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Com a faca nos dentes

“Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
Da vida proletária, aristocrática, burguesa.”

Como no poema surrealista de António José Forte, o Benfica-Porto transportou para a noite escura o benfiquista febril, assustado, perdido, sem pressa de chegar seja onde for, olhando a multidão, suavemente, com horror.

Durante semanas, meses, o sucesso inesperado do Benfica de Roger Schmidt foi associado à fraqueza ou incompetência dos adversários sucessivos. Dizia-se, como pensamento desejoso, “quando enfrentar uma equipa a sério…”

Mas a sequência de vitórias prosseguiu, disfarçando fiascos comprometedores nas taças domésticas que não chegaram para dúvidas nem angústias. O nível exibicional manteve-se alto, por vezes excelente, e o entusiasmo deu lugar à euforia, em função do inusitado avanço de dez pontos. O despertar das segundas-feiras era um poema surreal.

Ora, no dia em que se preparava para chancelar a conquista do título, o Benfica encontrou finalmente um adversário muito superior, abafador, inclemente, esmagador. E voltou a não vencer em casa um rival, como já acontecera frente ao Sporting, surpreendido, aturdido, desligado, perante um estádio da Luz à cunha – o “luar terrífico (que) vela o seu passo transtornado”, como no poema do “mano Forte”.

“Sonâmbulo, magnífico
Segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.”

A competitividade da equipa de Sérgio Conceição, com uma personalidade colectiva inconfundível e inimitável, de faca nos dentes e capacidade de pressão quase irrespirável, reduziu à vulgaridade jogadores e soluções que chegaram a maravilhar em muitos jogos da temporada, inclusive frente a adversários internacionais poderosos.

O que se passou?

Na minha visão, apenas uma enorme diferença de maturidade e classe, entre o que se vê e o que se deseja, entre o real e o surreal. O meio campo do FC Porto é servido por jogadores de nível internacional, com larga experiência dos grandes ambientes, e esse “pedigree” marca diferenças: Florentino e Chiquinho, provavelmente, nunca jogarão numa seleção nacional, João Mário está na segunda linha, Rafa perdeu-se nos seus labirintos mentais, Aursnes é um epifenómeno. Todos acusam negativamente a intimidação física e a falta de espaço de manobra, a faca nos dentes aterroriza-os.

Otamendi à parte, nenhum jogador do Benfica se sentiu “confortável” no tipo de jogo que, em menos de cinco minutos, já tinha passado de proposto a imposto pelo Porto, obrigando a quase duas horas de aflição permanente, pela insegurança competitiva, pela inferioridade física e pelo absoluto bloqueio táctico, inclusive nos minutos em que esteve em vantagem no marcador.

Não era tudo excepcional antes deste jogo, foi tudo medíocre durante o jogo, mas não estará tudo mal no futuro do Benfica – a passar de nova derrota com um candidato ao título para uma importante eliminatória na Liga dos Campeões, prova em que permanece invicto.

A equipa do Benfica melhorou muito, colectivamente, com Schmidt, mas o plantel mantém várias deficiências, para um nível de exigência mais elevado, que os resultados vêm disfarçando: um guarda-redes que ganhe pontos, um lateral direito (e outro esquerdo, se Grimaldo sair), um médio centro que dinamize o jogo e imponha o ritmo quando o adversário bloqueia o ataque rápido, dois extremos com objectividade e profundidade e um avançado que discuta a titularidade e não retire poder ofensivo quando entra em campo.

Haverá quem se limite a acreditar que foi só uma tarde má, “para esquecer”, e que os sete pontos de avanço dizem muito mais sobre a realidade das equipas do que este acidente singular. Porque o Benfica tem sido mais regular, mais eficaz, vencendo mesmo quando não convence. Mas que ninguém pense que o Porto foi e será o único adversário ”a sério” neste final de temporada tão exigente, regressando de seguida à rotina dos opositores sem facas nem dentes que atapetaram o caminho inicial da época.

Cair na real e assumir:

“Pelo meu relógio são horas de matar
De chamar o amor para a mesa dos sanguinários.”

João Querido Manha

17 Comentários

  • Josefa
    Posted Abril 9, 2023 at 11:58 pm

    Uma narrativa tão bela e bem escrita, cheia de “poemas” e ilusões, quando de facto a mesma semântica é mentirosa é desproporcional aos quase 10 meses de trabalho!

