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A competência não se mede pela idade

Um novo treinador está a dar cartas no futebol alemão. Hannes Wolf tem 35 anos e é, desde o passado dia 21 de Setembro, o técnico da equipa principal do Estugarda, histórico emblema germânico que foi despromovido à II divisão na última temporada, depois de 38 participações consecutivas na Bundesliga. Tal como Thomas Tuchel ou Julian Nageslmann, que foram vítimas de recorrentes problemas nos joelhos, também Wolf enveredou pela carreira de treinador muito cedo, depois de pendurar as chuteiras, devido a uma grave condição de saúde.

Natural de Bochum, no estado da Renânia do Norte-Vestfália, Wolf nasceu a 15 de Abril de 1981 e é, por hoje, um dos mais excitantes treinadores do futebol alemão. Casado e pai de duas filhas, Wolf começou por jogar futebol num clube local, o TuS Eichlinghofen, mas seria no Nuremberga, que o ex-avançado viveria os melhores (e os piores) momentos da sua carreira. Pela equipa de reservas do clube da Baviera, Wolf registaria 11 golos em 37 presenças, mas o sonho de se tornar futebolista profissional ficaria desfeito, depois de lhe ter sido diagnosticada uma mononucleose, uma infecção viral popularmente conhecida como a “doença do beijo”.

Em 2004, Wolf somou uma breve experiência no Schwarz-Weiss Essen, até que o próprio decidiria interromper a sua carreira de jogador para se concentrar nos estudos. No ano seguinte, Wolf regressou à sua terra natal e formou-se em ciências do desporto pela Universidade do Ruhr. A primeira experiência como treinador aconteceu no SC Eintracht Ergste, mas seria como jogador/ treinador do ASC 09 Dortmund, que Wolf iria conquistar alguma notoriedade.

Em 2008, o ASC 09 conquistou a terceira divisão distrital e seria distinguido pelo Ruhr Nachrichten, um órgão de imprensa local, como a melhor equipa da cidade, numa gala do desporto onde também esteve presente Jürgen Klopp. O discurso confiante e bem-humorado de Wolf convenceu de imediato o agora treinador do Liverpool, que o trouxe para Dortmund no verão de 2009. Primeiro como adjunto da equipa de reservas e, mais tarde, como técnico dos escalões de formação, Wolf foi um dos principais responsáveis pelo rejuvenescimento da academia do Borussia Dortmund, depois de conquistar três campeonatos nacionais de forma consecutiva, entre 2014 e 2016.

Após a crise financeira que atingiu os amarelos, o clube deixou de poder financiar adequadamente o futebol de formação. Desde a temporada 2008/09, quando a equipa de Mario Götze, Tolgay Arslan e Daniel Ginczek conquistou a zona Oeste, que só por uma vez a equipa sub-19 do Dortmund terminou nos quatro primeiros lugares, até à última temporada, em que Wolf não só recuperou esse título, como ainda se sagrou campeão nacional, algo que não acontecia desde 1998. Depois de terminar a zona Oeste no 1.º lugar, com cinco pontos de vantagem sobre o 2.º classificado, o Dortmund bateu na final o Hoffenheim, que jogou na sua própria casa, por 5-3.

Este feito merece ainda maior destaque dado que a maior parte da equipa do Dortmund era a mesma que tinha conquistado o campeonato sub-17 nos dois anos imediatamente anteriores e que Felix Passlack e Christian Pulisic, as duas maiores figuras da equipa, não puderam dar o seu contributo durante grande parte da segunda volta, visto terem sido promovidos à equipa principal. Mas não deverão ser os únicos pupilos de Wolf a fixarem-se entre as opções de Tuchel a médio-prazo.

Dzenis Burnic, médio centro alemão de 18 anos, que Tuchel testou como central durante a pré-temporada, estreou-se com o Sporting em Alvalade. Jacob Bruun Larsen, extremo dinamarquês de 18 anos, que esta temporada já participou em 30 golos pela equipa sub-19, cumpriu 68 minutos na vitória sobre o Union Berlin, na Taça da Alemanha. A eles juntam-se o central Patrick Fritsch, convocado com apenas 16 anos para a visita ao PAOK, na última Liga Europa, o guarda-redes Dominik Reimann e o ponta-de-lança Janni Luca Serra, que estiveram entre os convocados da Alemanha para o último Europeu sub-19. No entanto, estes três últimos jogadores continuam a recuperar de lesões muito graves, sofridas recentemente, sendo ainda incerto o impacto que estas poderão ter na maneira como irão evoluir daqui em diante.

