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Escola da Rua

Ao longo dos últimos anos, o futebol tem sofrido diversas mudanças. Com o crescimento da urbanização, a tecnologia cada vez mais avançada e acessível à população, as crianças tendem a ficar em casa ligadas a videojogos e a redes sociais em detrimento de irem brincar para a rua, onde se encaixa o futebol de rua, aquele futebol mais “anárquico” sem orientações e com muito virtuosismo à mistura. Por vezes, os campos eram meras estradas de alcatrão e as balizas eram feitas com peças de roupa ou acessórios encontrados na rua. O jogo acabava quando o dono da bola tinha de ir embora ou quando deixava de haver iluminação. Já dizia o filósofo francês Jean Jacques Rousseau “A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem adultos. Se modificarmos esta ordem natural, colheremos frutos sem sumo.” Com isto, quero dizer que a criança em vez de descobrir o jogo num meio livre e sem regras explicitas, começa por descobrir logo em campos de futebol e com métodos que não correspondem ao que idealizam, desajustados às suas capacidades físicas e mentais em muitos casos.

Desse mesmo futebol de rua, nasceram craques como Ronaldo “Fenómeno”, Riquelme, Eto’o, Ronaldinho, Tévez (recentemente a sua infância foi retratada numa série televisiva), Luís Figo e muitos outros.

Com os clubes e escolas de futebol a começarem com escalões cada vez mais baixos, esse futebol com instrução técnica está cada vez mais a substituir o futebol de rua, sendo que muitos dos jovens começam a ser trabalhados no futebol desde bem cedo.

No futebol de formação, muitas das vezes, dá-se prioridade aos resultados ao invés da formação dos atletas. Hoje em dia, castra-se talento em prol de resultados e isso é prejudicial. Em diversas realidades, treinadores proíbem atletas de fintar ou de sair a jogar curto a partir de trás, para que não coloquem a equipa em risco provocando a abolição o erro de forma forçada, sem que o atleta aprenda com as consequências negativas do ato. Devido a esses fatores, os jogadores de futebol nos dias de hoje são cada vez menos diferenciados e mais formatados. O talento puro que se desenvolvia nas peladinhas da rua está a desaparecer e nota-se que há cada vez menos virtuosismo no futebol.

No futebol de rua, os atletas desenvolviam bastante as capacidades técnicas e cognitivas da modalidade, sendo obrigados a pensar para resolverem os problemas que o jogo lhes dava. Muitos dos problemas do futebol de formação na atualidade, devem-se ao facto dos formadores darem as soluções aos atletas ao invés de os conduzirem a chegar às mesmas através do seu cognitivo.

Consequência de tudo isto é cada vez haver menos jogadores desequilibradores que arriscam no 1×1 e cada vez mais os jogadores são “robôs” formatados por treinadores. Aquele número 10, que pega na bola e inventa está em vias de extinção, tal como aquele extremo que senta os adversários no chão com os seus dribles estonteantes.

Defendo que os escalões de formação não devem terminar, simplesmente deveriam ser moldados para que a realidade, que em tempos foi um complemento à formação do jovem jogador, volte a dar frutos. O caminho pode ser dentro da formação, principalmente nos escalões mais introdutórios, haver uma simulação de um jogo mais livre sem instrução e dando maior liberdade aos jovens para que estes decidam, cometam erros e aprendam com os seus erros, tentando recriar um pouco da antiga “Escola da rua”.

Visão do Leitor: Bruno Galvão

12 Comentários

  • Bracaro
    Posted Abril 16, 2020 at 9:59 pm

    [decom_attached_image_1587070753083]

  • Mantorras
    Posted Abril 14, 2020 at 4:21 pm

    O meu puto comeca agora a ter idade para dar uns toques, e o melhor era mesmo ele jogar com miudos do tamanho dele, mas hoje essas condicoes sao dificeis de proporcionar. Eu nao quero pagar para o meu puto ir jogar para uma escolinha(!), fazer do futebol uma obrigacao e ir la levar o rapaz para ir fazer uns exercicios com um treinador e os coleguinhas e depois traze-lo para casa. O futebol, enquanto crianca, nao e uma coisa que se paga para fazer… nao e ir treinar, e o desporto do povo porque se pega numa bola e se joga em qualquer lado!

    Nao e algo que se leva “assim tao a serio” como uma obrigacao, a hora de jogar a bola e “logo a seguir” a comer a pressa e sair a correr para dar mais uns chutos. Nao ha “treinos”, com hora marcada, neste e naquele dia… e so uma forma de brincar. Um divertimento.

    Enquanto miudos, era igual jogar ao meiinho, a parede… ou estar simplesmente 1h ali a passar a bola entre amigos, em conversa, em que cada vez que a bola te chega fazes um truque, ou metes mais estilo no passe… Uma brincadeira!

