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E se Pote não volta a passar disto

Ah, o Pote. O Pote, que eu, benfiquista de gema e sem remorsos, admiro há anos, como quem admira um artista que, de repente, resolve pintar só com o pé esquerdo e ainda assim faz obra-prima. O rapaz deu ao Sporting o que nem o próprio Sporting sonhava: golos impossíveis, títulos que pareciam miragem, uma alegria leonina que até eu, do outro lado do rio, via com um misto de inveja e respeito. Mas agora? Agora é isto. Um corpo que parece ter envelhecido vinte anos numa única pré-época, um andar que mais parece o de um reformado a caminho da farmácia e uma forma que faz a gente perguntar, em voz baixa para não magoar: “Isto ainda é o mesmo gajo ou o tio dele que o veio substituir?”

No Emirates, contra o Arsenal, vi-o outra vez. Entrou no onze, claro, porque o Rui Borges não se atreve a deixá-lo de fora – seria como admitir que o rei está nu e o trono a ranger. Jogou até aos 71 minutos, ameaçou aqui e ali, teve um ou dois momentos em que o estádio inteiro prendeu a respiração… e depois nada. Zero. O nulo que o Sporting trouxe de Londres, o agregado que os mandou para casa com a dignidade intacta mas o sonho europeu desfeito. Trincão mexeu, Catamo correu, Suárez lutou, mas o Pote? O Pote foi aquele que toda a gente elogia por “ter dado o contributo” e o treinador defende com a convicção de quem ainda acredita no Pai Natal. “Fez um bom jogo”, disse o Rui Borges. Claro que sim. Como eu faço um bom almoço quando cozinho arroz de atum: dá para comer, mas ninguém pede para repetir

E olhem que não é de agora. Regressou há meses, depois daquelas lesões que já serviram de desculpa tantas vezes que pareciam um guião de telenovela. Primeiro foi “só mais duas semanas”, depois “está a recuperar o ritmo”, agora é “está à procura da melhor forma”. Meu caro, a melhor forma dele já anda a passear noutro bairro. Os números até enganam: 13 golos na Liga, seis assistências, o tipo continua a marcar. Mas vê-lo em campo é como assistir a um Ferrari com o motor a falhar em segunda. Acelera, sim, mas com um barulho esquisito, um atraso que não existia. O drible que antes era um relâmpago agora é um suspiro. A finalização que era cirúrgica transformou-se numa lotaria. E o corpo… ah, o corpo. Parece que carrega o peso de seis épocas seguidas sem férias, ou que alguém lhe trocou as pilhas por pilhas de supermercado.

Eu sei, eu sei. Vai haver quem grite “ingratidão!”, “é história do clube!”, “sem ele não eram campeões”. E têm razão. O Pote deu ao Sporting mais do que muitos leões de sangue deram em toda a carreira. Mas precisamente por isso é que dói ver. Porque um jogador assim não merece acabar como figura de proa que toda a gente finge que ainda brilha enquanto o brilho já se foi. O Sporting tem de parar de fingir que é só uma “fase”. Já não cola. As lesões passaram, os meses voaram, e o que resta é este Pote 2.0: útil, sim, decisivo em jogos contra o penúltimo classificado, mas em noites grandes, contra os grandes, parece um extra que entrou por engano no filme principal.

Como benfiquista, digo isto com o coração leve e o sarcasmo afiado: continuo a apreciar o gajo. Adoro vê-lo a sofrer um bocadinho, a carregar o peso de um Sporting que, sem ele no pico, parece um bocadinho mais… normal. Mas admitam lá, ó leões. Este não é o Pote que vos fazia sonhar. Este é o Pote que vos faz torcer para que o próximo passe de trivela não acabe em canto. E se calhar, só se calhar, chegou a hora de perceberem que este é o novo nível. Não é tragédia. É futebol. E o futebol, como eu bem sei do meu lado do Tejo, tem destas coisas: um dia és o rei de Alvalade, no outro és o tio que toda a gente aplaude por educação. Força, Pote. Mas força a sério. Porque ver-te assim é como ver um velho amigo a jogar futebol nos solteiros contra casados – com vontade, mas com as pernas a dizerem “já chega”. E isso, meu caro, dói mais do que qualquer derrota europeia.

