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CATARSES 15: Bruno Fernandes, o Lidador

Se a etimologia gótica do nome Fernando [Fardi+Nand] estiver certa e realmente significar “pronto para a viagem”, como me diz a sábia internet, terei desvendado o mistério da ousadia do sócio-gerente da FEMACOSA ao propor-se, com a benção de todos os Santos, só regressar a casa depois da final do Mundial, como já fez no Europeu de 2016.

Os Fernandos heróicos ocupam um lugar especial no coração dos portugueses. Fernando de Bulhões, o Santo António de Lisboa, D. Fernando I, o Rei Formoso, primeiro grande diplomata e reformista agrário e tributário, Fernão Lopes, o patrono dos cronistas, Fernando Pessoa, o poeta universal, Fernando Chalana, o pequeno génio, Fernando Gomes, o goleador cavalheiro. E, até, um Fernando selecionador, a edificar contra todos os oráculos e videntes, um património de troféus que vai pesar insuportavelmente nas costas de quem o herdar: “depois de mim virá…”

Todos fizeram extraordinárias viagens, foram campeões dos seus enormes desafios, exemplos para gerações e gerações. E do primeiro Fernando que se conhece, um nobre do Condado Portucalense que viveu dois séculos anos antes de Afonso Henriques, descenderam os cerca de 300 mil Fernandes dos nossos dias que constituem uma das maiores famílias patronímicas – o mais famoso dos quais é hoje o número 8 da seleção de Portugal, Bruno Fernandes, a extensão em campo do treinador Fernando.

Para quem acredita na generalização das personalidades por efeito do nome ou em função astronómica do dia e hora em que se nasce, estaria escrito nas estrelas o sucesso das arábias de Bruno Fernandes, legítimo novo Conde de Portucale, nascido na Maia, portanto natural sucessor do “Lidador”, o herói que segundo a lenda derrotou os mouros na batalha de Ourique.

“Batalhador incansável, equilibrado e determinado, que leva até ao fim tudo o que começa”, diz a matriz dos Fernandes. “A sua persistência faz com que consiga quase sempre resultados positivos”.

Por estes dias, chegou-me a história dos primeiros sete meses de Bruno Fernandes em Itália, vivendo em retiro na academia do Novara para poupar os escassos 50 euros que a mãe lhe pôde dar para a viagem em busca do sonho que decidiu empreender no final da adolescência. Não tinha dinheiro, mas tinha vontade – e isso bastou-lhe. Estava tão pronto e seguro de bolsos vazios como está hoje, milionário e reconhecido, mas humilde que baste para aproveitar as boleias no avião do parceiro a quem paga com subtis retoques no penteado.

Se juntarmos a proverbial tendência “esperta, culta e audaciosa” dos Fernandes, ao significado de Bruno, outro nome germânico que quer dizer “polido, com lustro”, descrevemos uma personalidade de pioneiro com grande visão, que explica esta afirmação como líder de dimensão mundial, com participação decisiva em quatro dos cinco golos de Portugal no Catar.

Bruno Fernandes cresceu à margem dos sistemas de formação dos grandes clubes portugueses e das seleções jovens, ao contrário de quase todos os nascidos em Portugal que estão em Doha, e foram essas qualidades de autodidata que lhe permitiram aprender a falar italiano, castelhano e inglês tão fluentes como todos os segredos da função de centro-campista moderno, entre o “trequartista”, desenvolvido em Itália, e o “box-to-box” universal que é hoje.

As mesmas esperteza, cultura e audácia a que apela para transformar os penáltis que o guarda-redes Antony Lopes, colega da seleção, ontem etiquetou como “impossíveis de defender”. Se Panenka não tivesse existido, estaria por estes dias a reclamar um novo penálti de autor que talvez o marketing social não lhe reconheça, por falta do efeito surpresa. Mas um dia será estudado: o penálti à Panenka qualquer um pode marcar, é apenas uma “cavadinha” a direito e defensável; o penálti à Bruno Fernandes exige uma coordenação motora e um domínio dos nervos muito especiais, com efeito desconcertante e praticamente infalível.

Com 28 anos, antes de se tornar num treinador esperto, culto e audaz como sugere a facilidade com que comanda as operações dentro do campo, Fernandes, o “afilhado” de Fernando, ainda está a tempo de compor um currículo ao nível da sua qualidade, por enquanto deficitário por causa das escolhas menos criteriosas de clube, que foi fazendo.

Bruno Fernandes só ganhou até agora uma Liga das Nações, por Portugal, e uma Taça de Portugal e duas Taças da Liga, pelo Sporting – muito pouco para tanto futebol.

João Querido Manha

13 Comentários

  • Antonio Pinheiro de Campos
    Posted Novembro 30, 2022 at 12:19 am

    Que delícia e que privilégio ler mais uma catarse do JQM. Que riqueza discursiva.

  • Dario Nunes
    Posted Novembro 30, 2022 at 8:48 am

    Excelente texto, mais um aliás e como tem sido regra.
    O Bruno é um jogador bastante bom, não sendo o médio ofensivo mais dotado tecnicamente, a agressividade que coloca no jogo e a sua vontade constante de chegar à baliza (algo raro na seleção portuguesa), tornam-no num jogador único e chave para a seleção, isto se ele estiver bem como é óbvio.

  • DRACENA
    Posted Novembro 30, 2022 at 9:46 am

    Excelente texto como habitual…
    Apenas uma correção. A batalha de S. Mamede não foi contra mouros mas sim “espanhois”…

    • lipe
      Posted Novembro 30, 2022 at 11:15 am

      Em 1128 os espanhóis ainda estavam a uns bons 300 e tal anos de existir.

