Como vai ser em 2020? Bernal demonstrou neste Tour que é o maior fenómeno no ciclismo na actualidade – aos 22 anos já consegue ser o melhor do Mundo em provas de uma e três semanas -, e agora a dúvida é perceber como será o embate com Froome. Também a INEOS, ex-Sky, consolida a sua hegemonia (5.º Tour seguido, 7.º no total e o 4.º com ciclistas diferentes), e logo com os dois primeiros lugares, numa Volta que fica marcada pela qualidade/perseverança de Alaphilippe, que andou 14 dias de amarelo, confirmação de que Buchmann pode ser o ciclista referência da Alemanha, força de Ewan nos sprints (3 vitórias frente aos melhores do Mundo) e muitas desilusões. A nível individual Quintana, apesar da etapa, foi a maior de todas (apenas 8.º é demasiado pobre), Porte (nem Top 10), Bardet (a camisola da montanha atenuou, mas esperava-se muito mais que um 15.º lugar), Adam Yates (nem Top 25, e parecia um dos principais candidatos ao pódio), Enric Mas (apenas 22.º) e Michael Matthews (não é um sprinter puro mas a Sunweb fartou-se de trabalhar para si e nunca potenciou esse trabalho) também ficaram muito aquém. A nível geral, a UAE, até pelo orçamento, foi a maior desilusão, não conseguindo etapas nem Top 10. A Astana, apesar do abandono de Fuglsang, também teve uma prestação modesta. Já equipas como a Katusha, CCC, e Dimension nem se viram. Melhor estiveram a Jumbo-Visma e Mitchelton-Scott, que acumularam 4 vitórias cada uma, sendo que os holandeses ainda meteram Kruijswijk no 3.º lugar. Nota igualmente para a modesta participação dos portugueses. Rui Costa ainda apareceu nas fugas, mas nunca conseguiu fazer a diferença.
Egan Bernal venceu o Tour pela primeira vez com apenas 22 anos e 193 dias, passando a ser o 4.º mais novo de sempre a conquistar a prova mais desejada no ciclismo. O ciclista da INEOS, que é o primeiro sul-americano a arrecadar a prova, é apenas superado por Henri Cornet, Romain Maes e François Faber na lista dos mais jovens, ciclistas que no entanto já arrebataram a prova há mais de 80 anos. Dos mais recentes, Jan Ullrich venceu com 23 anos e 237 dias, Contador aos 24 e 235 dias, enquanto Eddy Merckx estreou-se a vencer aos 24 anos e 33 dias. Geraint Thomas e Steven Kruijswijk completaram o pódio. Nas outras classificações, Bernal foi igualmente o melhor jovem, Sagan venceu pela 7.ª vez a camisola dos pontos (um recorde), enquanto Bardet arrecadou a classificação da montanha. Na etapa da consagração do fenómeno colombiano levou a melhor Caleb Ewan, que fez o hat-trick ao bater ao sprint Groenewegen e Bonifazio.
Classificação geral:


14 Comentários
andresilvac
Fez uma volta a França fantástica não conhecia este jovem mas demonstra muito potencial, a etapa de sexta feira foi fantástica e dava toda a impressão que ainda ia cavar mais distância para a concorrência.
No próximo ano se tudo correr bem faz o Giro e a Vuelta deixando o Tour para Froome(evita divisões na equipa) mas até lá ainda muita água vai correr debaixo da ponte.
Vitoria SC
nao teria qualquer lógica o actual vencedor nao ir defender o titulo.
Rodrigo Ferreira
Contador por outros motivos não foi em 2008. Acredito que pode acontecer o mesmo com o Bernal, pois ganhar o Giro e a Vuelta também é gratificante.
andresilvac
Seria um “barril de pólvora” colocar os 3 para o ano no Tour…Bernal é novo vai ter muitas hipóteses de ganhar o Tour pelo que a INEOS deverá dar preferência a Froome deixando Bernal para Giro e Vuelta e se Froome se retirar (provável se ganhar mais uma vez o Tour) depois de 2020 ficará com o “problema” resolvido.
A justificação oficial até poderá ser uma “lesão” ou “compromissos pessoais” para não ficar mal perante a opinião pública.
