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O estranho caso de Vítor Magalhães – Herói ou Impostor de um projeto?

O Moreirense Futebol Clube tem ganho protagonismo durante o século XXI na Primeira Liga. A sua presença nos últimos anos tem sido uma constante, ainda que não apresentando resultados fantásticos de forma seguida. O crescimento do clube de Moreira de Cónegos muito se deve a Vítor Magalhães, empresário de 70 anos, intimamente ligado ao futebol minhoto, não só pelas mãos da instituição que lidera atualmente.

No Mundo do Futebol muitos são adeptos do trabalho realizado pelo vimaranense, no entanto também há bastante margem para criticas. Se no Moreirense o resultado é positivo e para recordar em certos pontos, no Vitória Sport Clube a conversa já é bem distinta. A sua passagem fica inevitavelmente marcada pela queda à Segunda Liga, na temporada de 2005/2006. Três anos depois de derrotar o seu primo Manuel Almeida, acabara por sair pela porta pequena, em 2007. A opinião dos adeptos perante o seu trabalho não é favorável, preferindo relembrar-se outros presidentes que marcaram a história dos vimaranenses.

O seu regresso a Moreira de Cónegos acontece na época de 2008/09, num clube em um estado bastante distante do que deixara em 2003/2004 (foi presidente da instituição desde 1996/1997 até essa época). Se abandonara o clube na Primeira Liga, voltou a encontrá-lo na Segunda Divisão B ou seja, dois escalões abaixo e fora do profissionalismo. Foi uma questão de três temporadas para regressar ao principal escalão. Desde 2014/15 que estão na Primeira Liga, guiados ao topo da estrutura do nosso futebol por Vítor Oliveira e Toni Conceição.

O Moreirense ao conseguir estabilizar-se no escalão máximo do futebol português, deveria pensar mais além, em objetivos superiores, com um crescimento crescente e baseado na sustentabilidade. Ao revermos as classificações da tabela desde 2014/15, os Cónegos aparecem por três vezes na primeira metade da tabela, precisamente as três ultimas temporadas. O sexto lugar conseguido em 2018/19 é o exponente máximo, justificado pelo bom trabalho realizado por Ivo Vieira. As duas seguintes épocas foram igualmente satisfatórias com dois oitavos lugares, relativamente longe dos rebaixados, liderando (ou estando bem perto) os terceiros pelotões das classificações ocorridas. Então qual é o grande problema de Vítor Magalhães e do Moreirense? A olho nu, visualizando somente os números, não ocorre nenhum. Mas se formos a ler e ouvir opiniões de especialistas e a acompanhar as épocas da equipa, poucos ou nenhum colocam o Moreirense Futebol Clube numa luta que não seja a da manutenção, quando realizam uma previsão da seguinte época desportiva, contrariamente ao que acontece com outras equipas como o Paços de Ferreira ou o Famalicão, por exemplo. Os planteis montados por Vítor Magalhães têm inclusive alguma qualidade, alojando ao longo do tempo nomes como Filipe Soares, João Palhinha, Mamadou Loum, Alfa Semedo, Chiquinho, Arsénio, Abdu Conté, Pasinato, Rafael Martins entre outros. Não estando perto da qualidade de Sporting, FC Porto, SL Benfica ou SC Braga, a luta pela última vaga das competições europeias podia eventualmente ser um objetivo bem real para os de Moreira de Cónegos, caso existisse mais tranquilidade. 

A problemática da equipa minhota recai sobre quem lidera ao barco, desde o banco de suplentes. Desde o regresso à Primeira Liga, Vítor Magalhães trocou de técnico quinze vezes! Em algumas ocasiões chegou a fazer regressar técnicos que já tinham estado no comando anteriormente, como no caso de Petit, Manuel Machado (que já tinha estado na primeira fase de Vítor Magalhães no Moreirense) ou Augusto Inácio. Verifiquemos os nomes:

