Na sequência da prestação da Seleção Nacional no Mundial do Brasil e a consequente saída do Selecionador depois da derrota frente à Albânia, voltou-se a falar/escrever sobre Formação. O assunto pode ser abordado sob várias perspetivas: as oportunidades dos jovens jogadores para jogar na 1ª liga, os quadros competitivos, a formação do treinador de jovens e, entre outros pontos, o Treino.
É meu objetivo aprofundar algumas considerações sobre o Treino, pois entendo que é pela qualidade do treino que o treinador, em especial o treinador Formador, se deve distinguir, e deixar de parte o ganhar, o perder, o jogou o A em vez do B, o jogar em 4x3x3 ou em 4x4x2. Para o efeito, irei abordar dois pontos: “O Táctico e a formação Táctica” e, num próximo artigo, “A pressão de Ganhar. Avaliar processo ou resultado?”
O Táctico e a formação Táctica
Independentemente da natureza do seu treino, todo o treinador tem como objetivo ensinar o jogo e desenvolver competências nos seus jogadores para que estes tenham capacidade de jogar. Em geral, o que todos ambicionamos é desenvolver um jogador que faça parte de uma organização (equipa) e que seja capaz de decidir (táctico) e de agir (técnico). O Táctico, intimamente ligado ao conhecimento, não é dissociável do pensamento, um pensamento táctico, que acompanha o acto de jogar. A melhor acção deve ser acompanhada pela melhor solução, pois, se assim não for, de nada vale ter o melhor repertório motor e manifestar a melhor execução se as decisões não são as mais convenientes. Portanto, quando devemos iniciar a “formação Táctica”? Devemos deixar esse desenvolvimento à mercê da espontaneidade do jogo e apenas o iniciar quando se dominam as ações técnicas na plenitude ou começar de imediato?
Para ajudar a pensar sobre o assunto, recuemos à nossa infância e ao futebol de rua. É verdade que passávamos horas a imitar o drible, o passe, o remate do nosso ídolo (técnica), íamos aprendendo pela vivência prática, e quantas vezes, quem jogava connosco, nos passou conhecimento sobre o jogo no momento de passar, desmarcar, não sair à queima (táctico)? E no momento de escolher os jogadores, para além do “gordo que ia normalmente para a baliza”, quantas vezes preferíamos jogar com quem passava a bola, ao invés do “caixeiro”, que não passava a bola a ninguém, ou de quem corria para a defesa quando perdíamos a bola, ao invés do “mamujeiro”, que não defendia (organização)? Os tempos mudaram, uma criança hoje não dispõe das mesmas oportunidades de jogar na rua. Passou a jogar nas escolas, nas academias, com um professor/treinador que deve ter como finalidade proporcionar a “técnica” o “táctico” e a “organização” da rua. Se o futebol de rua, à sua dimensão, contém táctico e organização porque é que existe um enorme desacordo quanto à sua abordagem na formação.