      • PCampos
        Posted Novembro 30, 2022 at 1:49 pm

        Nem um nem outro estão certos. Nem o João. A Batalha de São Mamede foi travada entre D. Afonso Henriques que à data teria cerca de 15 anos e o amante da Mãe D. Teresa, com o consentimento da Mãe que acabaria presa pelo filho no Castelo de Lanhoso, pois este queria tomar de posse o Condado Portucalense. Podemos dizer hoje que eram espanhóis, na altura Reinado da Galiza. Foi no dia 24 de Junho de 1128. Pelo menos é o que se diz cá na terra…

        • lipe
          Posted Novembro 30, 2022 at 3:12 pm

          Digo que não eram espanhóis porque a Espanha não existia e não ia existir por uns bons séculos ainda. Para além disso, o conceito de nacionalidade na Idade Média pouco ou nada tinha a ver com conceito de nacionalidade como nós o entendemos.
          Em 1128 certamente não existia ainda uma consciência nacional como veio a existir posteriormente, quer desde lado do Rio Minho quer do outro. Aliás, tanto do lado “português” como do lado “espanhol” lutaram nobres galegos e nobres do Entre-Douro-e-Minho.
          Em relação a São Mamede e o dealbar da consciência nacional portuguesa sugiro a leitura de um texto da autoria do José Mattoso: “A Primeira Tarde Portuguesa”. Deixo aqui o link para quem estiver interessado:
          https://www.csarmento.uminho.pt/site/s/rgmr/item/58166#?c=0&m=0&s=0&cv=0

          Só um aparte, o episódio da prisão de D.Teresa na Póvoa de Lanhoso é muito provavelmente um mito criado para denegrir a imagem do Fundador (se bem me lembro é da autoria de um clérigo galego).

  • Vermelhudo
    Posted Novembro 30, 2022 at 12:00 pm

    Pois muitos parabéns ao autor do texto. Está muito legal.
    O Bruno Fernandes tem estado muito bem, é um jogador diferenciado.
    Não é fácil encontrar alguém que tenha tanto “há-vontade” na hora de rematar.

    Quando foi feito o anúncio do onze contra a Nigéria, escrevi aqui no blogue que achava que a entrada do William serviria também para dar mais liberdade ofensiva ao Bruno.
    Com menos necessidade de vir atrás, o homem está mais focado no golinho.

    Acho que tem passado por aí e com bons resultados.
    Com Palhinha não há essa hipótese, por exemplo. E eu bem gosto do Palhinha, lenhador bomba.

    Não é fácil fazer um onze quando há muito jogador bom. Nem sempre é fácil conjugar as coisas. Meter o Bruno numa função que lhe assentasse não foi fácil, até porque o jogador era bastante criticado na equipa nacional.
    Para pautar jogo, Vitinha é bem melhor. Na minha opinião.

    Mas isto é muito bonito nas horas boas.
    No Guincho, em dia de sol e vento gostoso, Lord Ganesh bem me disse que o que vem também vai. Isto enquanto apontava para uma onda. Portanto, mais do que desfrutar dos bons momentos, o mister Santos deve estar preocupado com o que fazer em momentos de maré baixa ou mar revolto.

    Mas está a ser bem giro. Tenho rido a bom rir com os golos Linic e com as macacadas da galera.
    Agora só falta continuar a ver o Gerardo Ramos a entrar para ajudar a defender.
    Nelson Veríssimo deve-se partir a rir com isso, ou não tivesse ele apostado muitas vezes nesta vertente serralheiro-mecânico do jogador.
    Parabéns ao treinador, fez do Gerardo um avançado muito combativo.

  • Baryonyx
    Posted Novembro 30, 2022 at 12:33 pm

    Mais um belo texto do Querido, os meus parabéns!

  • Princesa
    Posted Novembro 30, 2022 at 1:30 pm

    O 1o texto que li a elogiar o Rei D. Fernando ?

  • Antonio Clismo
    Posted Novembro 30, 2022 at 2:47 pm

    Bruno Fernandes é um savant

    Daqueles jogadores que por terem treinado tanto, os mesmos gestos e movimentos, com repetição e mais repetição, conseguem quase parar o tempo e ficar ”na zona”.

    Quando digo jogadores que conseguem ficar ”na zona” lembro-me do Stephen Curry na NBA quando consegue parar o tempo nos triplos, a sua especialidade. Toda a gente sabe que ele é o melhor de sempre nessa componente do jogo, mas todos se esquecem daquilo que ele trabalhou para atingir esse nível. Ou o ginásio e o treino específico que ele faz às 3 da manhã, quando os outros ainda estão a dormir. Ou dos treinos completos que ele faz no centro de treinos da equipa, antes dos treinos oficiais com os colegas, ou seja quando os colegas chegam para treinar, já ele fez ginásio e um treino completo. Já para não falar nas horas e mais horas que ele passa a repetir e a repetir esse tipo de movimentos, mesmo nos períodos de férias. Depois é claro, chega aos jogos e fica ”na zona”. Um regalo de se ver.

    Existem savants espalhados pelas mais variadíssimas áreas, desde a música, tecnologia, etc e é sempre um espanto observar pessoas que conseguem atingir esse nível numa determinada especialidade.

  • Sporting1906
    Posted Novembro 30, 2022 at 7:53 pm

    Bruno Fernandes é um craque, é bom vê-lo a brilhar na seleção. E pensar na quantidade de gente por aqui que não o queria ver a titular no mundial.

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