2025 poderia muito bem ser o ano do renascimento do futebol escocês. Pela primeira vez em muitas décadas, o país mais a norte do Reino Unido voltou a colocar um jogador entre os nomeados para a Bola de Ouro: Scott McTominay, campeão e MVP da Série A, enquanto a seleção nacional sonha com o regresso a uma fase final de um Mundial – algo que persegue desde 1998. Há, por isso, uma esperança renovada de que o país volte a competir entre as grandes potências europeias.
Contudo, enquanto a bandeira nacional volta a ser erguida nos palcos internacionais, o desempenho dos clubes nas competições europeias continua desolador. Em agosto, o Celtic foi afastado pelo Kairat Almaty no playoff da Liga dos Campeões, e tanto Rangers como Aberdeen ocupam o último lugar na tabela da Liga Europa e da Liga Conferência, depois de mais uma jornada em que foram humilhados diante de Brann (0-3) e AEK Atenas (0-6). O balanço é tão negativo que a Escócia ocupa apenas o 34.º lugar no ranking de coeficientes da UEFA, se considerarmos apenas a presente temporada.
É precisamente neste cenário que Tony Bloom, proprietário do Brighton, procura mudar o rumo dos acontecimentos. O investidor britânico, também acionista minoritário do Union Saint-Gilloise e do Melbourne Victory, aplicou o seu método analítico e racional ao Heart of Midlothian, e em poucos meses, transformou o clube de Edimburgo na grande sensação da Premiership. Invicto ao fim de nove jornadas, com vitórias sobre Rangers e Celtic – que inclusive custou o lugar a Brendan Rodgers – o Hearts lidera o campeonato de forma isolada e simboliza uma nova forma de pensar o jogo: dados sim, dogmas não.
O mercado de transferências foi o primeiro sinal desta revolução. Com um investimento inferior a três milhões de euros, a estratégia passou por explorar mercados periféricos e ligas menos mediáticas, privilegiando perfis físicos e competitivos, facilmente adaptáveis ao contexto local. O exemplo mais simbólico é o do português Cláudio Braga, recrutado após se destacar na II divisão norueguesa e que hoje é um dos melhores marcadores da Premiership, a par do capitão Lawrence Shankland. Também Alexandros Kyziridis, extremo grego proveniente do Michalovce (Eslováquia), chegou a custo zero e soma já várias assistências, sendo um dos destaques do campeonato.
Bloom replicou em Edimburgo parte da metodologia que o tornou bem-sucedido no Union Saint-Gilloise, onde desafiou as principais forças da Bélgica. No Hearts, o uso de dados estatísticos serve de apoio à decisão, não como uma regra inflexível. Ao contrário de outros clubes, como o Chelsea, que privilegiam jogadores abaixo dos 23 anos, o Hearts montou um plantel com a 2.ª média de idades mais alta da liga, equilibrando experiência e margem de evolução. Exemplos disso são o guarda-redes Alexander Schwolow (33 anos) e o central Stuart Findlay (30), que se reencontrou com o treinador Derek McInnes.
Aos 54 anos, o ex-Kilmarnock soma mais de 500 partidas na primeira divisão, oferecendo a experiência e a estabilidade necessárias neste momento de transição. E os números confirmam uma identidade de jogo bem definida: o Hearts é a equipa com mais duelos aéreos ganhos por jogo (25,9) – com larga vantagem sobre o Dundee United (21) – e também a que mais desarmes efetua (19,8). Um perfil que traduz um futebol intenso, compacto e extremamente competitivo, fiel à matriz britânica, mas agora potenciado por método e organização.
Com 123 presenças na primeira divisão, o Hearts só é superado pelos rivais de Glasgow e partilha o registo de quatro títulos com o Hibernian e o Aberdeen – precisamente a última equipa fora do eixo Celtic-Rangers a erguer o troféu, quando Alex Ferguson os guiou ao bicampeonato em 1984/85. Quarenta anos depois, Bloom e companhia procuram repetir a façanha, recorrendo a uma fórmula que combina ciência, intuição e eficiência económica.
Num campeonato cada vez mais previsível, o clube de Edimburgo prova que a inteligência de recrutamento pode pesar tanto quanto o investimento. Se a instabilidade dos rivais de Glasgow se mantiver, o Hearts poderá não só reabrir a luta pelo título, mas também recolocar o futebol escocês no mapa europeu – algo que parecia impensável há um par de meses.
João Lains


18 Comentários
JJayy "Non Believer"
Celtic vai limpar novamente. Esqueçam isso
Mantorras
Excelente leitura.
Mais posts destes por favor.
Obrigado Joao
Tiago Silva
Obrigado pela partilha! Por acaso já conhecia a historia deste inicio de época do Hearts e o envolvimento dos dados e da ciência e do Bloom neste projeto. Acho que esses fatores são importantíssimos no scouting de jogadores para identificar os perfis tecnicos e táticos que se querem ver numa identidade da equipa. Mas para além disto é preciso haver um projeto, uma ideia de jogo para idealizar e uma forma de a concretizar. E isso foi identificado no Hearts, alinhado com a forma de jogar dentro do campeonato, um futebol à britânico e com os jogadores certos para o implementar.