Valter Batista

5 Comentários

  • Stravinsky
    Posted Abril 17, 2026 at 10:18 am

    Totalmente de acordo e esta é a pergunta que também me tenho feito ao longo deste ano… e cada vez mais a resposta parece ser “sim, Pote não volta a passar disto”.
    É imperativo que Pote tenha descanso este verão, para tentar voltar a chegar ao que era, mas parece cada vez mais impossível.
    Uma pena porque, nestes últimos anos de ressurgimento do Sporting eu diria que o Pote era a única constante. Daqui a muitos anos poderia ser não o “Sporting de Amorim” ou o “Sporting de Gyokeres”, mas o “Sporting de Pote”, sendo ele o denominador comum, mas assim, parece que não vai acontecer…

  • Tiago Silva
    Posted Abril 17, 2026 at 10:37 am

    É um jogador que foi muito castigado pelas lesões e depois o Sporting não teve muita paciência para a sua recuperação pela necessidade de o utilizar e pela sua importância em campo.

    Nunca achei que o Pote fosse um jogador que se destacasse pela sua qualidade técnica ou fisica, mas pela sua inteligência. Por isso acho que há alguma esperança que volte ao seu melhor nível. Ainda assim não é fácil quando um jogador não se sente bem fisicamente, isso também afeta a cabeça. O jogador perde confiança no seu corpo e começa a duvidar se consegue executar o que pensa e começa a aparecer a indecisão. Isto ainda se nota mais quando se está em alta competição e a pressão é alta.

    Por isso concordo com o Stravinsky. Deveria ficar de fora do Mundial, recuperar o corpo e a mente e voltar fresco para a nova época com uma pré-época em cima. Seria o melhor para todos! Não é que a nossa seleção precise do Pote atual, têm opções bem superiores neste momento e pouco ou nada iria jogar.

  • pg1960
    Posted Abril 17, 2026 at 10:39 am

    Acredito que se o Pedro Gonçalves continuar a jogar a extremo, não vai passar disto: vai marcar alguns golos e fazer algumas assistências, mas o seu tempo naquela posição esgotou-se. Ele já não é eficaz no um contra um: na verdade, nunca foi o seu forte, mas as outras características compensavam. Neste momento, precisamos de algo diferente ali.
    ​Se for para escolher entre ele e o Trincão, a minha decisão é clara. O Pedro poderia brilhar muito mais a número 8, onde seria forçado a participar no jogo e a aparecer, em vez de se “esconder” na ala, deixando o jogo passar-lhe ao lado.
    ​A ESCOLHA: TRINCÃO OU POTE?
    ​Para mim, um destes dois tem de sair esta época; ambos chegaram ao fim de ciclo. A minha escolha de saída seria o Francisco Trincão. Embora seja um excelente jogador para o campeonato interno, ele não aparece quando o nível sobe contra equipas grandes ou médias.
    ​O Fator Financeiro: O Trincão potencialmente renderia mais dinheiro. Devido às lesões do ano passado e desta época, ninguém vai dar pelo Pedro Gonçalves o que ele realmente poderia valer. No entanto, se o valor fosse igual, eu ficaria com o Trincão, mas a realidade do mercado dita o contrário.
    ​A “BOMBA RELÓGIO”: NUNO SANTOS
    ​Tenho o mesmo pressentimento em relação ao Nuno Santos. Ele é o tipo de jogador que, se não estiver no onze inicial, começa a criar problemas internos no clube. Para mim, a solução é simples: o Nuno Santos deve sair, independentemente de recebermos muito dinheiro ou não.
    ​O Problema: É demasiado previsível em termos de lesões e não tem qualidade suficiente para ser a opção de rotação ao Maxi Araújo. O Maxi é superior, e o Nuno não vai aceitar o papel de suplente. Manter um jogador com este perfil no banco é pedir problemas no balneário.

  • Neville Longbottom
    Posted Abril 17, 2026 at 10:41 am

    Tem de ficar fora do mundial e fazer a pre época. Aliás isso era o ideal para todos.

  • FVRicardo
    Posted Abril 17, 2026 at 11:03 am

    Há muitos fatores que perturbaram a época dele: lesões passadas, novas lesões, o sacrifício de ter de jogar sempre, maus momentos, nascimento das filhas (não menosprezando o facto de ser a coisa mais importante da vida de uma pessoa), fator psicológico (cada vez que falha algum passe ou remate vai-se completamente abaixo).
    Acredito que entre a estrutura há um misto de emoções: contratar alguma truta para o lugar (corre o risco de cair de vez)? Deixá-lo praticamente sem concorrência como até agora (o rendimento dele na próxima época é um ponto de interrogação muito grande)? Encontrar um comprador (garantindo com isso a permanência de Maxi e Diomande)?

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