A primeira oportunidade para Wolf, com uma equipa sénior profissional chegou em meados de Setembro. Depois de cair na II divisão, onde esteve pela última vez em 1976/77, o Estugarda confiou a Jos Luhukay a missão de devolver este clube, cinco vezes campeão nacional, à Bundesliga. Um objectivo que ele cumpriu nos três últimos clubes que liderou: com o Borussia Mönchengladbach em 2008, com o Augsburgo em 2011, e com o Hertha Berlim em 2013. Qual Vítor Oliveira.

No entanto, depois de 121 dias à frente da equipa, o técnico holandês renunciaria ao cargo de forma voluntária. Na base desta decisão, terão estado os atritos que mantinha com o director-desportivo Jan Schindelmeiser, desde a chegada de Carlos Mané, Takuma Asano e Benjamin Pavard nos últimos dias do mercado de transferências. As duas derrotas nas quatro primeiras jornadas do campeonato só precipitaram este abandono. Entre os candidatos apontados à sua sucessão, estavam André Breitenreiter e Markus Gisdol, talvez o principal candidato, pelo seu trabalho no Hoffenheim, onde coincidiu com Schindelmeiser, pelo seu estilo de jogo e pela sua origem (é natural de Geislingen an der Steige, na região de Estugarda).

A escolha de Wolf acabou por apanhar quase toda a gente de surpresa, não só pela tamanha exigência que era depositada num técnico tão jovem sem qualquer experiência a este nível, mas pelo próprio desconhecimento que se tinha do seu percurso. Curiosamente, Wolf chega ao futebol profissional depois de se sagrar campeão nacional sub-19, à semelhança dos já aqui referidos Thomas Tuchel e Julian Nagelsmann, que o conseguiram, respectivamente, com o Mainz, em 2008/09, e com o Hoffenheim, em 2013/14.

No Estugarda, Wolf reencontrou três antigos jogadores do Dortmund: o guarda-redes Mitchell Langerak, o campeão do mundo Kevin Grosskreutz e o avançado Daniel Ginczek. Foi apresentado a 21 de Setembro e estreou-se dois dias depois com um empate (1-1) em Bochum, na sua terra natal. Quem o acompanha há já vários anos, desde que ambos formavam dupla atacante no ASC 09 Dortmund, é o seu adjunto Miguel Moreira, um luso-alemão filho de emigrantes portugueses em Dortmund, onde nasceu há 33 anos.

O facto de Wolf ter convivido durante tanto tempo com Klopp, explica muitas das semelhanças na forma de jogar das suas equipas, mais do que com as de Tuchel com quem Wolf ainda se cruzou no seu último ano em Dortmund. O técnico de 35 anos aposta num futebol rápido, pressionante e forte a explorar as transições. Se em Dortmund, o jogo da sua equipa girava em torno de um homem-alvo como Serra, agora no Estugarda, é Simon Terodde quem assume esse papel. Proveniente do Bochum, este goleador de 28 anos chegou à sexta maior cidade da Alemanha no início da presente temporada, depois de apontar 47 golos nos dois últimos exercícios.

A primeira vitória de Wolf surgiu no seu segundo jogo, diante do Fürth, e logo por números expressivos. 4-0 foi o resultado final, com dois golos de Carlos Mané e um de Pavard, dois dos três jogadores que estiveram na origem das divergências entre Luhukay e Schindelmeiser, e que ainda nem sequer tinham merecido a sua confiança. O tento final pertenceu ao capitão Christian Gentner, o elemento mais experiente do plantel.

Quem tem tirado maior partido da chegada de Wolf ao clube são, justamente, os três proscritos. Pavard, central internacional sub-21 francês, proveniente do Lille, fixou-se nos últimos jogos como lateral direito (1 golo e 2 assistências). Hasano é um avançado internacional japonês cedido pelo Arsenal e já anotou 2 golos e 4 assistências. Mas quem tem verdadeiramente brilhado é Carlos Mané, autor de 4 golos e 5 assistências, e que apenas por uma ocasião não completou os 90 minutos com Wolf.

