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Equipas B em Portugal – Uma dádiva para o desenvolvimento dos jogadores

A existência das equipas B é um fenómeno que integra o futebol do nosso país, ainda que não exclusivo do mesmo. Após algumas temporadas sem a presença das mesmas nos campeonatos profissionais (e extinção da maioria), foi dada a oportunidade do regresso de um certo número para a Segunda Liga, de maneira a integrarem a temporada de 2012/2013. As vagas seriam ocupadas pelos três “grandes”, SC Braga, Vitória SC e Marítimo, que nunca deixara de ter equipa secundária, embora estivesse em divisões inferiores. Apesar da medida ter sido um sucesso e bastante popular, na atualidade somente SL Benfica B e FC Porto B estão na mesma divisão onde começaram e o Sporting CP até colocou um término na sua, porém regressou com Frederico Varandas, embora esteja na Terceira Liga. Ainda assim, a presença de uma equipa secundária na estrutura do clube não é exceção destas equipas. Existem muitas outras que têm uma em sua organização e a chance de a aproveitar com relativa qualidade. Exemplos são o Rio Ave ou Varzim e até equipas da Terceira Liga, como o União Santarém ou Vitória FC entre muitas outras, mesmo de escalões mais baixos. Mas afinal, quais são os grandes objetivos e vantagens de ter esta equipa? Existem pontos positivos tanto para o jogador como para a instituição.

Para o jogador é uma oportunidade fantástica de defrontar elementos mais velhos e com maior experiência, mesmo que atuando num patamar menos exigente. O processo evolutivo é naturalmente distinto quando um jogador está a evoluir numa Segunda Liga/ Terceira Liga ou no Campeonato de Juniores, onde se confronta com adversários de idade similar e possivelmente de uma qualidade inferior. É um patamar perfeito antes de chegar ao plantel principal, longe de grandes pressões, concentrado na evolução de atletas e não nos resultados ditados pela classificação. Mesmo no caso de jogadores mais velhos é um beneficio que exista uma equipa B nos quadros do clube que representa, não havendo idade limite. Em caso de lesão pode regressar à forma nesse escalão ou até mesmo ganhar minutos uma situação de menor utilização na A. Claro que existe uma certa desconfiança por parte dos adeptos ao ver um elemento aparentemente mais reputado a jogar fora da equipa principal. Mesmo em um plano amador, a presença de uma equipa inferior na estrutura é útil para os jovens. Querem continuar a fazer desporto no mesmo clube, sabendo que não têm o nível de qualidade para a A, podendo quiçá desenvolver-se um pouco mais, numa idade em que praticar desporto é fundamental.

Para os clubes, a constituição de uma equipa B traz também uma série de lucros. Além do desenvolvimento dos jogadores da sua “cantera” poder ocorrer de uma forma mais veloz, logra integrar contratações de jovens com potencial, realizadas com critério. Ainda que a principal missão de uma equipa B seja formar jogadores e fornecê-los para os A, não é obrigatório se siga linearmente a ideia que todos os jogadores sejam da formação. Há muito jovem de qualidade em outros mercados que necessitam de ser integrados num novo campeonato e realidade. Se isso conseguir ser realizado fora da pressão de ganhar todos ou a maioria dos jogos, numa equipa em que o objetivo é evoluir, tanto melhor, como para o jogador, como para o clube. A partir de 2022/2023 a montagem da equipa B poderá ser distinta, já que a limitação de empréstimos assim o obriga. Os clubes com B’s vão poder ter mais jogadores sob contrato e a terem possibilidades de estarem dentro das quatro linhas. Já os que emprestam muitos atletas vão ter que efetuar algumas vendas, se não tiverem uma equipa em algum escalão abaixo.

Em alguns casos os adeptos acompanham muitos dos seus futuros craques nesse escalão. Muitos nomes são exaltados e os pedidos para que subam à equipa A são uma constante, em qualquer equipa. Por isso jogar nos B acaba por ser uma boa montra.

Naturalmente que existe a utilização incorreta de uma equipa B. Encher os seus quadros com jogadores sem a qualidade necessária ou oriundos de “negociatas obscuras” leva a críticas dos próprios adeptos e da comunicação social em geral. É cada vez é mais simples para os comuns mortais saberem se o jogador tem ou não capacidade para chegar a uma equipa A, mesmo sem a sua utilização em Portugal, com a visualização de vídeos no Youtube (ou falta deles, o que não é bom sinal) ou até mesmo a assistir a partidas onde o jogador atue. Felizmente em Portugal, a maioria das B são usadas corretamente e não como jogadas de empresários com a conivência de dirigentes.

