Eu não sei quando começou o meu amor pelo Futebol Clube do Porto. Muito difícil aceder às primeiras memórias de quando aquele equipamento azul e branco começou a conquistar o meu coração. Contudo, sei muito bem como ele cresceu. Nasci no ano do primeiro título de um pentacampeonato histórico, e penso que esse facto foi, de alguma forma, o Universo a querer ligar-me a este clube. E esse amor foi crescendo.
Num cantinho do coração, guardo uma memória que nunca vou esquecer. Aos 7 anos de idade, testemunhei o embate épico do FC Porto contra o Celtic, na final de Sevilha. A sala lá de casa, repleta de familiares, vibrou com cada golo, mas foi a saída inesperada de casa, na calada da noite, em direção ao antigo estádio das Antas, que selou a minha ligação eterna ao clube. Lá, já a altas horas da madrugada, entre outros fervorosos adeptos, aguardávamos ansiosos para dar as boas-vindas aos heróis que regressavam. O orgulho e a alegria que se instauraram naquela noite criaram raízes profundas. No ano seguimte, o percurso rumo à final de Gelsenkirchen tornou-se uma caminhada mágica, marcada pelos suspiros provocados pelo golo de Costinha em Manchester ou pela emoção do remate certeiro de Derlei, na Corunha. Cada passo dado nessa caminhada estava impregnado de paixão, e o coração pulsava ao ritmo daqueles momentos inesquecíveis. Anos mais tarde, a euforia que inundou os corredores da história quando o Porto conquistou uma goleada histórica por 5-0 contra o rival Benfica. Foi mais do que uma vitória, foi um desfile de glória que alimentou o fogo sagrado da rivalidade e fez ecoar o nome do clube através dos tempos, concluindo essa época com a conquista da Liga Europa, sob a liderança magistral de André Villas-Boas. Cada vitória, cada jogo memorável, tornou-se uma página indelével na minha história de amor pelo Futebol Clube do Porto. O futebol é mais do que um desporto, é uma paixão que cresceu comigo, moldando minha identidade e enchendo a minha vida de momentos inesquecíveis e emoções intensas.
No entanto, a trajetória romântica do meu amor pelo Futebol Clube do Porto não está isenta de sombras. A tristeza e o choque atingiram-me em cheio ao testemunhar os eventos vergonhosos ocorridos na Assembleia Geral do passado dia 13. O que deveria ser um espaço de debate de ideias saudável transformou-se num cenário de coações, intimidação e agressões perpetradas por uma claque que, de forma lamentável, assemelha-se à PIDE de António Oliveira Salazar. Essa claque, como guardiã de um regime instaurado no clube, parece ter esquecido há muito tempo os verdadeiros interesses dos associados e do próprio clube. A atmosfera de medo e a sensação de que o futebol, que deveria ser um desporto que une e emociona, tornou-se refém de interesses obscuros, deixando um amargo sabor de desilusão na boca dos verdadeiros apaixonados. É doloroso constatar que, por vezes, a escuridão se infiltra mesmo nos redutos mais sagrados do desporto, mas é fundamental resistir e lutar por um Futebol Clube do Porto verdadeiramente fiel aos seus princípios e à comunidade que o sustenta.
Por mais que as sombras se insinuem, é imperativo recordar os pilares fundamentais que sustentam a grandiosidade do Futebol Clube do Porto. Instituição centenária, o clube não só presenciou a passagem do tempo como também resistiu aos ventos da mudança, mantendo-se democrático desde os primórdios de sua fundação. Mesmo nos dias sombrios do regime ditatorial português, o FC Porto permaneceu como um farol de democracia, uma luz que desafiou a escuridão da opressão. Ao longo de sua história, a agremiação sempre primou pelo respeito e pela honra, valores que transcenderam o campo de jogo para moldar a identidade do clube. Esses alicerces, forjados em décadas de glórias e desafios superados, não podem ser eclipsados por interesses pessoais que, como sombras fugidias, tentam obscurecer a verdadeira essência do FC Porto.
Neste momento crítico, é crucial reiterar que o clube não pode, em nenhuma circunstância, ser refém de interesses pessoais que visam apenas o benefício de alguns. O futuro do clube está intrinsecamente ligado à sua capacidade de permanecer fiel aos valores que o elevaram a um estatuto de respeito e admiração, nacional e internacional. Que o FC Porto siga sendo um bastião de democracia, e que os seus dirigentes trilhem um caminho que respeita a história, a paixão dos adeptos e, acima de tudo, o legado de um clube que transcende o simples jogo de futebol. O futuro do FC Porto não pode ser hipotecado por interesses mesquinhos, pois o verdadeiro espírito do clube está na união de sua comunidade em torno de um amor que vai além das quatro linhas.
