Jogou-se ontem o segundo round do combate entre os dois emblemas que protagonizam a maior rivalidade do futebol em Portugal. O derby eterno é um jogo de paixões, acentuadas pela proximidade dos seus adeptos e dos seus estádios.
A linguagem bélica empregue nas antevisões e nos rescaldos não me merece, à partida, grandes objeções: sinal dos tempos, em que os jargões de guerra tomaram de assalto a nossa semântica. De pé atrás fico quando estes termos se metamorfoseiam em atos; em palavras soltas para ferir, como se o gafanhoto de saliva que às vezes não se controla ganhasse uma tonalidade encarnada, da cor do sangue. Das redes sociais às televisões, passando pelos jornais, todos cultivamos um ódio ao que é diferente, não parando para pensar no quão melhor seria tentar compreendê-lo, respeitá-lo e rir com ele, deixando para trás a pulsão irracional de rir dele.
Vem isto a propósito de cinco miúdos que podiam recriar um clássico da literatura infantojuvenil da inglesa Enid Blyton, mas que os imaginei como protagonistas de um clássico da sétima arte. Não me interpretem mal: nunca aspirei a ser realizador. Um dia pensei em trabalhar no clube de vídeo duas ruas acima da minha, mas foi o mais perto que estive de pisar o Passeio da Fama.
De qualquer forma, se os irmãos Coen me perdoarem a ousadia, em No Country for Old Men (Este País Não É para Velhos) do meu imaginário, Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Josh Brolin e restante elenco dão lugar a Luís Maximiano, Luís Vieira da Silva, Miguel Luís, João Filipe “Jota” e Diogo Dalot. Com um enredo ligeiramente diferente do original – candidatando-me ao Óscar de Melhor Argumento Adaptado -, estes cinco jovens transportam nas chuteiras e, sobretudo, na cabeça talento, bom senso e camaradagem, em detrimento de uma mala cheia de dinheiro sujo de sangue. Os psicopatas que os seguem são os diretores de comunicação, os comentadores televisivos e os velhos fanáticos de uma modalidade cada vez mais conspurcada por quem devia valorizá-la. Os microfones e as redes sociais tomam o lugar da bilha de ar comprimido que o vilão usa como pistola e a chacina vai-se desvalorizando aos olhos de quem assiste diariamente a este fenómeno, de desrespeito pelo adversário. Nesta história, o leitor e adepto de futebol assume o papel do xerife descrente e resignado com a regressão dos valores éticos e pessoais que outrora imperavam entre rivais.
Dia três de abril, aquando da 2.ª mão das ‘meias’ da Taça, quando estivermos entre amigos que envergam camisolas de uma cor diferente da nossa, que sejamos todos jovens como o João, o Diogo ou o Miguel.
Visão do leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): Miguel Araújo


9 Comentários
Estigarribia
Grande texto, Miguel Araújo. Dou-te os meus parabéns pelo texto.
Enquanto lia este artigo, ainda que no telemóvel, dei comigo a pensar que o futebol português precisa de uma “limpeza a fundo”, se for preciso de aspirador, e tirar de cena certas e determinadas personagens que conspurcam o futebol português (e, sim, refiro-me a Francisco J. Marques, Luís Bernardo, António Salvador, entre outros). Mas não é só neste tipo de intervenientes que é necessário uma limpeza: as televisões também poderiam acabar com programas “pseudo-desportivos” que só promovem ódio e violência, de forma, gratuita e que também promovem seres execráveis, como Manuel Serrão, Pedro Guerra, Octávio Machado, José Pina, Octávio Lopes, André Ventura, Aníbal Pinto, etc, etc.
Façam mais programas desportivos, no verdadeiro sentido da palavra, como, por exemplo, o Mais Futebol, o Titulares ou o Grande Área (julgo que é assim que se chama o da RTP3). Bem sei que é difícil, senão mesmo impossível, as televisões acabarem com os “Prolongamentos” desta vida, mas esse, enquanto adepto de futebol, é um dos meus maiores desejos. Que o futebol seja vivido com paixão, mas que essa paixão não se transforme em ódio e violência.
Quando houve o ataque à Academia de Alcochete pensei que o futebol português pudesse mudar para melhor, mas, pelos vistos, continua a mesma porcaria de sempre e com os intervenientes de sempre. Não adiantou de muita coisa fazer desaparecer o Bruno de Carvalho (um dos principais instigadores de ódio) se foi para deixar cá todos os outros indivíduos.
