Quando o Leicester City venceu o título inglês em 2015/16 o mundo inteiro concordou que estávamos perante um conto de fadas. Algo inimaginável, um milagre que não se voltaria a repetir. Estávamos a falar de uma equipa que subira de divisão há duas épocas, tinha passado os primeiros 100 anos de vida entre divisões secundárias e que só graças a várias peculiaridades, como a fraca prestação de todos os candidatos, fez um dos maiores feitos da história do futebol mundial. Mas, para o futuro do clube, mais importante que o feito de se sagrar campeão inglês, foi o facto de os dirigentes perceberem que se tinha realmente tratado de um acaso. Muitas equipas que têm sucesso contra todas as expectativas acabam por se agarrar à fórmula que lhes deu sucesso uma vez, aos heróis que a fizeram acontecer e acabam por nunca mais o repetir.
O treinador caiu na época seguinte devido a um péssimo início internamente e se muitos acusaram os Foxes de terem sido ingratos com Ranieri, o mesmo não se pode dizer do tratamento dado a outros dos heróis do título. O Leicester tomou muito cuidado com as despedidas aos protagonistas que marcaram a história do clube. Elementos como Danny Simpson e Okazaki, jogadores importantes na época do título, foram baixando o rendimento sendo cada vez menos utilizados e os dirigentes do Leicester sabiam que lhes teriam de proporcionar um adeus merecido – um último ato de gratidão. No caso destes, apesar de não terem sido regularmente utilizados durante a época de 2018/19, ambos foram titulares e substituídos no último jogo da temporada frente ao Chelsea. Tiveram a chance de receber uma última ovação, um último agradecimento, um tributo generoso movido pelo carinho que a massa associativa lhes tinha.
Os dirigentes do Leicester fizeram o mesmo com todos os elementos do plantel mais bem sucedido da história do clube. Tiveram cuidado em homenagear cada um deles, proporcionar-lhes uma despedida honrosa, não “expulsaram” ninguém e mostraram um respeito que cada vez mais falta no futebol. Primeiro o dono do clube, o já falecido Vichai Srivaddhanaprabha (num terrível acidente de helicóptero nas instalações do clube) e depois o seu filho fizeram questão de agradecer a cada um dos membros do plantel pela sua contribuição. Todos eles receberam uma estatueta de uma raposa de prata, um símbolo do carinho que o clube lhes tinha. Mesmo a quem preferiu sair, quando o clube pretendia continuar a contar com eles, como N’Golo Kanté ou Riyad Mahrez, não houve ressentimento. A comunicação do Leicester encarregou-se disso.
O futebol também é sentimento e emoção e feitos como o do Leicester 2015/16 são importantes para manter as pessoas apaixonadas pelo desporto. Mas sentimentalismos não devem ser confundidos com competência. O Leicester prima não só por uma gestão humana de topo como também desportiva e o sucesso dessa época permitiu alavancar o clube.
Hoje, tanto a estrutura como o plantel está irreconhecível face ao ano do título. Embora se mantenham ainda alguns elementos dessa equipa, apenas Jamie Vardy e Kasper Schmeichel continuam como peças importantes para o agora treinador Brendan Rodgers. Desde que foram campeões, os Foxes já tiveram más experiências com treinadores, perderam analistas, olheiros, diretores desportivos e o próprio dono do clube. Mas também fizeram de um jogador relegado para o Championship o defesa mais caro da história, revolucionaram o plantel e contam agora com um punhado dos mais interessantes jovens no mundo e estão novamente a dar que falar.
Para isso muito contribuiu Jon Rudkin – um dos melhores diretores desportivos da atualidade -, uma academia de formação bem apetrechada e que dá das melhores condições aos jovens para evoluir, uma gestão de ativos competente e um treinador que já tinha feito um trabalho extraordinário em Liverpool e que está a provar ser dos melhores do mundo. O primeiro já tinha sido responsável pelas contratações de Kanté por apenas 9M €, Maguire por 17M€ e do resgate de Fuchs a custo zero e desde então construiu uma equipa fantástica com jogadores que são atualmente dos melhores nas suas posições da Premier League, como Maddison (25M€), Ricardo (22M€), Söyüncü (21M€), Ndidi (17M€) e que foram autênticas pechinchas. A academia já promoveu jovens como Ben Chillwell, Hamza Choudhury e Harvey Barnes. Estão a ser ainda construídas novas instalações de treino financiadas pela venda de Harry Maguire ao Manchester United. E Rodgers vai aproveitando tudo isto para fazer um trabalho de excelência.