Pedroto
Alguém que perceba de ciclismo me pode explicar como é que os colegas “trabalham” para os outros? Não entendo isso e vejo que é uma expressão muito usada nesta modalidade. Obrigado
oMeuUserName
O ciclismo é um desporto de equipa, e por isso existe trabalho de equipa, que se pode dar de muitas maneiras. A equipa aplica uma estratégia adequada aos seus elementos, normalmente aos seus líderes. “Ir na roda” de alguém é muito mais fácil do que ir à frente a levar com o vento e a impor o ritmo, por isso levar na roda um companheiro é uma maneira de se trabalhar para ele. Outra muito frequente nas equipas que têm sprinters é em etapas com perfil adequado para chegada ao sprint, as equipas dos sprinters encarregam-se de assegurar que não há uma fuga com sucesso, tomando o comando do pelotão com um ritmo alto para apanhar os fugitivos, de maneira a que a discussão da etapa seja ao sprint, dando hipótese ao membro da equipa de a ganhar (é este o caso do Michael Matthews falado no texto). Há muitas maneiras de trabalhar em equipa no ciclismo, sendo que neste Tour houve também um bom exemplo de como não trabalhar em equipa, dado pela Movistar (ironicamente ganharam a classificação por equipas), quando aumentam o ritmo no “pelotão” e acabam por deixar para trás o seu próprio líder que não aguentou o ritmo imposto pela própria equipa.
Mas esse tipo de conceitos assimilam-se melhor assistindo a provas de ciclismo, aí sim dá para compreender melhor.
Rodrigo Ferreira
Proteger do vento, impor ritmo na frente do pelotão, ajudar a posicionar da melhor forma no pelotão, etc.
andresilvac
Não sendo o maior entendido em ciclismo (sou apenas um espectador frequente das grandes voltas) cada equipa tem o seu “número 1” aquele que acha que tem mais capacidade para ganhar aquela competição depois tem um grupo constituído por mais ciclistas em que todos teem características que podem ser usadas para levar o “ciclista número 1” a Vitória final…desde a desgastar os adversários impondo o ritmo do pelotão a levar o ciclista “na roda” na montanha para não ir ao vento, trepadores para a montanha e por vezes o ciclista “pólvora seca” que desata a fugir para as equipas adversárias perseguiram criando desgaste e “testando” a concorrência.
Bernal este ano era um ciclista para fazer o trabalho da equipa para o número 1 (Thomas) mas sentindo que o colega não estava no seu melhor em conjunto com a equipa (em teoria) decidiu fugir ao trabalho da equipa e ir ele lançado para a Vitória (existem casos em que colocam a hierarquia da equipa em causa contra as ordens da mesma e não corre bem).
Isto para perceber que uma equipa de ciclismo funciona um pouco como um jogo de Xadrez cada ciclista ocupa uma função para levar a Vitória final todos servem para executar uma estratégia para levar a Vitória final.
Algumas equipas apenas lutam por vitórias de etapas e aí teem ciclistas chamados sprinters e nessas etapas em que é possível ganhar ao “Sprint” é função da equipa comandar o pelotão para esse ciclista conseguir ficar bem colocado para ganhar essa etapa seja “bloqueando” os outros ou deixando em posicao priveligiada esse corredor.
TheGolden
Melhor Tour dos últimos anos, com alguma margem.
Esta qualidade tem que estar claramente interligada com a equipa INEOS. Primeiro porque perdeu semanas antes o melhor voltista da atualidade (não concordo com o VM quando coloca Bernal como o melhor). Não estando o britânico em prova, e estando o vencedor do ano passado, Thomas, com algumas duvidas relativas à sua forma (que se vieram a confirmar), a prova tornou-se demasiado aberta para muitos corredores (sendo que no final, apenas 4/5 se mostraram claramente candidatos.
Porque não seria merecido, a primeira palavra de destaque tem que ser dada a Alaphilippe. Como disse anteriormente, levou consigo uma nação às costas, rumo ao sonho francês. Deu espetáculo (compara-se a Sagan relativamente ao carisma que apresenta) e deu tudo na estrada. O destaque merecido a este também fenómeno também tem que ser dado.
De seguida, Bernal. Duvidei e errei. O miúdo comportou-se como homem grande e leva já a camisola mais desejada. Vacilou na etapa 8, naquela rampa brutal, mas nas subidas longas com altitude elevada, é como peixe na água. Tem todo o futuro nas suas mãos, e certamente será muito risonho.
Relativamente à INEOS, muitas dores de cabeça, possivelmente. Há Bernal, Froome, Thomas e Carapaz (?) para GV. É muita truta junta. Mas têm na sua posse uma equipa que lhes garante uma hegemonia total.