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O que me impressiona nos projetos do Bloom é que as equipas não têm a mesma forma de jogar, têm identidades diferentes e bem identificadas no contexto onde estão a competir. E os modelos de dados que são executados pelas equipas de scouting estão perfeitamente alinhadas com essa identidade! Para além disso, parece-me que são identificados esses alvos mas depois são avaliados também os seus perfis psicológicos e as suas motivações para representarem o clube, o que é também muito importante!
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Outro fator que acho interessante é o facto de não contratarem apenas jovens jogadores! É verdade que é importante contratarem jogadores jovens, não só para terem estabilidade financeira, mas também porque são jogadores mais “moldáveis” e capazes de estarem mais anos ao alto nível e bem identificados com a identidade do clube. Mas é importante terem também jogadores mais experientes, que sabem como viver os jogos de futebol em campo e saibam orientar e capacitar a eles e aos colegas dentro dessa ideia de jogo.
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Isso foi tudo identificado e aplicado no Hearts com um orçamento baixo e um sucesso tremendo até agora! Bravo, para mais projetos assim!
Flavio Trindade
Excelente texto João.
Trazes-nos uma das histórias deste início de época.
Uma liga que não falamos muito, altamente polarizada nas figuras do Celtic e Rangers, sendo que ambos (mais o Rangers) estão a ter inícios de época terríveis, e o contraponto dessa situação, um projeto pensado e calculado, num clube que já teve história portuguesa na altura com Paulo Sérgio ao comando.
Outro ponto interessante que trazes para a discussão e que aqui sim, traz ou poderia trazer vários paralelismos com a situação em Portugal, e a questão do scouting, dos perfis, e de quem compras e como compras.
Lógico que há sempre quem queira trazer para a discussão aquilo que é irrelevante para a discussão que é a mudança dos quadros competitivos em Portugal, usando a competitividade ou falta dela da liga escocesa e dizendo o que pode acontecer caso se reduzam os clubes.
O ponto que realmente interessa, é o porquê de não existirem mais Hearts em Portugal.
Projetos pensados e criteriosos do ponto de vista de reforços e perfis de jogadores a contratar.
Os bons exemplos de Famalicão ou Arouca, com resultados práticos, não são seguidos pela maioria dos clubes em Portugal, grandes ou pequenos que têm zero projeto desportivo, e compram por atacado nas listagens dos empresários amigos.
Mas essa parte não interessa falar muito porque depois as queixas serão outras…
Maus uma vez parabéns por este insight super interessante.
Valentes Transmontanos
Adoro o Celtic, mas se o Hearts for campeão não dá para ficar chateado, pois já são muitos anos de Celtic/Rangers.
lipe
Muitos anos é um understatement. São 41 anos! É terrível para o campeonato.
Kacal
Sabia que o Hearts estava em 1⁰ lugar na Liga Escocesa e sabia que havia um avançado Português na equipa que estava a ser destaque na Liga como um dos melhores marcadores, inclusive li uma entrevista dele. Mas não sabia a história por trás do clube e o porquê deste sucesso estar a dar-se, neste artigo fica tudo explicado e explicito. Fantástico. Fiquei assim mais a par e é assim que se aprende! Muito Obrigado João pelo post e Parabéns!
Meu nome é Toni Sylva
Eh pá, isto é um artigo a sério! Obrigado pela partilha de conhecimento.
Neville Longbottom
Grande texto.
Obrigado
manel-ferreira
Mas calma que este é o campeonato que o pessoal do “reduzam o Tugão para 10-12 equipas já!!!” adora usar como exemplo. Um campeonato onde só existem dois clubes e mesmo estes são de luas.
De resto, boa sorte para o Hearts, equipa que escolhia muitas vezes nos meus anos gloriosos de FM. Foi também nesses anos (2005) que o Hearts foi a última equipa escocesa extra-Celtics e Rangers a chegar a um grupo europeu vinda de pré-eliminatórias (sem cair de outra competição).
São já 20 anos e ainda ninguém quebrou este fantástico recorde! Super-exemplo para Portugal, quem nos dera!!!
Tiago Silva
Não acho que deveríamos descer para 10/12 equipas mas acho que uma redução do numero de equipas é algo necessário para aumentar a competitividade do campeonato. Os franceses fizeram isso e parece-me ser o passo certo para nós também. Acho que isso iria também aumentar a competitividade na Segunda Liga havendo equipas que queiram lutar pelos primeiros lugares e chegar ao topo e querendo ter um futebol de ataque e incutido no seu ADN.
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Eu proponho uma redução para 16 equipas, 30 jornadas no total. Poderíamos repensar o formato competitivo mas não acho que seja uma coisa para já, teria que ser estudado. O mesmo para a Segunda Liga.