ÉPOCA TREINADOR(ES) CLASSIFICAÇÃO 
2014/2015 MIGUEL LEAL 11º LUGAR
2015/2016 MIGUEL LEAL 12º LUGAR
2016/2017 PEPA, AUGUSTO INÁCIO, PETIT 15º LUGAR
2017/2018 MANUEL MACHADO, SÉRGIO VIEIRA, PETIT 15º LUGAR
2018/2019 IVO VIEIRA 6º LUGAR
2019/2020 VÍTOR CAMPELOS, RICARDO SOARES 8º LUGAR
2020/2021 RICARDO SOARES, CÉSAR PEIXOTO, VASCO SEABRA 8º LUGAR
2021/2022 JOÃO HENRIQUES, LITO VIDIGAL, SÁ PINTO POR DEFINIR

Se em Guimarães foram cinco treinadores em três épocas, as remodelações na vila vizinha foram em maior quantidade e em alguns casos para pior, nesta segunda fase. Nesta listagem de técnicos, o leitor pode verificar que há nomes elegidos com qualidade e critério, ainda que não tenham eventualmente obtido o resultado desejado. Pepa e Ivo Vieira são dos técnicos com mais qualidade no mercado português. Ricardo Soares tem realizado um trabalho enorme no Gil Vicente, conseguindo também bons números no Moreirense. O mesmo se aplica a Vasco Seabra, que está a reerguer o Marítimo. Petit alcança sempre o objetivo proposto pela direção, por mais humilde que seja. Porém a tabela contém igualmente treinadores que fizeram muito pouco no Moreirense e em outras equipas, num passado recente. Manuel Machado e Augusto Inácio são técnicos de outra geração, sem a qualidade necessária para grandes palcos neste momento. O seu zénite já passou há bastantes épocas. Ainda que o ex- Sporting tenha vencido a Taça da Liga, nem terminou a época.  Por último salientar o nome de Lito Vidigal. O antigo internacional angolano é das poucas pessoas que une 99% do público português. As suas equipas jogam mal e não deixam o adversário jogar. Nunca pode ser a escolha para um projeto que quer crescer ano após ano, pois o seu nome é sinal de retrocesso. Contratar César Peixoto após uma temporada fraca dividida entre Chaves e Coimbra pareceu meio bizarro na época. O mesmo se aplica a Sérgio Vieira que vinha de três vitórias em doze jogos no São Bernardo valores que tornam a sua contratação um ato de gestão com pouco sentido (apesar de ter crescido como treinador nos últimos anos). 

Mas porque há tantas mexidas no comando técnico? Se os resultados explicam algumas saídas, como a de Manuel Machado, outros nomes saíram pela culpa do próprio presidente. César Peixoto abandonou a equipa no sétimo lugar após dois meses de trabalho, devido à constante intromissão do presidente nas decisões da equipa técnica. Vasco Seabra deixou o barco após divergências com a Direção sobre a definição da época seguinte (ou seja, a atual, onde o Moreirense já vai no terceiro técnico). 

As constantes saídas e entradas de treinadores levam a problemas internos e a outros externos. Os internos estão relacionados com o plantel. Certos jogadores estão no plano de um treinador, porém no do seguinte podem eventualmente ficar de fora. As equipas técnicas adotam táticas distintas e instruções diferenciadas aos jogadores, além da metodologia aplicada nos treinos ser completamente distinta. É obrigatória uma grande capacidade de adaptabilidade por parte de todos os elementos. Ter duas ou três ou quatro rotinas totalmente diferentes por época não é seguramente tarefa simples para os jogadores. Para fora há a imagem de instabilidade e insegurança constante. A esperança de manter-se um treinador durante uma época inteira é ínfima. Os técnicos que podem eventualmente querer assumir o cargo ficam com o receio de serem condicionados, pelos boatos que saem na imprensa. A constante aparição de despedimentos no Moreirense em noticiários e programas de análise levam a criticas de comentadores, manchando a imagem do clube. Há que assinalar que a constante pressão de Magalhães em querer ver um ou outro jogador num plano principal, pode levar a suspeitas de benefícios próprios por uma maior utilização do jogador.