Um outro fenómeno que a integração da equipa B na estrutura de um clube trouxe, especialmente nos chamados “grandes”, foi a constante disputa de jovens para as integrar, que estão em território nacional. Bastava que um ou outro jovem ganhasse algum destaque nos nossos campeonatos que passava a ser associado a equipas de maior valia, ainda que nunca para integrarem o escalão máximo. Exemplos são Samuel Pedro, Alex Pinto, Chidera Ezeh, André Pereira, Gazela ou Diogo Nunes. Em alguns destes casos, o processo evolutivo muito possivelmente teria sido maior se se mantivessem nos clubes onde jogavam. Nenhum destes jogadores citados é titular pela equipa que foi contratado e somente Samuel Pedro faz parte dos quadros do SL Benfica, embora esteja emprestado ao Sporting da Covilhã. A lista deste estilo de contratações conta com poucos casos de sucesso. Possivelmente o nome mais interessante que se integre neste género de contratações seja o de Matheus Nunes que ainda esteve algum tempo nos Sub-23 (o Sporting não tinha equipa B na sua chegada), contratado quando aparecia no Estoril Praia, com o seu tempo dividido entre plantel principal e Sub-23. Com as equipas de scouting tão bem desenvolvidas e trabalhadas que existem atualmente, muitos dos jogadores nacionais com potencial saem para as formações de equipas maiores ou mais poderosas muito antes de terem idade para uma equipa B, como aconteceu com nomes marcantes da nossa história futebolística. Claro que o processo evolutivo dos jogadores não é igual, havendo algumas ocasiões em que os seus nomes só aparecem numa fase mais adiantada das suas carreiras.

Os clubes em Portugal têm mostrado que a fórmula é um sucesso. Nesta época, as equipas B estão intimamente ligadas ao momento e futuro das A. No Sporting CP a subida de jogadores é uma constante, com Rúben Amorim. No FC Porto muitos elementos que passaram pela equipa “satélite” integram o 11 titular, como Diogo Costa, Vitinha ou João Mário. Mesmo outros atletas que serão futuros protagonistas como Fábio Vieira ou Francisco Conceição têm uma passagem pelo FC Porto B. Na Luz, o regresso à aposta na formação para solucionar a crise que se está a atravessar é a grande opção para Rui Costa e restante estrutura. Nomes como Tomás Araújo ou Paulo Bernardo arrancaram a época na equipa B e são bem mais acarinhados que alguns dos elementos que estão na equipa principal, com salários bastante elevados para a qualidade que têm prestado. A chamada de Nelson Veríssimo para suceder a Jorge Jesus é mais uma prova de confiança existente no escalão inferior (resta saber se o mesmo a irá aproveitar). Uma ressalva também para o Sporting de Braga que tem chamado constantemente elementos da equipa B que se integram com facilidade na A, como Bruno Rodrigues, Gorby Baptiste, Vitinha (Vítor Oliveira) ou Rodrigo Gomes, juntando a nomes como Francisco Moura ou David Carmo, provando que em Braga vive uma das melhores formações em Portugal e com eximia capacidade de aproveitamento da sua B.

A criação do Campeonato Sub-23 (Liga Revelação) veio ajudar a formação dos atletas. Numa estrutura em que exista equipa B e Sub-23, a quantidade de jogadores que a integram é de um elevado número e o leque de competições para o jogador poder crescer é muito maior (Roger Fernandes já atuou por SC Braga, SC Braga B e Sub-23, por exemplo). A grande problemática é que este campeonato é fechado, não havendo possibilidade para todas as instituições o integrarem, além de que é destinada a jogadores com menos de 23 anos, não havendo elementos mais experientes.