    Qualquer adepto benfiquista sabe que os jogos contra o Porto são perdidos na maioria porque o Porto é imensamente superior no querer e na raça, enquanto os jogadores do Benfica possuem um medo inexplicável. Atrevo-me a dizer que o Benfica era capaz de eliminar qq equipa nesta UCL , mas se jogasse uma final com o Porto, aconteceria a mm coisa! É apenas um jogo, não apaga tudo o que estes jogadores e equipa técnica fizeram.

  • Big Lebowski
    Posted Abril 9, 2023 at 4:14 pm

    Explicar a superioridade do Porto neste jogo com raça, intensidade ou agressividade é preguiçoso ou ignorante. Se o Porto não tivesse estudado o Benfica, se não soubesse os pontos fortes a anular e os pontos fracos a explorar, podiam ter 11 Otávios em campo que não iam lá. Pode não ter havido mais nota artística, pode não ter havido passes à João Mário ou fintas à Rafa, mas houve muito mais equipa e o futebol é um jogo de equipa. Este texto assenta na ideia de que se defrontaram uma equipa de luxo é uma equipa de operários e que esta só ganhou porque foi mais intensa. Nada mais redutor.

    Não morre ninguém se dissermos que Sérgio Conceição deu um banho táctico a Schmidt. O português sabia ao que ia e preparou-se. O alemão confiou demasiado na fórmula e não soube reagir quando se percebeu que a fórmula estava a falhar. Nenhum passou a ser melhor ou pior do que era, mas um foi claramente melhor do que o outro durante 90 e tal minutos.

    Claro que não podemos fingir que a atitude competitiva faz a diferença nestes jogos e costuma ser diferente. Mas se o Benfica tivesse sido aquele rolo compressor que a comunicação social tanto venera e o Porto aquela equipa banal que as Sofias Oliveiras tanto desprezam, não era a atitude que ia fazer o Porto ganhar.

  • Pedro Almeida
    Posted Abril 8, 2023 at 3:30 pm

    Este texto é muito bonito mas a equipa era a mesma quando passamos a fase de grupos da Champions e é a mesma que só perdeu 2 vezes este ano.
    Ontem a equipa não entrou em campo. A pressão e o dominio não existiram e quase todos os jogadores estavam desligados do jogo.qje
    Razões? Não faço ideia que não estou lá dentro mas o Roger que os acorde para a vida que para a semana à Champions.
    Contudo eu acho estranho o facto de que por 2 vezes que à paragem de seleções e a equipa deixa de jogar o que sabe.
    Problema de preparação fisica ou relaxamento?

  • Nickles
    Posted Abril 8, 2023 at 1:54 pm

    Va lá alguém fala finalmente da vergonha que é o Vlachodimos. Guarda redes fraco, toda a gente sabe mas renovou inexplicavelmente. Para além de ser fraco em tudo que envolve não levar com bolas á figura, também pode se acabar com o mito que é bom entre os postes. Basta ver o golo do Taremi onde está extremamente mal posicionado e logo de seguida ia levando outro igual do João Mário. Aliado ao mau posicionamento tem um tempo de reacção de um idoso, o que explica o porquê de nunca ter defendido um Penalty na vida.

  • joaodjesus
    Posted Abril 8, 2023 at 1:25 pm

    Florentino se não chegar a seleção nacional algo esta muito mal, melhor medio defensivo português depois do Palinha.
    Em relação ao jogo nada de mais, o Porto tem algo que o Benfica não tem, uma vontade indomável e determinação de se mostrar contra os mais fortes, e isto não interessa quem esta em campo ou no banco a comandar(Sérgio Conceição leva isto a outro nível nem sempre bom), é algo que nos aqui no norte temos, e apesar de ser Benfiquista isto é algo que o dinheiro não compra e o Benfica não consegue lidar com isso.

    • Stromberg
      Posted Abril 8, 2023 at 2:27 pm

      Concordo plenamente. E digo mais: se o FC Porto tivesse o plantel do Benfica, iria entrar em campo com a mesma raça e atitude de sempre! Ou até que tivesse o plantel do Boavista ou Leixões… o FC Porto usa a raça e o desafio para se estimular e o Benfica, ao invés, sente demasiadamente a pressão e não se consegue superar. A única forma que o Benfica tem de superar o Porto não é ser melhor, é SER MUITO MELHOR a jogar à bola (como aconteceu em 13/14)… porque se jogar o mesmo que o Porto ou apenas um pouco melhor, a raça deles e atitude vai sempre fazer a diferença!