Acredito que, se por um lado os conceitos são erradamente aplicados, por outro, a incapacidade de quem treina para adequar os conteúdos e a sua complexidade ao contexto coletivo e ao desenvolvimento natural do atleta tem sido decisivas para não haver concordância. Se o termo “táctico” é muitas vezes empregue de forma redutora quando se fala em sistema táctico, por consequência, o treino táctico é geralmente entendido como a castração do pensamento, a robotização dos jogadores e a formatação das equipas. É importante perceber que o Táctico não é apenas “campo pequeno”, basculações e pressão, é muito mais que isso. O Táctico é pensar. O Táctico é tomar decisões. O Táctico é jogar. Passar a bola para a frente, para o lado ou para trás não é apenas uma ação técnica, mas sim eminentemente Táctica… Passar ou driblar exige, antes da ação, a decisão, que é Táctico. A palavra “organização” passou também a ser vulgarmente utilizada e o uso da expressão “uma equipa é organizada” é feito com frequência para caracterizar equipas que fazem do seu momento defensivo o principal pilar do seu jogo. Organização implica que, num determinado momento do jogo, não apenas sem bola mas também com bola, a equipa pense da mesma maneira (Táctico), ou que os jogadores tomem as melhores decisões (Táctico). Se é um facto que se utilizam alguns conceitos de forma redutora, também é verdade que alguns treinadores não têm a capacidade de se adaptar ao contexto e ao escalão, e treinam uma equipa de Iniciados, Juvenis ou Juniores à semelhança de uma equipa de Seniores, em que a totalidade de treino direcionado para a evolução do modelo de jogo e da estratégia para o jogo do fim de semana é quase total. É um desacerto, por um lado, ter uma abordagem exagerada sobre uma ideia de jogo, muitas vezes desconcertada, com uma enorme complexidade desajustada da idade dos jogadores, e por outro, não desenvolver competências individuais nos jogadores – entenda-se individual com reportório motor para o Jogar. Os vários conteúdos devem ser transmitidos de forma progressiva, em todos os escalões, de acordo com a idade biológica dos atletas e sua capacidade de aprendizagem, para que estes tenham uma evolução de acordo com o seu potencial. Outro equívoco é o facto de o treinador, ao indicar o “princípio“ para o caminho, ter urgência em que decisão do jogador no campo seja a sua e, sempre que a decisão não coincide, pára o treino, interrompe a interpretação do jogador e formata o jogador apenas à sua decisão e não o deixa descobrir outro caminho.
Partilhando um caso prático vivido na última época no Al Ahli, tento dar a minha opinião sobre a questão de quando devemos iniciar a formação táctica. Uma das grandes preocupações do Carlos Carvalhal, Coordenador da Academia do Al Ahli, em simultâneo com a implementação de uma metodologia de treino e a definição um modelo de jogo transversal desde os sub-13 até aos sub-21 com complexidades diferentes, foi também definir os conteúdos a desenvolver em todos os escalões de acordo com a idade biológica dos atletas e sua capacidade de aprendizagem. Como exemplo, entendemos que a partir dos 13 anos (aos doze anos jogam 8 contra 8 e aos 13 futebol de 11), e tendo os princípios táctico/técnicos de base compreendidos, poderíamos aprofundar o treino do quarteto defensivo, quer em organização ofensiva, quer na sua organização defensiva. Nos primeiros meses foram várias as vezes que, após concluído o treino, Carlos Carvalhal, eu, João Mário, Alberto Cachada e posteriormente Jhony Conceição, nos juntávamos num dos campos de treino e púnhamos em prática as nossas ideias, verificávamos se os exercícios propostos seriam adequados ao contexto, perspectivávamos ideias de progressão sobre os mesmos e definíamos princípios de interacção. Num desses dias, concluído o nosso trabalho, acompanhado pelo João Mário, fui ver o treino da Equipa Principal que ainda treinava no estádio. O treino estava a terminar mas ainda tivemos tempo de ver o Fábio Canavarro, um dos adjuntos, a treinar a organização defensiva da linha de 4 defesas. Tão simples quando isto: Fábio conduzia uma bola e os jogadores movimentavam-se e organizavam-se em função da mesma. O treino entretanto terminou, mas Fábio continuou, desta vez apenas com um defesa central que tinha sido acabado de ser contratado. Às indicações do treinador o jogador movimentava-se e era frequentemente interrompido para corrigir a posição dos seus apoios e da sua corrida para trás. Terminado o treino, e apercebendo-se da minha presença junto à linha lateral, aproximou-se e começou a falar de como o defesa se deve deslocar, posicionar, etc. Tivemos também oportunidade de lhe dizer que a nossa ideia, a ideia “portuguesa” não era muito diferente da “italiana” neste aspeto. Dessa conversa, com o Campeão do Mundo e Bola de Ouro desse ano, um dos melhores defesas de sempre, fica a confissão de que a partir dos 10, 11 anos o seu treinador passava horas a treinar a “corrida para a frente”, a “corrida de costas”, os deslocamentos laterais, o posicionamento dos apoios, tanto em termos individuais, como em conjunto com os outros defesas – o Táctico aliado ao Técnico, desde o início.