    “Na minha infancia” pegava-se na bola e ia-se para a rua (no meu caso, era so saltar o muro da minha avo), nao havia formalidades e toda a gente arranjava alguem com quem jogar. Os miudos “novos” eram rapidamente colocados contra a parede com a pergunta “e jogas bem”? “Entao vais para equipa deles para ficar equilibrado (se nao ficasse rapidamente se ajustava).

    “A rua”, neste caso, era um parque atravessado por um caminho de paralelo, mais ou menos em cruz, que funcionava como separador e dividia a coisa em 4, e que foi transformado em 3 “campos”.

    – Um deles, maioritariamente para jogar “baliza a baliza”, tinha duas balizas diferentes (lol), uma era um semi-circulo preso no chao, ruina do outrora parque de diversoes (esses com escorregas e assim) que ali tinha existido (mas que tinha sido literalmente arrancado). Era fixe, porque de todas, era a unica baliza com trave(!), por isso usavamos para jogar aos sofridos, ou aos chapeuzinhos tambem. A outra baliza, ao fundo, era entre duas arvores. O chao era um misto de areia e terra, mas tinha algumas pedras (que ja estavam “marcadas”).

    – Em frente, a seguir a esse, havia outro… este era so meio campo, porque um dos lados do campo, onde seria a outra baliza, era encostado a umas casas com uns muros muito baixos (as casas eram fundas, e o chao das casas comecava tipo uns 2m abaixo do nivel do campo) e a bola acabaria sempre por la ir parar e o senhor era “mau” e nao devolvia as bolas, ou quando o fazia vinham furadas… No entanto, o piso era relva (selvagem sim, mas relva na mesma!), logo era a unica baliza onde fazer altas estiradas nao magoavam, onde podias mergulhar e cabecear a peixinho… Ai jogavamos aos “centrinhos”. Um a cruzar, um GR e dois na “area” (se houvesse conta certa).

    – Havia um espaco com gravilha (pedregulhos mesmo), mas este nao era campo… servia para dar uns toques, treinar acrobacias, jogar aos passes longos ou sem deixar cair numa rodinha onde ficavamos a conversar.

    – Depois, do lado esquerdo, encostado a parte (alta) traseira de umas casas, e como tal dificil de “mandar a bola pra casa”). Este campo tinha “o melhor chao”, uma especie de pelado, uma areia amerelinha e mais lisa, mais regular que os outros, e alem disso, tinha a forma de um rectangulo grande e quase perfeito. Ali faziam-se as balizas com pedras, ou com o que por ali havia, e marcava-se no chao (riscando com os pes) a linha de fundo e a linha da baliza. Ali nao havia tanta javardice. Para comecar havia cantos :) e jogavam-se peladinhas que se tornavam autenticos classicos, geravam-se as primeiras rivalidades e os golos festejavam-se a serio. As vezes a malta chateava-se… as canelas doiam e esfarrapavam-se maos, cotovelos, joelhos. Num dia qualquer, eram normalmente 3 equipas a rodar, quem perdia (ate aos 2) saia fora, outras vezes faziam-se mais equipas e jogava-se com balizas pequenas dividindo o campo em 2, so valia marcar dentro da area e nao valia GR. Depois, dias existiam onde “os grandes” jogavam a dinheiro, e so alguns dos pequenos eram escolhidos, so os melhores se nao houvesse grandes que chegassem (isto ate depois chegar a nossa vez de ser grandes). Outras vezes havia jogos entre ruas e este campo era onde a nossa rua jogava “em casa”. Juntava-se alguma gente a ver, porque quem la vinha jogar (estavam a jogar fora) trazia sempre malta para ver, e nos tambem tinhamos os nossos adeptos(!).

    Por este parque passaram alguns craques, e em muitas outras ruas se fizeram outros… mas hoje as criancas so podem jogar em sitios muitos especificos.

    • Bruso
      Posted Abril 17, 2020 at 8:52 am

      O artigo está muito bom e reflecte a minha opinião mas os teus dois primeiros parágrafos são ainda melhores. Só nesse aspecto já se está a tirar espontaneidade às crianças. Infelizmente é o mundo actual e sempre é melhor isso que ficar em casa o dia todo na TV.

  • pcyrne89
    Posted Abril 14, 2020 at 3:30 pm

    Cada vez será mais dificil termos um Ronaldo Fénomeno, Ronaldinho.. etc. Isto porque os clubes vão exigir cada vez mais que os jogadores tenham outras caracteristicas mais colectivas e voltadas para a equipa, do que apenas as caracteristicas individuais como drible, técnica, virtuismo..
    Em Portugal o maior exemplo que temos desse jogador que evoluíu do futebol de rua para uma máquina é mesmo o CR7.
    Tudo bem que a idade e a gestão física que ele passou a ter de fazer também o obrigou a mudar o seu estilo, mas isso só por si não explica o jogador que ele é hoje face ao que era há 15 anos atrás no Manchester United.

