Gian Piero Gasperini cumpre a terceira época no comando técnico da Atalanta e, apesar dos bons trabalhos, o potencial da formação de Bérgamo parece ter atingido o pico esta época, com a Atalanta a estar envolvida na luta pelos lugares que dão acesso à Champions (em 2017 o 4.º lugar foi alcançado, mas nessa altura apenas dava entrada para a Liga Europa) e a encantar Itália pelo caudal ofensivo e veia goleadora. Faltam quatro rondas para o final da Serie A e a Atalanta já marcou por 68 ocasiões, sendo o melhor ataque da prova em igualdade com a incontestável líder Juventus. E mais surpreendente que este dado, é que esta marca de golos marcados podia ser superior nesta altura.
Na verdade, poucos serão aqueles que dão como tempo perdido assistir a uma partida onde a Atalanta seja um dos intervenientes. No Atleti Azzurri D’Italia ou fora de portas, a formação de Bérgamo entra em todas as partidas com o objectivo de marcar e vencer. Trata-se de um futebol vistoso, que procura dominar o adversário e que liberta o que de melhor há em cada elemento. Gasperini tem recuperado jogadores já desacreditados como Masiello e Papu Gómez (o pequeno craque argentino nunca jogou tão bem nem marcou tanto na sua carreira) e feito crescer vários elementos como os médios De Roon e Freuler, que são hoje dois titulares de Holanda e Suiça, respectivamente, os laterais Hateboer, Gosens ou Castagne (três surpresas da temporada), assim como alguns jovens, nomeadamente o central Gianluca Mancini, que tem meia Europa de olho nele, e Mario Pasalić, médio croata que tem sido cedido recorrentemente pelo Chelsea (5.º empréstimo em 5 épocas), mas que parece ter encontrado em Bérgamo o seu habitat natural. Por outro lado, noutro nível estão as estrelas da companhia, o esloveno Josip Ilicić, que será um dos jogadores mais subvalorizados do futebol europeu, e Duván Zapata, o “armário” colombiano que foi relativamente caro para o clube em questão (26 ME), mas que tem comprovado a sua qualidade em campo (26 golos na época), ao ponto de estar na luta pelo troféu de melhor marcador do Calcio (leva 21 nesta altura, estando a dois do líder Quagliarella).
Na verdade, o plantel está longe de ser soberbo em termos individuais, sobretudo se compararmos com o que existe em Milão ou Roma, e também por isso o trabalho de Gasperini é notável, mas o que mais fascina é precisamente aquilo que a equipa consegue mostrar em campo apesar das limitações que possam existir. Num 3-4-3 bem oleado, por vezes um 3-5-2 devido aos problemas físicos de Ilicić, a Atalanta consegue surpreender os adversários tanto pelos flancos, onde Hateboer, na direita, e Gosens/Castagne, na esquerda, rompem com facilidade, bem como pelo corredor central, com a arte e qualidade de passe e de decisão de Gómez e Ilicić a fazer a diferença. Zapata é servido de muitas formas, ele que também consegue criar as suas oportunidades devido à sua potência e qualidade no ataque à profundidade, e esse futebol fluido permite à Atalanta criar uma série de oportunidades por jogo. Não fosse o mau arranque de campeonato (apenas 1 vitória nos primeiros 8 encontros) e quem sabe se não teríamos a Atalanta com a presença no top-4 praticamente assegurada.

No fundo, este é mais um exemplo de que vale a pena insistir numa metodologia ofensiva, que procura ter bola, assumir o jogo e dominar o adversário. Num campeonato cada vez mais assimétrico pela superioridade da Juventus (que ainda assim está longe de ter o nível exibicional desta Atalanta) e debilidades das formações na cauda da tabela classificativa, a Atalanta é uma lufada de ar fresco em Itália e um motivo de sorriso no meio da pobreza que é muitas vezes o futebol de formações como o AC Milan, o Inter ou a Roma, que têm outra responsabilidade no que à luta pelos primeiros lugares diz respeito. Resta saber até onde irá esta Atalanta e se uma presença no top-4 será uma realidade (as deslocações ao terreno de Lazio e Juventus serão testes de fogo), algo que poderia catapultar o clube para outro tipo de investimentos após uma subida competitiva gradual (há cinco anos a Atalanta andava a lutar pela manutenção). Por outro lado, ao lado desta excelente campanha no Calcio, há ainda espaço para ambicionar a conquista da Coppa Italia, um objectivo que o clube só alcançou no longínquo ano de 1963. Nesse sentido, estamos perante uma época que poderá ser histórica e recordada por muitos anos em Bérgamo, até porque não só estariam em causa resultados positivos, aquilo que comanda o desporto de alta competição, como também uma ideia de jogo positiva e que casaria bem com o sucesso.
Rodrigo Ferreira


6 Comentários
Antonio Clismo
Excelente texto.
Esta Atalanta é claramente um case-study no que toca à fórmula a seguir para fazer um grande campeonato com elementos transversais que vão desde ”scouting, investimento, planificação, exigência, qualidade do treinador e do elenco, jogadores comprometidos com a planificação e espírito de equipa inquebrável”.
Uma lição para as equipas pequenas que ainda pensam que vão lá com ”treinadores do pontinho” como o José Mota, Lito Vidigal, Inácio, Petit, etc.
Alguém que avise os presidentes da maior parte dos clubes da Liga que já não estamos nos anos 90.
José S.
Estou de acordo.
Mas deixa me realçar que muitas vezes uma mudança de treinador a meio serve mesmo para mudar paradigmas dando muitas vezes resultado (vejam lage..).
O aves andava meio perdido e olha a recuperação que Inácio fez e eu não sou propriamente fã. Claramente não foi só para o pontito…
Na próxima época é sempre outra época.
MegaBadjeras
Estive em Bergamo em Janeiro deste ano, e é uma cidade com especial encanto, na região da Lombardia. Em Bergamo é-se da Atalanta, apoia-se o clube da cidade, e estes adeptos de facto mereciam ir à Liga dos Campeões.
Bergamo lembra um pouco Guimarães na sua paixão. No entanto, é mais uma cidade estudantil, e com nuitos monumentos católicos.
Quanto ao Gasperini está-me a surpreender. Não o tinha em boa conta porque do não trabalho feito no Inter. Há treinadores que são bons em clubes de pequeno orçamento e não funcionam bem em clubes de grande, se calhar um pouco na linha do Ranieri.
Gunnerz
Sabes que estás a adorar uma equipa quando começas um save no FM com ela. E é espectacular.
Tive a oportunidade de ver no estádio um Milan X Atalanta no estádio à 4 anos e infelizmente era uma equipa totalmente diferente, é pena. Na altura ficou 0.0 sem um remate à baliza..
T. Pinto13
É sem dúvida uma das menores equipas para acompanhar.
Tiago Silva
O melhor ataque sem qualquer dúvida, já que nesta edição da Série A tem sido penoso ver as equipas a atacar. A Juve vive de individualidades, o Inter também, o Milan não se fala, a Roma é bola no Dzeko e mesmo a Lazio…
A Atalanta é uma equipa bem trabalhada, gosta de ter bola e de encostar o adversário, não os deixa confortáveis no jogo e gosta de atacar. Para além disso o seu processo defensivo está muito bem trabalhado e o seu recrutamento tem sido excepcional. A equipa surpresa da temporada das Big 5.