Jorge Valdano disse q
ue, apesar do futebol ser uma das expressões culturais mais relevantes do nosso tempo (são poucas, ou talvez até nenhuma, as actividades que concentram tão regularmente massas humanas tão extensas e apaixonadas em pontos tão diversos do globo), falta ainda escrever o grande romance sobre o jogo. A literatura sempre teve o condão de captar a essência da humanidade mas ainda não foi escrita a narrativa definitiva sobre o desporto-rei. No entanto, quando esta for feita, certamente que terá para contar uma história semelhante à de Amadou Diawara. Porque a história deste jovem nascido na Guiné-Conacri parece produto de um livro (ou de um filme) e não da realidade, muitas vezes mais crua e inimiga de milagres. Mas o mais incrível dos milagres…é que acontecem.
As exigências do futebol moderno costumam obrigar os atletas a uma preparação desde tenra idade, a uma orientação para o alto rendimento desde muito cedo. Os melhores clubes esforçam-se em dar aos jovens (e até mesmo crianças) os melhores métodos de treino para assim criar atletas (e “ativos”) para o futuro. Ora, parece difícil que um miúdo de 16 anos que joga numa equipa de uma igreja da pobre Conacri tenha hipóteses de se tornar num atleta de elite. Mas para Diawara tudo mudou quando, em 2014, o olheiro italiano Roberto Visan ficou boquiaberto com o seu talento e contactou Pantaleo Corvino, homem que já havia levado para o futebol italiano talentos como Nastasic, Vucinic ou Jovetic. Corvino colocou-o uma semana em teste na sua academia de Lecce e prometeu a si mesmo que não deixaria que “aquilo” lhe escapasse. Sim, porque Diawara é tão selvagem, é algo tão diferente dos jogadores formatados das academias europeias que defini-lo é tarefa complicada, daí o termo “aquilo”.
A solução encontrada para dar ao jovem uma primeira abordagem ao futebol europeu foi o San Marino Calcio, equipa do terceiro escalão do futebol transalpino. Lá, nas profundezas da Lega Pro, Diawara teve uma oportunidade de amadurecer e começar o seu crescimento futebolístico. Entretanto, Corvino torna-se director desportivo do Bolonha e decide levar para a cidade dos estudantes o promissor guineense que havia visto na sua academia meses antes e cujo rasto nunca havia perdido. Inicialmente, julgava-se que aquele miúdo ainda com idade de júnior, que um ano antes jogava por uma equipa de uma igreja na Guiné e que meses antes estava num escalão secundário, iria integrar os juniores dos rossoblu, mas a verdade é que Diawara fez a pré-época com o plantel principal e estreou-se na Série A logo na primeira jornada da competição, não tardando em tornar-se num indiscutível da equipa e gerar cobiça por toda a Europa.
Assim, o que era um segredo guardado entre igrejas da Guiné, olheiros e campos com poucas condições um pouco por toda a Itália passou a ser do conhecimento de todos: em Bolonha morava um médio-defensivo com uma capacidade física anormal, capaz de abarcar um raio de acção muito grande, incrivelmente disponível para as coberturas, implacável nos duelos e com uma vontade enorme de mostrar ao mundo a sua valia. Aquele físico que ainda continha marcas de uma infância onde a abundância alimentar esteve longe de ser regra, aquele rosto envergonhado de quem se habituou a lutar por tudo na vida, transformava-se dentro de campo num jogador que dava a sensação de que, para ele, o terreno de jogo tornava-se curto para tamanha exibição de força e talento. Foi sem surpresa que o Nápoles deu cerca de 15 milhões de euros por ele, ganhando uma corrida na qual também estiveram Valência ou Bayern Munique.
