continue a tourear, ombro a ombro, as feras. Porque tudo o mais são tretas.
João Querido Manha


24 Comentários
Red Scorpius
O JVP de 1993/94 tinha valor para jogar em qualquer equipa europeia, pela sua raça inteligência, técnica, etc.
O problema foi o estatuto que o SLB lhe deu a partir da época seguinte que o fez levantar os pés da terra ao ponto de Jupp Heynkes o ter dispensado do durante o consulado de Vale e Azevedo.
Ainda recuperou algo durante as épocas em que jogou no Sporting, mas ficou a dever muito a si próprio.
Antonio Clismo
Toda a gente sabe que o Gonçalo Ramos é um activo do dono da seleção (Jorge Mendes) e que o Benfica o quer vender em Janeiro para financiar o avançado que o Schmidt realmente pretende.
Mas colocá-lo em jogo pela segunda vez seguida para substituir o Cristiano Ronaldo tendo o André Silva no banco é só absurdo e descarado para tentar valorizar à força um activo que já deverá ter o pacote de transferência feito e alinhavado desde o Verão.
Blaze25
Absurdo? Vou considerar que esta opinião é de quem não viu os últimos jogos de ambos os jogadores. No momento do jogo em que é feita a substituição, o Ramos é a aposta mais clara e certeira por tudo aquilo que oferece ao jogo.
Antonio Clismo
Estºao então todos a dizer que o Ramos que se estreou há poucos meses na seleção nacional já ultrapassou o André Silva na hierarquia?
Raskolnikov
É mais relevante a hierarquia do que o momento de forma e características do jogador? Sendo que ainda por cima não me parece que o André Silva tenha estatuto de peso-pesado na Selecção.
Raskolnikov
Ou se calhar foi só porque a selecção já estava em vantagem e só precisava de defender o resultado, e o Gonçalo é um avançado bastante mais pressionante e chato para os defesas. Sendo que até está a fazer uma época superior à do André Silva.
Mr.433
Ou então, atualmente (que é o que conta) é melhor que André Silva. E Defende também mais, ajudando também mais ao futebol coletivo.
Ou seja não só está melhor e merece mais, como tem entrado em fases que pedem controlo do jogo. Dos três pontas de lança que levou, incluindo Ronaldo, é o melhor nesse aspeto.
Podes guardar as teorias da conspiração para ti
@ricardostory
Parece-me que a chave dos oitavos vai ser convencer o Félix e o Leão que se jogarem com mais vontade (e
brio profissional) podem ser os Rui Costa e Figo desta geração.
Compreendo os 11 do F. Santos até agora, mas penso que os médios mais defensivos e de equilíbrio vão ter de rodar daqui para a frente.
Com Bruno e Bernardo neste nível estamos muito bem, há que poupa-los no último jogo do grupo.
O Ramos da indicações de que a equipa ganha muito com o trabalho dele, é pena que ainda não seja um finalizador nato.
feelfreeyouare
Vão sempre existir adeptos que preferem bons resultados a bom futebol. Faz parte. No entanto, esses adeptos já tiveram o seu momento no Euro 16′, em que não jogámos nada! Normalmente estas competições não são para se jogar bem, não são para criar super equipas, são para ganhar. Por isso é que muitas vezes o vencedor não é a equipa que praticou o melhor futebol.
Há os dois lados e quer se queira quer não, há que conviver com isso. Mas ainda assim, para aqueles que nasceram neste milénio e que já viram grandes equipas de Portugal, é normal que se sinta que é possível jogar (muito) melhor do que temos jogado. Eu não acho que este grupo de jogadores seja melhor do que aquele que tinha JVP, Figo, Rui Costa, Vitor Baía, Deco, Ricardo Carvalho… mas tem muito mais marketing, hoje um João Félix e um Rafael Leão são muito mais conhecidos na Europa do que seriam naqueles tempos…
maZe
JVP e Baía nunca jogaram na selecção com Deco e Ricardo Carvalho portanto esse “grupo de jogadores” não era nem de perto tão forte como o de hoje, não é preciso ser desonesto e inventar equipas que nunca existiram. Tínhamos sempre 2/3 jogadores de nível e o resto era mediano. A melhor fase foi mesmo em 2004 quando Scolari aproveitou a equipa campeã europeia de Mourinho. Mas é impossível comparar com a selecção actual que tem muito mais jogadores de qualidade para todas as posições excepto centrais.
Pedro Almeida
Talvez de momento ainda não, mas esta geração tem potencial para os superar.
Diogo Costa a continuar assim vai para uma equipa top 10 Mundial e pode superar qualquer guarda redes Português da história.
Cancelo e Nuno Mendes são melhores laterais vão acabar por ser top 5 dos melhores laterais da nossa história.
A centrais digamos que estás mais fraco apesar de termos excelentes opções. Pepe não esteve em 2004 mas provalvelmente entra na discussão para o melhor central de Portugal de sempre. Pela carreira e pelo que deu sempre na seleção, poucos o igualam.