Como restantes destaques: Ewan a demonstrar a sua enorme potência em sprint’s (tem uma ponta final descomunal, bastante explosiva); Sagan a “banalizar” mais uma vez a camisola verde, parece que foi criada para ele; Simon Yates que neste momento é bem melhor que Adam; Pinot, que infelizmente lesionou-se mas mostrou-se como principal rival a Bernal; Jumbo-Visma, melhor equipa em prova, com Kruiswijk à cabeça, e Bora, com Sagan e Buchmann.
Menos positivo, Bardet claramente. Estagnou completamente e esperava muito mais do francês (a camisola da montanha não faz esquecer a sua deprimente prova). Quintana/Landa/Movistar, onde o primeiro está na mesma senda do Bardet, parece estagnado, Landa que apesar de ter o Giro nas pernas, esperava mais e Movistar como equipa, simplesmente horrível. Decisões patéticas, muitas vezes demonstram estar desnorteados, sem saber o que fazer. A equipa espanhola precisava de uma renovação total.
Astana também pouco se viu, sendo Fuglsang, antes do abandono, nota disso; Porte, numa GV onde não teve qualquer percalço (finalmente!) também não mostrou ter pernas.
Várias equipas mal se viram, casos da CCC, Dimension Data, UAE, Sunweb e Cofidis (Katusha é um caso perdido).
Portugueses, muito discretos. Rui tentou, mas não teve pedalada para acompanhar os melhores das fugas.
Tour bastante agradável de se ter acompanhado, e mais uma vez, Alaphilippe. Obrigado.
LES
Quem sabe esta possível contratação de Carapaz não será uma mudança de paradigma na INEOS, apostando numa equipa menos europeia e investindo num mercado mais sul-americano de cartaz para as GV? Além disso, o Froome também não terminava contrato em 2020 e não seria a vinda do Carapaz um possível sinal de o Froome quiçá até eventualmente possa terminar a sua carreira mais cedo pelas sequelas após aquela infeliz e catastrófica queda? No meio disto tudo ainda há o caso de Thomas que termina contrato em 2021 e quem sabe se com algumas das suas ações neste Tour não terá visto o seu futuro na ex-Sky em risco após 2021…
Gio Silva
Bom, vinha comentar, mas acho que disseste tudo o que ia dizer ahah
Análise perfeita, da minha perspectiva
Rodrigo Ferreira
O domínio da Sky continua (não sei como havia malta a não meter nenhum no pódio sequer), sendo que como esperava Bernal esteve a grande nível e venceu já quando tinha essa liberdade. Thomas ainda o tentou “lixar”, mas o colombiano estava acima e fez a diferença na altitude. É o ciclista com mais potencial que vi desde Contador e a INEOS fez muito bem em segurá-lo até 2023. Pode ganhar muitas GV’s se evoluir como se espera, sendo que com o regresso de Froome para tentar mais um Tour acredito que Bernal possa fazer Giro e Vuelta em 2020.
De resto, nota para outros nomes fortes da prova como Alaphilippe (ganhou o seu Tour na mesma), Sagan (feito histórico com a 7.ª verde), Ewan (impôs-se no sprint com 3 triunfos) e Buchmann (não esperava um Tour tão bom). De resto, há o Pinot, que acredito que ia fazer pódio, mas teve azar nos últimos dias.
Em sentido inverso, as habituais desilusões Movistar e Quintana, Porte e Adam Yates continuaram nessa senda, Dan Martin continua a má época (a UAE parece um cemitério, tal como a Katusha) e os portugueses quase nem se viram, sobretudo o Rui e o José. Fuglsang é um misto de azar devido às quedas e desilusão, mas sempre achei excessivo estar no pódio de favoritos, ao passo que Bardet é outra desilusão, embora leve a montanha. Más também mostrou ainda não ter estaleca para se bater com os melhores o Tour. Bem lembrado também o Matthews, que foi zero estranhamente, enquanto o Valverde também não se viu (a maldição do arco-iris continua).
Rush
Bernal ganhou e bem, mas acho precipitado dizer já que é o melhor corredor de 1 e 3 semanas. Sobretudo quando ele ia, em condições “normais”, gregário (de luxo é verdade, mas is) do Froome, o que indica que este vinha com um nível, pelo menos, igual ao do Bernal.
Não esquecer ainda que, neste momento, o melhore corredor de provas é 1 semana é muito provavelmente o Roglic, que no último ano tem ganho todas as em que tem participado.
AndreADG
Isso nao quer dizer nada. O Froome tambem ia como gregario do Wiggins na vuelta 2011 e tour 2012 e ia bem melhor que ele.