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Do Delta Center até ao Lusail

Num Mundial que pareceu ter o guião perfeito para que a Argentina e Leo Messi, depois de décadas de espera, erguessem a dourada taça do Campeonato do Mundo, uma das imagens mais insólitas da final é a de um adepto, em pleno Lusail, no meio da hinchada argentina com uma camisola amarela dos Utah Jazz, equipa que milita na NBA. Algo profundamente desinteressante e provavelmente olvidado em 10 segundos por 99.9% das pessoas que terão visto a imagem, mas que, no entanto, não podia ser a fotografia mais perfeita para culminar o que se assistiu durante um mês no Catar.

Voltemos atrás no tempo.

1998. Salt Lake City, Utah. Delta Center. Finais da NBA. Jogo 6. Jazz contra Bulls.

Uma dúzia de palavras que imediatamente trará imagens vividas a quem seguia o melhor basquetebol do mundo. A última dança. O mote da equipa dos Chicago Bulls comandados por Phil Jackson em 1997/98 e, desde então, o desígnio do fabuloso documentário que trouxe as imagens de sua alteza Michael Jeffrey Jordan e as suas equipas a uma nova geração.

Bill Simmons, antigo jornalista da ESPN e fundador do The Ringer, descreve esse icónico jogo 6 das Finais de 1998 como “o melhor jogo de basquetebol que alguém já jogou individualmente”. É uma conclusão que não será a coisa mais arrebatadora que se possa ler, mas o ponto de interesse é o raciocínio que o leva a esse destino. “Não o digo de um ponto de vista técnico ou estatístico”, acrescenta, dizendo que já viu centenas de jogos onde jogadores, MJ incluído, jogaram melhor.

Bill Simmons tem sido ao longo da carreira controverso, mas este é um ponto com o qual estou completamente a favor. Aliás, diria que é um dos momentos desportivos mais envolventes das últimas décadas. É o último jogo da carreira de Jordan (apelo ao esquecimento coletivo das duas épocas nos Wizards por um momento), que por esta altura tem 35 anos de idade, vem de 3 épocas a jogar todos os jogos possíveis (que resultará neste jogo ser a partida número 304 em 36 meses) e tem, provavelmente, a sua pior equipa desde os difíceis anos 80. Situação essa que se agrava por Scottie Pippen, o Robin para o Batman que era Jordan, lesionar-se nos primeiros minutos e pouco faz para além de corpo presente, tendo manifestas dificuldades para correr. Rodman era uma sombra do que tinha sido e o resto do elenco (como se viu pelas carreiras após esta época) estava em claro fim de linha.

São 48 minutos hipnotizantes. E não o são por tamanha superioridade de Jordan perante Malone e Stockton, estrelas maiores do conjunto de Jerry Sloan. MJ, na verdade, falha 19 lançamentos. E, como diz Bill Simmons, é um jogo absolutamente incrível.

Porquê? Porque não há (quase nada) no tanque. Não domina por superioridade física, porque já não consegue. Um dos melhores atletas de sempre já não consegue saltar por cima dos defensores e afundar. Um dos melhores jogadores ofensivos da história já não consegue iniciar as jogadas todas. O “Air Jordan” Já não está eternamente a pairar no ar. O 23 já não é o mais rápido ou mais forte e já não tem pernas na segunda parte. Dado que fica bem patente no facto de quase todos os seus lançamentos baterem na frente do aro, algo que denota a falta de suspensão que tem quando salta e se ergue para lançar a bola.

E, apesar de tudo isto, é uma masterclass de Jordan, que vence o jogo praticamente sozinho. O público, com as suas camisolas dos Utah Jazz assiste no Delta Center, a um dos melhores desportistas da história a arrancar a ferros (pois já não há outra maneira) uma das vitórias mais épicas da NBA. Vitória essa que já não tem o corpo como principal responsável, mas sim a mente. A favorita de Jordan, como refletiu no documentário Netflix, precisamente por isso. Uma aula sobre dominar o pináculo do seu desporto quando o auge físico já passou e essa vantagem desaparece. Uma aula sobre conservação de energia e sobre “know-how” de jogo. O que fazer, quando fazer, a que altura fazer. Já não há pujança no domínio. Mas, de forma incrível, continua a haver domínio.

41.9 segundos. Bulls a perder por 3. Jordan cesto. Bulls a perder por 1. Posse para os Jazz. Bola para Malone. Jordan rouba a bola. Jordan cesto. 87-86. Bulls vencem e sagram-se campeões pela última vez até à data.

Regressemos, então, ao Catar.

Messi chega com 35 anos, tal como Jordan. Com milhares de jogos nas pernas, tal como Jordan. Já não existe a pujança das alturas de Guardiola ou Luis Enrique. Não é possível driblar 5 jogadores mais de meia dúzia de vezes por jogo. Já não é possível fazer o mínimo de pressão. Problemas e mais problemas para um alien que se vê cada vez mais a aproximar-se do comum mortal. E tal como Jordan contra os Jazz, a nível ofensivo, pouca ajuda há. Tal como não houve Pippen, não há Riquelme, não há Aimar, não há quase Di Maria e não há Agüero ou Tévez.