  • Miguel Mendes
    Posted Abril 8, 2023 at 12:21 pm

    Então mas o Benfica não tinha um super plantel?

  • Fireball
    Posted Abril 8, 2023 at 11:51 am

    No fundo é isto. O grande problema do Benfica contra o Porto a nível geral, que vai de cima a baixo é resumido nisto: o Benfica vê o Porto como um rival, o Porto vê o Benfica como um inimigo. Para o Benfica isto é um jogo como os outros, vale 3 pontos, é só mais um adversário, apenas mais forte. Para o Porto é um jogo de vida ou de morte, é para ganhar dê por onde der, é a salvação de uma época com pouco sucesso. O Porto vai à Luz com uma missão, vencer o Benfica, vencer Lisboa, vencer o Sul. Mete a faca nos dentes e vai lutar com tudo. O Benfica não tem essa mentalidade, abordou o jogo com pouca intensidade, pouco sentido de missão, e não conseguiu igualar o nível de intensidade do adversário.

    • Syd Barrett
      Posted Abril 9, 2023 at 12:44 am

      Sou portista e sócio há 20 anos e em momento algum da minha vida encarei um clássico como salvação da época do meu clube. Pensar que isso é verdade é não conhecer a realidade do que é ser Porto. Já ganhamos dois títulos está época, podemos ganhar mais dois ( a liga muito dificilmente claro) e razoável prestação europeia, e nada disso é suficiente,porque queremos ganhar tudo, todos os fins de semana, todos os anos. E queremos ganhar na raça, em correr para cima do adversário. Não escondo que dá um gostinho especial ganhar ao Benfica depois de ouvir uma semana inteira que só o Diogo Costa calçava no 11 misto. Mas acredito que se a situação fosse inversa, sentiriam o mesmo. Eu acho é que o nível de exigência é outro cá em cima. Ando há semanas a ouvir sobre o super Benfica, Schmidt Salvador e a pedir estátuas ao homem. O Porto o ano passado fez 91 pontos, 1 derrota e 4 empates e não ouvi metade desta conversa. Nem no ano invicto do AVB diga se…

      • El Mago
        Posted Abril 10, 2023 at 11:53 am

        Ouviste que foi tudo fruto da corrupção, adversários comprados, “que isto só acontece em Portugal”

        Ou seja o FCP nunca tem mérito nem qualidade, são sempre visto como o clube que só ganha à base do ódio ou do compadrio/corrupção.

        Já ando nisto há mais tempo como tu.

        Obviamente a raça, o querer, o fazer das tripas coração é a imagem do clube.

        Em mais algum clube um jogador (capitão) com um dedo do pé partido, pedia para rasgarem a bota pintarem a meia de preto e ir a jogo?

  • zebenfas
    Posted Abril 8, 2023 at 9:40 am

    Concordo em absoluto, o medio que imponha o ritmo ,chamava se enzo…mas já cá nao está…o resto das deficiências são bem evidentes.

    • Fireball
      Posted Abril 8, 2023 at 11:48 am

      Pois… eu vi o Enzo contra o Porto. Durou 45 minutos, fez uma primeira parte horrível e o pior jogo de águia ao peito. Se era ele a solução, não pareceu.

      • Nickles
        Posted Abril 8, 2023 at 2:00 pm

        Não era a solução. O Benfica não tem solução para os jogos contra o Porto, a não ser que contrate pelo menos um top 10 para cada posição. Aí a qualidade individual equilibraria as diferenças gritantes de mentalidade, e mesmo assim era renhido.
        Mas não deixa de ser verdade que o Benfica estará sempre mais perto de um bom resultado com o Enzo do que com o Chiquinho

    • Nickles
      Posted Abril 8, 2023 at 11:27 am

      Concordo. É complicado passar de um top 7 mundial para o Chiquinho

      • Stromberg
        Posted Abril 8, 2023 at 2:32 pm

        O Chiquinho foi dos melhores do lado do Benfica.

        O problema não está no Chiquinho, está no conceito de instituição e de pressão inerente. Se visses o Chiquinho do lado do Porto ias achar que era um craque, raçudo e que dá tudo!

        Podia haver troca de plantéis que a coisa não se iria alterar… faz parte da cultura.

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