Mas como pode o Moreirense mostrar que é um clube com objetivos maiores se nem pedem a licença para a UEFA? Se nem pensam em alcançar esse objetivo, como podem atrair melhores nomes? Ivo Vieira colocou a Europa nas mãos, mas os Cónegos nem conseguiram sentir o sabor de participar numa prova internacional.

Vítor Magalhães tem o mérito de colocar o clube minhoto no panorama nacional. Não é uma tarefa fácil para uma equipa de uma pequena vila estar tanto tempo nos holofotes, mesmo que esta seja ao lado de uma das maiores cidades do nosso país. Ainda assim é necessário olhar para cima e evoluir em crescendo. Em Portugal existem bons exemplos deste desenvolvimento positivo de clubes, dados em Paços de Ferreira e Vila do Conde (até 2020/2021), por exemplo, onde as equipas cresceram e treparam pela tabela, chegando à Liga Europa. Uma das chaves foi a paciência e o tempo concedido, tendo as equipas técnicas certamente a liberdade necessária, de modo a obter os resultados constantemente em crescendo. Enquanto o empresário cortar a cabeça do projeto após quatro ou cinco maus resultados, ou por não meter o jogador X ou Y, nunca vão passar da luta do meio da tabela, como máximo, pelo menos aos olhos dos adeptos.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

3 Comentários

  • Nicola
    Posted Janeiro 17, 2022 at 5:50 pm

    Esta é das melhores rubricas do Visão de Mercado e havendo mais contributos com qualidade e vontade de quem o possa fazer, até deveria ser alargada. Todos os que gostam de desporto e futebol em particular, começam a ficar fartos de discussões estéreis sobre a intensidade do toque, o centímetro do fora-de-jogo, a dualidade de critérios, as quezílias dos grandes…
    Daí o apelo a que quem possa contribuir e acrescentar mais que espuma que se chegue à frente, sobre clubes desta e doutras divisões secundárias ou ligas estrangeiras fora do top 5. Façam-no que alguém vos irá ler e não dará o tempo por desperdiçado.
    Por exemplo, eu e mts já nem vamos a um jornal desportivo para ler sobre um resumo de um jogo, vImos aqui. E como era tão bom cruzarmo-nos com artigos destes todos os dias! Parabéns. E parabéns e um obrigado ao VM por manter este espaço único e equilibrado ainda recomendado, e com saúde qb.

  • Joga_Bonito
    Posted Janeiro 15, 2022 at 3:54 pm

    Não acompanho a fundo o Moreirense, mas creio que o facto de querer mandar em tudo no clube e também o fracasso no VSC criam-lhe anticorpos.
    Porque falhou no Vitória “lembrou-se” depois de ser presidente do Moreirense, visto que aí tinha que relançar a carreira no dirigismo. Isto dá sempre má impressão aos adeptos.
    O estilo de liderança “possessivo” faz também lembrar o presidencialismo no pior dos 90. Se eu não sou contra o presidencialismo, por acaso até acho que tem mais virtudes do que defeitos, não é menos verdade que esse sistema atrai gente que quer apenas usar o clube como promoção pessoal.
    Por outro lado, os resultados do clube têm sido positivos.
    O ódio ao dirigente parece-me então ser desproporcional, ainda que não infundado. Afinal de contas não foi como em outros casos que deixaram clubes arruinados, sem projecto nenhum, como aconteceu com o Estrela ou o Vitória de Setúbal.
    É um percurso marcado por coisas boas e coisas más, mas quando nos recordamos de como ficaram o Estrela, Vitória de Setúbal ou a forma como se gerou o aborto Codecity…
    A sério que este é dos dirigentes mais odiados?
    Parece-me ser um homem muito ambicioso, que por isso mesmo fará coisas boas e invariavelmente terá excesso de protagonismo e despotismo na liderança, mas nem por isso me parece dos casos mais graves.

  • Antonio Clismo
    Posted Janeiro 15, 2022 at 12:56 am

    Um clube que tem dificuldades em cumprir com o mínimo dos mínimos para competir na primeira liga portuguesa que é ter no mínimo 8 jogadores formados no país não deveria poder competir na primeira liga.

    Dirigismo bacoco, sem rumo e sem futuro.

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