Para todos os jogadores deste top é impossível prognosticar um futuro cem por cento certo. Isto porque, apesar da qualidade e potencial de todos, muito pode condicionar a carreira de um jovem de 19 anos (ou menos). Mas, no caso de Diawara, esta imprevisibilidade é ainda maior. Estamos na presença de um jogador sem escola, um “selvagem” com uma gama de recursos enorme mas, até pela posição em que alinha (a zona à frente da defesa é bastante sensível e pouco amiga de erros), que representa muitas vezes um risco para a própria equipa, já que a sua impetuosidade fá-lo cometer erros de abordagem ou de leitura. Com bola, terá de melhorar aspectos como a posição corporal quando recebe (deixa umas vezes que a pressão entre pelo lado “cego”) e entender melhor quando deve acelerar ou travar a circulação, arriscar num passe ou optar por soluções mais conservadoras. Mas o que é certo é que o menino que jogava pela equipa da igreja é já um caso sério do futebol mundial, e se tudo correr bem este conto de fadas terá mais capítulos risonhos pela frente.
Pedro Barata


10 Comentários
Goncalo R
Pelo que sei é uma especie de Renato Sanches mas menos domesticado, é isso?
JoaoMiguel96
É mais ou menos isso Gonçalo. Um jogador com aquela potência e força fisica africana mas com ainda algumas defeciências especialmente ao nivel do posicionamento. Jogam em posições diferentes, um é 8 e o outro é 6.
No entanto estando em Itália e sendo treinado por Sarri tem tudo para chegar a um nivel brutal.
Tiago Silva
Jogador top! Incrível a sua capacidade física, a sua garra, o que dá em campo: um completo animal. Falha bastante nos termos taticos e não é muito bom com bola (apesar de ter vindo a melhorar) mas sem duvida que (se bem moldado) vai ser um dos melhires da sua posição.
Espero que este conto de fadas acabe num final feliz.
PS: Mais um grande texto! Obrigado Pedro Barata.
Goncalo Silva
Este jogador é top!! Um pouco à semelhança de Renato Sanches: um jogador com um poder físico impressionante e com uma densidade muscular muito fora do normal, onde se nota ainda algumas lacunas no capítulo mental do jogo. Desconhecia a sua história, mas já o conhecia no ano passado e até achei estranho o facto de só ter custado 15 milhões ao Nápoles.
Ppereira
Quantos jogadores iam ser isto e aquilo é depois não deram nada? É preciso talento, vontade e sorte. Três factores essenciais para jogadores de Top.
Kacal
Pouco vi dele mas parece ter o que é preciso para ser top a nível físico e mental, um autêntico “animal” o que demonstra que não é preciso ser um sobredotado para triunfar, como costumo dizer, quando há 10 no essencial (mental, físico, ambição e empenho) é suficiente ter um 6 ou 7 de talento, ao contrário já fica mais difícil triunfar e este Diawara demonstra isso mesmo e o bonito do futebol é que as outras qualidades e o aspecto táctico ele poderá trabalhar e evoluir porque potencial tem e tem tudo para melhorar mais e mais para chegar um patamar elevado, até agora tem surpreendido, sem duvida um jovem a acompanhar.
TheBeastonFire
Pode ser um jogador com tijolos nos pés mas desde que tenha físico, mental, empenho e vontade vai ser jogador topo! Viva ao Marega!
Kacal
Se quiseres ir por aí, então eu disse um disparate, se quiseres ir por algo lógico entenderás. Eu disse 6 ou 7 de talento, talvez um pouco mais. Há jogadores que têm 10 de talento (Ben Arfas e afins) mas no resto deixam a desejar, o próprio Quaresma não chegou a onde o seu talento podia tê-lo levado. No entanto, há jogadores que não têm tanto talento mas compensam no resto e chegam ao topo.
Ninja
Não podia estar em melhor sítio para ser tudo aquilo que pode ser.
Sarri vai limar este diamante em bruto como ninguém e espremer o que houver para espremer.
RodolfoTrindade
Mais uma época no Bolonha não lhe tinha feito mal nenhum.