Vinte anos depois, a República Checa está de regresso a uma fase final do Campeonato do Mundo. Pelo caminho ficaram tentativas falhadas, sucessivas mudanças de selecionador e a inevitável comparação com uma geração dourada difícil de igualar. Ainda assim, os checos nunca desapareceram verdadeiramente do mapa do futebol europeu: desde a dissolução da Checoslováquia, marcaram presença em todas as fases finais do Campeonato da Europa, uma consistência da qual poucas seleções se podem orgulhar.
Mas o futebol checo mudou. A equipa que agora regressa ao maior palco internacional está longe de exibir o talento individual da geração liderada por Pavel Nedved, Petr Cech e Tomas Rosicky, que encantou a Europa no início do século. Em vez disso, redefiniu a sua identidade em torno de outras virtudes: organização, competitividade e uma notável capacidade de superação. E poucos percursos ilustram melhor essa transformação do que o de Vladimír Coufal.
Dispensado ainda jovem pelo Baník Ostrava, o clube da sua cidade natal, por ser considerado demasiado baixo, o lateral-direito teve de recomeçar praticamente do zero. Após duas épocas na II divisão, chegou ao Slovan Liberec — então campeão checo — para disputar a vaga deixada por Theo Gebre Selassie, um dos destaques do Euro 2012. A afirmação, porém, não foi imediata. Entre lesões e períodos de menor utilização, precisou de insistir para conquistar o seu espaço. Acabou por fazê-lo de forma tão convincente que terminou a passagem pelo clube como capitão de equipa e totalista no campeonato, antes de rumar ao Slavia Praga.
Na capital, reencontrou o treinador Jindrich Trpisovsky
Em Londres, rapidamente se afirmou como uma das presenças mais consistentes da posição na Premier League. Durante várias épocas foi dono indiscutível do corredor direito do West Ham e viveu o ponto mais alto da carreira em 2023, quando ajudou os Hammers a conquistar a Liga Conferência. O cenário dificilmente poderia ter sido mais simbólico: a Fortuna Arena, casa do Slavia Praga e da seleção checa.
Mas nem tudo correu de forma perfeita. A chegada de Aaron Wan-Bissaka reduziu o seu espaço e acabou por precipitar um desfecho que poucos meses antes parecia improvável. Após cinco temporadas, o West Ham optou por não renovar contrato e a forma como tudo aconteceu, tornou a decisão ainda mais difícil de aceitar. Segundo o próprio Coufal, a conversa que selou a despedida durou pouco mais de 30 segundos. O impacto fez-se sentir também no seio familiar. Nicolas, o filho mais velho, terá deixado de lhe falar durante alguns dias ao perceber que a família teria de abandonar a cidade que já sentia sua.
O destino guardava, contudo, mais uma ironia. No Hoffenheim, Coufal
A poucos meses de completar 34 anos, Coufal apresenta-se neste Mundial novamente valorizado e com estatuto reforçado. Um percurso improvável para quem, em jovem, ouviu que não tinha características para chegar tão longe.
Curiosamente, a principal divisão do futebol checo chama-se hoje Chance Liga. Em checo, “šance” significa oportunidade.
E poucas carreiras ilustram tão bem o significado da palavra como a de Vladimír Coufal.
João Lains


1 Comentário
Daniel Alves
Sempre que estão em prova, são das selecções que mais gosto que seja bem sucedida.
Que bem jogava naquele euro 2004.