Meio campo só Bernardo Silva, Bruno Fernandes e vou já incluir o Vitinha pois mostram estar a par da outra geração e Palhinha equipara-se às segundas linhas da altura.
Na frente excluindo Ronaldo estamos, ainda à potencial por atingir.
Leão neste momento a nível de clubes é top 5 Mundial na posição e devia ser a estrela da seleção.
Félix tarda em se afirmar mas a ver se ao sair do Atlético vai a tempo de corrigir.
Gonçalo Ramos e André Silva são bons avançados mas para segundas linhas a nível Mundial. Seriam opções a ter em conta na altura do Euro 2004.
Tirando estes ainda temos segundas linhas que dão total garantias e que são jogadores que seriam titulares ou estrelas em seleções mais modestas.
O nível está alto atualmente falta é alguém com mãos para o Ferrari como diria o mestre da chicla.
Xyeh
Eu acho é que hoje em dia é muito mais complicado meter uma seleção a jogar bem, poucas seleções conseguem jogar bom futebol, Portugal ao menos ainda consegue trocar a bola sem ser chutão para a frente, eu acredito mesmo que Vitinha irá ser o mago que vai colocar a magia que precisamos.
offtopicguy93
Se as seleções tivessem treinador bons e não homens do tacho ou antigas glórias que precisam de uma reforma, certamente que o futebol seria melhor
Amigos e bola
Outra vez essa discussão? Faz lembrar o outro user que disse que em 2004 não tínhamos tantos jogadores em equipas de topo porque havia mais restrições, como se fosse a década de 50….
O João Pinto seria um zé ninguém fora de Portugal. Deco e Ricardo Carvalho tiveram belíssimas carreiras, é verdade, mas um Rúben Dias ou um Bernardo Silva não estão atrás, em termos de patamar competitivo.
O Rui Costa foi espetacular mas será que alguma vez foi tão preponderante no Milan como o Bruno Fernandes o é no United?
Esta seleção é muito superior à de 2004, mesmo considerando que a de 2004 já era claramente das melhores do mundo.
Raskolnikov
Não podes comparar aquilo que é a competitividade interna deste United nível Liga Europa com aquele que foi um dos melhores Milans de sempre, jogando em terrenos semelhantes aos de um Kaká bola de ouro. O BF é superior ao Rui Costa a nível da meia distância e da agressividade… Mas no que toca a técnica, visão de jogo e qualidade de passe o Rui Costa foi simplesmente um monstro, muito mas mesmo muito acima da melhor versão do BF.
Miguel Jack
Já sigo o blog há bastante tempo, e não me lembro de nenhum comentário tão louco e falso como este!!
Rui Carvalho
Não sei se um João Pinto seria assim tão Zé ninguém. Acha msm o griezman melhor? Rui Costa Milan, Bruno Fernandes Man Utd… Mas vamos mesmo comparar o que era o Milan de Rui Costa com este Man Utd? Opiniões, certo.
Pedro Almeida
Por favor não compares o Rui Costa com o Bruno Fernandes.
O BF ser importante num United moribundo.
O Rui Costa estava na melhor Liga do Mundo na altura a ser estrela na Fiorentina e Milan que na altura era top 5 do Mundo. O United nem top 10 é.
Amigos e bola
Se é United moribundo mais mérito se deve dar.
feelfreeyouare
Eu não escrevi isso que o outro user disse. E que o JVP seria um zé ninguém fora de Portugal é um grande “se”… Depois, questionar se o Rui Costa foi tão preponderante no Milan, que era um Milan MUITO superior ao que é o United de hoje em todos os aspetos, é só criminoso, ainda para mais tendo em consideração que sim, o Rui Costa foi mesmo muito mais importante naquele Milan do que o Bruno é no United, o que não significa que o Bruno não é importantíssimo e dos melhores da equipa.
Artur Trindade
O Rui Costa teve algumas lesões, foi para o Milan aos 29, e nunca foi propriamente uma das figuras da equipa, o seu auge foi na Fiorentina.
Quando foi para o Milan, a liga italiana já não era a melhor, já tinha passado para Espanha.
O Bruno Fernandes numa época marcou o triplo dos golos de 5 épocas do Rui Costa no Milan, e o Rui Costa tinha no seu belo remate, um dos principais predicados.
Isto para concluir que acho Rui Costa e Deco, superiores a BF e Bernardo, pela certeza técnica (em relação a BF), e pela capacidade física e preponderância no último terço (em relação a Bernardo), números (golos e assistências).
JFN
Epa, adoro o Bernardo Silva, mas não consigo aceitar essa comparação de que não está atrás de Deco. Mesmo que em termos de patamar competitivo, o Bernardo se ficar sem jogar no City a equipa não fica notoriamente pior, tal é a abundância de qualidade. O Deco no Porto e no Barcelona chegou a ser top 3 mundial. Não na posição, de jogadores.
Saganas
Dias e Bernardo não estão muito atrás do Carvalho e do Deco? Iluminado
Comparar o Milan do Rui Costa com este United……
dachau
Artigo saboroso de ler, parabéns.