Ao longo da última década são bastantes as referencias que nos vêm à memória para justificar o sucesso das equipas B e a constante subida de seus jogadores para os A, mesmo que seja apenas para estar com a equipa durante a semana. Com Leonardo Jardim, em 2013/2014 no Sporting CP muitos jogadores eram integrados nos treinos e conseguiram algum tempo de jogo. Carlos Mané e Eric Dier são os maiores exemplos, mas jogadores como Esgaio (grande época nos B) e Iuri Medeiros chegaram a estrear-se. Nessa equipa B jogou João Mário, até Janeiro. Já do outro lado da Segunda Circular, Bruno Lage foi possivelmente o maior troféu da equipa B, na temporada 2018/2019. Quando chegou à A, já Rúben Dias era titularíssimo desde a época anterior e João Félix a grande estrela, mas promoveu Florentino Luís e Ferro, levando o SL Benfica ao título, que na sua chegada era uma miragem. Já a norte, destacar o Vitória SC de 2012/2013 que venceu a Taça de Portugal, que contava com Paulo Oliveira, Kanu, Ricardo Pereira e Tiago Rodrigues como grandes destaques oriundos da equipa B e uma série de jogadores que crescia por lá (e atuava pontualmente pela A) como Josué Sá ou Hernâni, sendo Guimarães uma bela fonte de formação (André Amaro, André Almeida e Tomás Handel são as atuais jóias, mas existem mais para o futuro).

Apesar do grande objetivo ser formar jogadores, as B já lançaram para protagonistas elementos das equipas técnicas. Além de Bruno Lage ou Rúben Amorim, Abel Ferreira está a realizar uma bela carreira, reconhecida internacionalmente. Mesmo Armando Evangelista fez um trabalho bastante satisfatório no Vitória SC B, mas na equipa principal não conseguiu o mesmo sucesso. No entanto a sua promoção à A é uma evidência do seu bom esforço e o trabalho realizado em Penafiel e Arouca um sinónimo de qualidade.

A grande dúvida que fica é: será que se as equipas B não tivessem desaparecido, certos jogadores tinham virado craques e confirmado certas expectativas? Nomes como André Carvalhas, Carlos Saleiro (ainda aproveitou o Sporting B em 2003/2004), André Marques, Paulo Renato, Rabiola, Diogo Viana ou os malogrados Tengarrinha e Luís Paéz podiam ter tido trajetórias substancialmente superiores às que tiveram caso os seus desenvolvimentos tivessem sido feitos em “casa”, num patamar inferior, mas tranquilo. Consecutivos empréstimos em divisões inferiores podem ter maus resultados como ocorreu em alguns destes casos e serem sempre rotulados como ex promessas. Claro que as equipas B têm a sua quota parte de flops. Ainda assim com uma equipa B que seja bem aproveitada, os jogadores têm mais probabilidade de sucesso, havendo uma maior probabilidade do seu ocaso ser oriundo de incapacidade fora das quatro linhas (descontemos os atletas que não atingiram o nível desejado por alguma lesão mais profunda, como no caso de Mauro Riquicho).

 Em suma, as equipas B em Portugal fazem todo o sentido, em caso de correta utilização da mesma, na medida que somos um país que forma uma elevada quantidade de jogadores que quando estão mais maduros podem atuar nas “Big 5” e ter sucesso na nossa seleção (quantos elementos das últimas convocatórias passou por lá? A maioria). Somos um campeonato vendedor e não comprador. Nem todas as instituições têm capacidade de integrar este escalão, essencialmente devido aos seus gastos. Ainda assim é sempre interessante ter uma equipa com muitos jovens, nem que seja nas divisões distritais (neste caso para clubes onde o seu plantel principal não atue na Primeira Liga). O mesmo se aplica a outras modalidades, como no futsal, onde os atletas podem continuar a crescer num ambiente que já conhecem. O regresso das equipas B, há dez anos atrás, resultam numa vitória para Portugal.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

11 Comentários

  • MiguelBionas
    Posted Fevereiro 4, 2022 at 7:51 pm

    E as associações ja estão a criar campeonatos distritais de sub23, e se for pra seguir a dinâmica dos campeonatos de formação será mais uma evolução.

  • Antonio Clismo
    Posted Fevereiro 4, 2022 at 6:57 pm

    Faz falta um debate mais profundo sobre os mecanismos a implementar no nosso futebol para aumentar a captação de jovens (cada vez menos fazem desporto e o problema da obesidade e sedentarismo começa a ser geral), melhorar a formação, triagem e desenvolvimento ao longo das idades formativas.

    Além disso também melhorar as equipas técnicas e treinadores que trabalham na formação.

    Deram um tacho ao José Couceiro na FPF para fazer esse trabalho e só aparece de ano a ano para sar uma entrevista qualquer..

    O josé couceiro é o joão gil do futebol..