São agora 10 jornadas, 6 vitórias 2 empates, 22 golos marcados e 13 sofridos, com um acidente em Dresden (derrota por 5-0), ao qual a equipa respondeu com uma série de seis jogos consecutivos sem perder, que lhe permitiram ascender à liderança da 2. Bundesliga, até à última segunda-feira, em que a equipa saiu derrotada da recepção ao Hannover (1-2), num duelo que opôs os dois mais fortes candidatos à subida de divisão. Com 16 jornadas disputadas, os ‘Roten’ ocupam a 2.ª posição, a um ponto de distância do líder Eintracht Braunschweig. Terodde é o 2.º melhor marcador da competição com 11 golos.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): João Lains

VM
Author: VM

30 Comentários

  • João Lains
    Posted Dezembro 16, 2016 at 6:12 pm

    Obrigado a todos.

  • Inigol
    Posted Dezembro 16, 2016 at 3:19 pm

    Andei com o irmao do Hannes na escola, tal como com o treinador adjunto, que é tuga e se chama Miguel Moreira. Com o Hannes cheguei a jogar futebol de 5…é um tipo porreiro, era um bom jogador, mas teve que deixar o futebol (na altura estava na aequipa B do Nuremberga) por lesao.

  • Kiko Lopes
    Posted Dezembro 16, 2016 at 2:31 pm

    Gosto de ler estes posts do João Lains. Só acho que tem muita wikipédia lá para o meio. Um bocado como aqueles que deixam no facebook também. É o único senão que tenho a apontar.

  • Joao X
    Posted Dezembro 16, 2016 at 1:14 pm

    Não fazia a menor ideia que o Carlos Mané está a ser destacar-se, fico contente e espero que continue assim! Muito obrigado João!

  • J Silver
    Posted Dezembro 16, 2016 at 11:15 am

    Óptimo post! Espero que esta saga do Estugarda e de Wolf corra bem, tendo em conta o quanto podem potenciar as qualidades de Carlos Mané!

  • RodolfoTrindade
    Posted Dezembro 16, 2016 at 9:49 am

    Excelente João.

    Com este post fiz uma viagem à carreira de Wolf.

    Obrigado.

  • RREB
    Posted Dezembro 16, 2016 at 9:19 am

    Bastou ler o pimeiro paragrafo par percer que era um texto d Joao Lauins.
    Mais uma vez um trabalho notavel e vou seguir este treinador com mais cuidado. Grande evolucao que tem dado ao jogadores.

  • Tiago Silva
    Posted Dezembro 16, 2016 at 8:13 am

    Mas que belo texto (mais um). Este texto é a prova da cultura futebolística e da competência no trabalho que têm aqui feito no blog. Os meus sinceros parabéns!

    Quanto ao Wolf, não o conhecia mas já sabia que o Estugarda estava a brilhar na segunda divisão alemã. Com jogadores como o polivalente Benjamin Pavard, o Mané (tem crescido com Wolf e deverá ficar em Estugarda em definitivo) ou o Terodde, podem vencer facilmente a Bundesliga 2. e fazer uma gracinha para a próxima época na Bundesliga isto se manterem o treinador e alguns jogadores.

  • Jorge Santos
    Posted Dezembro 16, 2016 at 5:34 am

    Carlos Mané com mais músculo tem tudo para ser o novo Sadio Mané. Os dois até partilham o mesmo sobrenome.

  • ilcalcioedichiloama
    Posted Dezembro 16, 2016 at 5:03 am

    Só de acrescentar que é uma excelente escolha para o Mané. O Estugarda é a principal candidata à subida e o Mané pode conseguir bons números. Sempre foi um jogador que apreciei, muito objectivo e com faro de golo. Penso que às vezes lhe faltava alguma confiança, confiança essa que pode recuperar esta época.

  • Hugo Silva
    Posted Dezembro 16, 2016 at 1:58 am

    João Lains tu so podes ser jornalista!!! tu escreves muito bem e es uma fonte de conhecimento ! obrigado

  • Kacal
    Posted Dezembro 16, 2016 at 1:56 am

    João Lains, what else?
    É só ler, inspirar e apreciar, nada a dizer. Fantástico artigo!

