Espanha está recheada de clubes históricos. Apesar de uma franja destes marcar presença na La Liga, outros estão “perdidos” pelas divisões inferiores. Como em todos os países, há zonas com maior desenvolvimento que outras, aparecendo mais equipas nesses lugares. Num país dividido por Comunidades Autónomas, muitas nem estão representadas nos dois principais escalões, uma situação que relembra o nosso próprio território.
A comunidade de Aragão é uma das mais importantes na história dos nossos vizinhos, tendo como principal cidade a sua capital, Saragoça. No que ao futebol diz respeito, a equipa aragonesa que mais recentemente esteve na La Liga foi o Sociedad Deportiva Huesca, em 2018/2019 e 2020/2021. Apesar dos bons momentos vividos pelos oscenses, a instituição com mais representação é o Real Zaragoza SAD. Conta com seis Copas del Rey e uma Taça das Taças (frente ao Arsenal, em 1994/95), além de ter estado presente por cinquenta e uma vezes no máximo escalão do futebol castelhano. Estando na quinta maior cidade do país, com 67 mil habitantes, estes números são expectáveis. Porém, o Zaragoza irá fazer nove anos de estadia na La Liga SmartBank (chegou ainda na época em que era designada por Liga Adelante), não sendo uma equipa que vem crescendo paulatinamente para alcançar um regresso, mostrando bastante oscilação. Depois do último lugar da La Liga em 2012/2013, somente por três vezes alcançaram os lugares de play-off, assistindo a subidas de equipas com menos posses. Afinal o que se tem passado com o clube?
Nos últimos cinco anos, as mudanças no comando técnico têm sido mais que muitas, com sete treinadores diferentes. Natxo González, foi o nome que conseguiu o melhor resultado: um quarto lugar. Ainda assim, nenhum dos líderes da equipa técnica (Natxo González, Imanol Iadiakez, Lucas Alcaraz, Victor Fernández, Baraja, Iván Martínez e Juan Ignacio Martínez) possui um histórico fenomenal ou potencial de crescimento. Foram escolhas de técnicos que não estão habituados a ocupar lugares com objetivos audaciosos, por isso as classificações obtidas foram medianas, mesmo com boa matéria prima.
2021/2022 acabou com um décimo segundo lugar na tabela, longe dos de acesso ao play-off. Em termos de valor de mercado (25,4 M de euros), ocuparam a nona posição, à frente de equipas que realizaram um campeonato superior como Tenerife (14º), Las Palmas (11º), Oviedo (12º) ou Ponferradina (15º). A média de valor por jogador foi de 1,06 M de euros. Os três atletas mais valiosos, curiosamente são da formação: Alejandro Francés- defesa central (5M), Francho- médio (3M) e Iván Azón- Ponta de lança (2,8M). Embora estes sejam nomes interessantes, falta alguma qualidade ao plantel, que conta com elementos portugueses ou que já passaram por Portugal, como Jaume Grau, Alberto Zapater, Radosav Petrovic, Eugeni ou Jair (o médio ex-Tondela é o nome com mais qualidade). O futebol apresentado durante a temporada foi fraco, considerado de meio de tabela, o que permitiu aos novos talentos ganharem destaque no meio de tanta medianidade.
Na verdade, se formos a analisar com mais algum rigor, verificamos que poucos nomes tinham lugar na La Liga, possivelmente só os três melhor avaliados em termos de valor. Já na época passada, o clube não conseguiu nenhuma transferência para clubes primodivisionários. O jornal Heraldo, elabora inclusive uma lista de jogadores que conseguiram esse fenómeno em anos anteriores: 2020- Guti por 5M, Pombo por 1,2M; 2019- Diogo Verdasca por 300m, Alberto Soro por 2,5 M, Pepe Biel por 5M; 2016- Diego Rico por 1M, 2015- Jesus Vallejo por 5M. Nenhum destes jogadores se tornou um destaque após as suas transferências, no entanto renderam um bom capital para os cofres do Zaragoza, sendo que em alguns casos, o valor de mercado era bem inferior ao que foi pago. Praticamente todos estes jogadores, eram oriundos da formação, o que mostra que existe qualidade nas camadas jovens.
2022 pode representar o ano da mudança para os Blanquillos. Jorge Mas, bilionário americano e acionista maioritário da MasTec (empresa de construção) assumiu a presidência em Maio. Sucedeu a Christian Lapetra, que estava no cargo desde 2014, completando todo o seu período presidencial fora da La Liga. Mas passou a ter também 91% das ações da SAD, querendo triplicar o capital social (situa-se em 6,3M de euros) e abater o grande passivo, na casa dos 67M de euros.