  • Tiago Silva
    Posted Fevereiro 4, 2022 at 4:07 pm

    Excelente artigo, na qual concordo na integra. No entanto, acho que deveriam haver mais regras de forma a tornar os campeonatos mais equilibrados, é que as equipas B são ótimas para desenvolver jogadores, mas não nos podemos esquecer que estão integradas com outras equipas que têm a sua “vida” em risco. Por exemplo, o Benfica B há uns anos esteve perto de descer de divisão e por isso recorreu a mais elementos da equipa principal para poder salvar a equipa B, o que acabou por dificultar a vida das equipas que jogaram a fase final do campeonato contra eles.

    Penso que deveria haver mais regras, não sei como é agora, mas deveria haver regras tipo um máximo de 2/3 jogadores com mais de 23 anos a atuar na equipa B durante a época. Outra regra que poderia ser implementada é um máximo de jogadores estrangeiros de forma a evitar a colocação de ativos provenientes de negociatas manhosas a desenvolverem-se na equipa B.

    • Ricardo Lopes
      Posted Fevereiro 4, 2022 at 8:03 pm

      Era muito interessante essa regra a evitar as “negociatas manhosas”, ainda assim esses jogadores podem jogar na mesma nos sub 23 (se tiverem idade para tal).

    • Manel Ferreira
      Posted Fevereiro 4, 2022 at 5:53 pm

      Já existe essa regra de um limite de 3 jogadores com mais de 23 anos, sim. E também existe a regra de que um jogador só pode alinhar na equipa A ou B 72 horas depois de ter feito um jogo na outra equipa (os jogos das Taças são exceções).
      Achei interessante o teu post, não é muito comum alguém pensar nesta questões do ponto de vista dos “outros clubes” mas por exemplo, em Espanha essa questão foi sempre bastante polémica (agora menos, porque não tem havido mais que uma equipa B na Smartbank, e às vezes até nenhuma).

      • Tiago Silva
        Posted Fevereiro 5, 2022 at 12:49 pm

        Exato Manel, muitas vezes pensa-se nessas equipas é só se pensa no topo, mas não nos podemos esquecer do desenvolvimento dos jogadores em patamares mais a baixo do nosso futebol. Equipas podem descer por causa disso mesmo e afetar o desenvolvimento dos seus atletas. Eu estou de acordo com as equipas B, mas tem que haver um equilíbrio.

        Quanto à regra ainda bem que já existe, obrigado pela informação.

      • Goncalo Silva
        Posted Fevereiro 4, 2022 at 6:44 pm

        Manel, essa regra do máximo de 3 jogadores na equipa B é no 11 onde durante toda a época?

  • João Ribeiro
    Posted Fevereiro 4, 2022 at 4:03 pm

    Bom texto que, de uma forma geral, enumera as várias vantagens das equipas B para os clubes e jovens em Portugal. Faço só um reparo: o Rio Ave já não possui equipa B.

    Gostaria também de destacar a grande importância da criação do campeonato Sub-23. A criação deste espaço competitivo permitiu a que muitos jovens promissores de equipas maiores, ao subir de júnior para sénior, não tivessem que ficar um ano na sombra de um outro elemento de grande potencial que estivesse ainda na equipa B. Agora, quando uma equipa possui dois elementos de grande potencial para uma mesma posição, não tem de fazer uma escolha entre um ou outro no imediato porque ambos têm espaço para fazer o seu desenvolvimento. Para além de ter dado espaço a jovens que estavam tapados noutras equipas, e aqui o caso mais flagrante é o Estoril, que usa os sub-23 para aproveitar jovens como o André Franco ou Chiquinho.

    • Ricardo Lopes
      Posted Fevereiro 4, 2022 at 8:00 pm

      É verdade, lapso meu. Ainda assim o Rio Ave tinha uma decente nos campeonatos nacionais… Recordo-me do Costinha que fez alguns jogos o ano passado. Mas se a aposta forte é a equipa sub 23 fizeram bem.

    • Francisco Ramos
      Posted Fevereiro 4, 2022 at 5:11 pm

      João,

      Só uma nota, se me permite. É normal que o Estoril use a equipa sub-23 para os melhores talentos, visto bem, a equipa B está na 3ª divisão distrital. Ou seja, 6 escalões entre a 1ª liga e esta divisão na totalidade, pelo que é preferível usarem outra equipa para os melhores jogadores.

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