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Eu reformularia mais é a Taça da Liga. Acho que deveria ser um posto competitivo interessante e algo diferente do que tem sido feito. Eu colocaria esta competição a ser jogada sempre em Janeiro, 8 grupos de 4 equipas. Sendo que haveriam potes para beneficiar as várias equipas no seu desempenho no campeonato no ano passado:
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Pote 1: 8 primeiros da Primeira Liga
Pote 2: 6 seguintes da Primeira Liga mais equipas que subiram à Primeira Liga
Pote 3: 2 despromovidos da Primeira Liga e 6 seguintes da Segunda Liga
Pote 4: 6 últimos mais promovidos da Liga 3
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Seria um formato estilo Mundial: 3 jogos na fase de grupos, quartos, meias, finais. Sendo que a partir dos quartos poderia ser tudo jogado em casas neutras. Seriam 6 jogos no total e uma forma de sair um pouco da rotina. Seria um formato interessante que gostaria que fosse explorado e dava oportunidade a todos os clubes das principais divisões em participar na competição. O vencedor teria um lugar reservado na Liga Conferência.
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A Taça de Portugal teria o formato atual, mas com as meias finais apenas com 1 jogo. O vencedor teria lugar na Liga Europa.
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Ou seja não seriam mudanças drásticas nas principais competições mas uma Taça da Liga diferente do habitual. Seria este o melhor modelo para o nosso futebol de topo nacional na minha opinião, obviamente aberto a sugestões e novas ideias.
JJayy "Non Believer"
Este formato da taça da liga é uma aberração- Em Portugal só se pensa nas 4 equipas.
Sinceramente, acho deviam mudar para 12 equipas com play-off
Tiago Silva
Mas se calhar começavam-se a pensar mais nas restantes equipas. Acho incrivelmente injusto que apenas umas equipas tenham oportunidade de participar nesta competição. Não seriam muito jogos e acho que seria bastante entretido e aberto a surpresas.
Art Vandelay
A Escócia tem 5 milhões habitantes, impossível ter mais que 2 clubes grandes e competitivos internacionalmente… Portanto qual é o mesmo o teu ponto? Era suposto um País de 5 milhões ter um campeonato ao nível de Inglaterra? Fruto da sua pequena dimensão nunca será uma potência, e isso em nada invalida que a Liga Portuguesa tenha de reduzir o número de equipas para ajustar a oferta à procura e não teres os 3 grandes a passearem todos os fins de semana
manel-ferreira
Mas quem é que disse que a Escócia tinha de ser como Inglaterra? O meu ponto é que não há nada em que a Escócia possa servir de exemplo para Portugal. Nem a Escócia nem nenhum dos países com 10-12 clubes na sua liga.
Sobretudo quando o Rangers chegou à final da LE, era só conversa de “ai, vejam como temos de meter os olhos no futebol escocês”. Não, não temos. Em nada.
Aliás já que trazes a população para o barulho, porque é que um país com 10 milhões tem de ter o mesmo número de equipas de um país com 5 milhões?
Eu nem sou contra uma redução e até acho que o pós-Covid podia ter sido um bom pretexto para reduzir para 16 (i.e., não fez muito sentido que Nacional e Farense tenham subido em 2020, quando a 2a Liga nem chegou ao fim).
Acho, sim, que 10-12 clubes é um exagero parvo e que ia matar grande parte do futebol profissional em Portugal (que, relembremos, é um país de futebol e não de desportos de Inverno), mas pronto, o que interessa é ver tudo do ponto de vista dos grandes e o resto que vá pastar.
E repito que não há nenhuma liga com esses números que possa servir de exemplo para Portugal. Aliás, a tendência na Europa até tem sido aumentar de 10 para 12 e 12 para 14. Mas Portugal tem que reduzir de 18 para 10 porque… sim.
Super Hans
Refrescante como um fino acabado de tirar numa tarde de agosto! Obrigado pela partilha.
MuchoG
Super interessante, já tinha ouvido uns pozinhos do que o Hearts está a fazer, com um português em destaque, mas nada mais que isso. Parabéns ao João, uma lufada de ar fresco depois do péssimo artigo de opinião do dia de ontem.
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Nunca vou ser fã destas redes de clubes ligados entre si, do multi club ownership, acho que o que Chelsea e o City fazem é repugnante para o desporto, se bem que neste caso o Tony Bloom é dono do Brighton e “apenas” investidor minoritário do Hearts, não parece que objetivo seja eventualmente alimentar o clube da Premier League.
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Uma abordagem baseada nos dados estatísticos mas também sem descurar o contexto onde o clube se insere, não encheram a equipa de juventude mas de experiencia e perfis que fazem sentido para o campeonato escocês. Não me vou alongar porque não tem nada a ver com este assunto, mas o meu Benfica podia aprender muito com este metodologia. Tem mais que recursos para o fazer.
anjos
Moneyball v.2.0 basicamente.