Saudações Leoninas. Que vivamos cada jogo com paixão pelo futebol e que deixemos os ódios, guerras e violências fora dos relvados.
Antonio Clismo
Estes 5 miúdos exemplificam muito bem a grande geração que aí vem. Além da qualidade futebolística ainda são humanos muito bem formados.
Guarda Redes:
Diogo Costa
João Virgínia
Luís Maximiano
Ricardo Benjamim
Dylan Silva
Ricardo Silva
Rogério Santos
Lateral Direito:
Diogo Dalot
Thierry Correia
Costinha
Rafael Camacho
João Oliveira
Lateral Esquerdo:
Ruben Vinagre
Francisco Moura
Amílcar Silva
Nuno Tavares
Centrais:
Diogo Queirós
Diogo Leite
Luis Silva
Gonçalo Cardoso
Gonçalo Cardoso
David Carmo
Romain Correia
Pedro Justiniano
Pedro Álvaro
Tiago Djaló
Vasco Cunha
João Serrão
Médio Defensivo:
Florentino
Pina
Daniel Bragança
Pedro Pelágio
Duarte Valente
Afonso Brito
Médio Ofensivo:
Domingos Quina
Gedson Fernandes
João Félix
Nuno Santos
Miguel Luís
Romário Baró
Diogo Teixeira
Miguel Reisinho
Diogo Pinto
David Tavares
Extremos:
João Filipe (Jota)
Francisco Trincão
Pedro Neto
Mésaque Dju
Diogo Brás
Elves Baldé
Rafael Leão
Pontas de Lança:
Pedro Martelo
Leandro Cardoso
Mickael Almeida
Pedro Mendes
Fábio Silva
Francisco Torgal
Colocaria aí também o Tomás Tavares, lateral direito do Benfica.
Isabel II
Mencionaste 55 nomes e ainda te conseguiste esquecer de alguns como o Filipe Soares do Estoril ou o Zé Gomes do Benfica. Ainda assim é sem dúvida uma excelente geração.
Desses 55 consigo contar uns 15 que já se estrearam pelas suas respectivas equipas profissionais.
O sistema da Liga Portuguesa não é muito amigável para apostar assim em gente nova sem experiência, mesmo que sejam os maiores talentos (geralmente faltam ‘bolas” aos treinadores e dirigentes para apostarem na irreverência. O risco é muito grande. Mas tenho a certeza que se não houvessem descidas de divisão, a aposta continuaria a ser reduzida. Falta de visão e gestão danosa, no mínimo.
Vejam o caso do Gil Vicente que este ano está a jogar a berlindes e nem assim tiveram coragem de apostar em mais do que 3 ou 4 jovens.
Destes 55 jovens, metade nunca vai chegar onde esperaria chegar. É normal. Más escolhas, baixas de rendimento, azares, imaturidade, maus conselhos, etc etc.
Mas tenho a certeza que pelo menos 10 chegarão a equipas de top5 Europeu (Dalot foi o primeiro a chegar a este nível, mas outros irão a seguir, não tenho dúvidas disso, passinho a passinho, o caminho vai-se fazendo).
E esta ficará na História como a verdadeira geração de Ouro. Muito melhor do que a geração de João Vieira Pinto, Figo e Rui Costa. Basta trazerem o caneco sub20 já em Junho e a História vai-se escrever sozinha.
Tiago Silva
Faltou-te o Tomás Tavares. Quero destacar o Pedro Pelagio do Marítimo que é menos conhecido, mas que tem muita qualidade. Gostaria que o Benfica o contratasse para fazer o lugar do Florentino na equipa B.
hugo7
Falta claramente a dupla talentosissima doo meio campo do Porto: Vitor Ferreira e Fabio Vieira
hugo7
E João Mário, extremo junior que já marca pela equipa B do Porto não conta?
TheWatcher
Este texto está genial, não costumo ler muitos destes por aqui mas a analogia cinematográfica captou-me a atenção e não desiludiu. Parabéns!
RicardoFaria
Excelente texto!
Infelizmente, há muita gente que não sabe o que é o futebol e por esse motivo há tantos problemas graves no nosso país.
Por vezes até é mais engraçado ver um jogo com um adepto rival porque assim podemos brincar, etc..
Saudações DesPortistas!