  • Af2711
    Posted Abril 14, 2020 at 2:49 pm

    Antigamente o repertório de comandos motores em decorrência de campos ruins, asfaltos, etc.. eram muito maiores, porque o jovem tinha de se adaptar às condições adversas. Nas condições atuais ainda saem alguns craques porque também se propicia um jogo mais vistoso. Porém, a evolução do jovem é diferente (faz muito menos recreações, brincadeiras com amigos ou brincadeiras de rua) e hoje é muito mais virtual. O próprio futebol também é diferente, e as formações de atletas também. Não há mais tanto espaço para magia nos iniciados, taticamente são moldados às vezes à filosofia de um clube.

  • Tiago Silva
    Posted Abril 14, 2020 at 2:44 pm

    Tudo dito! Quantos talentos se perdem simplesmente porque perdem amor ao jogo logo no inicio, por não jogarem como gostam? As crianças têm que ser livres, brincar com a bola e amar o jogo antes de entrarem em competição. É daí que vem a sua criatividade e a sua irreverência e é aí que se descobrem os melhores dos melhores.

    Infelizmente, o futebol está cada vez mais formatado e estático, sem espaço para a magia e a imprevisibilidade, em termos individuais. Não deixem o futeol de rua morrer!

  • Joga_Bonito
    Posted Abril 14, 2020 at 2:36 pm

    Sem dúvida.
    O ideal é como diz o Estigarribia, haverem campos pelados, nas formações. Era bom que existissem relvados acidentados, negligenciados de propósito e inclusive tendo pisos que não só relva, mas alcatrão e quadra de futsal. Aprender a controlar a bola em qualquer superfície é que faz um craque, não esta treta de academias onde os jogadores são demasiado formatados, demasiado apaparicados.
    O problema não é existirem sistemas de formação, é a forma como eles se deixaram levar pela lógica de ganhar a todo o custo. Quem quer saber se ganhamos taças em sub-12? Atá entrarem na equipa principal, o que devem fazer é divertir-se e adquirir competências com a bola, não tornarem-se robots.

    • Estigarribia
      Posted Abril 15, 2020 at 11:06 am

      Joga_Bonito,

      Tudo dito. Foi nos pelados que lendas como Eusébio, Pelé, Maradona, Jordão ou Chalana também se fizeram jogadores. O que seria destas lendas todas se tivessem sido formatados nas Academias de futebol? Muito provavelmente seriam jogadores robotizados pelos treinadores e que não teriam liberdade para explanarem a sua qualidade individual em prol da equipa.

      Saudações Leoninas

    • Turiacus
      Posted Abril 14, 2020 at 4:54 pm

      Bons tempos, jogar e treinar nos campos pelados lamacentos e cheios de poças nos tempos de chuva! Recordo-me que quando era miúdo só havia um campo onde ia jogar que tinha sintético, o resto era tudo pelado.
      Mas no meu 2º ano de infantis (isto há cerca de 14 anos atrás) já nos limitavam um bocadinho, era central e recordo-me no meu primeiro treino num clube de um bairro cá de Braga em que recupero a bola e saio a jogar com um passe curto e o treinador chama-me à parte… “Muito bem jogado! Mas eu não quero ver isto nos jogos, és central tens é que bater na frente…”

      • Estigarribia
        Posted Abril 15, 2020 at 11:08 am

        Turiacus,

        Ainda hoje eu gosto de jogar em campos pelados. E quanto mais sujo melhor. Quando era mais novo e jogava futebol com os meus primos, eu ia à baliza e atirava-me mesmo para o chão também só para imitar o Ricardo, na altura em que ele esteve no Sporting era o meu guarda-redes preferido.

        Saudações Leoninas

        • Turiacus
          Posted Abril 15, 2020 at 8:17 pm

          Eu também adorava jogar em pelado, dava um gozo do caraças! Treinar então ainda me dava mais quando havia poças, era a picar-me (na brincadeira claro) com os meus colegas de equipa para os mandar ao banho ahahah
          E concordo convosco, essa mentalidade de que falam devia mudar! Dar mais liberdade aos miúdos, não os tornar logo “robôs” e dar-lhes liberdade criativa nos treinos e jogos.

      • Joga_Bonito
        Posted Abril 14, 2020 at 4:57 pm

        É essa mentalidade que tem de mudar e os clubes podem mudar isto, basta quererem.

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