Neste momento crucial da história do clube, os adeptos enfrentam uma decisão importante, uma encruzilhada que define o rumo do clube para as gerações vindouras. As opções são claras: olhar
para a frente, para um projeto de futuro que mantenha viva a chama da vitória e do orgulho para toda uma cidade, ou ceder ao imediatismo, hipotecando o futuro em troca do benefício de alguns, que, como abutres à espreita, procuram vantagens pessoais em detrimento da longevidade do legado que, aos 85 anos, prestes a fazer 86, é personificado na maior figura do clube, Jorge Nuno Pinto da Costa.
O presidente que moldou uma era vitoriosa merece mais do que homenagens e reconhecimento. Merece a continuidade de um legado que transcende as décadas. Não há maior gesto de gratidão para com Pinto da Costa do que abraçar a mudança, comprometendo-se com um caminho que respeite não só o passado glorioso, mas também o futuro do clube. Os adeptos estão diante da oportunidade de serem os arquitetos do amanhã do FC Porto, mantendo vivo o espírito vencedor que tanto encheu de glória a cidade e a nação azul e branca. A história do clube está intrinsecamente ligada à coragem de fazer escolhas difíceis em prol de um futuro que honre os feitos do passado. O verdadeiro tributo a Pinto da Costa é a construção de um porvir que seja digno do seu legado imortal.
Neste momento de reflexão, lembremos que a grandiosidade do Futebol Clube do Porto vai além dos troféus e dos relvados. Ela reside nas gentes da cidade do Porto, cuja honra, lealdade e liberdade de pensamento deram à “Cidade Invicta” um nome que transcende edifícios e ruas. O verdadeiro “Invicto” é o espírito resiliente e indomável que habita o coração dos seus habitantes, inclusive naqueles que apoiam outros clubes, mas que se revêem nesses pilares fundamentais. Uma força que se reflete no amor apaixonado pelo clube. Porque, acima de tudo, são essas gentes que fazem do Porto uma cidade única, forjada na resiliência e na paixão.
Hoje, mais do que nunca, é crucial unir forças em prol do clube que tanto nos enche de orgulho. Que as decisões tomadas reflitam a sabedoria e a visão de um futuro em que o Futebol Clube do Porto continue a ser a luz que guia a “Cidade Invicta”. Porque juntos, o clube prevalecerá…
Azul, branco, indomável e imortal.
Visão do Leitor: André Ferreira


8 Comentários
Fireball
O texto está bem escrito, e mesmo como rival não deixa de ser emocionante o relato que fazes das conquistas que presenciaste em criança e que te levaram a tornar adepto do FC Porto.
Mas não consigo deixar de voltar a deixar os reparos que já deixei várias vezes neste contexto. Um deles é que nasceste em 1995, então não fazes ideia se o Porto foi ou não foi um farol de democracia na ditadura. Se calhar foi, acredito que possa ter sido, mas a questão é, tu não conheces o Porto pré-Pinto da Costa. Tu não conheces esse Porto farol de democracia. O que tu conheces é este Porto. E desde que comecei a ver futebol no final dos anos 90 que este Porto nunca foi exemplo nenhum de respeito e honra, antes pelo contrário. Não pelos adeptos, idiotas há em todos os clubes, mas pelos dirigentes. Desde que nasci que os dirigentes do FC Porto, sejam eles o presidente, o diretor de comunicação, o vice-presidente, o assessor, etc, primaram pelo desrespeito, incentivo ao ódio com base na guerra Norte-Sul e por extensão Porto-Benfica, e muito mais.
Não me venham com falinhas mansas de que o FC Porto é um clube respeitador e honrado. O FC Porto é um dos grandes responsáveis pelo clima de ódio que se vive no futebol português.
Francisco Ramos
Olhando para os adeptos Benfiquistas que comentam no blog, diria que metade dos seus comentários está também provido de ódio ao Porto, pelo que aceitam os crimes, não podemos aceitar a culpa de sermos os únicos culpados, nem a leviandade com que nos põem a culpa sacudindo a água do seu capote!
arferreirast
Pode não ter vivido nessa altura, mas a história está escrita, é uma questão de procurar aprender. Além de que as pessoas mais velhas presenciaram isso, e passam o conhecimento aos mais novos. E depois, não dizendo que tudo no FC Porto está bem ou mal, vejo qualquer um dos três grandes a serem exactamente iguais. Por isso, o bate-boca de atirar as culpas para os outros com casos específicos é um exercício redundante, tendo em conta que encontramos casos semelhantes em qualquer um dos outros clubes. É apenas uma questão de procurar.