Defendo também que Formação Táctica do jogo deve começar desde o início e adaptar-se sempre em conformidade com a idade biológica do jovem, o nível do atleta e a sua capacidade de aprendizagem, de forma a que tenham uma evolução de acordo com o seu potencial.
O problema é que o que é táctico para uns não é o mesmo para outros…
Bruno Lage, treinador de futebol



0 Comentários
Manuel de Lima e Silva
Dar resposta a uma visão formadora é muito importante sem escamotear os princípios que são a essência do futebol que é um jogo colectivo que visa o recreio a vitória com base na criação de campeões sem recorrer ao êxito sem qualquer principio para atingir o produto final que é acima de tudo o dinheiro!??Como tal à que conhecer que para o jogador se sentir realizado tem que dominar a técnica, o físico e a táctica depois destes princípios, então entrar nas outras que fazem o jovem se considerar jogador!!?São dominar o esférico de forma de exteriorizar o gesto futebolístico que são o dribling,a finta a recepção,o passe, o remate e todos os gestos de colocação de bola em jogo com a mão ou não!?? Assim como lances de bola parada para obtenção do êxito final:Saudações desportivas
Pedritxo
este post e qualquer coisa, magnifico e aprende-se muito.
Parabens
Pedro Santos
Isto é uma regra comum a todos os desportos colectivos… Mais importante do que fazer o atleta fazer o que treinador pensa é fazer o atleta pensar e fazer o que é mais correcto. Ser o atleta a tomar decisões e ele perceber "O PORQUÊ" de tomar aquela decisão e não outra (não fazer algo porque me ensinaram assim mas porque faz sentido e é o mais correcto) é um trabalho fundamental que qualquer treinador de formação em qualquer desporto colectivo deve ter.
Não estou dentro do mundo do futebol em Portugal, sempre fui apenas mais um adepto apaixonado pelo futebol e que apenas jogou "futebol de rua"… Mas sou treinador de voleibol e este trabalho é algo que tento fazer em miúdos de qualquer idade, porque por muito básico que o jogo seja há sempre algo que eles, os atletas, têm de decidir em vez de fazer algo porque está mecanizado.´
Cumprimentos e Parabéns por um grande texto.
Pedro Barata
Excelente post, muitos parabéns!
Filipe Leite
Termos "Mão de Obra" temos uma das melhores do mundo… Trabalhar é que falhamos… outras "canteras" são melhores porque trabalham mais e melhor que nos… Toda a gente ainda fala de formação… Até hoje acho que ainda não temos formação… Há tanta coisa a mudar… tanta coisas que se pode evoluir… Como já alguém disse por aqui é ir ao fundo da questão… por autarquias, clubes e escolas a trabalhar entre si… planear em conjuntos, planos de treino, relatórios, evoluções de jogadores conforme grau de capacidade de cada um… Alguém que possa observar um simples jogo de amigos num desses complexos desportivos e poder indica-lo a quem se dirigir para ser melhor aproveita-lo… Criar novos modelos de formação, mais competitividade, maior expansão das equipas…
I.C.E.
Recomendo vivamente a leitura deste post ao Quintero e ao Kelvin
Bruno Fonseca
Muito bom post, sempre a melhorar VM.
estrela
Excelente posto. Como aqui já foi dito massa critica temos, devemos continuar a trabalhar cada vez mais os treinadores q são um dos pontos essenciais na melhoria das nossas camadas jovens e na alteração do paradigma jogador jovem lançado nos seniores cada vez mais cedo sem receio, caso a qualidade o permita.
Kafka I
Isto é outro nível, simplesmente genial este texto…parabéns Bruno Lage e fico a espera da continuação
PS: Ah e senão for pedir muito, que voltasses ao Benfica, em especial para o Benfica B, acho que pelo teu historial que tiveste no Benfica, tinhas sido o treinador ideal para treinar a equipa B e teria sido a sequência natural das coisas, mas pronto isso já são outras histórias que não vêm aqui para o caso
I.C.E.
Muito bom post, isto é qualidade.
Anónimo
Texo 5* .
Os meus parabéns pela "Contratação". isto é o futebol mostrado por um outro ponto de vista.