Para o crescimento o clube ocorrer, algumas mudanças estão sendo feitas, havendo a cautela de cumprir os requisitos de teto salarial que tem de ser aprovado pela Liga Nacional de Fútbol Profesional, comandada por Javier Tebas (e que tantos problemas já deu ao FC Barcelona). Um novo diretor desportivo foi apresentado, Raul Sanllehi. Conta com uma vasta presença, com passagens no Barcelona e Arsenal e tem como principal missão a de reorganizar o plantel. O seu primeiro desafio está praticamente concluído: renovar com Francés, Francho e Azón que possuíam cláusulas de rescisão com valores fáceis de atingir. O médio e o avançado já estão comprometidos. O seguinte é uma reformulação. Há elementos que estiveram longe do que se esperava, com Sabin Merino à cabeça, o que leva a que elementos estejam com a sua situação indefinida (destaque para Carlos Vigaray que apesar de ser um bom lateral direito, esteve lesionado toda a temporada). A pasta dos retornados de empréstimos também deverá ser alvo de escrutínio, já que somente Larrazabal (alinhou no Amorebieta e pode fazer toda a faixa direita) mereceria uma aposta mais firme.
Juan Carlos Carcedo foi apresentado como o timoneiro para 2022/2023. Fez parte da equipa técnica de Unay Emery por diversas temporadas (jogaram juntos no Leganés) e em 2020/21 assumiu o UD Ibiza-Eivissa, conseguindo subir à Liga SmartBank, vencendo o UCAM Murcia. Na época seguinte não conseguiu dar continuidade ao trabalho de excelência, saindo após vinte e quatro jogos, sucedido por Paco Jémez. Carcedo tem potencial como treinador e bastante margem de crescimento, encaixando no projeto do Zaragoza para o futuro. Na sua apresentação afirmou que quer utilizar a formação como base (o Real Zaragoza B ficou em primeiro lugar na Tercera RFEF, correspondente à quinta divisão do país e os juniores na quarta posição da División de Honor Juvenil- Grupo 3), acrescentando alguns elementos mais experientes. Como existe capacidade financeira para um projeto a médio /longo prazo, este é o modelo correto. Um investimento forte em certos jogadores de qualidade, mas com mais idade e conhecimento, que mais tarde acabará por ser compensado pela política de aposta nos jovens. A contratação de jogadores que conhecem bem a Liga Smartbank e outros com experiência em primeiras divisões (La Liga, ou quem sabe até Liga Portuguesa), pode levar a que a instituição seja um dos candidatos aos play-offs de Junho de 2023.
Com uma Ciudad Deportiva com qualidade e um estádio com capacidade para mais de 34500 pessoas (La Romareda), o Zaragoza apresenta infraestruturas para figurar no representante espanhol das Big 5. Com um projeto audacioso e consciente, Jorge Mas, Raul Sanllehi e Juan Carlos Carcedo terão a missão de formar uma estrutura (técnica, scouting, etc.) capaz de alcançar os objetivos propostos, através do caminho apresentado e divulgado.
Visão do Leitor: Ricardo Lopes


9 Comentários
Daniel Alves
Não fazia ideia que era aqui que andava o Zaragoza. Realmente desde 2013 já lá vão quase 10 anos for da La Liga. Ainda me lembro quando pegava neles no FM2008 e eles tinham Aayala, Carlos Diogo, Aimar, D´Alessandro, Zapater, Gabi, Matuzalem ou Diego Milito. Com algumas contratações e ficava uma bela equipa para lutar pelo título.
Já agora, o Zapater ainda joga?? Já deve ter 38 ou perto disso, certo?
Ricardo Lopes
Grande equipa essa de 2008. Zapater fez ontem 37 anos e tem a sua continuidade garantida para 2022/2023. É um dos jogadores com mais temporadas no La Romareda na história do Zaragoza. Uma pena não se ter destacado por cá, já que tinha algumas expectativas, mas por lá é um jogador importante.
Estigarribia
Ricardo,
O Zapater ainda passou pelo Sporting em 2010-2011 e o melhor jogo que vi dele no Sporting foi na Madeira onde marcou dois golos ao Marítimo.
Saudações Leoninas
Ricardo Lopes
Ele não é mau jogador, mas naquela equipa não era fácil destacar-se, mesmo jogando num setor que era dos melhores da equipa (ataque e defesa eram piores, na minha opinião). Ainda assim teve uma carreira com alguma qualidade, atuando na La Liga, Serie A e Liga Russa.
TiagoLopes
667 mil habitantes.
Ricardo Lopes
Como é óbvio. Erro meu, apesar de ter visto a informação corretamente, não a coloquei corretamente no texto e na verificação do mesmo, voltei a não notá-lo.
LANDERS
Bom texto. Deu uma vontade de jogar com esta equipa no FM ?
Ricardo Lopes
A Liga Smartbank tem muitas equipas que dá muita vontade de treinar, porque há qualidade nos jogadores e bastantes clubes históricos. A somar a isto, o Zaragoza ainda possui uma boa formação (claro que no FM 22 ainda não existe a realidade de Jorge Mas nem Sanllehi, mas sim a de Miguel Torrecilla). Sem dúvida que é aliciante assumir o maior clube de Aragão e tentar a subida na primeira época.
BrunoAlves16
Grande chapelada do Nayim ao Seaman na final da Taça das Taças. Um dos melhores golos da história das finais europeias.