Francisco Ramos
“As eleições de abril no FC Porto, onde existe a possibilidade real de Pinto da Costa ser derrotado – e é disso que se trata, nada mais -, colocaram o clube, primeiro em estado de alerta, depois em estado de sítio, e agora em estado de emergência. E, provavelmente, quem mais quer a continuidade de Pinto da Costa nem é o próprio, que ocupa a cadeira do poder no dragão desde 1982, mas sim quem gravita, com estatuto de parasita, em torno dele, uma fauna plural, que abrange áreas diversas da vida portista, e que sabe que sem nova vitória do atual presidente a torneira das benesses será fechada.
Tais criaturas não lutam por ideais desportivos, nem sequer, stricu sensu, pelo FC Porto, apenas pretendem garantir que a galinha dos ovos de ouro irá continuar do seu lado da vedação. O que aconteceu na Assembleia Geral abortada do FC Porto só pode ser surpresa para quem tem andado desatento ao longo das últimas quatro décadas, onde o conceito de guarda pretoriana, levado sempre que necessário à prática, no clube, foi constante, mudando apenas, por questões geracionais, os lugares-tenentes.
E as vítimas desta intimidação com mais de 40 anos, que começaram por ser os jornalistas, depois os adeptos dos outros clubes, e finalmente toda e qualquer voz, mesmo vinda de portistas insuspeitos (de quem vou respeitar a privacidade e a memória…), que se erguesse contra a política do regime, uns antes, muito antes, e outros agora, só agora, foram testemunhas de uma realidade que nunca fez sentido, por opressiva, intimidatória e profundamente anticivilizacional.
Porém, há sempre um tempo de dizer «basta», e esse parece ter chegado ao FC Porto, onde procedimentos como os que aconteceram na última segunda-feira deixaram de ser tolerados.
Na próxima semana, em condições de normalidade – espera-se – os portistas serão chamados a pronunciar-se sobre matérias candentes para a vida do clube, naquilo que poderá ser um primeiro passo que desemboque em eleições realmente livres e muito participadas em abril de 2024, algo que a acontecer será sempre um sintoma de vitalidade do clube.
Há realidades, por mais evidentes que sejam, que só quando nos tocam pessoalmente são devidamente valorizadas.
O que reveste de atualidade, a propósito de quem só agora sentiu na pele a guarda pretoriana, o poema de Martin Niemoller: «Primeiro levaram os comunistas, mas não falei, por não ser comunista. Depois, perseguiram os judeus, nada disse então, por não ser judeu, Em seguida, castigaram os sindicalistas decidi não falar, porque não sou sindicalista. Mais tarde, foi a vez dos católicos, também me calei, por ser protestante. Então, um dia, vieram buscar-me. Nessa altura, já não restava nenhuma voz, que, em meu nome, se fizesse ouvir.»”
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Li este artigo de opinião de um cronista da BOLA e achei bastante interessante.
Primo1904
Antes de mais lamento o ocorrido na passada segunda feira na AG do Porto e espero que este seja o clique para uma mudança (que julgo ser) necessária no clube.
Contudo parece que a ficha só caiu realmente na última segunda feira para muitos adeptos que preferiram tapar os olhos e ouvidos até a impunidade bater-lhes à porta e serem confrontados com a realidade sentida por próprios jogadores de clubes ou os diversos agentes desportivos.
Mas bem mais vale tarde que nunca, contudo não acredito que AVB vença as eleições.
Quanto ao AVB até acredito que possa trazer mudanças benéficas para o clube mas tenho muitas dúvidas que traga algo de benéfico e diferente do actual ao futebol português.
DNowitzki
Não sei se a malta já se consciencializou,mas um dia o FCP e os outros clubes irão acabar. Ou alguém considera que, daqui a 500 anos, as estruturas de hoje serão as de então?
Como se chamava o gajo que deu origem ao nome da competição maratona? Calma lá com as eternidades e os homens imorredoiros.
Gato das Bolas
É verdade. Venho do futuro e confirmo
Rui Silva
Só uma correção histórica: o FCP não é democrático desde a sua fundação, pelo que é difícil dizer que este valor (o da democracia) é um bastião desta instituição desde a sua fundação (até porque ficou demonstrado que também não é um seu bastião ao longo dos últimos anos). Para dar um exemplo, durante largos anos do Estado Novo, os orgãos dirigentes do FCP não eram escolhidos por sufrágio universal, mas sim por nomeação por parte de uma “assembleia delegada”.