O futebol de formação deveria ser um espaço de crescimento, de aprendizagem e, acima de tudo, de verdade. Mas o que se passou na última jornada do campeonato distrital de juvenis da Associação de Futebol de Leiria deixa um sabor amargo na boca de quem acredita que o desporto serve para formar pessoas antes de criar vencedores.
À entrada para a última jornada, Atouguiense e Marinhense estavam empatados em pontos (64) e, no confronto direto, com uma vitória para cada (4-4 em golos). A vantagem era do Atouguiense, que liderava graças à melhor diferença de golos (+52). A formação de Atouguia da Baleia, no município de Peniche, cumpriu o seu papel, vencendo por 3-0 a equipa B do Leiria e Marrazes, e terminou com um saldo positivo de +55.
O problema começou no outro jogo. Na Batalha, a equipa local já não tinha hipóteses de alcançar a União de Pombal no 3.º lugar, mas ainda assim deveria manter aspirações para conservar o seu posto, perante a perseguição da União de Leiria B e do Peniche, que vinham logo atrás. O duelo com o Marinhense (2.º) esperava-se, portanto, equilibrado – afinal, estávamos perante duas das melhores equipas do campeonato, e a Batalha até tinha vencido na Capital do Vidro na primeira volta. No entanto, o que se viu foi tudo menos isso: uma goleada de 14-1 (com 10-0 ao intervalo), que catapultou o Marinhense para o primeiro lugar, com uma diferença de golos final de +61, garantindo o título e a subida aos campeonatos nacionais.
E aqui reside o cerne da polémica: neste jogo, a equipa da Batalha promoveu nada mais, nada menos que 11 estreias na divisão de honra de juvenis. Sim, 11. Dos 16 jogadores que tinham sido chamados na jornada anterior, apenas 2 repetiram a convocatória. Os restantes foram substituídos por atletas da equipa de Juvenis B e até por iniciados, muitos deles sem qualquer protagonismo regular nas suas equipas.
Isto não é normal. Não é aceitável. E não pode ser ignorado.
Não se trata de perder ou ganhar – o futebol tem espaço para tudo isso. Trata-se de preservar a integridade da competição, de respeitar o esforço de dezenas de jovens que treinam o ano inteiro, dos esforços que muitos pais e dirigentes levam a cabo para assegurar a prática desportiva dos seus filhos, a fim de proteger os valores do desporto. O que aconteceu levanta suspeitas legítimas sobre a justiça da competição e sobre a forma como foram conduzidos os jogos decisivos.
Pais, treinadores, dirigentes e todos os que vivem e amam o futebol de formação merecem uma explicação. A Associação de Futebol de Leiria tem o dever moral – e institucional – de averiguar este caso com seriedade e transparência.
Porque, se calarmos, se fingirmos que não vimos, amanhã será outro clube, outro escalão, outro grupo de jovens a ser traído. E, aos poucos, deixaremos de formar atletas para começar a fabricar resultados.
João Lains


12 Comentários
maZe
Não sei o que é mais triste: a mentalidade de ganhar desta forma numa competição de crianças, a ousadia de fazer isto acontecer e achar que ou ninguém ia reparar ou ninguém ia dar importância ou ainda o facto de provavelmente não ir ser feito nada em relação ao que se passou (porque para todos os efeitos, o Batalha não quebrou as regras).
DNowitzki
Portugal foi campeão mundial nos anos 90 com jogadores fora da idade permitida. Era fundamental ganhar, para que o projeto Queirós fosse implementado.
Ah, esqueci-me: “alegadamente”. Toda a gente sabia isso, incluindo os jornalistas.
Miguel Lopes
Deves estar enganado. Não havia nenhum jogador com idade superior a 19 anos.
A final foi em Março de 89, e o jogador mais velho era tinha nascido em Agosto de 69 e nenhum jogador foi de bicicleta ao registo civil.
No entanto, podias afirmar que os jogadores da Nigéria não tinham a idade que estava nos BI deles.
E sim, eu vi os jogos desse mundial na TV.
DNowitzki
Não, não estou. Informa-se e vais surpreendido com pelo menos um nome.
DNowitzki
Já agora, tu viste mundiais na TV (moi assim) e eu conhecia o Amaral do Académico de Viseu.
Antonio Clismo II
O Cao não teve assim tanta preponderância no torneio…
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Já as seleções africanas Metem todos os torneios imensos jogadores com idades alteradas e raramente acontece algo.
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O próprio Brasil no mundial sub20 em 2006 com o Leandro Lima que depois veio jogar para o Porto foi um caso idêntico.
Chuck23
há uns anos as equipas que jogavam contra o benfica também descansavam alguns jogadores habituais titulares para, alegadamente, os poupar para os jogos que interessavam e que podiam ganhar. Contra as tais equipas do mesmo campeonato.
O benfica ganhava a essas equipas desfalcadas, com relativa facilidade e a festa continuava.
Nunca aconteceu nada…
gusss
Vê se que foi feito um acordo entre os clubes, no mesmo dia os juniores da Batalha jogavam contra o Marinhense e a Batalha precisava de uma vitória para a sua manutenção na Divisão de Honra. Existe claramente a combinação entre os dois clubes, a Batalha a não descer de divisão em Juniores e o Marinhense a ser campeão em juvenis. É uma vergonha a AF Leira devia de os punir.
batalha34
nao percebo qual é o problema, mas tinham de repetir a convocatoria no ultimo jogo?
Recomendo nao fazer apostas em jogos de crianças se o problema foi esse
Pinex66
Algo de errado anda nas mentes deste pessoal, importante é ganhar seja de que forma for, é e foi tão evidente que nem merece julgamento sumário, só uma nota a tal equipa marcou 1/4 dos golos nos últimas três jornadas, devia lá ter o Gyokers.
dependente
Não aconteceu nada! Todos adeptos de futebol deste país sabem que treinadores e dirigentes de futebol, são pessoas absolutamente honestíssimas e incorruptíveis. Não sejam más- línguas!
Antonio Clismo II
Depois de eu ter visto uma equipa de traquinas a sair já em ataque organizado… Está tudo dito sobre o futebol de formação, onde os treinadores acham que são o Mourinho, os dirigentes acham que são o Florentino Pérez e os Pais acham que são a Dona Dolores e que os filhos vão ser todos profissionais…