O Leicester subiu esta jornada ao 2.º lugar da Premier League beneficiando da derrota do Manchester City em Anfield e ameaça intrometer-se não só no top 6 normalmente reservado aos gigantes de Manchester, Liverpool, Chelsea, Tottenham e Arsenal, mas também no top 4 que dá acesso à Liga dos Campeões. O futebol é muito atrativo, as vitórias aparecem naturalmente e até já se bateu um recorde com a vitória estrondosa por 9-0 em pleno recinto do Southampton. O clube tem quase tudo: treinador capacitado, líderes de balneário, jovens com vontade de aprender, competência internamente e os adeptos estão novamente a sonhar. A grande questão é se aguentarão a pressão e se se conseguirão afirmar como uma grande equipa em Inglaterra. Pois onde há jovens a brilhar, há clubes a cobiçar e o Leicester ainda não está na elite em termos financeiros e pode ser difícil manter a base que tem garantido este sucesso.
Visão do Leitor: Afonso Ascensão


8 Comentários
f0ra de Jogo
Que texto fantástico, de muito agradável leitura!
Nunca dei muito pelo Brendan Rodgers, mas está a calar-me. Acho que este elenco está a ser espremido ao máximo e não há problema nenhum nisso, a evolução destas jovens promessas será natural..
André Dias
Bom texto, concordo com a maior parte do que foi escrito, mas acho que há um certo exagero em relação às transferências. É certo que o Leicester tem sido um exemplo no mercado mas não chamaria pechincha a Maddison, Ricardo ou Ndidi. Pechincha foi o Mahrez por 500 mil euros ou o Vardy por 1M. Nas últimas três épocas os Foxes investiram mais de 300M em reforços. Claro que não gastam tanto como as Big 6 mas estão bem longe de serem uns coitadinhos.
Brendan Rodgers merece de facto todos os elogios. Tem praticamente o mesmo plantel que estava à disposição de Puel (saiu Maguire, entraram Praet e Ayoze Pérez) e conseguiu melhor futebol e excelentes resultados. Não quero subvalorizar toda a gestão que tem sido feita no clube mas para mim Rodgers é o principal responsável por esta época bem acima das expectativas (até agora).
Apenas uma correcção menor. A vitória por 9-0 não é um recorde, “apenas” igualou a maior vitória de sempre na PL, que foi o 9-0 no Man Utd x Ipswich de 1995). O recorde batido foi o de mais golos marcados num só jogo na condição de visitante.
Kuiper
Excelente texto, Afonso Ascensão! Adoro quando a Visão do Leitor é utilizada desta forma, para informar e analisar casos interessantes. Eu, por exemplo, nem tenho acompanhado o Leicester, apesar de saber que tem alguns bons jogadores e um bom treinador. Não tinha reparado também que tinham subido ao 2º lugar da Premier, o que, apesar de ainda faltar muito campeonato, é sempre um bom sinal quanto à forma de uma equipa. Irei certamente estar mais atento aos Foxes daqui em diante!
Antonio Clismo
O FC Porto bem que pode começar a tirar notas deste exemplo de gestão exemplar.
Rodrigo Ferreira
Bom post, Afonso. De facto, o Leicester tem uma das equipas mais interessantes neste momento, algo que não surpreende tendo em conta a política de mercado do clube e o treinador ser Brendan Rodgers. Maddison, Ayozé e Tielemans são autênticos craques, Vardy continua a apresentar um excelente rendimento e Soyuncu tem sido uma agradável surpresa, sendo já um dos melhores centrais da Premier League. Veremos até onde irá este Leicester, mas com esta qualidade individual e colectiva acredito que fiquem no top-4.
De Carvalho
Li este texto, Li o texto do Az Alkmmar e questiono se estes não chegam aos dirigentes desportivos do nosso pais.
Exemplos excelentes de uma grande gestão possivel e que fácilmente pode ser adaptada a nossa realidade.
braga e vitória já são porjetos interessantes mas já podiam te explodido para outra dimensão.
O famalicão é uma equipa entusiasmante mas será que vai conseguir manter se com este tipo de projeto?
O benfica já aposta forte na formação ( até demais para a dimensão que o clube pretende atingir, pois não todos os pontapes que da mos em pedras dão alguma coisa)
O Porto é o clube com mais força na europa mas a falta de coragem de lançar certos jogadores e a falta de visão dos dirigentes que se apoiam num modelo do passado que deu frutos vai levar o clube a um buraco negro num futuro proximo.
Olho para VARANDAS como um dos que pode conseguir um destes projetos mas tem muitos anti corpos contra ele vamos ver até quando se aguenta.
T. Pinto13
Tendo em conta que o dirigente do Famalicão é peça importante do Atlético de Madrid penso que o Famalicão será bem gerido tendo sempre em vista o próximo passo.
TheHunter
Excelente texto e contribuição, muito obrigado.