    Quero só dizer que, se calhar, o Mané dava um jeitinho ao Sporting como SA neste momento, nunca achei que tivesse nível para jogar nas alas mas como SA poderia ter sido útil e mais valia ter o Mané que investir tanto dinheiro no Alan Ruíz mas ainda bem que foi emprestado, assim está a jogar com regularidade e a brilhar.

  • ACT7
    Posted Dezembro 16, 2016 at 1:47 am

    Muito bom artigo, vale a pena ganhar 5 minutos do dia ao ler este texto.

  • José S.
    Posted Dezembro 16, 2016 at 1:14 am

    Fantástico João.
    Gosto de ver qualquer jogo de futebol, mas não tempo e “tempo” para poder absorver, apreender e apreciar toda a essência deste desporto em si.
    Mas sei que vou aprender ou me informar devidamente com qualquer um dos teus textos.
    Tu e o Pedro Barata são fantásticos na hora de cultivar este desporto aqui no VM.

    Futebol é o desporto rei, mas há outras modalidades que grande pessoal aprecia e seria interessante haver crónicas também. Eu pessoalmente aprecio bastante andebol e hóquei.
    Continuem assim.
    Cumprimentos

  • Daniel Salgueiro
    Posted Dezembro 16, 2016 at 12:42 am

    Excelente artigo, do melhor que já li por aqui.
    Percurso muito interessante deste jovem treinador. Aliás, quem sabe se não será ele o sucessor de Tuchel.

  • PRicardo
    Posted Dezembro 16, 2016 at 12:21 am

    Notável trabalho de pesquisa / cultura futebolística, os meus sinceros parabéns

  • ilcalcioedichiloama
    Posted Dezembro 16, 2016 at 12:17 am

    O quanto eu adorava ler isto em papel. Magnífico trabalho!

  • Francisco A
    Posted Dezembro 15, 2016 at 11:55 pm

    Este texto dá 10-0 aos “artigos” que lemos nos desportivos.
    Fantástico. São estas obras de arte que me fazem permanecer neste blog, obrigado!

  • Pires
    Posted Dezembro 15, 2016 at 11:46 pm

    O que a comunicação social cá em Portugal lhe custa a perceber é que eu quero ler textos sobre futebol como este que o João acabou de escrever e não andarmos 3 semanas a falar de cuspos, papéis e outros artefactos

    • Ouvi dizer que...
      Posted Dezembro 15, 2016 at 11:57 pm

      A comunicação social percebe, no entanto não o faz porque não é isso que a maioria dos Portugueses quer ler nem consumir. Como até podes ver por aqui no VM, os Posts com mais comentários são quase sempre os que estão relacionados com alguma polémica

      Portugal é um País de futebol, no entanto a maioria dos Portugueses não gostam de futebol, apenas gostam do seu clube e a prova disso é apesar de actualmente termos mais de 15 programas diários/semanais sobre futebol (espalhados pelas mais variadas Tv´s), apenas 2 ou 3 falam realmente de futebol, os outros 12/13 é a falarem de tudo menos futebol, e esses 2/3 que falam de futebol por norma têm audiências inferiores aos 12/13 que são falam de porcaria

      • JSC101
        Posted Dezembro 16, 2016 at 9:34 am

        Acho que a maneira mais fácil de avaliar não é tanto pelos comentários, mas pelas views a quais o VM tem acesso, no entanto acho que se vai verificar maiores visualizações nos da polémica (na mesma).

      • Diogo L
        Posted Dezembro 16, 2016 at 2:32 am

        Isso é também porque nesse tipo de artigos há sempre alguma coisa a dizer ou a defender, enquanto nestes artigos uma pessoa fica fascinada apenas com a leitura e fica sem palavras possíveis para comentar.

        Resta-nos apenas agradecer ao João Lains por estes momentos e continuar a apreciar estes artigos.

        • Fefe Varanda
          Posted Dezembro 17, 2016 at 2:48 pm

          Concordo, às vezes não comento porque não há nada a dizer, está tudo bem, no máximo um obrigado.

      • José S.
        Posted Dezembro 16, 2016 at 1:15 am

        Infelizmente confere..

  • Pedro Barata
    Posted Dezembro 15, 2016 at 11:07 pm

    Fantástico, como de costume. Estas viagens que o João Lains nos proporciona são algo único no panorama da cobertura feita ao futebol em Portugal. Indispensável.

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