Mas há Messi. Não há o mesmo, mas há o que aparenta ser suficiente. A explosão desapareceu, mas o cérebro nunca esteve tão apurado e nunca teve tanta consciência da sua mortalidade futebolística, doseando todas as gotas de energia para o momento de decidir o encontro.

Guarda-se essa energia para fazer 15 minutos finais de arrancadas, dribles e passes deslumbrantes contra a Austrália onde só não arruma com o jogo pelo espírito de Pipita ter encarnado em El Toro (e bem que se manteve lá…).

Guarda-se todo esse QI e conhecimento acumulado de situações, posicionamentos e desmarcações alojados no hipocampo para ser a única pessoa à face da terra capaz de descobrir aquela corrida de Montiel e deixar a redondinha no seu pé contra os Países Baixos.

Guarda-se essa energia para brincar com Gvardiol, o melhor central do torneio, com aquela réstia de explosão e matar a meia-final.

Guarda-se essa energia para fazer trabalho defensivo na final que não se tinha feito nos últimos largos anos.

Michael Jordan de 1991 ou Lionel Messi em 2012 é algo quase inigualável. Mágico, no domínio total do jogo e na plenitude física para traduzir tudo o que a mente idealiza em ações que nos maravilham. Contudo, poucas coisas me terão seduzido mais que ver os dois melhores de sempre, na respetiva modalidade, a dominar aos 35 na sua última dança. Quando o corpo quebra e já não responde da maneira que respondeu durante toda a vida profissional. Há algo de belo na ideia de o fator dominante dessa supremacia não surgir desse vigor e exuberância que advém de ser mais rápido ou mais forte. Essa ajuda já não existe e o caminho tem de ser outro. E tal como Michael em 1998, Leo achou esse caminho em 2022 para conseguir competir ao mais alto nível com a influência de sempre. Quis o destino que se encontrasse, no momento decisivo, em competição direta com Mbappé, alguém que é a imagem viva do auge físico, da velocidade e de domínio na flor da idade.

O músculo principal de ambas as conquistas é o cérebro e, tanto numa como noutra circunstância, é algo que foi plenamente visível. A imagem de Messi com as mãos nos joelhos por diversas vezes ou a respirar ofegante no túnel depois de mais um jogo, bem como a de Jordan sem impulsão e a cair de exaustão no banco de suplentes a cada timeout é algo que, até então, seria quase impensável para figuras que se apresentam quase como super-heróis. Desceram ao patamar dos humanos, com imperfeições e fissuras e, mesmo sendo terráqueos, a vitória foi deles.

24 anos – por sinal a idade de Mbappé, neste belo mundo de coincidências – separam o jogo 6 no Delta Center da final no Lusail e, uma vez mais, um fã dos Utah Jazz com a sua radiante camisola amarela voltou a estar presente para testemunhar um show de um imortal que encarava de frente a sua mortalidade atlética e saiu a vencer para cimentar o seu legado como melhor de todos os tempos.

Visão do Leitor – Miguel Santos

4 Comentários

  • Veridis Quo
    Posted Fevereiro 7, 2023 at 11:14 pm
  • troza
    Posted Fevereiro 7, 2023 at 9:16 pm

    O paralelo está interessante.

    Concordo com algumas semelhanças: Jordan é apanhado a dormir na defesa uma ou outra vez (e mais escondido que o normal, até comparado com o resto dos playoffs desse ano) gerindo muito a energia aí. No ataque acho que não afunda uma única vez nesse jogo. Messi também anda mais escondido aqui e ali (na defesa), menos vistoso e ambos mostram que nunca foi apenas vantagens físicas que tiveram a carreira toda, mas que sempre trabalharam nos fundamentos do seu desporto e que, de certa forma, são mestres nisso.

    Mas eu vejo algumas diferenças… até diria que a exibição do Jordan fez lembrar mais a Mbappé na parte final do jogo… bem ou mal, ele foi persistente a tentar levar os Bulls para a frente. Não quero dizer que o Messi não se notasse no ataque da Argentina mas era o Jordan a levar a sua equipa para a frente. Pode não ter sido pela força fisica mas ainda tinha influência aí.

    E depois é o final de sonho do jogo. Messi acaba por estar nos 3 golos e marca o seu penalti. Muito bom! Mas o final do jogo 6 é digno de hollywood. Mais ainda do que ganhar um jogo nos penaltis. Se aquela bola do Messi no final dos 90 minutos tivesse entrado… aí dava o braço a torcer… mas não consigo encontrar, a nível individual, melhor forma de fechar um jogo do título… só se fosse o Jordan a perturbar o último lançamento do Stockton. Mas aqui, admito, não consigo ser totalmente imparcial ;) Mas foi o que impediu o que é mais próximo dos penaltis no basket (jogo 7).

    Só uma curiosidade… é verdade que faltou o tal jovem de 24 anos do outro lado de Jordan. Não havia aquela estrela em ascensão. Bem por culpa daqueles Jazz eliminaram, nesse ano, os Spurs com Tim Duncan e os Lakers com Shaq e um jovem chamado Kobe. E, com isso, se calhar impediram que o paralelismo fosse ainda mais próximo.

  • Borsalino
    Posted Fevereiro 7, 2023 at 8:30 pm

    Que texto! Parabéns Miguel Santos!

  • Daniel Alves
    Posted Janeiro 8, 2023 at 1:12 am

    Que texto espectacular. Muito bom!

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