João Roque
Rafa Rafael
Muitos Parabéns por este 'enorme' texto.
Miguel'zinho
Excelente texto, parabéns!
SL
Pedro
Este texto é uma Biblia. Excelente conteúdo.
Trust3r
Delicioso. Isto é outro nível, bastante informativo. Parabéns.
Anónimo
E quando se pensava que a qualidadel do blog não podia aumentar… Surgem posts destes!
Hermes Pires
João Dias
Bom post.
É inegável que Portugal é das maiores fábricas de talento do mundo.
Não é normal um país com 10 milhões de habitantes formar tanta qualidade…
Ponto 1. Somos vice-campeões da Europa de sub-19 e somos a primeira seleção europeia DE SEMPRE a participar em 3 mundiais de sub-20 seguidos.
Ponto 2. Os sub-21 têm todas as condições de se apurarem para o Euro 2015 e foram a única seleço da Europa a somar só vitórias na fase de qualificação.
Ponto 3. Segundo o ranking somos a melhor cantera da Europa ( coeficiente).
Há talento. Ponto.
Pode-se discutir muitos métodos de melhoramento e de inculcação.
O que tem que se discutir é sobre o porquê de os nossos jovens não terem espaço nos 3 grandes para jogar.
E atacar esse problema.
Pedro Chambel
Kafka concordo que a Alemanha seja neste momento a melhor formação do mundo, depois do euro 2000 fizeram uma reformulação começaram a apostar na prata da casa, a dar condições para os miudos evoluírem, hoje a selecção e os clubes estão a tirar proveito disso.
é o meu futebol preferido é o alemão e tudo que o engloba.
Stalley
o João Dias escreveu "…é das melhores maiores fábricas de talento do Mundo", não ecreveu é melhor ou a maior, eu concordo com o que o João disse, de facto Portugal com 10 milhões de habitantes consegue ter vários jovens com potencial ao longo dos anos, agora se são aproveitados ou não ai é outra história.
Bruno Fonseca
Kafka também para mim a cantera alemã é a melhor, é impressionante a qualidade e organização da formação alemã.
Kafka I
Pedro Santos,
E nem falaste aí naquela que hoje em dia é (na minha opinião) a melhor de todas, a Alemanha
Kafka I
Inteiramente de acordo Daniel Martins
Pedro Santos
Se calhar na relação "qualidade/numero de atletas total no país" não deve andar assim tão longe do topo. Não sei se os dados ainda são actuaiss mas há uns anos a Holanda tinha 10 vezes mais atletas que Portugal. Mas claro, Portugal dificilmente é a melhor cantera da Europa quando existe uma Espanha, França e mais recentemente Bélgica, por exemplo.
Trust3r
Se quiseste comparar o talento existente com a população, sim não andará muito longe da verdade. Agora melhor cantera, não.
Daniel Martins
João Dias, o problema é que ao contrário do que muitos pensam, a formação em Portugal não é tão boa assim. E a qualidade da formação não tem a ver com o potencial dos jovens, mas sim com os treinadores de formação que, tal como o texto diz, preocupam-se mais com ganhar os torneios de Toulon do que em trabalhar os jogadores para que no futuro ganhem competições séniores, às vezes recorrendo a métodos tão primitivos como o velho "kick and rush" inglês. E os adeptos também têm alguma culpa, basta ver a admiração que houve (e há) em redor da selecção de sub-20 que foi vice-campeã com um futebol deplorável, assente em suor e correria e sem um pingo de talento. E só porque chegaram à final, porque se jogassem bom futebol e não passassem o grupo já ninguém elogiava. Com a visão resultadista dos adeptos e com professores como o Ilídio Vale, como é que se pode querer que os jovens tenham lugar nas equipas principais dos clubes e na própria selecção?
Bruno Fonseca
João podes dizer onde viste que Portugal tem a melhor cantera da Europa?
Kafka I
A tua obcessão pelas camadas jovens de Portugal, cega-te por completo…"Portugal a melhor cantera da Europa" é das melhores pérolas que já li aqui no blogue…nem de perto é a melhor